Chapitre 3 : La méthodologie
3.2 Les participants
A psicanálise está sempre na fronteira de suas capacidades operativas, pois como um dos impossíveis15 nomeados por Freud (1987) analisar está sempre na possibilidade do fracasso. Num contexto institucional, muitos elementos se inserem na prática analítica. A presença da equipe durante o tratamento e o discurso que os demais profissionais têm a respeito da questão do sofrimento infantil, por exemplo, reverberam na análise e tomam o analista como um profissional que, se não se posicionar, corre o risco de ficar à deriva nesse mar, atuando com seu saber a serviço da ordem institucional.
Habitando as instituições e o campo social, o analista é, muitas vezes, convocado a atuar como especialista, para contornar uma situação complexa ou para oferecer seus conhecimentos aos mais diversos propósitos, como se tal saber pudesse ser um instrumento descolado de uma ética. Como sabemos, não é possível que o analista responda aderido no lugar de mestre ou especialista. Essa instrumentalização da psicanálise, majoritariamente, pode servir às boas intenções de outrem, que, visando fazer o bem, ou normalizar uma situação conflitiva, tentam se apoiar em algumas parcelas desse corpo teórico (ou convocam o analista nessa forma instrumentalizada, burocrática e, pode-se dizer até, universitária dos discursos).
Cabe ao analista trabalhador da saúde mental discernir os discursos que o rodeiam, e encontrar uma posição de enunciação que não se paute apenas pelo discurso do analítico. Compreendemos que o analista, aquele que proporciona o giro dos discursos, não pode ele próprio se congelar em um discurso – o do analista. O seu saber e sua prática podem alçar muito mais além do que o discurso do analista permite. O analista que se encontra na posição de professor, por exemplo, faz recurso ao que é próprio do discurso do mestre, mas sem se aderir a ele. E o analista que com uma crítica denunciativa aponta as falhas e os limites da ciência e do capitalismo se encontra muito próximo do discurso histérico trazendo em sua posição a acusação das falhas do Outo. Assim, o giro dos discursos não é apenas o que o analista gera em seu trabalho, manuseando as posições de quem lhe fala, mas algo do qual ele faz uso, se movendo nessas possibilidades discursivas para intervir.
O lugar do analista diante da criança na instituição deve se prestar a essas propriedades móveis. Só assim o infans será ouvido e os elementos que rodeiam seu 15 “Detenhamo-nos aqui por um momento para garantir ao analista que ele conta com nossa
sincera simpatia nas exigências muito rigorosas a que tem de atender no desempenho de suas atividades. Quase parece como se a análise fosse a terceira daquelas profissões ‘impossíveis’ quanto às quais de antemão se pode estar seguro de chegar a resultados insatisfatórios. As outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são a educação e o governo.” (FREUD, 1987, p. 163)
sofrimento serão trabalhados junto com a condução do tratamento. O analista diante da criança que sofre lhe oferece uma escuta, oferece a possibilidade da criança falar sobre o que a atinge. Contudo, a presença dos pais, familiares e adultos condicionam que a criança seja falada antes de tomar a voz.
Essa condição do infans requer que o analista aja de formas variadas, tanto para entender o que se passa com quem traz a criança, como para compreender as visões da equipe diante do caso. De fato, escutar e responder a partir de lugares distintos não é apenas uma ferramenta de manuseio da transferência – seria muito limitado compreender tudo o que chega ao analista por uma forma transferencial. Com efeito, se faz importante entender que a figura do analista enquanto trabalhador da saúde mental receberá um número de requisições e atributos que não necessariamente podem ser entendidos pela perspectiva da transferência.
São diversos os atravessamentos que o trabalho analítico encontra na instituição. A interferência dos outros discursos que circulam e seus efeitos são fatores importantes a serem levados em consideração na escuta dos pacientes. Um discurso que promete a cura como uma resolução rápida por vias medicamentosas, por exemplo, é altamente sedutor, assim como a queixa escolar que taxa como desajuste e anormalidade alguns comportamentos é grandemente convincente para a maioria dos parentes/responsáveis da criança.
Tanto as queixas quanto os diagnósticos que circulam na instituição se referindo ao sofrimento infantil interferem diretamente no tratamento e em como o analista deve escutar o que a criança, a partir disso, pode responder, e principalmente, como ele pode recolher as falas do infans e intervir.
