O State-Trait Anxiety Inventory for Children (STAIC), desenvolvido em 1969 por Spielberger et al., (1973), foi o instrumento de medida seleccionado, com base nas suas excelentes qualidades psicométricas e na grande utilidade em diversas áreas relacionadas com a saúde.
Este inventário é composto por duas escalas de auto-avaliação as quais medem dois conceitos distintos de ansiedade: a ansiedade estado (A-State) e a ansiedade traço (A-Trait). Cada escala consiste em 20 itens, os quais são pontuados de 1 a 3, com uma pontuação total em cada versão de 20 a 60. O STAIC foi construído para medir a ansiedade em crianças dos 9 aos 12 anos, podendo ser utilizado em crianças mais
novas, com capacidade de leitura média ou superior e em crianças mais velhas com dificuldades de aprendizagem. Não tem tempo limite para o seu preenchimento, porém, as crianças do quarto ano de escolaridade e acima requerem geralmente de 8 a 10 minutos para completar cada escala e menos de 20 minutos para as duas. A aplicação pode ser efectuada individualmente ou em grupo.
A escala de ansiedade estado destina-se a medir estados de ansiedade transitórios como sentimentos subjectivos, conscientemente percebidos de apreensão, tensão e preocupação, que variam em intensidade e oscilam no tempo.
Esta escala solicita à criança que indique o grau com que experiencia sintomas particulares naquele momento, isto é, como se sente num momento particular do tempo. Os itens desta escala começam com a palavra “sinto-me” e a criança assinala uma das três possíveis respostas que melhor descreve como se sente. Metade dos itens (2, 3, 4, 6, 9, 11, 12, 16, 17, 18), reflectem sentimentos de presença de ansiedade, ou, melhor, de um estado de perturbação, e a outra metade dos itens (1, 5, 7, 8, 10, 13, 14, 15, 19, 20) indicam sentimentos de ausência de ansiedade, ou seja, sentimentos de um estado de infelicidade.
A escala de ansiedade traço avalia diferenças individuais na propensão para desenvolver ansiedade como traço de personalidade. Este tipo de ansiedade tende a ser relativamente estável na percepção e avaliação de situações de ameaça ou perigo. Esta escala pede à criança que indique a frequência com que experiencia sintomas de ansiedade ou como se sente habitualmente. Por exemplo, sinto-me preocupada: 1-nunca, 2-algumas vezes, 3-frequentemente.
As pontuações totais das escalas de ansiedade estado e traço são obtidas somando as pontuações dos 20 itens de cada escala. Pontuações elevadas indicam altos níveis de ansiedade.
Vários países adoptaram esta escala, adaptando-a à sua cultura e realidade. Em Portugal esta escala foi traduzida da versão em língua inglesa desenvolvida por Spielberger para a língua portuguesa por Ponciano. Desta tradução surgiram trinta itens para a escala de ansiedade estado e vinte para a ansiedade traço.
Dos estudos de Matias, et al. (1998)., de Medeiros et al. (1998) e de Rodrigues et al. (1998), a partir de amostras representativas de Portugal (Portugal Continental, Açores e Madeira), resultou uma versão final constituída por vinte itens na escala de ansiedade estado e vinte na escala de ansiedade traço, tal como a versão de Spielberger. Esta versão foi, posteriormente, administrada a uma amostra representativa de crianças da RAM (3284) por Rodrigues (2004), sendo que os resultados da avaliação das características psicométricas do STAIC mostraram, como na versão de Portugal, elevados índices, quer nos estudos de validade, quer nos estudos de fidedignidade,
sendo legítimo afirmar que a versão definitiva do STAIC na RAM é um teste válido, fidedigno e preciso, com capacidade discriminativa elevada.
O coeficiente alpha no STAIC estado foi de .87 e no STAIC traço de .83.
A estabilidade temporal, através do cálculo do coeficiente de correlação r de Pearson entre as duas aplicações, teste e reteste, com duas semanas de intervalo foi de .89 na escala de ansiedade traço e de.47 na escala de ansiedade estado, coeficientes estes significativos.
A estrutura factorial do STAIC com a solução de três factores foi considerada a mais adequada, sendo que o primeiro factor é composto pelos vinte itens da escala de ansiedade traço, o segundo factor abrange os dez itens da ansiedade estado que reflectem sentimentos de ausência de ansiedade e o terceiro factor inclui 10 itens da ansiedade estado que denotam a presença de ansiedade, correspondendo a um estado de perturbação.
Características psicométricas do STAIC
Validade
A matriz de correlações de todas as pontuações das variáveis ou itens da escala dos dados relativos à versão do STAIC, demonstrou que as correlações das variáveis são estatisticamente diferentes de zero, pelo que se adequam a uma análise factorial, cujos resultados foram obtidos com base no teste de KMO (.943) e no teste de esfericidade de Batlett (p<.001).
A estrutura factorial com a solução de três factores foi considerada a mais adequada, pois possui uma estrutura simples, parcimoniosa e cada factor pode ser interpretado com um significado psicológico distinto. Além disso, aquela estrutura é congruente com a teoria de que a escala da sintomatologia da ansiedade estado consiste em itens positivos e negativos, enquanto os itens da escala da sintomatologia da traço possuem apenas uma direcção de resposta.
Também o scree teste (Cattell, 1966) evidenciou três factores.
