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O pós-estruturalismo – incluindo-se nesta designação abordagens psicanalíticas, feministas e pós-modernistas – é hoje um ângulo de abordagem proeminente no estudo do self contemporâneo. Porém, é também uma área de estudos que em pouco ou nada foi influenciada pelo interacionismo simbólico115. Em

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A título ilustrativo, repare-se que uma das melhores e mais exaustivas compilações sobre identidade da área pós-estruturalista atualmente disponíveis (Gay et al., 2000), não apresenta um único texto dos autores clássicos do interacionismo.

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RI, o pós-estruturalismo está mais presente no estudo de questões de identidade do que o interacionismo simbólico, o que me incumbe de uma responsabilidade acrescida na justificação de uma articulação teórica de base essencialmente interacionista nesta tese. Para fazer essa justificação, vou discutir criticamente três pontos da abordagem pós-estruturalista: quanto à natureza do self, quanto ao seu modo de construção e quanto ao papel do poder. Vou abordar os dois primeiros nesta secção e o terceiro na seguinte.

Quanto à natureza do self, o contributo pós-estruturalista avança as ideias de alteridade, fluidez, construtividade e multiplicidade116. O self é, aqui, destituído de

qualquer essencialidade, de um centro estável e unificador. Enfatiza-se que as identidades que o compõem são várias, têm entre si uma relação complexa e, eventualmente, conflitual. Enfatiza-se também que estão em constante mutação. Num pequeno texto em que analisa a evolução do significado da noção de ‘Rússia’ na identidade da Europa, Iver Neumann usa os seguintes adjetivos para caracterizar teoricamente as identidades: plurais, contestáveis, mutáveis, conflituais, fluidas, negociáveis, ambíguas, contextualizadas (Neumann, 1996a: passim).

Quanto ao modo de construção do self e das identidades, as teorias pós- estruturalistas veem-no como um processo de delimitar um ‘nós’ que não só é diferente como também tende a se opor a um ‘outro’: “a constituição da identidade é alcançada através da inscrição de fronteiras que servem para demarcar um ‘inside’ de um ‘outside’, um ‘self’ de um ‘outro’, um ‘doméstico’ de um ‘estrangeiro’”117

(Campbell, 1998: 9). Esta abordagem (Walker, 1993; Neumann, 1996a; 1996b)

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Veja-se uma sistematização de cada uma destas dimensões em Goff e Dunn (2004b; 2004a).

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Tradução livre da autora. No original: “the constitution of identity is achieved through the inscription of boundaries that serve to demarcate an ‘inside’ from an ‘outside’, a ‘self’ from an ‘other’, a ‘domestic’ from a foreign’” (Campbell, 1998: 9).

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chama ainda a atenção para os processos de desvalorização e desqualificação do Outro, ou seja, associa a construção e constituição das identidades à produção de hierarquias e, a partir daí, à legitimação de relações de exploração e dominação. Uma implicação disto, evidenciada nalguns estudos empíricos, é, não apenas associar a construção da identidade a uma situação de hostilidade e mesmo de violência entre grupos de identidade, entre o self e o Outro, mas fazer a constituição e a reprodução da identidade depender mesmo dessa hostilidade, violência e conflito (e.g. Sharoni, 2000; Bowman, 2007), no que constitui uma via conceptual e metodológica alternativa para chegar às mesmas conclusões do racionalismo de um Ronen (1979; 1997) ou um Sen (2007). Também a linha de investigação sobre segurança ontológica em RI estabelece uma conexão deste tipo entre conflito e construção da identidade, ao reconhecer que os Estados podem ater-se a rotinas perigosas e conflituosas só porque já estão ‘habituados’ e, por isso, apoiam nelas um entendimento do seu próprio self. Num quadro destes, “as dificuldades de escolher a paz [podem ser] tanto ontológicas como físicas”118 (Mitzen, 2006: 361).

