De acordo com a Enciclopédia (2007) a Metodologia é:
“o estudo dos métodos. Ou então as etapas a seguir num determinado processo. Tem como finalidade captar e analisar as características dos vários métodos disponíveis, avaliar as suas capacidades, potencialidades, limitações ou distorções e criticar os pressupostos ou as implicações da sua utilização. Além de ser uma disciplina que estuda os métodos, a metodologia é também considerada uma forma de conduzir a pesquisa.”
Para Estrela (1997), metodologia é “o conjunto de métodos e técnicas de investigação, sua organização e fundamentação”. Herman, citado por Lessard-Hérbert (1994:15), define metodologia como (...) um conjunto de directrizes que orientam a investigação científica”. Herman, citado por Lessard-Hérbert (1994:15), define metodologia como “(...) um conjunto de directrizes que orientam a investigação cientifica”. Para Quivy e Campenhoudt (1998:25) o procedimento é uma forma de progredir em direcção a um objectivo. Consiste portanto em descrever os princípios fundamentais a pôr em prática em qualquer trabalho de investigação.
A conjugação dos procedimentos adoptados permitirá atingir os objectivos propostos, produzindo um conhecimento rigoroso sobre uma realidade específica através
do rigor metodológico, ética, fundamentação teórica e crítica das fontes. Pois, tal como nos é referido por Lima (1995:18), “ os métodos devem adaptar-se aos objectivos da investigação e podem ser combinados em função das exigências impostas pela concretização daqueles”, a Metodologia utilizada, teve como suporte a definição do problema enunciado, os objectivos orientadores, bem como o enquadramento teórico constante da análise da literatura.
Opresente trabalho insere-se no âmbito de um estudo de caso, pois pretendemos indagar sobre as causas do abandono escolar, utilizando como técnica principal de recolha de dados, a História de Vida. Como referiram Poirier et al (1999):
“O método biográfico equivale, neste sentido, a uma tentativa feita para captar o não explicado, o não retido, para se situar nessa encruzilhada da pessoa e da sociedade que é a própria vida. A sociedade engendra as ideologias, os valores e as técnicas, mas são os homens que as fazem, transportam e vivem e isto ao longo do desenrolar diário de cada existência”.
Optámos por um estudo de caso com abordagem qualitativa, (Histórias de Vida), como forma de indagar, acerca das causas que levaram os indivíduos em estudo, a abandonar a escola na idade em que a deveriam ter frequentado, assumindo os casos estudados, como exemplo e não como generalização, uma vez que as causas podem provir dos mais variados factores. Tal como refere Bogdan e Bicklen (1994), “ o foco do investigador qualitativo no como as coisas são na realidade oferece uma oportunidade para fazer emergir pontos de vista díspares e habitualmente desconhecidos.”
A escolha deste tipo de estudo deveu-se essencialmente às características do trabalho, à possibilidade de organizar e distribuir o tempo, de escolher as pessoas que íamos entrevistar, quais os aspectos a aprofundar e igualmente, obter uma análise aprofundada dos casos em questão. Este tipo de trabalho permite-nos produzir modelos de análise emergentes e alterar estratégias que melhor se adaptem à concretização dos objectivos em causa. Tal como nos refere Merriam, citado por Bogdan e Bicklen (1994), “ O estudo de caso, consiste na observação detalhada de um contexto, ou individuo, de uma única fonte de documentos ou de acontecimento específico” e fundamenta-se na “hipótese naturalista – ecológica, que afirma ser o comportamento humano significativamente influenciado pelo contexto em que se situa e na hipótese qualitativo-fenomenológica que determina ser quase impossível entender o comportamento humano, sem tentar entender o quadro referencial dentro do qual os indivíduos interpretam os seus pensamentos, sentimentos e acções” Benavente et al. (1993:38).
O estudo que desenvolvemos suporta-se nestes pressupostos, pois, através de quatro Histórias de Vida, localizadas e analisadas em profundidade, através do Inquérito por entrevista, será possível obter os valores detalhados da informação no sentido de dar resposta à questão de partida e aos objectivos do estudo.
Refira-se também que o método de Estudo de Caso é o que melhor explora as dimensões interpretativa e subjectiva dos fenómenos educativos Colen e Manion, (1990: 193). Ludke & André (1986) citados por Benavente et al. (1993: 39-40), concluíram que as características principais dos estudos de caso são:
i) Visar a descoberta;
ii) Enfatizar a interpretação em contexto;
iv) Usar variedade de fontes de informação;
v) Revelar experiência única específica e permitir generalizações naturalistas;
vi) Procurar representar os diferentes e, às vezes, conflituosos pontos de vista presentes numa situação social;
vii) Utilizar uma linguagem e uma forma mais acessível do que os outros relatórios de pesquisa.
