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Como já afirmamos, nesta pesquisa estamos adotando uma visão de língua como atividade sociointerativa. Nessa perspectiva, somos levados a considerar também a natureza social da atividade de produção de textos. Como alertam Costa Val e Vieira (2005, p. 23), “representar a fala não é, como ainda se pensa, representar apenas elementos da cadeia sonora (as unidades constituintes das sílabas, das palavras, das frases, etc.). É, também, representar aspectos importantes do processo de produção de textos” (grifo das autoras).

Um primeiro aspecto do processo de produção de texto a ser considerado é a presença de um interlocutor, pois, quando escrevemos, o fazemos para interagir com outros sujeitos.

Interagimos com o outro porque queremos partilhar com ele nossas ideias, nossos conhecimentos, nossas crenças, nossos sentimentos... Assim, podemos afirmar que, sempre que escrevemos, escrevemos para alguém. Costa Val e Vieira (2005) também são adeptas dessa posição e enfatizam a interlocução que acontece entre enunciador e enunciatário em toda situação de produção de texto:

Nessa perspectiva, entendemos o processo de produção textual como uma atividade que visa à construção de sentidos na relação que se estabelece entre o enunciador (o "eu") e o enunciatário (o "tu"). Essa relação se dá entre indivíduos que se constituem socioculturalmente, nas interações discursivas de que participam. Isso significa, em primeiro lugar, que os indivíduos são o que são porque fazem parte de uma determinada sociedade, de uma determinada cultura. Em segundo lugar, isso quer dizer que é nas práticas sociais de linguagem – construídas na história de sua comunidade – que os indivíduos aprendem como usar a linguagem em diferentes situações discursivas. O processo de produção textual é, portanto, uma atividade que se dá entre interlocutores: de um lado, o sujeito produtor, que fala ou escreve; de outro lado, o sujeito interpretador, que ouve ou lê (COSTA VAL e VIEIRA, 2005, p. 24).

Por sua vez, o interlocutor é tão importante para o processo de escrita, que, durante toda a atividade de produção do texto, seus conhecimentos, suas opiniões, suas crenças, suas necessidades, suas simpatias e antipatias se tornam referência para a escrita e influenciam o que está sendo escrito e a forma como se escreve. Como apontam Costa Val e Vieira (2005, p. 27), “a produção textual se orienta em função da representação, da imagem que o autor constrói sobre o leitor de seu texto”. O escritor deixa, assim, pistas em seu texto e espera que o leitor as perceba e construa, a partir de seus conhecimentos prévios, um sentido para o texto. Assim, a escrita não se configura como uma atividade solitária, mas, ao contrário, e realizada em parceria entre o escritor e o futuro leitor do texto. Costa Val e Vieira (2005) também consideram a cooperação existente entre escritor e leitor durante a produção de texto, salientando que cada um dos indivíduos que participa da atividade de escrita traz consigo suas intenções, objetivos, pontos de vista e conhecimentos, os quais são mobilizados na construção do texto:

Os elementos fundamentais da situação discursiva são os próprios interlocutores, com as imagens mentais que eles fazem de si mesmos e dos outros, com relação a seus objetivos, expectativas, conhecimentos, status social, poderes e obrigações, gostos e preferências. A partir dessas imagens, quem fala ou escreve define o que inclui no texto e quem ouve ou lê interpreta o que está presente (e até o que está ausente) no texto. Ou seja, os dois interlocutores lidam com a materialidade linguística do texto levando

em conta suas relações com a situação discursiva (COSTA VAL e VIEIRA, 2005, p. 25).

Ainda segundo Costa Val e Vieira (2005), quando um sujeito fala ou escreve, ele estabelece um “espaço de interlocução” ou uma “instância de enunciação”: ele se assume como o “eu” que fala (ou seja, o enunciador), atribui a outro sujeito o papel de “tu” (ou seja, de enunciatário) e os dois, situados num determinado tempo e espaço, constroem juntos o texto. Quando se estabelece uma instância enunciativa, o texto se organiza em função dela.

Por sua vez, essa interação promovida entre os sujeitos através da escrita é guiada sempre por um propósito, intenção, objetivo ou finalidade, que proporciona a realização de alguma atividade sociocomunicativa.

Bronckart (1999), ao tratar dos elementos que influenciam a produção textual, explica que estes vão muito além do destinatário e do objetivo. Ele nos apresenta um conjunto de elementos (ou, no seu dizer, de “parâmetros”) que constituem o contexto de produção, no qual estão incluídos o contexto físico e o contexto sociossubjetivo. Até porque, como explicam Costa Val e Vieira (2005, p. 25), “a situação discursiva diz respeito não apenas ao contexto histórico, social e político em que o texto „acontece‟, mas, sobretudo, à representação mental que os interlocutores fazem desse contexto”.

