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165 Ibid, p. 213. 166 Ibid, p. 219.

95 Na tragédia sofocleana, o sepultamento é uma das discussões principais da peça, tendo em vista que é a partir do édito de Creonte proibindo o enterro de Polinices que toda a peça se desenvolve. Para a narrativa zambraniana, esse tema, junto ao par fraternidade-fratricídio, é igualmente importante, pois se estabelece enquanto uma das questões medulares na representação da guerra civil. No entanto, a releitura do sepultamento feita pela filósofa malaguenha, desde 1948, quando aparece pela primeira vez em “Delirio de Antígona”, traz um recorte inovador, isso porque Zambrano direciona o protagonismo do enterro de Polinices para o da própria protagonista, de modo que em La tumba de Antígona a discussão sobre o sepultamento aparece centralizada em Antígona, a heroína enterrada viva.

Embora a discussão do sepultamento seja protagonizada por Antígona, o enterro de Polinices aparece mencionado na narrativa zambraniana e é uma importante contribuição para construção da guerra civil na peça. Dessa forma, antes de passarmos à análise centrada no enterro da heroína trágica, vejamos como é descrita, metaforicamente, a inumação de seu irmão, no subcapítulo “Sueño de la hermana”:

Estava sobre uma rocha, vermelha de seu sangue, o sangue feito já pedra, e eu derramei muita água, toda a que eu pude sobre ele, para lavá-lo, ele, o sangue, e que corresse. Porque o sangue não deve ficar duro como pedra. Não, que corra como o que é o sangue, uma fonte, um riacho que engole a terra. O sangue não é para ficar feito pedra, atraindo os pássaros de mau agouro, urubus que vêm sujar os bicos. O sangue, assim, traz sangue, chama sangue porque tem sede, o sangue morto tem sede, e logo vêm as condenações, mais mortos, ainda mais em um processo sem fim. Coloquei água, toda a que pude, para acalmar sua sede, para dar-lhe vida e que corresse vivo até que a terra se encharcasse, até ser absorvido na terra. Porque da terra logo brota. Que o sangue quer brotar. Brota em um manancial, em uma fonte donde os pássaros, também os de mau agouro, bebem e lavam o bico, e com ele alisam as plumas e então se tornam bons. O vermelho do sangue, a terra mantém para dá-lo às flores, essas que nascem porque sim, as azuis, as violetas, as papoulas que nascem donde menos se espera. A Terra tudo conserta, distribui tudo. Bom, quero dizer sobre essas coisas, se deixarem. Mas não deixam, não. Não deixam nunca eles, os que mandam. Deixaram alguma vez que [a terra] faça seu trabalho em paz? Roubam-lhe os mortos ou os expulsam com uma maldição amarrada no pescoço. E logo, me vês aqui?, expulsam criaturas vivas, vivas como eu estou, mais viva que nunca, vivente de verdade.167

Nesse trecho, o sepultamento de Polinices aparece associado a duas metáforas principais zambranianas: a água e o sangue. A princípio, a água seria Antígona, que

167 M. Zambrano. La tumba de Antígona. In: M. Zambrano. La tumba de Antígona y otros textos sobre el personaje trágico. Edição e introdução de Virginia Trueba Mira. Madrid: Ediciones Cátedra, 2015, pp. 183-

96 aparece para purificar o sangue, Polinices, que já não tem mais fluxo, vida. A partir disso, é dado a ver que o cadáver de Polinices, exposto às aves de rapina, atrairá mais sangue, o da própria heroína trágica, que viva será condenada à morte; assim, no desenvolvimento da fala de Antígona, vemos a água ser transformada em sangue, como uma forma de representação do sacrifício da protagonista.

Embora seja uma narrativa poética sobre o sepultamento de Polinices e a condenação de Antígona, esse discurso é também político, pois não só critica, como também denuncia, o poder totalitário e a história sangrenta, seja a ficcional ou a da própria Espanha. Nesse sentido, a descrição do sepultamento de Polinices é bastante significativa, isso porque tange a política de enterramento de corpos durante a Ditadura Franquista.