O meu ponto crítico é aqui o seguinte. Estes aspetos da abordagem pós- estruturalista119 – a multiplicidade e fluidez das identidades e a construção do self em

termos da desvalorização de um Outro – captam aspetos importantes das entidades e identidades contemporâneas, mas falham em captar aspetos de perenidade.

O primeiro ponto – multiplicidade e fluidez – foi avançado pela teoria psicanalítica e pela teoria social feminista e pós-moderna do self e das identidades na era da globalização e remete, em especial, para as sociedades pós-industriais, ou pós-

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Tradução livre da autora. No original: “The difficulties of choosing peace are as much ontological as physical” (Mitzen, 2006: 361).

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Em RI, para além de Neumann, Campbell, Walker, Goff e Dunn, já referidos, veja-se ainda Connolly (1991) e Doty (1996).

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modernas, ou de capitalismo tardio, ou de consumo, ou qualquer outra designação que se prefira e que, basicamente, designa sociedades que desestabilizam as práticas tradicionais e, desse modo, expõem o self a uma nova atenção (cf. Elliott, 2001: 2, 13, 20; Callero, 2003: 115-116). A fluidez e multiplicidade das identidades são características dos selves nessas sociedades. Não há dúvida de que essa tomada de consciência teórica nos permite olhar para as identidades em geral, no mundo e na história, e apercebermo-nos do seu caráter sempre construído e, só por esse facto, de algum modo, também sempre contingente. Porém, o que não nos permite é captar o que a própria noção de identidade implica de semelhança, de pertença, de reconhecimento e, sobretudo, de continuidade no tempo (ou, pelo menos, de perceção de continuidade). E é preciso ver que esta é, afinal de contas, uma das dimensões que permitem que a identidade seja um fator de construção e coesão das entidades coletivas. Como observa du Gay, a abordagem pós-estruturalista é uma abordagem que dita previamente a mesma conclusão para todos os casos e que “frequentemente tem esvaziado aquilo que se propõe analisar de todo o seu conteúdo determinado ou positivo”120 (2007: 4). Isto, argumenta ainda, “compromete a

compreensão dos modos pelos quais objetos, pessoas e coisas particulares são juntas, compostas ou construídas no sentido imediato, literal do termo (i.e., como a sua identidade é organizada)”121 (2007: 6). Na mesma linha, Brubaker e Cooper (2000)

notam que este esvaziamento de sentido da ideia de identidade não permite dar conta,

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Tradução livre da autora. No original: “has frequently evacuated that which it purports to analyse of any of its determinate or positive content” (Gay, 2007: 4).

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Tradução livre da autora. No original: “hampers understanding of the ways in which particular objects, persons, things are put together, assembled or constructed in the plain, literal sense of the term (i.e. how their identity is organized)” (Gay, 2007: 6).

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analiticamente, de reivindicações essencialistas e de dinâmicas ‘pesadas’ de muitas políticas de identidade contemporâneas.

Este tipo de crítica começa a fazer o seu caminho no interior do próprio construtivismo em RI. Por exemplo, Kratochwil observa que

o atual enfatuamento com ‘múltiplas identidades’ simultâneas é uma noção problemática. Confunde a noção de ‘papel’ com a de identidade e comete a falácia de que, se algo não é fixo, terá de ser arbitrário e, portanto, modificável pela vontade.122 (2006: 20)

Ou seja, de uma certa forma, a abordagem pós-estruturalista acaba por incorrer na mesma debilidade das abordagens racionalistas com a sua sobrevalorização do livre arbítrio individual.

Também a focagem na oposição self vs. outro, ou nós vs. eles, enquanto o modo de construção, por excelência, do self e das identidade em RI, começa a ser alvo de crítica no seio do construtivismo. Lebow (2008: 10 ss) nota que esta forma de construir as identidades é apenas uma entre várias possíveis e que, para além disso, tem potencial para transcender as hostilidades.

