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“Ao conversar com os professores você vai ver que uns escolheram a docência e outros não. A verdade é que ninguém resolve ser professor de uma hora para outra, ou simplesmente nasce destinado para ser um. Nós vamos nos aprimorando e tornando docentes na prática cotidiana, no dia a dia. É através da interação com os alunos que nos tornamos professores”.

(Andréia, agosto de 2014)

Norteando-se pela verbalização exposta, captada de um momento de interação com a professora Andréia, após a observação sistemática de sua atividade, compreendemos que a escolha pela carreira docente parece ser marcada por experiências de vida, uma vez que a decisão em ser professor não parece ser tomada repentinamente. Assim, o indivíduo se torna professor, atuando.

A decisão por uma profissão não ocorre de um momento para o outro, mas é construída ao longo da vida. Isto é, faz parte de um processo, no qual há uma combinação de fatores internos e externos à pessoa (Hirt & Raitz, 2010). Em vista disso, Folle e colaboradores (2009) defendem que fatores de ordem social, familiar e pessoal podem interferir na escolha de uma profissão. Estes acabam por se tornar preponderantes e decisivos mesmo que, em alguns casos, não correspondam ao desejo do futuro professor.

Não obstante, a entrada na carreira docente é percebida por cinco dos seis participantes como uma ausência de escolha. Nesta ótica, cada um dos professores relatou seus motivos particulares que os fizeram enveredar por esta área. Como motivações citaram: influência materna, falta de opção e/ou necessidade financeira, falta de oportunidade e mero acaso. É o que podemos constatar através do quadro a seguir:

Quadro 6: Inserção na docência

Motivos que contribuíram para a inserção na profissão

Influência materna (1)

Falta de opção e necessidade financeira (2) Falta de oportunidade (1)

Acaso (1)

Sob este enfoque, Andréia (entrevista individual) expressa que seu “... sonho era

ser Assistente Social”, mas devido à influência materna acabou entrando na área da

docência. É emblemático o trecho da narrativa em que a docente aborda esta questão: “...

não escolhi. Minha mãe dizia: profissão de pobre é ser professor e o meu papel é formar vocês (éramos cinco irmãs). Eu vou formá-las como professoras, depois, vejam o que querem e aí todo mundo entrou nessa”. Através da fala exposta, percebe-se, portanto, que

45 embora sonhasse com outra profissão, a mãe - quase que por meio de uma imposição - a influenciou em sua escolha profissional. É importante ressaltar que a genitora de Andréia, via a docência como a única profissão possível para formar as filhas, em virtude das condições financeiras da família.

Nesta direção, Bordão-Alves e Melo-Silva (2008) citando Levenfus (1997) assinalam que a família após anos de investimento emocional e expectativas, acaba fazendo com que o indivíduo se sinta cobrado no momento da escolha profissional. Sendo assim, abdicar da escolha imposta, ou simplesmente sugerida, significa frustrar a família. Passa a haver uma cultura familiar, segundo a qual seguir um caminho distinto seria ser diferente e consequentemente ocorre a fantasia e, por vezes, a realidade de ser excluído.

No que diz respeito à inserção na profissão devido à falta de opção e/ou necessidade financeira, Bruno (entrevista individual) argumenta: “Não tive escolha. Entrei

na docência por falta de opção. Eu fazia outro curso, mas como precisava de dinheiro, porque eu já tinha filhos, tive que dá aulas”. Nestes termos, Carol (entrevista individual)

acrescenta: “Eu não escolhi ser professora. Entrei na docência mais por necessidade e

entrando pela necessidade peguei amor à coisa e hoje eu sou uma professora que gosta de ensinar. Apesar de ter entrado por necessidade, é uma profissão que eu amo”.

