Les instruments numériques aujourd’hui
2. Les instruments numériques aujourd’hui
2.2. Un paradigme en changement
O projecto CRONO é reconhecível não só ao nível do impacto visual que teve para o espaço público da cidade, como pelo impacto mediático, que ainda tem91. Uma breve pesquisa de imagens no Google
com as palavras-chave «Lisbon street art» permite ter uma imediata noção do impacto do projecto CRONO na construção do que, muitas vezes, é o primeiro contacto visual que qualquer pessoa no mundo tem em relação à street art que se faz em Lisboa. De facto, através dessa pesquisa, é considerável a quantidade de imagens que surge dos prédios da Avenida Fontes Pereira de Melo intervencionados por um conjunto de artistas internacionalmente reconhecidos. Estas são imagens de uma acção que decorreu em 2010 no âmbito do projecto CRONO, que comportou ainda diversas outras intervenções pela cidade. Pretendendo estas intervenções nos prédios devolutos assinalar situações expectantes no espaço público, não podemos evitar questionarmo-nos se a permanência deste conjunto de edifícios em particular, ainda, em 2014, aguardando requalificação, se deve à popularidade mediática das imagens que deles se produziram. Comecemos, no entanto, por enquadrar este projecto de street art, reflectindo de seguida sobre as suas implicações em relação ao espaço público urbano de Lisboa.
Esta iniciativa partiu de Pedro Soares Neves, Alexandre Farto e Angelo Milano (comissário do FAME festival, de Itália), que para essa iniciativa fundaram a ACA – Azáfama Citadina Associação. Estabelecendo parceria com a CML através da GAU, diz-nos Miguel Moore acerca do CRONO que este parte de uma perspectiva que concebe
«(...) a cidade como um organismo vivo com a sua própria dinâmica, um espaço que segue o seu próprio processo de criação, crescimento e mutação de forma espontânea e natural, e com o objectivo de estreitar a ligação entre a cidade e artistas urbanos e valorizar o papel de Lisboa dentro do actual panorama internacional de arte pública (...).» (Moore, 2011)92
Consistiu este projecto em quatro momentos, associados às quatro estações do ano, compreendendo o Verão (1º momento) as intervenções de Os Gêmeos (Brasil), Sam3 (Espanha) e Blu (Itália)93; o
Outono (2º momento), os trabalhos de Ericailcane (Itália), Lucy McLaughlan (Reino Unido) e ARM Collective (Portugal); Inverno (3º momento), com intervenções de Brad Downey (EUA), Momo (EUA) e Vhils (Portugal – Figura 5.6); e a Primavera (4º momento), com a participação de Akay (Suécia) e Boris Hoppek (Alemanha).
91 Aparecendo frequentemente fotografias das pinturas nos prédios da Avenida Fontes Pereira de Melo como
ilustração para a street art de Lisboa, quando abordada em notícias superficiais sobre ‘cidades para ver street art’.
92 O documento CRONO: Um roteiro de arte urbana em Lisboa – 12 meses, 4 estações, 16 artistas, com texto de
Miguel Moore, também pode ser acedido a partir do link http://issuu.com/unidade/docs/crono_lisboa_2010- 2011/
93 Imagens das intervenções estão disponíveis no seguinte link:
Figura 5.6 – Intervenção de Vhils, no âmbito do projecto CRONO. Foto de Ágata Sequeira.
Com estes quatro momentos que o constituíram, o projecto CRONO pretendeu contribuir para o estabelecimento de pontes de diálogo entre os poderes que governam o espaço público, os artistas que nele intervêm e a sua prática artística específica, as pessoas que habitam e usam o espaço urbano e a forma como as suas estruturas são pensadas, vividas, geridas ou abandonadas. Neste sentido, podemos dizer que o conjunto de intervenções que foram realizadas em prédios devolutos foi dos mais expressivos a nível dos efeitos que a street art pode estimular, particularmente no que diz respeito aos debates que pode gerar sobre o uso do espaço público, em especial no que se refere às suas estruturas
expectantes e aos poderes e interesses económicos que são determinantes no traçar do seu destino94.
Ainda no que diz respeito às intervenções do projecto CRONO que tiveram lugar em prédios devolutos, a monumentalidade que essas intervenções assumiram poderia incorrer no risco de estas serem interpretadas como uma operação cosmética95 para o problema dos prédios devolutos em Lisboa
94 No capítulo 8.3 «Da street art à arte pública? Pistas para uma reflexão» esta questão será abordada em maior
profundidade.
95 Como, aliás, foram consideradas, nomeadamente no artigo de John Chamberlain, de 4 de Fevereiro de 2011
«Don’t let urban art cover up neglect of Lisbon’s crumbling heritage» do jornal The Guardian, e no qual se pode ler que : «However attractive to the art buff roaming around Europe, Lisbon highlights a disturbing practice of trying to disguise urban eyesores with alternative art – a pervasive form of official neglect.».
e para todas as questões políticas e económicas que ditam essa extensa realidade de prédios abandonados, fechados e aparentemente sem outro destino que não o ocuparem o espaço urbano e fabricarem um espaço público em limbo, não tendo qualquer uso, particularmente numa cidade com um problema de habitação.