Tendo visto como aparece mencionada a inumação de Polinices, passemos à discussão do enterro de Antígona. Assim, vejamos como esse tema aparece textualmente, primeiramente no prólogo,

(...) é perfeitamente coerente que Antígona em sua câmara mortuária percorresse em seu delírio toda sua possível vida.168

E no delírio primeiro do texto de 1948:

(...) Por que continuo sozinha, vítima não aceita, não consumida, enterrada viva, com os cabelos grisalhos já? Por que a morte, a quem me entreguei, não chegou? Meus vestidos se rasgaram, o tempo, quanto faz que estou aqui, nem na vida, nem na morte? Quanto, quanto tempo? O tempo e só o tempo desfez meu traje de desposada, de noiva da morte, de esposa prometida aos mortos. O tempo pendurou teias de aranha nesta sepultura, nesta câmara nupcial (...)169

Posteriormente, em 1967, no prólogo,

Como se nunca tivesse se olhado em espelho algum entrou em sua sepultura.170

E na fala da heroína trágica, de La tumba de Antígona:

168 M. Zambrano. “Delirio de Antígona”. In: M. Zambrano. La tumba de Antígona y otros textos sobre el personaje trágico. Edição e introdução de Virginia Trueba Mira. Madrid: Ediciones Cátedra, 2015, p. 243. 169 Ibid, p. 250.

170 M. Zambrano. La tumba de Antígona. In: M. Zambrano. La tumba de Antígona y otros textos sobre el personaje trágico. Edição e introdução de Virginia Trueba Mira. Madrid: Ediciones Cátedra, 2015, p. 165.

97 Não, tumba minha, não vou te golpear. Não vou colidir contra ti minha cabeça. Não me arremessarei sobre ti como se fosses tu a culpada. Um berço és; um ninho. Minha casa. (...)171

Podemos observar, a partir desses fragmentos, que a mudança significativa no enfoque do sepultamento é acompanhada de outros aspectos próprios da interpretação zambraniana, como o tempo, o trânsito e o segundo nascimento. No entanto, vemos que, em uma primeira leitura, a sepultura da filósofa aparece muito próxima à da tragédia sofocleana, já que ela é também a câmara nupcial da heroína, como podemos ler nos vv. 811-816:

(...) O Hades, que a todos adormenta, arrasta-me

viva às margens do Aqueronte e sem

himeneu, sem que um hino nupcial antes me houvesse celebrado; sim, o Aqueronte é meu noivo.172

E nos vv.891-894, do kommos da protagonista de Sófocles: – Ó túmulo, alcova nupcial, meu abrigo

subterrâneo em que hei de morar para sempre, e onde encontrarei quase todos os meus que entre os mortos já Perséfone acolheu!173

Além dessa aproximação com a tragédia grega, a releitura do sepultamento zambraniana recupera ainda a ideia sofocleana do não pertencimento de Antígona aos dois mundos, o dos vivos e o dos mortos, como podemos observar nos versos 850-852:

Pobre de mim

que, entre vivos e entre mortos,

não habitarei com vivos nem com mortos!174

Partindo dessa ideia sofocleana de uma heroína nem viva, nem morta, Zambrano produz duas mudanças principais em sua releitura da tragédia grega: a primeira diz respeito ao tempo que concede à protagonista antes de sua morte e a segunda se trata da ideia de trânsito, consequência desse tempo concedido.

171 Ibid, p. 179.

172 Sófocles. Antígone. In: Três tragédias gregas. Tradução de Guilherme de Almeida. São Paulo:

Perspectiva, 1922, pp. 72-73.

173 Ibid, p. 75. 174 Ibid, p. 73.

98 Assim, desde “Delirio de Antígona”, a protagonista, em seu devaneio, consegue um tempo, que não é cronológico, mas sim o tempo do delírio, para desatar o nó terrível de sua família, para olhar para si mesma e para reconciliar seus pais e irmãos. É somente através desse tempo concedido que Antígona chega à palavra, a qual é fundamental na poética zambraniana, pois é somente por meio dela que a protagonista alcança o pensamento e a própria consciência.

Nesse sentido, sua tumba é também um berço e um ninho, já que nesse tempo de delírio, a protagonista, que, segundo a filosofia zambraniana, é semelhante a todos os homens e, portanto, nascida pela metade, ganha a possibilidade de um segundo nascimento, o qual é resultado de seu retorno às origens e, por isso, de seu alumbramento. Dessa forma, a perspectiva zambraniana entende que esse renascimento dentro da sepultura/berço garante que Antígona atinja a completude de seu ser, morrendo não de uma morte cega, como a heroína de Sófocles, mas de um sacrifício consciente, significativo e vivificante.