Como apontamos ao longo deste trabalho, são diversos os impasses presentes no trabalho analítico com crianças na instituição, retomando alguns deles demarcamos: o viés normatizador e displinarizador que a instituição carrega podendo imputar no tratamento uma dimensão corretiva; a forma medical que o sofrimento é lido no processo dos diagnósticos psiquiátricos; a promessa de solução pelas vias dos psicofármacos; a queixa escolar que demanda à instituição de saúde mental o auxílio e intervenção nos comportamentos infantis; a presença dos parentes da criança e de tantos outros profissionais da equipe que, coabitando a instituição, intervêm no tratamento. Esses são alguns dos impasses que encontramos no processo de escuta de uma criança na instituição, e que nos debruçamos ao longo deste trabalho com o intuito de melhor compreender as forças e as tramas que se fazem presentes nesses fenômenos.
A partir da experiência de trabalho na instituição e diante das reflexões que fizemos, o que se coloca como evidência é que, apesar de todos os impasses que a escuta analítica e o trabalho clínico podem encontrar nesse meio é importante não recuar. O trabalho analítico pode perseverar com sua ética abrindo a escuta para a dimensão política da vida coletiva. Evidentemente, não é possível idealizar uma situação perfeita na qual a psicanálise poderia ser exercida sem intervenções externas, numa espécie de laboratório onde os resultados seriam limpidamente identificáveis e a técnica seria pura. O que pode haver são situações mais ou menos favoráveis para o seu exercício, considerando, assim mesmo, que mesmo as situações favoráveis podem nos trair, levando a prática analítica a uma redoma e a um ensimesmamento tão danosos quanto as condições mais adversas de qualquer instituição.
Portanto, o saber do analista exige mais reflexão do que fidelidade; mais abertura à pura diferença do que ensimesmamento; mais subversão e ousadia do que cânones e rituais. Logo, os impasses ao trabalho analítico na instituição são questões concernentes à própria condição atual da cultura, que de forma muito ampla configuram e que de forma restrita àquele ambiente institucional atuam no cotidiano do trabalho. Malgrado todas as particulares dificuldades com que o analista tem que se deparar em cada campo, é um espírito dos tempos que se expressa no discurso científico, capitalista, burocrático –
discursos aos quais o analista deve opor-se, avançando e renovando tanto as possibilidades discursivas da própria psicanálise como ampliando sua escuta.
O lugar do analista diante da criança na instituição pode ser, então, o de recolher suas falas, reconhecendo como parte integrante de seu sofrimento as mesmas forças que oferecem impasses à escuta, forças essas que colocam a criança na posição de tutelada, de
infans. Reconhecer que o sofrimento infantil pode apontar de uma posição de subjugamento
para uma posição testemunhal na cultura é o papel analítico que apontamos para ir de uma ética do desejo a uma política da escuta16.
O suposto lugar da criança na cena institucional, como foi trabalhado na vinheta que dá título a este capítulo, é o lugar de aderir ao que é colocado a ela como tratamento, ao que é solicitado que faça por seus parentes e ao que é oferecido pela instituição e pelos profissionais. Quando, diante dessas circunstâncias restritas, a criança não adere ao que lhe oferecido como tratamento, ao contrário, mostra em sua fala o quanto esta organização tem 16 Como já havíamos dito em nota anterior tanto a ideia de uma clínica política como o de uma escuta ético política se devem às inúmeras contribuições relativas ao assunto vindas do Núcleo de Estudos Psicanálise e Política, principalmente nas intervenções e falas de Miriam Debieux Rosa e Sandra Luzia de Souza Alencar.
sido silenciadora, algo emerge se faz necessário problematizar não apenas a instituição, mas a posição do analista neste locus. Se a criança testemunha em sua fala que a ela não é possível uma escolha, uma posição desejante ou expressão de um querer que seja respeitado ou minimamente ouvido, a posição do analista diante da criança na instituição é inquerida.
A partir da implicação desse dizer, nos questionamos sobre nosso papel e tomamos, aqui, a problemática para além das circunstâncias do caso. Recolher a fala do infans como um testemunho do tempo histórico e dos desafios da inserção da psicanálise na cultura foi o papel crítico e ao mesmo tempo analítico que nos empenhamos em fazer. Agora é possível firmar a posição de que não há possibilidade de proceder com uma ética no tratamento analítico descolada de uma compreensão política dos modos de sofrimento, tutela, subjugmento e controle da infância em nível social.
4. CONCLUSÃO: A INFÂNCIA COM O LUGAR DE TESTEMUNHO DA CULTURA E DA