Nesta linha de pensamento, os mesmos autores Cohen e Manion (1990: 195), concluem que uma das grandes vantagens do estudo de caso, particularmente nas investigações educativas, é que pode contribuir para a “ democratização” da tomada de decisões e da tomada de conhecimento da situação estudada e que permite ao leitor julgar as implicações do estudo por si mesmo. Com base nestes pressupostos metodológicos e sem perder de vista o meu propósito concreto, partilhamos da opinião de Benavente et al. (1993:41-42), ao afirmar que:
“ o estudo de caso pode ter potencialidades enormes no estudo de situações educativas, uma vez que ao retratar a realidade quotidiana de uma escola em toda a sua multiplicidade, permitindo conhecer e compreender melhor os problemas dessa escola, pode proporcionar a compreensão de outras situações semelhantes e evitar a repetição de erros ou desencadear novos processos adequados aos diferentes contextos.”
Diferentes tipos de estudos de caso existem para o âmbito deste trabalho apenas referenciamos o tipo observacional, em que o foco está numa organização, o Centro de Formação de Beja, que promove e orienta os referidos cursos e o Centro de Emprego de Moura que os operacionaliza e em que o investigador, focaliza a sua atenção em determinado aspecto: os cursos de Educação e Formação de Adultos (E.F.A) da região.
A amostra intencional, serão quatro indivíduos que, após um primeiro contacto com o Director do Centro de Emprego de Moura, com a Técnica da Formação, com a psicóloga que orienta os cursos, com a Mediadora, com alguns dos formadores e os próprios formandos, se revelem mais interessantes para o estudo em causa, de entre um universo, que terá como condicionante a frequência nos cursos E.F.A, a funcionar na zona do referido estudo, sendo que o universo não coincide com a amostra.
Este pretende ser um trabalho de investigação, com abordagem qualitativa no qual a relação com os sujeitos se caracteriza essencialmente pela empatia, pelo ênfase na confiança e por uma certa igualdade entre entrevistador e entrevistado. Caracteriza-se também por uma amostra pequena. Tal como referiram Robert et al. (1994: 70): “ o objectivo dos investigadores qualitativos é o de melhor compreender o comportamento e experiência humanos.”A metodologia utilizada na recolha de dados, foi o recurso à entrevista semi-directiva ou semi-estruturada, e consequente análise dos resultados das narrativas.
Numa primeira abordagem, fez-se um primeiro contacto com o entrevistado, uma apresentação do entrevistador, assim como dos objectivos do estudo. Neste primeiro encontro foi ainda solicitada autorização para a autorização dos seus relatos de vida, ao mesmo tempo que se garantia o anonimato do testemunho prestado. De seguida, foi aplicada uma entrevista semi-directiva previamente preparada, com base nos objectivos do tema que nos propúnhamos estudar.
Em encontros posteriores, previamente marcados procedemos à realização das entrevistas com a respectiva gravação magnética. Foi necessário questionar os indivíduos tantas vezes quantas o esclarecimento dos assuntos em causa, sendo que não tivemos o mesmo número de encontros com todos eles.
Os procedimentos seguintes referem-se à análise de conteúdo que abarca concretamente: a transcrição do registo magnético, selecção das unidades de registo, categorização, sub categorização, interpretação e correlação dos dados e conclusões.
Tendo como base um guião de entrevista semi-directiva, “(…) método que (…) permite, simultaneamente, um controlo mínimo do processo de memorização e uma liberdade de expressão(…), deixada ao narrador.” (Poirier, 1995:24), no intuito de deixar aos indivíduos em causa, uma grande margem de liberdade, mas tendo sempre como linha orientadora os objectivos definidos solicitou-se aos inquiridos, que se descrevessem contando a sua história pessoal, as suas vivências, integrados num contexto social e numa determinada época da sua vida. Se se regista um testemunho individual (coisa muito frequente em etnografia), isto não quer dizer que se valorize o indivíduo, entidade adulta e singular, mas sim que ele é aqui tomado como amostra da comunidade.
Dado o elevado número de pessoas, que abandonam a escola, procurámos essencialmente perceber as razões do abandono, confrontando duas épocas distintas, uma correspondente ao antes do 25 de Abril e outra correspondente ao pós 25 de Abril, uma vez que os contextos históricos e sociais se alteraram significativamente. Daí, a opção metodológica das Histórias de Vida, uma vez que pretendemos captar o sentido das práticas individuais.
