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Para marcar as principais fontes de produção de conhecimento na área de currículo, a partir da década de 1990, Lopes; Macedo (2005) fizraem uma análise das produções realizadas por grupos de pesquisa de diferentes Universidades do país, resultando em três grupos principais, os quais marcam o campo de currículo, sendo o conceito de campo entendido a partir de Bourdieu (1983, 1992 apud LOPES; MACEDO, 2005): a) a perspectiva pós-estruturalista; b) o currículo em rede; c) a história do currículo e a constituição do conhecimento escolar.
A perspectiva pós-estruturalista é desenvolvida, com maior expressão, pelo pesquisador Tomaz Tadeu da Silva, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As discussões têm como base Michel Foucault, os estudos culturais, ligados a Stuart Hall, estudos feministas e as contribuições do pós-estruturalismo, com autores como Derrida, Deleuze e Guatari, para análise de currículo. (LOPES; MACEDO, 2005).
No início de seus estudos, publicados a partir de 1992, Silva toma por base teórica a perspectiva da teoria crítica, utilizando autores como Apple, Young e Giroux, contrapondo-se as análises pós-modernas. No ano seguinte, com a obra “Teoria educacional crítica em tempos pós modernos”, o autor aprofunda a análise da relação entre à teoria crítica e as concepções pós-modernas, identificando continuidades e rupturas. Por fim, Tomas Tadeu da Silva passa a defender a abordagem pós-estruturalista para as discussões curriculares, o que marca os trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores vinculados ao autor. (LOPES; MACEDO, 2005).
Segundo Lopes e Macedo (2005), dentre as rupturas com as formulações críticas, destaca-se o questionamento à ideia de que através do conhecimento e do saber é possível contribuir para a libertação e para a autonomia das pessoas. A partir da análise pós-estruturalista, afirma-se que “não há uma situação de não- poder, mas sim um estado permanente de luta contra posições e relações de poder” (LOPES; MACEDO, 2005, p. 26). Mesmo na tentativa de elaborar um discurso que almeje a superação das desigualdades, a teoria crítica está condicionada a essas relações de poder, as quais se estabelecem, principalmente, no campo da linguagem. “O currículo é assim, uma forma de representação que se constitui como sistema de regulação moral e de controle. Tanto é produto das relações de poder e identidades sociais, quanto seu determinante.” (LOPES; MACEDO, 2005, p. 28).
Segundo Veiga-Neto (1995 apud LOPES; MACEDO, 2005), os estudos produzidos pelo grupo de pesquisa relacionam-se, entre outros, à Foucault e sua relação com as perspectivas pós-modernas e pós-estruturalistas; a questões ligadas ao processo de reforma educacional e a crítica, a partir do pós-estruturalismo às perspectivas neoliberais de educação. (LOPES; MACEDO, 2005).
A perspectiva de currículo em rede inicia os estudos a partir de 1980, tomando corpo na metade da década de 1990. As principais autoras do campo são as pesquisadoras Nilda Alves, vinculada a Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Regina Leite Garcia, vinculada a Universidade Federal Fluminense. (LOPES; MACEDO, 2005). As principais referências são de origem francesa, a partir de autores como, Certeau, Lefébvre, Morin, Guattari e Deleuze e o português Boaventura de Sousa Santos. As pesquisas se iniciaram com a preocupação sobre a formação de professores e o cotidiano escolar, como também o questionamento do enfoque disciplinar da escola e pela defesa de uma base comum nacional na formação docente, em que o currículo contemple a totalidade do conhecimento, através da discussão coletiva para cada disciplina do currículo. (LOPES; MACEDO, 2005).
O conhecimento em rede é entendido como um conhecimento que se constrói a partir da relação entre diferentes sujeitos, os quais tecem o saber a partir de diferentes redes a que pertencem. A razão e o conhecimento científico dão espaço ao conhecimento do cotidiano e do senso comum. “Nesse sentido, a tessitura de uma compreensão teórica do currículo envolve considerar os espaços
cotidianos em que esses currículos acontecem, valorizando o fazer curricular como uma produção de sentido” (LOPES; MACEDO, 2005, p. 37).
Por fim, a linha de pesquisa história do currículo e a constituição do conhecimento escolar surge a partir das publicações de Antônio Flavio Moreira, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, no final da década de 1980, o qual tem como embasamento teórico autores ligados a teoria crítica, como M. Apple, M. Young, H. Giroux. (LOPES; MACEDO, 2005). Moreira juntamente a outros pesquisadores criam o Núcleo de Estudos Curriculares (NEC), o qual desenvolve pesquisas em duas linhas: 1- o estudo do pensamento curricular brasileiro e 2 - o estudo das disciplinas escolares. (LOPES; MACEDO, 2005).
A primeira linha de pesquisa preocupa-se com a constituição do pensamento curricular brasileiro desde a década de 1980, como também a influência estrangeira no campo, através do processo de transferência educacional. Além dos autores da teoria crítica, as pesquisas tomam por referência autores ligados à história do currículo, como M.B. Franklin, I. Goodson e S. Ball. (LOPES; MACEDO, 2005).
Com esse quadro teórico, os estudos de Moreira sobre constituição do campo do currículo no Brasil têm permitido a análise, não apenas das produções teóricas do campo, mas também das políticas curriculares implementadas no país, dos currículos vigentes e da função do professor e do intelectual na constituição do campo e das práticas vividas. (LOPES; MACEDO, 2005, p. 41).
A segunda linha de pesquisa do NEC preocupa-se com a constituição histórica das disciplinas escolares em instituições específicas, tomando como referência Stephen J. Ball e Ivor Goodson, principalmente.
Nesse sentido, os estudos de história das disciplinas escolares têm sido realizados em associação com trabalhos que privilegiam a escola como instituição dotada de uma autonomia relativa, como uma totalidade em que o cultural e o social se apresentam mediatizado pelo pedagógico. Assim, na medida em que os currículos se materializam em determinadas instituições, que apresentam determinadas especificidades, os estudos realizados pelo grupo no âmbito da história das disciplinas escolares têm se referenciado a instituições específicas, de modo que as particularidades de cada caso concreto se evidenciam na lógica global do percurso de cada disciplina. (LOPES; MACEDO, 2005, p. 44).
A partir desse panorama das principais linhas de pesquisa que constituem o campo de currículo no Brasil, torna-se evidente que as investigações são referenciadas a partir de teóricos que constituem tanto a teoria crítica de currículo, como autores que baseiam a teoria pós-crítica de currículo, demonstrando a característica híbrida do estudos do campo do currículo.