Porém, e como explicou Pedro Soares Neves na qualidade de organizador do projecto, a questão, no equacionar das intervenções para esses prédios, não se colocou tanto em relação ao problema da habitação, mas ao da permanência dessas estruturas físicas, por vezes em lugares centrais, desqualificadas e deprimidas no espaço público, tendo as intervenções artísticas o objectivo de sensibilizar para essa questão sinalizando-a, e jogando inteligentemente com o que sempre apareceu como um cenário no qual a street art e o graffiti surgem como tendo uma especial atracção: a ruína, a construção degradada, algo que remete para o problema da street art face à efemeridade e à impermanência no edificado das grandes cidades. Nas suas palavras, o problema assume contornos de reflexão filosófica e estética sobre a cidade:
«[A intervenção] tem a ver com a problemática da decadência e com o esteticamente deprimido. E com a mais-valia que pode ser a vontade de cada um e a iniciativa altruísta de cada um em ajudar que todos estejamos num ambiente mais qualificado esteticamente. E era um bocado isto que estava subjacente, para além daquelas questões que eu já referi, ligadas à sustentabilidade, [à] inclusão dos projectos [etc.] mas isso já é uma sensibilização ao nível dos arquitectos. Depois tem uma sensibilização mais ao nível da população em geral. Ou seja, [a intervenção] não tinha a ver com os edifícios devolutos mas tinha a ver com as partes esteticamente deprimidas da cidade. Que depois [...] às tantas gerou-se uma certa confusão que foi – e era o risco, nós sabíamos que corríamos esse risco – de sermos acusados de estar a ‘mascarar’, ou a fazer uma maquilhagem, de um problema que tem que estar visível e que não tem que ter maquilhagem nenhuma, que tem que se resolver de fundo. E nesse sentido o projecto, na realidade, foi estruturado quando as intervenções eram feitas em edifícios devolutos [...] a ser alvo de reabilitação ao mais breve trecho. Ou seja, a ideia era que, de alguma forma, a intervenção sinalizasse a alteração que iria ocorrer.» (Pedro Soares Neves, Arquitecto; Programação e criação de projectos de arte urbana, mediação; writer/street artist, 2013)
Assim, e respondendo às críticas que consideraram que esta seria uma forma de «disfarçar» o problema dos prédios devolutos em Lisboa, Pedro Soares Neves indica que o que se pretendeu com as intervenções do projecto CRONO nos prédios devolutos era tão-simplesmente a sinalização desse problema, através da pintura das suas fachadas por artistas de street art. Deste modo a necessidade de recuperação - ou demolição e nova construção - destes edifícios tornar-se-ia ainda mais evidente com esta sinalização visual.
Notícia disponível em http://www.theguardian.com/commentisfree/2011/feb/04/street-art-urban-planning-lisbon- portugal
As iniciativas do projecto CRONO inscrevem-se com nitidez no que Patricia Philips salientou relativamente à importância do seu carácter temporário:
«(...) the temporary is important because it represents a provocative opportunity to be maverick, or to be focused, or to be urgent about immediate issues in ways that can endure and resonate.» (Phillips, 1998:98)
É precisamente este aspecto de urgência que parece ressaltar destas intervenções, relativamente à situação dos edifícios onde foram feitas. No projecto CRONO, o carácter efémero das intervenções pretendia assinalar a desejável efemeridade da situação dos prédios devolutos. E na verdade foi o que aconteceu, com a demolição (e consequente renovação do espaço) de alguns dos prédios intervencionados – nomeadamente na Avenida Almirante Reis e na Avenida da Liberdade -, sendo que noutros isso não se verificou – como é o caso dos edifícios da Av. Fontes Pereira de Melo, que ainda
continuam lá, devolutos, pintados por Os Gêmeos, Lucy McLauchlan, Ericailcane, Blu e Sam3, mas já grafitados por cima, com a Figura 5.7, a título ilustrativo, nos mostra.
Figura 5.7 – Intervenção em prédio, no âmbito do projecto CRONO, por Os Gêmeos. Foto de Ágata Sequeira. Numa leitura mais espacializada das intervenções, podemos considerar, como Phillips, que a arte pública contemporânea é sobretudo uma arte que ocupa, ao invés de procurar consensos ou estímulos:
«(...) public art doesn’t generally please or placate, or provide any insistent stimulation; instead, public art today, for the most part, occupies.» (Phillips, 1998:96)
Desta forma ressalta que nestas intervenções do projecto CRONO parece haver uma evidente
ocupação dos prédios devolutos - não sendo esta uma ocupação do seu espaço físico e interior, antes uma ocupação visual das suas fachadas, de uma forma que os torna visualmente incontornáveis para
os habitantes da cidade e fabricando uma paisagem. Desta forma também incontornável é o surgimento do debate não somente sobre o significado das intervenções, mas sobre o próprio estado destes prédios – e de muitos outros na mesma situação em Lisboa – e sobre os poderes económicos e políticos que estão na base da existência e permanência deste tipo de situações.
Estamos, assim, perante um exemplo da forma como à arte pública, e à street art em particular, se pode associar o estímulo a todo um conjunto de questões pertinentes sobre a forma como são geridos os espaços públicos das cidades, bem como que alternativas podem ser propostas às situações em que as suas estruturas parecem existir num limbo entre usos.
Vejamos agora de seguida que outros contextos de produção de street art têm vindo a ser desenvolvidos em Lisboa, e que questionamentos e propostas lhes estão subjacentes.