Adicionalmente, Daniela (entrevista individual) alega que sua entrada na profissão docente ocorreu por falta de oportunidade: “Comecei a lecionar por falta de oportunidade,

mas aprendi a gostar da profissão. Não tive escolha, nunca tinha pensado em ser professora, eu não queria de jeito nenhum”. Erick (Entrevista individual), por sua vez,

assegura: “Nunca pensei em ser professor... Posso dizer que foi até um acaso”. Para este professor, sua entrada na docência ocorreu de forma casual, uma vez que nunca havia pensado em atuar nesta área. Num determinado dia, um colega lhe falou sobre o Programa Alfabetização Solidária, ele se inscreveu, participou de um curso de quinze dias e a partir de então começou a lecionar. É pertinente ressaltar que nessa época não era necessário que o professor tivesse nível superior, bastava ter feito o magistério ou concluído o ensino médio.

Foi através da implementação da LDB, em 1996, que se passou a exigir, nas escolas públicas e particulares, o nível superior para todos os professores (Vedovato & Monteiro, 2008), porém, a LDB estabeleceu um prazo de dez anos para que se atingisse este objetivo. Os professores que não possuíam curso de nível superior poderiam continuar desenvolvendo o seu trabalho, desde que fizessem a formação superior.

46 Em contrapartida aos relatos supramencionados, apenas um professor percebe a entrada na profissão docente como uma escolha que se deu por meio de uma vocação. Acerca dessa situação, Felipe (discussão em grupo, primeiro encontro, grupo2) declara: “...

acho que escolhi por causa da vocação. Eu queria ser isso, eu sempre quis ser professor”.

Com base no fragmento exposto, fica evidente que a vocação aparece como uma justificativa para a escolha profissional, ficando expresso um discurso basicamente naturalista.

Através do processo de análise, foi possível compreender que embora os percursos dos sujeitos sejam singulares, a maioria dos discursos é permeada por marcas socioculturais. Em outros termos, a inserção na profissão docente, havendo ou não escolha, parece ser produto das experiências e dos valores aprendidos ao longo da vida.

Outro aspecto que nos chamou atenção foi a questão dos participantes declararem que se tornaram professores da EJA por falta de opção, necessidade da instituição de ensino e imposição. Diante destes aspectos, parece que mais uma vez os professores foram levados a percorrer um caminho, do qual não tiveram escolha, ou não quiseram escolher. Este aspecto pode ser apreciado a seguir:

Quadro 7: Como se tornaram professores da EJA

Fatores que contribuíram para se tornarem docentes da EJA

Falta de opção (2) Necessidade escolar (2) Imposição (1)

Dessa forma, quanto à tomada de decisão em tornar-se docente da EJA, dois participantes alegaram que entraram nesta modalidade de ensino devido à falta de opção. É o que pode ser apreciado no discurso de Andréia (entrevista individual): “Tornei-me

professora da EJA por falta de opção. A escola precisava, então comecei a ensinar e acabei gostando”. Diante disso, mais dois professores realçaram que passaram a lecionar

na EJA por causa da necessidade da instituição escolar. Neste âmbito, Felipe (discussão em grupo, primeiro encontro, grupo2) assegura: “Comecei a ensinar na EJA por necessidade

da rede de ensino que, no início, não tinha pessoas formadas, nem capacitadas, nem com disponibilidade de horário para atuarem na EJA, aí assumimos esse compromisso”. Por

último, Bruno (entrevista individual) expõe: “Aqui você não escolhe. Simplesmente dizem:

você vai ensinar a EJA”.

Cinco dentre os seis participantes da pesquisa, deixou claro que não nutria expectativas quando assumiu o compromisso de lecionar nas turmas da EJA, uma vez que

47 desconhecia a realidade vivenciada, ou seja, não tinha experiência na referida área. Conforme evidenciado na seguinte citação: “No início não tinha muita expectativa. Fui

exercer minha docência como se fosse na escola normal. Não tinha visão da EJA. Comecei a me moldar para esta modalidade/segmento aos poucos” (Andréia, entrevista individual).

O quadro abaixo mostra este aspecto:

Quadro 8: Expectativas face à EJA

Ausência de expectativas face à EJA

Desconhecimento (5)

Ao analisar os motivos que determinaram a escolha profissional e ao reconhecer as encruzilhadas dos caminhos percorridos pelos docentes, recordamos da lenda do Fio de

Ariadne11, pois assim como na metáfora, parece que os professores seguiram um fio