Desse modo, nesse tempo de delírio, Antígona transita entre os mundos (o superior, o terrestre e o inferior) e, tal qual Perséfone, que sobe dos ínferos trazendo primavera para a terra, a heroína zambraniana desce aos abismos infernais para ascender à primavera de sua consciência.

Assim, a respeito dessas duas mudanças principais, concordamos com Trueba Mira, e afirmamos que, desde “Delirio de Antígona”, Antígona seguirá nesse tempo em que adquire consciência de seu sacrifício e nesse trânsito até a luz vivificante e espaço verdadeiro, “(...) enquanto a história humana continue configurando-se a ritmo de exílios, uns históricos (guerras civis ou mundiais, colonizações ou globalizações), outros ontológicos (a condição humana como um imenso exílio).”175 Isso significa que, desde 1948, Zambrano dá voz a sua Antígona delirante, que, enterrada viva e pertencente ao lado dos vencidos, segue falando, ouvindo e sendo ouvida, como uma chama de esperança e justiça para que a história não se repita e mais sangue seja derramado.

Vimos que o sepultamento de Antígona oferece diferentes facetas para a tumba, a qual ora é câmara mortuária, ora é leito nupcial, ora é berço. No entanto, o enterro de Antígona traz ainda outra possibilidade interpretativa, já que ele pode ser lido também como uma metáfora para o exílio.

175 V. T. Mira. “Introducción”. In: M. Zambrano. La tumba de Antígona y otros textos sobre el personaje trágico. Edição e introdução de Virginia Trueba Mira. Madrid: Ediciones Cátedra, 2015, p. 35.

99 Sabemos que o exílio faz parte das narrativas míticas sobre Antígona, descrito, sobretudo, na tragédia sofocleana Édipo em Colono. Dessa forma, embora não seja o cerne de Antígona, sabemos por outras fontes que outrora a heroína trágica, a fim de guiar seu pai-irmão Édipo velho, cego e exilado, acompanhou-o no exílio. Assim sendo, a protagonista experienciou o exílio de seu pai e, na perspectiva zambraniana, teria sido também uma desterrada, desse modo, observaremos como esse desterro vivido por Antígona é desenvolvido na narrativa zambraniana e como ele contribui para a construção formal e figurada da guerra civil.

Essa temática aparece entrelinhas, pela primeira vez, no segundo monólogo “La noche”, isso porque um detalhe da tumba nos é apresentado, no seguinte fragmento: “Quanto rumor no silêncio, noite, quanta vida em minha morte, quanto sangue em minhas veias ainda, quanto calor nessas pedras”176. A tumba de Antígona não é de terra,

mas de pedra, já que, ainda que indícios cênicos apontem para uma pequena presença de terra no solo, a heroína está involucrada majoritariamente por uma tumba de pedras. Isso simbolicamente é um indício de que Antígona é desterrada, ela está fora da terra. Além disso, corrobora para essa interpretação o não lugar que ocupa a heroína trágica, o qual, como vimos, faz parte da discussão maior da peça: ela não está nem no mundo dos vivos nem no mundo dos mortos.

Dessa forma, o tirano condena Antígona a uma espécie de exílio, a um espaço sem terra, de trânsito para a morte. Tendo isso em vista, podemos observar uma espécie de crítica ao tirano, que, a fim de manter o seu poder absoluto, condena ao desterro todos os que a ele forem contrários, como é o caso de Antígona. Esse é um cenário não só ficcional, mas também histórico, pois Zambrano e sua irmã Araceli, assim como milhares de espanhóis republicanos, após a guerra civil espanhola, tiveram que se exilar do país, padecendo pelos conflitos que ocupavam a Europa do século XX. Assim, podemos transpor a crítica zambraniana ao tirano da ficção ao próprio Francisco Franco, o qual, querendo manter-se no poder, eliminou a oposição, seja pelo exílio, seja pela morte.

