• Aucun résultat trouvé

Conduite d’élevage, physiologie de croissance et développement des agneaux

2.2 Particularités des grandes zones d’exploitation

Quais foram as causas que provocaram a valorização exarcebada da escri- ta, deixando de lado as outras formas de interação? Na história do pensamento grego, verifica-se grande atenção aos fatos de linguagem. Aqui me baseio em Neves (1987). Ao tomar consciência da discrepância entre os padrões do grego clássico e da linguagem corrente, contaminada por “barbarismos”, colocaram-se em exame os autores cuja linguagem oferecia os padrões ideais que deveriam ser preservados. Ao lado da crítica literária, desenvolveu-se a atividade filológica. Para alcançar os objetivos, os estudiosos sistematizaram o estilo usado pelos grandes escritores para que virasse norma.

Da situação cultural que cercou o nascimento dos estudos gramaticais, decorreram as características determinantes de sua natureza: limitação à língua escrita, especialmente à língua literária, e exclusivamente à grega (...). O fato de os gregos terem utilizado o termo grammatiké para designar a arte de ler e escrever para dar nome ao estudo da língua costumava ser invocado para evi- denciar a atenção que, desde o início, foi dada à língua escrita. A gramática dos filósofos não era, pois, a gramática no sentido comum tradicional. A gramma- tiké, que correspondia ao que comumente se chamava gramática, instrumento de cultivo e de preservação de valores, era obra típica da cultura helenística.

Os gramáticos alexandrinos foram mais práticos. Codificaram a gramática grega e lançaram o que seria o modelo da gramática ocidental tradicional. Dio- nísio o Trácio foi o verdadeiro organizador da arte da gramática na Antiguidade, dando-lhe forma que ainda hoje pode ser reconhecida em obras gramaticais do Ocidente. Mas tal fato trouxe um erro fatal para os estudos linguísticos e sociais.

John Lyons (1968) afirma que a abordagem dos fenômenos linguísticos proposta pelos gramáticos alexandrinos incorreu em “dois equívocos fatais”: a separação rígida entre língua escrita e língua falada; a forma de encarar as mu- danças das línguas (que é simplesmente mudança, e não “corrupção”, “ruína”, ou “decadência”, como eles acreditavam – e muitos até hoje acreditam). Para Lyons, esses dois equívocos uniram-se para formar o “erro clássico” no estudo da linguagem, erro que se perpetuou durante dois milênios e somente no final do século XIX e início do XX começou a ser criticado e revisto, como, aqui, o faço. Para o foco da questão, trago as ideias de Dondis (2007). Para ela, em tex- tos impressos, como veremos nos manuais de Revisão, a palavra é o elemento fundamental, enquanto que os fatores visuais, como o cenário físico, o formato da ilustração, são secundários ou necessários apenas como apoio. Nos moder- nos meios de comunicação, acontece exatamente o contrário. O visual predomi- na, o verbal tem a função de acréscimo. A impressão gráfica ainda não morreu,

171

Harrison da Rocha

e com certeza não morrerá jamais; não obstante, nossa cultura, dominada pela linguagem, já se deslocou sensivelmente para o nível icônico.

Para a autora, podemos observar que os manuais de Revisão consideram que o alfabetismo verbal representa uma estrutura dotada de planos técnicos e definições consensuais que, comparativamente, caracterizam a comunicação visual como quase que inteiramente carente de organização. Para ela, não é bem isso que acontece.

Para Dondis, a experiência visual é fundamental no aprendizado para que possamos compreender o meio ambiente e reagir a ele; a informação visual é o mais antigo registro da história humana. Para ela, não é difícil de detectar a tendência à informação visual no comportamento humano. Buscamos um refor- ço visual de nosso conhecimento por muitas razões; a mais importante delas é o caráter direto da informação, a proximidade da experiência real.

Ela afirma que a linguagem verbal é vista com um meio de chegar a uma forma de pensamento superior ao modo visual e ao tátil. Essa hipótese, segun- do ela, porém, precisa se submetida a alguns questionamentos e indagações. Para começar, ela afirma que linguagem e alfabetismo verbal não são a mes- ma coisa. Ser capaz de falar uma língua é muitíssimo diferente de alcançar o alfabetismo por meio da leitura e da escrita, ainda que possamos aprender a entender e a usar a linguagem em ambos os níveis operativos.