Como Poirier (1979:533), nos refere a propósito do uso da palavra etnobiografia e que segundo ele a distingue de História de Vida clássica:
“ dizendo que ela visa não somente transcrever a aventura individual do informante, mas exprimir os modelos culturais do seu grupo através do conhecimento que ele tem deles (ou a imagem que deles entende dar); portanto para lá da idiossincrasia, espera-se atingir a sociedade de que o indivíduo faz parte”.
Optámos, nesta metodologia, pela unicidade do testemunho e tomámos como enfoque da narrativa, o acontecimento e a sua dimensão social, o que justifica a utilização do termo etnobiografia.
Neste contexto, parece-nos e de acordo com as leituras feitas, partilhando a opinião de alguns autores ligados a esta problemática que, não existe um método único, codificado e verificado das Histórias de Vida. Podemos pois, adoptar vários procedimentos conforme o carácter da nossa pesquisa e o respectivo uso que se quer fazer das referidas histórias.
A entrevista semi-directiva sequencial assumiu um papel crucial neste trabalho de investigação. Teve como principal objectivo, recolher os dados que permitiriam fornecer elementos para a compreensão do estudo – as causas do abandono escolar e o papel dos cursos E.F.A, enquanto promotores de auto-estima e último recurso para completar a escolaridade mínima obrigatória nalguns sectores da população portuguesa. Desta forma, procurámos conhecer melhor os entrevistados, através de um primeiro contacto em contexto de formação e posteriormente em espaços mais ou menos formais, colocando as questões e mantendo um ambiente de proximidade que deixasse as pessoas com à-vontade para poderem partilhar connosco as suas histórias, respeitando todas as não respostas, mas tendo em atenção todos os sinais não verbais, que nos permitiram, através de um contacto pessoal, perceber as dificuldades nalgumas partes da entrevista.
Esta metodologia, é caracterizada por uma constante dinâmica entre a teoria e a prática na qual o investigador interfere no próprio terreno de pesquisa, analisando os efeitos da sua acção e consequências. Privilegiámos a abordagem biográfica, (Poirier,1995: 9-10) “As histórias de vida querem fazer falar os povos do silêncio através dos seus representantes mais humildes (…)”.
O espírito científico está subjacente em qualquer investigação, o que implica uma subjectividade e racionalidade do fenómeno que nos propomos estudar. Atendendo à especificidade dos cursos E.F.A, e considerando o contexto de trabalho onde se desenrolou o estudo, estivemos conscientes das dificuldades a contornar, no sentido de operacionalizar a metodologia adoptada que são as Histórias de Vida. De acordo com Poirier et al. (1999):
“ É este antigo procedimento socrático que continua a ser o melhor: o mais “simples” (mas o mais difícil de realizar) e também o mais eficaz, o mais respeitador da personalidade do sujeito. A maiêutica é a arte de fazer encontrar, por si mesmo, ao sujeito, a sua própria verdade; a etnobiografia constitui, a partir do informante, um método de maiêutica social que permite ao sujeito encontrar-se a si mesmo e que lhe dá a possibilidade de testemunhar sobre o seu grupo, a sociedade, a sua cultura.”
Tal como referia Lazarsfeld, citado pelos mesmos autores, Poirier et al. (1999), ao dar uma aula sobre as técnicas de análise de conteúdo, aplicadas a diversas recolhas de textos, entre os quais as Histórias de Vida “ Diz-se e escreve-se muita coisa, mas sobretudo faz-se como se pode.”
Castro e Bronfman (1997), por exemplo, sustentam que existem diversas estratégias válidas de generalização dos métodos qualitativos. Entre elas, cabe destacar a que os
autores definem generalização conceitual ou analítica, que permite aos métodos qualitativos generalizar sobre as características conceituais, sem pretender generalizar em termos numéricos. A esse respeito, Castro e Bronfman (1997) explicam: “No estudo de processos sociais de um reduzido grupo de casos, busca-se obter informações que nos permitem teorizar sobre o processo que nos interessa, sem pretender saber quanto aqueles processos sociais são frequentes dentro da sociedade.” Bogdan (1994 :48), afirma que “( …) o comportamento humano é significativamente influenciado pelo contexto em que ocorre(...)”, “(...) o conjunto de material compilado no campo não é, em si mesmo um conjunto de dados(...) mesmo as transcrições das entrevistas não o são. Tudo isto constitui material documental a partir do qual os dados serão construídos graças aos meios formais que a análise proporciona”. Lessard-Hébert et al (1994:107).