Na sequência, o exílio aparece descrito no diálogo entre Creonte e Antígona. Tentando convencer a heroína trágica a voltar ao mundo dos vivos, a qual recusa o

176 M. Zambrano. La tumba de Antígona. In: M. Zambrano. La tumba de Antígona y otros textos sobre el personaje trágico. Edição e introdução de Virginia Trueba Mira. Madrid: Ediciones Cátedra, 2015, p. 178.

100 retorno, o tirano pergunta a ela o que dirá para os que choram sua morte e, respondendo à pergunta, Antígona faz a segunda menção ao desterro:

– Ai, Creonte, em que coisas paras agora. Deixarão de chorar por mim, e é bom que chorem algum tempo por mim; isso os lavará. A chuva muitas vezes me pegou no campo quando eu ia com meu pai e não tínhamos onde nos abrigar. E era boa essa chuva, era bom, ainda que duro ir ao descampado. Graças ao desterro conhecemos a terra.177

Nesse fragmento, aparece descrito o desterro como algo positivo, ainda que duro. Isso porque o exílio possibilita a limpeza, seja do corpo, seja da alma; é nele, na falta de abrigo do descampado, que a água lava, limpa, purifica o ser. Além disso, é no desterro que se conhece a terra, a própria e a do outro. É nesse contato com o outro que se amplia o conhecimento sobre diferentes terras, culturas, línguas, mas também é através dessa alteridade que a própria identidade, a individualidade e o “eu” se afirmam. Nesse sentido, o exílio serve para a tomada de consciência de si, da história, seja na ficção, como em Antígona, seja na história da humanidade.

Esse desterro descrito pode, assim, ser a descrição de muitos exilados no pós- guerra civil espanhola, já que, fugindo da opressão do regime franquista, muitos partiram para novas terras, e, com sorte, conheceram e se estabeleceram em diferentes lugares, ficando ainda mais conscientes de sua própria identidade, de sua expatriação, das dificuldades concernentes ao exílio e, sobretudo, da história. É fato que o desterro dos espanhóis não ocorreu de forma simples e tranquila, já que as forças fascistas tomavam toda a Europa e muitos exilados eram enviados a campos de concentrações ou devolvidos à Espanha, onde eram torturados e mortos.

Na sequência, o desterro aparece no penúltimo monólogo “Antígona”. Tendo Creonte falhado em levar a protagonista de volta à terra, Antígona enumera a razão pela qual não retornou à vida; para ela só faria sentido seu retorno caso Creonte tivesse descido à tumba com a nova lei, disposto a fazer cinza da velha, dessa lei que condena os homens e os desterra. Para ela o sonho que Polinices havia sonhado, de uma terra não cercada pela morte, mas pelo amor e pela fraternidade, era um sonho que se consumia e precisava ser vigiado, alimentado. Era o tipo de sonho que ilumina a vida, esses sonhos de esperança,

101 por assim dizer, os quais são como lâmpadas que iluminam os caminhos dos homens errantes pela Terra. Assim, Antígona diz que outrora tivera um sonho durante seu exílio, no qual fundava cidades, introduzindo mais uma vez a ideia de desterro:

A vida está iluminada tão somente por esses sonhos como lâmpadas que iluminam desde dentro, que guiam os passos do homem, sempre errante sobre a Terra. Como eu, em exílio todos sem se dar conta, fundando uma cidade ou outra. (...) E eu sabia bem que não nos dariam a chave de nossa casa. (...) Éramos hóspedes, convidados. (...) Acreditavam que íamos pedindo porque nos davam muitas coisas, nos enchiam de dons, nos cobriam, como para não vermos, com sua generosidade. Mas nós não pedíamos isso, pedíamos que nos deixassem dar. Porque levávamos algo que ali, lá, onde fora, não tinham; algo que não têm os habitantes de nenhuma cidade, os estabelecidos; algo que somente tem o que foi arrancado da raiz, o errante, o que se encontra um dia sem nada embaixo do céu e sem terra; o que sentiu o peso do céu sem terra que o sustenta.178

Nesse fragmento, o desterro é descrito a partir das dificuldades dos exilados. Dessa experiência de Antígona e de seu pai no desterro, podemos entender que o não pertencimento é a principal questão aos expatriados. Fora de sua pátria, ainda que tenham conhecido qual é o peso de viver sem terra, os errantes, arrancados de sua raiz, são obrigados a viver como hóspedes, como alheios/estranhos aos estabelecidos, sem que haja para eles a possibilidade de contribuição a essa nova cidade.

