Introdução
O desenvolvimento da criança é integrado ao meio no qual se en- contra inserida, assim, considera-se que a escola constitui uma das bases para a formação cognitiva, moral e ética. Por conseguinte, é esperado que a criança internalize condutas e estilos de vida assumidos pelos atores na- quele ambiente. Estes podem advir da influência de colegas de sala, dos amigos comuns, ou até mesmo da relação professor-aluno.
Assim sendo, destaca-se que a violência da escola ocorre por símbo- los e sinais de poder, de distinção, discriminação e dominação. Portanto, a forma como o aluno vivencia a incivilidade, agressividade e violência em seu espaço social (casa, comunidade ou escola) espelha em seu comporta- mento.
Mendes (2011) compartilha a ideia de que a escola é um local pri- vilegiado para iniciativas de prevenção da violência, pois atua de forma a interferir no desenvolvimento infanto-juvenil, ocasionando efeitos ime- diatos e tardios sobre atos de violência, agressividade e incivilidade. Em
destaque, como fator formador, se apresenta o potencial do professor como “educador resiliente” diante de todas as situações e na promoção da qualidade de vida na escola.
A violência, não somente vitimiza crianças e jovens na rua, na fa- vela, na periferia ou no trânsito, mas, sobretudo persegue e se torna cada vez mais presente, sob diversas formas, inclusive na escola. Logo, neste âmbito, a violência apresenta diferentes manifestações que vêm compro- metendo ainda mais a qualidade da educação na rede de escolas públicas brasileiras, sendo esse contexto, considerado como um conjunto de práti- cas em que se manifesta a força física que rompe com a normalidade no cotidiano escolar. (EYNG; GISI, ENS, 2009; MACEDO; BONFIM, 2009)
Considerada a quinta maior capital do país, Fortaleza é uma cidade litorânea que vem se desenvolvendo populacional e economicamente ao longo dos anos. O setor educacional mantido pelo poder público caracte- riza-se, assim como em outras cidades brasileiras, por instalações pouco adequadas, escassez de áreas de lazer e marcada por relações autoritárias. A escola na qual este estudo se realizou atende a uma população pobre, com alta vulnerabilidade social, com problemas como ausência de equi- pamentos sociais, habitação irregular, desemprego, alcoolismo e drogas. Além de a localidade apresentar baixo Índice de Desenvolvimento Huma- no (IDH), a escola em foco recebe crianças de outros bairros e regionais.
Segundo Gil e Diniz (2006), a existência de crianças consideradas em situação de risco e vulnerabilidade no que concerne à saúde psicossocial e à qualidade de vida impõe desafios para aqueles que, nas escolas, lidam com as mesmas. Ademais, desenvolver uma prática educativa que contemple as necessidades diagnosticadas implica propor atividades de promoção da saúde visando resultados positivos na prevenção de comportamentos de risco na infância e adolescência.
Diante dos desdobramentos e graves repercussões à saúde individual e coletiva, a falta de civilidade e os atos agressivos e violentos reafirmam-se como problemas sociais e demandam contínuas investigações no senti- do de compreender a sua gênese e identificar possibilidades de prevenção. Nesta perspectiva, traçou-se o objetivo de identificar a percepção de pro- fessores acerca de crianças que sofrem ou utilizam violência física e/ou verbal na escola.
Metodologia
Ao buscar a percepção de comportamentos reveladores de agressivi- dade infantil, por meio da observação das professoras, optou-se pela inves- tigação de natureza exploratória – descritiva. Esse tipo de estudo, segundo Gil (2002), tem como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno, ou, então o estabelecimento de relações entre variáveis.
O estudo ocorreu em uma escola de ensino infantil e fundamental, pertencente à rede municipal, situada na periferia da cidade de Fortaleza - Ceará - Brasil, que funciona pela manhã e à tarde. Os participantes foram dez professoras cujos alunos são de ambos os sexos, com faixa etária entre 5 e 11 anos, dos turnos matutino e vespertino.
As entrevistadas foram contatadas durante as aulas, oportunidade esta em que houve o esclarecimento acerca do desenvolvimento do estudo e os objetivos propostos, e a partir da pré-disposição das mesmas, foram agendados os encontros, cujo diálogo estava focado na questão norteado- ra: qual sua opinião acerca do aluno (a)? As entrevistas foram realizadas após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo gravadas e transcritas para análise. Para garantir o anonimato das entrevistadas, estas foram denominadas de P1, P2, P3... a P10. Na reali- zação deste estudo, seguiu-se a Resolução nº 196/96 do Conselho Nacio- nal de Pesquisas em Saúde com Seres Humanos (BRASIL, 1996), sendo o projeto submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Fortaleza (UNIFOR), com o Parecer favorável de nº 162/06.
Para a coleta de dados, que ocorreu no período de agosto/2009 a maio/2010, utilizou-se também a observação participante, centrada nas atividades realizadas pelas professoras, alunos e na relação escola-fami- liares. Estes são considerados como parte da comunidade escolar, segun- do Rego (2003), escola e família compartilham funções sociais, políticas e educacionais, na medida em que contribuem e influenciam a formação do cidadão, o que constitui a concepção moderna de escola.
Os achados foram agrupados por meio da análise temática (MI- NAYO, 2004), cujo método caracteriza-se pela descrição e documentação fidedigna das falas, sobretudo pela análise de conteúdo por temas. Em se- guida, realizamos a categorização dos textos provenientes das entrevistas, e desenvolvemos a interpretação dos resultados.
Após leituras exaustivas das entrevistas, emergiram as categorias te- máticas que permitiram agrupar informações selecionadas de acordo com cada tema central. As professoras definiram pontos comuns que conver- gem para tipificar comportamentos infantis, caracterizando-os por atos agressivos ou “violentos” no decorrer das aulas ou nos intervalos.