No que diz respeito ao contexto físico, Bronckart (1999) afirma que a produção de texto é uma ação ocorrida em um dado contexto físico, estando, assim, situada em um espaço específico e em um determinado tempo. Nele, estão presentes os seguintes elementos:

O lugar da produção: o lugar físico em que o texto é produzido; o momento da produção: a extensão do tempo durante o qual o texto é produzido; o emissor (ou produtor, ou locutor): a pessoa (ou a máquina) que produz fisicamente o texto, podendo essa produção ser efetuada na modalidade oral ou escrita; o receptor: a (ou as) pessoa(s) que pode(m) perceber (ou receber) concretamente o texto (BRONCKART, 1999, p. 93).

Com relação ao contexto sociossubjetivo, Bronckart (1999) explica que toda atividade de produção de texto se enquadra numa determinada formação social e num determinado modo de interação comunicativa. Esse contexto supõe certos questionamentos e é composto por elementos específicos, tais como:

O lugar social: no quadro de qual formação social, de qual instituição ou, de forma mais geral, em que modo de interação o texto é produzido (escola, família, mídia, exército, interação comercial, interação formal, etc.)?; a

posição social do emissor (que lhe dá estatuto de enunciador): qual é o papel social que o emissor desempenha na interação em curso (papel de professor, de pai, de cliente, de superior hierárquico, de amigo, etc.)?; a posição social do receptor (que lhe dá estatuto de destinatário: qual é o papel social atribuído ao receptor do texto (papel de aluno, de criança, de colega, de subordinado, de amigo?); o objetivo (ou objetivos) da interação: qual é, do ponto de vista do enunciador, o efeito (ou os efeitos) que o texto pode produzir no destinatário? (BRONCKART, 1999, p. 94).

Assim como Bronckart (1999), Costa Val e Vieira (2005) também detalham os elementos que fazem parte do contexto de produção. Para elas, o contexto de produção de um texto escrito se constitui não pela situação física (ou material), mas pelo que o autor do texto pensa sobre a situação de escrita e de leitura de seu texto, ou seja, pelo que ele tem em mente sobre:

a) Quem escreve: é o enunciador ou autor virtual, uma entidade linguística que enuncia um determinado texto e que nem sempre vai coincidir com o autor empírico ou “de carne e osso”; pode ser comparado a um ator de teatro ou compositor musical por assumir um determinado papel durante a escrita do texto;

b) Para quem se escreve: é o sujeito a quem o texto será destinado ou o leitor do texto; conhecendo os interesses e os conhecimentos prévios de seu leitor, o autor constrói uma ideia sobre quem vai ler seu texto e, a partir disso, planeja o que pretende dizer e como dizer da forma mais adequada para aumentar a possibilidade de ser compreendido;

c) Para que se escreve: é o objetivo que pretendemos atingir com esse texto; quando precisamos ou desejamos produzir um texto, precisamos definir para que queremos fazê-lo e, a partir dessa resposta, direcionar a produção;

d) Sobre o que se escreve: é o "algo a dizer"; o assunto sobre o qual o texto irá tratar deve estar adequado ao leitor e ao suporte que escolhemos para divulgar o texto, assim como deve ser algo de domínio do autor;

e) Onde se escreve: é o meio ou o suporte através do qual o texto será veiculado; parte-se do pressuposto de que o sentido não é intrínseco ao texto, mas se constrói na relação deste com o contexto que o circunda e com o suporte em que é veiculado; assim, o suporte se torna um fator determinante tanto da produção quanto da compreensão do texto; como consequência, o autor do texto a ser escrito deve conhecer bem o suporte em que seu texto será veiculado, bem como o contexto em que estará inserido.

Esses fatores vão influenciar todo o processo de produção do texto, de tal modo que, a partir deles, o autor vai definir o último fator – f) Como se escreve – ou seja, o modo de dizer ou a forma de linguagem que se pretende usar na produção, escolhida para atingir determinado efeito de sentido no leitor. Esse elemento se refere a como as informações serão organizadas, ao gênero em que o texto será produzido, ao tipo de linguagem que será usado, ao vocabulário que será selecionado, ao tamanho que o texto terá, ao estilo da linguagem que será assumido, ao tipo de letra que será usado, a recursos que podem funcionar com apoio ao leitor, como imagens, gráficos, tabelas etc.