Esse elemento do exílio – o não pertencer – é reflexo do contexto histórico- político em que se inseria María Zambrano e Araceli: forçadas a sair de sua terra, a qual sucumbia por uma sangrenta guerra fratricida, para serem capazes de expressar livremente suas opiniões e pensamentos, elas abandonaram o pertencimento para dobrarem-se ao estranhamento, numa pátria alheia.

Finalmente, a última descrição do desterro aparece ainda nesse penúltimo monólogo. Continuando a discussão sobre o peso de uma vida sem terra, Antígona irá descrever o que é a Pátria, mencionando também o que significa sair dela, isto é, como é o desterro:

Assim é a Pátria, Mar que recolhe o rio da multidão. Essa multidão na qual a gente vai sem se manchar, sem se perder, o Povo, andando ao mesmo passo com os vivos, com os mortos.

102 E ao se sair desse mar, desse rio, somente entre céu e terra, deve-se recolher-se a si mesmo e carregar com o próprio peso; deve-se juntar toda a vida passada que se torna presente e sustentá-la em suspense para que não se arraste. Não se deve arrastar o passado, nem o agora; o dia que acaba de passar se deve levá-lo até em cima, juntá-lo com todos os demais, sustentá-lo. Deve-se subir sempre. Esse é o desterro, uma inclinação, ainda que seja no deserto. Essa inclinação que sobe sempre e, por largo que seja o espaço para a vista, é sempre estreita. E deve-se olhar, claro, para todas as partes, atender a tudo como uma sentinela no último confim da terra conhecida. Mas se deve ter o coração no alto, deve-se içá-lo para que não se afunde, para que não se vá de nós. E para que a gente não vá fazendo pedaços de nós mesmos.179

Nesse trecho, o desterro aparece descrito como uma inclinação, ainda que no deserto. Essa imagem do deserto é muito cara ao pensamento zambraniano, porque essa aridez traz em si uma ausência de vida, uma ausência de orientação, uma perda de horizonte. A associação do exílio ao deserto, pois, é uma forma de representar a solidão, a perda das raízes, o desamparo dos que são obrigados a sair da estabilidade de sua pátria, que, embora mar, recolhe a seu povo sem que ninguém se perca.180

Entretanto, embora seja deserto, o desterro também traz a necessidade de preservar a consciência, a identidade, o coração, já que é a partir do exílio que se faz possível a revelação da consciência de si e também da própria história.

Como pudemos observar, portanto, Zambrano imprime sua experiência de exilada em sua releitura de Antígona, fazendo do exílio um dos temas mais importantes para construir o cenário de guerra civil e de seu pós-guerra, já que:

(...) o início do exílio zambraniano está marcado, igual à descida de Antígona à tumba, pelo enfrentamento cruel dos irmãos, por tanta dor mais elevada e profunda, pois são irmãos que se matam entre si pela terra que lhes deu a vida e para a qual voltam afogados em sangue e ódio. Zambrano se sentiu expelida de sua terra, ficando como um náufrago à mercê do vento e da corrente quando sua pátria despedaçada se desmoronava.181

Tendo visto os diferentes aspectos da inumação, em La tumba de Antígona, assumimos que o tema do sepultamento contribui com a construção formal e alegórica da

179 Ibid, p. 228.

180 A. B. Vigo. María Zambrano y la raíz desnuda. Editorial Libros.com, 2017, n.p. (Livro digital) 181 Ibid, n.p.

103 guerra civil, a partir da associação com o exílio, da crítica à política de enterramento dos corpos e também através da esperança utópica na reconciliação, que se dá por meio do sacrifício e renascimento de Antígona na tumba.

104 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como tentamos demonstrar nas análises sobre o fratricídio e o sepultamento nas obras Antígona adaptación muy libre de la tragedia de Sófocles e La tumba de Antígona, José María Pemán e María Zambrano, atendendo aos seus distintos discursos ideológicos, colocaram suas impressões sobre a guerra civil espanhola na narrativa sofocleana a partir da releitura que fizeram do embate entre os irmãos Polinices e Etéocles e das

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