Saber ler e escrever, para Dondis, pela própria natureza de sua função, não implica a necessidade de expressar-se em linguagem mais elevada, ou seja, a produção de romances e poemas. Aceitamos a ideia de que o alfabetismo verbal é operativo em muitos níveis, desde as mensagens mais simples até as formas artísticas cada vez mais complexas.

Para a autora, a escola reifica e, por consequência, naturaliza esse pen- samento. Por isso não podemos prescindir de trazer à baila o papel da escola como reificadora e naturalizadora do grafocentrismo. A mesma autora afirma que o sistema educacional move-se com lentidão monolítica, persistindo ainda uma ênfase no modo verbal, que exclui o restante da sensibilidade humana, e pouco ou nada se preocupando com o caráter esmagadoramente visual da experiência de aprendizagem da criança. Até mesmo a utilização de uma abor- dagem visual do ensino carece de rigor e objetivos bem definidos. Em muitos casos, os alunos são bombardeados com recursos visuais – diapositivos, filmes,

slides, projeções audiovisuais – mas trata-se de apresentações que reforçam sua experiência passiva de consumidores de televisão.

E continua com a crítica à escola como naturalizadora da cultura grafo- cêntrica. Para ela, uma das tragédias do avassalador potencial do alfabetismo

172

Harrison da Rocha

visual em todos os níveis da educação é a função irracional, de depositário de recreação, que as artes visuais desempenham nos currículos escolares, e a situação parecida que se verifica no uso dos meios de comunicação, câmeras, cinema, televisão. Por que herdamos, nas artes visuais, uma devoção tácita ao não intelectualismo? O exame dos sistemas de educação revela que o desen- volvimento de métodos construtivos de aprendizagem visual são ignorados, a não ser no caso de alunos especialmente e talentosos.

Afirma que os juízos relativos ao que é factível, adequado e eficaz na comunicação visual foram deixados ao sabor das fantasias e de amorfas defi- nições de gosto, quando não da avaliação subjetiva e autorreflexiva do emissor ou do receptor, sem que se tente ao menos compreender alguns dos níveis re- comendados que esperamos encontrar naquilo que chamamos de alfabetismo no modo verbal.

Para ela, a fotografia constitui o último elo entre a capacidade inata de ver e a capacidade extrínseca de relatar, interpretar e expressar o que vemos, prescindindo de um talento especial ou de um longo aprendizado que nos predisponha a efetuar o processo. Há poucas dúvidas de que o estilo de vida contemporânea tenha sido crucialmente influenciado pelas transformações que nele foram instaurados pelo advento da fotografia.

Expandir nossa capacidade de ver significa expandir nossa capacidade de entender uma mensagem visual, e, o que é ainda mais importante, de criar uma mensagem visual. A visão envolve algo mais do que o mero fato de ver ou de que algo nos seja mostrado. Vejamos exemplos que refletem a valorização da escrita ainda na atualidade.

Para Kress e van Leeuwen (2001), em Multimodal discourse: the modes and media of contemporary communication (Discurso multimodal), como resultado desse grafocentrismo, ainda hoje os gêneros mais valorizados de escrita (gêneros literários, peças acadêmicas, documentos oficiais etc.) vêm completamente sem ilustração e, em termos gráficos, uniformes com densas páginas impressas.

Segundo esses mesmos autores, mais recentemente, esse modo de mono- modalidade tem começado a mudar. Não apenas o cinema e os exuberantes

clips multissemióticos de música popular, as artes de vanguarda começaram a usar uma variedade de materiais, ultrapassando, assim, fronteiras entre as várias formas de expressão.

Na Seção 2 a seguir, estudo as “práticas de linguagem que, por sua na- tureza social, espelham as mudanças da escrita, tornando-as a instância mais adequada para estudar tanto as ordens de discurso, em especial o texto, que se apresenta na Pós-Modernidade como multissemiótico ou multimodal, quanto os novos gêneros textuais que ora surgem” (VEIRA, 2007, p. 9).

173

Harrison da Rocha

2. Semiótica Social, Multimodalidade e Gramática