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É importante pontuar que, no tempo presente, já há uma maior aceitação acadêmica da linguagem como recurso educativo. Essa perspectiva, de acordo com Vergueiro (2015), deu-se ainda na segunda metade do século XX, com o aparecimento de textos acadêmicos, revistas especializadas e discurso de artistas simpatizantes às HQs.

Segundo o autor, no Brasil e no mundo, não foram poucos os títulos lançados com a proposta de instruir parcelas de grupos humanos de todas as idades. Entre os exemplares citados por Vergueiro (2015), encontramos os que estão atrelados às questões políticas, como as campanhas educativas do governo de Mao Tse-Tung;

religiosas, semelhantes à Série Sagrada, lançada pela editora EBAL; científicas, de caráter enciclopédico; e instrucionais, para realização de atividades técnicas, normalmente associados à montagem ou ao conserto de aparelhos (EISNER, 2010).

No Brasil, a transformação de perspectiva em relação ao caráter didático das HQs viabilizou sua penetração em instituições educacionais públicas e privadas, derrubando discursos que foram edificados na primeira metade do século XX, sob a justificativa de que o tipo de linguagem em questão poderia atrofiar o cérebro e inibir a capacidade criativa e imaginativa dos jovens (VERGUEIRO, 2010; SOUZA, 2014; ALCÂNTARA, 2016).

O maior representante do pensamento retrógrado contra os quadrinhos foi o do psicólogo alemão radicado nos E.U.A. Fredric Wertham. Psicólogo influente, disseminou seus argumentos em diferentes lugares do mundo, através de seus artigos, palestras e livro. Ele fundamentou suas pesquisas com base em investigações realizadas no interior de penitenciárias, a partir de casos patológicos em seu consultório, afirmando que os quadrinhos estimulavam comportamentos violentos e homoafetivos. Esse tipo de perspectiva, baseado em pragmatismos científicos, foi superada, mostrando-se, de acordo com o professor Waldomiro Vergueiro (2010), “desprovida de fundamento, sustentada muito mais em afirmações preconceituosas em relação a um meio sobre o qual, na realidade, se tinha muito pouco conhecimento” (VERGUEIRO, 2010, p. 17).

Atualmente, é comum abrir catálogos de editoras e encontrar graphic novels que possam ser indicadas como livro paradidático. São títulos desenvolvidos por autores distintos, ávidos em ser adotados por alguma lista de materiais e que permitem incitar discussões pertinentes nas mais diversas áreas do conhecimento. Particularmente, a exemplo da disciplina de História, é possível encontrar publicações direcionadas a assuntos específicos abordados em cada série do Ensino Fundamental II e Ensino Médio.

Além das graphic novels, podemos apontar as revistinhas em quadrinhos de condicionamento de atitudes (EISNER, 2010), ou seja, aquelas que têm o propósito de condicionar comportamentos para determinadas ações. Podem ser HQs com adaptações de passagens religiosas, orientações para preservação do patrimônio público e ambiental ou mesmo a favor da dignidade humana. Um prato cheio para alavancar projetos didáticos, por meio de uma metodologia pedagógica, e para estimular a adesão de alunos interessados em produzir conhecimento.

E não foi apenas como livro didático que a HQ penetrou em âmbitos educacionais formais, Vergueiro e Ramos (2015) apontam que documentos oficiais

como a LDB de 1996 já legitimavam, nas entrelinhas, as HQs como fonte documental e forma de expressão artística. Há ainda os próprios PCNs, cujas solicitações para o Ensino Fundamental II e Ensino Médio apontavam para “necessidade de o aluno ser competente na leitura de histórias em quadrinhos” (VERGUEIRO; RAMOS, 2015), além de poder identificar todos os “truques” utilizados pelos desenhistas na composição de suas obras.

Documentos oficiais que certamente estimularam a presença das HQs em concursos de vestibular, como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), por exemplo, vêm exigindo o reconhecimento de tiras, cartuns, charges e obras de arte, justificando ainda mais a inserção desse tipo de linguagem em âmbito escolar (VERGUEIRO, 2015).No ano de 2016, por exemplo, Persépolis (2007) de Marjane Satrapi foi o foco de uma das questões que compunham o caderno de linguagens.

Imagem 4: Questão 24 Exame Nacional do Ensino Médio.

Fonte: Brasil (2016).

Sobre essa graphic novel foi perguntado:

A memória recuperada pela autora apresenta a relação entre A-) conflito trabalhista e engajamento sindical. B-) organização familiar e proteção à infância. C-) centralização econômica e pregação religiosa. D-) estrutura educacional e desigualdade de renda. E-) transformação política e modificação de costumes” (BRASIL, 2016).

A questão chama a atenção para as transformações políticas e modificações de costumes no contexto da Revolução Islâmica iraniana, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Um contexto que abre espaço para discussão sobre religiosidade, migrações, tolerância, opressão, mudanças nas organizações

políticas, judiciárias, sociais e econômicas. Nesse sentido, uma HQ que dialoga com conteúdos específicos da disciplina de história nas séries finais do Ensino Fundamental II e no Ensino Médio.

Waldomiro Vergueiro (2015) ainda aponta mais um indicativo da presença efetiva das HQs na sala de aula. Em artigo, ele apresentou dados acerca das obras adquiridas pelo Governo Federal através do Plano Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) entre anos de 2006 e 2009 (VERGUEIRO, 2015). O programa, que tem o objetivo de permitir aos estudantes o acesso à cultura e à informação, estimulando o hábito pela leitura, teve obras em quadrinhos selecionadas pela primeira vez no ano de 2006.

Entre os títulos adquiridos por licitação, nesse intervalo de tempo, estão obras de brasileiros, como Antonio Cedraz, Spacca, Henfil, Laerte, e estrangeiros, como Will Eisner, René Goscinny, Albert Uderzo e Kazuichi Hanawa. Por outro lado, Wergueiro e Ramos (2015) chamam à atenção para a dificuldade que professores ainda encontram em trabalhar com livros paradidáticos, em função da dependência que têm ao livro didático, pela falta de tempo e pela falta de formação continuada, o que dificulta a elaboração de projetos didáticos em instituições de educação formal.

As informações nos mostram que, nos últimos anos, houve uma abertura para as HQs no campo da educação. Tais dados apresentam formas distintas de interação com essa linguagem artística em espaços educativos, seja como objeto de estudo em pesquisas, veículo de comunicação seja como expressão pessoal, evidenciando-nos que conhecer essa linguagem, dentro de uma cultura de imagens, é estimular o desenvolvimento dos recursos comunicativos através da leitura e produção de HQs em sala de aula.

Mas, como podemos perceber, é necessário, para esse tipo de projeto didático, conhecimentos específicos, planejamento e metodologia equilibrada para sua consolidação. Nesse sentido, é fundamental a realização de constantes diálogos, formações continuadas, para elucidar professores e incitar novas ações pedagógicas do gênero. Existem várias formas distintas de se trabalhar com HQs na educação. Mas, como disse o professor Waldomiro Vergueiro (2010), não existem regras preestabelecidas, tudo vai depender da criatividade dos professores envolvidos e seus alunos.

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