A atividade de escrita, além de estar relacionada aos elementos que fazem parte do contexto de produção, também demanda aspectos referentes ao campo psicológico, o que faz dela uma atividade também cognitiva. Desde o modelo pioneiro de Flower e Hayes (1981), a produção textual é tomada como um complexo processo cognitivo.

Isso porque, quando escrevemos precisamos tomar diversas decisões o tempo todo. Essas decisões estão num nível macro – quando têm a ver com a situação comunicativa a ser atendida, com o conteúdo a ser desenvolvido e com a estrutura do texto – e num nível micro – quando têm a ver com as relações entre as partes do texto, as escolhas linguísticas, o vocabulário usado etc. Seja qual for o nível, o escritor utiliza diversos conhecimentos – sejam eles linguísticos, cognitivos ou sociais –, bem como põe em prática diferentes operações – tais como gerar, selecionar e organizar as ideias, elaborar um esboço do texto, revisá-lo e construir a versão final. Tudo isso implica o desenvolvimento de várias capacidades e envolve diversas demandas cognitivas. É nesse sentido que Oliveira (2000) compreende a produção textual como uma atividade que se desenvolve através de operações em níveis distintos.

Antunes (2003) discute sobre as operações realizadas durante a produção de texto e salienta que a própria natureza interativa da escrita supõe a existência de diferentes momentos e um “vaivém” de procedimentos. Ela explica que produzir um texto implica diferentes procedimentos interdependentes e intercomplementares e não se resume só ao ato de escrever. É nesse sentido que Gehrke e Cabral (2017) conceituam a escrita como um processo formado por subprocessos (os quais estão inseridos uns nos outros e ocorrem simultaneamente num contínuo); esse processo, por sua vez, pode ser interrompido a qualquer momento antes que um subprocesso acabe para dar início a outro, evidenciando a sua recursividade.

A esse respeito, Fiad e Mayrink-Sabinson (2017, p. 55) dizem:

Assumindo que a linguagem é construída pela interação entre os sujeitos, entendemos que, na modalidade escrita da linguagem, essa construção

envolve momentos diferentes, como o de planejamento de um texto, o da própria escrita do texto, o da leitura do texto pelo próprio autor, o das modificações feitas no texto a partir dessa leitura.

Menegassi (1998, apud MENEGASSI e FUZA, 2008) corrobora essa ideia, ao explicar que, na década de 1980, os estudos sobre a construção do texto escrito indicaram a produção de texto como um processo composto de etapas interligadas e propuseram três grandes etapas de construção de um texto, a saber: planejamento, execução e revisão. Motta-Roth (2006), na mesma linha, defende que, para que a produção textual seja considerada uma prática social, é preciso assumir uma visão mais ampla do ato de escrever, de modo a entender que este não se resume, apenas, à produção do texto propriamente dita, mas inclui também seu planejamento, revisão, edição e consumo pela audiência-alvo.

Assim, há o procedimento de planejamento, durante o qual o escritor, tendo em mente o gênero mais adequado para dar conta da situação comunicativa, define o tema do texto, elabora ideias sobre esse tema, procura subsídios temáticos em outras fontes, seleciona e organiza as ideias levantadas, define os objetivos a serem alcançados com a produção de texto e define se o texto será mais ou menos formal. Sobre essa etapa, Serafini (1998, apud MENEGASSI e FUZA, 2008) explica que planejar poderia parecer uma forma de adiar o momento de escrever o texto, e assim, ser encarado como perda de tempo. Entretanto, ao contrário disso, o ato de planejar ajuda o escritor, dentre outras coisas, a economizar e a distribuir o tempo que se tem disponível para escrever. Além disso, há a escrita propriamente dita, procedimento durante o qual o escritor coloca em prática o que foi planejado, fazendo, para isso, determinadas escolhas lexicais e sintáticas. Outro procedimento realizado é a revisão e a reescrita do texto, em que o escritor analisa o que escreveu para avaliar se alcançou os objetivos pretendidos. Vale salientar que entendemos essas diferentes operações como processos realizados simultaneamente, não sendo, portanto, sequenciais ou lineares.

Gehrke e Cabral (2017) explicam que o produtor de textos executa essas várias subtarefas como uma estratégia para lidar com as limitações do processamento cognitivo e, assim, conseguir dar conta das várias exigências da produção de um texto. Os escritores proficientes se distinguiriam dos menos proficientes justamente por usar estratégias para reduzir a carga de seu trabalho cognitivo.

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