Uma outra forma de construção das identidades que tem sido negligenciada é a que envolve a dimensão temporal e que assim remete para uma ideia de continuidade. Kratochwil (2006) chama a atenção para o papel da história na construção da identidade, destacando a importância da memória na ligação entre o passado e o futuro e, desse modo, na coesão entre as gerações e na continuidade da sociedade. Também Der Derian vê a constituição da identidade em RI em termos de um diálogo sempre em curso entre o passado e o futuro, entre a interpretação daquilo

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Tradução livre da autora. No original: “the present infatuation with simultaneous ‘multiple identities’ is a problematic notion. It confuses the notion of ‘role’ with that of identity, and it commits the fallacy that if something is not fixed, it has to be arbitrary and therefore changeable at will” (Kratochwil, 2006: 20).

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que já passou e a construção do que está ainda para vir (2009 [2003]: 305). Esta é uma linha de investigação que se afigura atualmente como especialmente promissora.

Outros autores procuram integrar estes dois aspetos da construção das identidades – construção da diferença e continuidade no tempo. É o caso de Cederman e Daase (2003) que, como mostrei acima, a partir do conceito simmeliano de sociação consideram os mecanismos biológicos e sociais de transmissão intergeracional como um dos pilares essenciais da construção de identidades corporativas de grande dimensão, a par da categorização intersubjetiva e da formação de fronteiras. Também McSweeney (1999) propõe uma abordagem à construção das identidades que articula as duas dimensões:

Os atores sociais, individuais e coletivos, […] abordam o projeto da sua identidade através do espaço e do tempo. Quer dizer, estão confrontados com a tarefa de distinguir os seus selves dos outros, espacialmente, e de alcançar a semelhança, a sua continuidade com os seus diferentes selves, temporalmente.123 (1999: 161)

Esta forma de colocar a formação da identidade avançada por McSweeney é ‘elegante’, mas impõem-se duas observações. É uma identificação especialmente relevante no contexto de um sistema internacional baseado no princípio da exclusividade territorial, o qual é uma peculiaridade moderna e parece ser único na história humana (cf. Ruggie, 1993: 144). Noutros contextos culturais e históricos a espacialidade assume configurações inteiramente diferentes, podendo mesmo não ser muito relevante na construção da diferença, pelo menos de um ponto de vista que remete para agregados de grandes dimensões, como é o ponto de vista de RI. A história humana conheceu com muita frequência formas de organização política e

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Tradução livre da autora. No original: “Social actors, individual and collective, […] address the project of their identity through space and time. That is to say, they are facing with the task of distinguishing their selves spatially from others and of accomplishing their sameness, their continuity with their different selves, temporally.” (McSweeney, 1999: 161).

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territorial em que coexistiam e se sobrepunham identidades, lealdades e autoridades (cf. Ferguson e Mansbach, 1996).

Por outro lado, mesmo onde o espaço é decisivo na construção de um sentimento de um ‘nós’, isso não tem que estar dependente da definição de um ‘Outro’. Como demonstra Deudney (1996), a identidade pode muito simplesmente construir-se na ligação ecológica e afetiva a um lugar, a partir da partilha de um espaço habitado e vivido. Uma identidade assim construída pode também gerar fortes perceções de continuidade e primordialidade.

De um modo mais geral, é importante contrapor ao pós-estruturalismo a ideia de que não existe uma contradição necessária entre primordialismo e construtividade das identidades, já que a primordialidade das identidades pode ser vista, ela mesma, como uma construção social, seja por um efeito de perceção e de atribuição (Hutchinson e Smith, 1996a: 8), seja por sedimentação histórica (Esman, 2000; Hameso, 2001 [1997]). Sob este prisma, a questão não é a de saber se as identidades são primordiais ou construídas, mas de reconhecer o caráter construído do primordialismo com que, por vezes, são experienciadas.

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