Os três factores, com valores próprios superiores a 1, explicam a maior parte da variância, isto é, 37.30%, sendo que o factor I explica por si só 21.13% da variância, tendo sido designado por ansiedade estado, enquanto que o factor II explica 9.93%.
O primeiro factor abrange os dez itens de sintomas da ansiedade estado que reflectem sentimentos de ausência de ansiedade, porém, não se pode dizer que não existe ansiedade dado que a pontuação no factor reflecte o estado de ansiedade, isto é, quanto maior a pontuação obtida mais elevado é nível de ansiedade, então torna-se mais claro abordar como um estado de infelicidade. O segundo factor inclui itens que denotam
a presença de ansiedade, que corresponde a um estado de perturbação. O terceiro factor explica 6.24 % da variância e inclui 20 itens que avaliam a sintomatologia da ansiedade traço. Os valores das comunalidades, após a extracção, sugerem que a proporção de variância explicada por cada variável oscilou entre .09 e .69.
As saturações factoriais são muito satisfatórias verificando-se que no factor I oscilaram entre .54 e .82 e no factor II entre .46 e .71. No factor II variaram entre .35 e .62, contudo, o item 27 apresentou .26.
Quadro 17. Estrutura factorial do STAIC. Item Factor I Factor II Factor III h2
1 .54 .33 5 .64 .45 7 .80 .66 8 .77 .62 10 .69 .50 13 .82 .69 14 .70 .52 15 .70 .53 19 .82 .70 20 .51 .27 2 .46 .33 3 .60 .42 4 .71 .53 6 .67 .46 9 .59 .41 11 .65 .48 12 .67 .51 16 .70 .56 17 .69 .53 18 .70 .52 21 .45 .20 22 .42 .26 23 .38 .21 24 .42 .19 25 .52 .28 26 .57 .33 27 .26 .09 28 .40 .17 29 .37 .19 30 .52 .29 31 .44 .20 32 .57 .36 33 .55 .32 34 .60 .37 35 .38 .16 36 .35 .16 37 .62 .38 38 .40 .19 39 .45 .30 40 .53 .28 Valor próprio 8.45 3.97 2.49 Variância explicada 21.13% 9.93% 6.24 %
Fidelidade
Como se pode observar no quadro 18, os valores do coeficiente alpha permitem verificar que a consistência interna é muito boa nas três subescalas. O coeficiente alpha na escala de ansiedade estado (20 itens) é de .90, mais elevada que na escala da ansiedade traço, cujo resultado é de .82.
Quadro 18. Consistência interna do STAIC.
Factor I Factor II Factor III Item a) b) a) a) a) b) 1 .50 .89 5 .59 .89 7 .73 .88 8 .71 .88 10 .63 .89 13 .76 .88 14 .65 .88 15 .66 .88 19 .76 .88 20 .45 .90 2 .45 .87 3 .56 .86 4 .63 .86 6 .57 .86 9 .55 .86 11 .60 .86 12 .63 .86 16 .67 .85 17 .65 .85 18 .62 .86 21 .32 .82 22 .40 .81 23 .36 .81 24 .35 .81 25 .42 .81 26 .47 .81 27 .24 .82 28 .33 .82 29 .35 .81 30 .45 .81 31 .36 .81 32 .50 .81 33 .47 .81 34 .51 .81 35 .25 .82 36 .31 .82 37 .48 .81 38 .36 .81 39 .44 .81 40 .42 .81 α global .90 .87 .82
a) Correlação item-total b) α se o item fosse eliminado
O coeficiente de correlação r de Pearson da escala de ansiedade traço (.90) revela uma estabilidade temporal significativa (p < .0001), como também na escala de ansiedade estado (.64), porém mais baixo, pois esta escala é susceptível a factores situacionais, que podem alterar-se de uma medição para outra (quadro 19).
Quadro 19. Estabilidade temporal do STAIC
Factores r p
Ansiedade de estado - Ausência .62 <.001 Ansiedade de estado - Presença ,63 <.001
Ansiedade de traço .90 <.001
A versão final da escala e das respectivas subescalas corresponde à versão definitiva para Portugal (quadro 20). Os resultados da avaliação das características psicométricas do STAIC mostraram, como na versão de Portugal, elevados índices, quer nos estudos de validade, quer nos estudos de fidedignidade. As duas dimensões da escala da ansiedade estado, tal como sugere Spielberger e os autores da versão portuguesa, serão utilizadas como uma subescala, ficando, assim, a versão final constituída por duas subescalas, da ansiedade estado e da ansiedade traço.
Quadro 20. Versão final do STAIC
Subescalas Item 1-Sinto-me calmo 2-Sinto-me aborrecido 3-Sinto-me nervoso 4-Sinto-me assustado 5-Sinto-me satisfeito 6-Sinto-me apavorado 7-Sinto-me alegre 8-Sinto-me bem 9-Sinto-me incomodado 10-Sinto-me à vontade 11-Sinto-me preocupado 12-Sinto-me baralhado 13-Sinto-me feliz 14-Sinto-me seguro 15-Sinto-me tranquilo 16-Sinto-me confuso 17-Sinto-me perturbado 18-Sinto-me amedrontado 19-Sinto-me contente Ansiedade Estado 20-Sinto-me descontraído 21-Tenho medo de cometer erros 22-Apetece-me chorar
23-Sinto-me infeliz 24-Não me consigo decidir
25-É-me difícil enfrentar os meus problemas 26-Preocupo-me demasiado
27-Não me sinto bem em casa 28-Sou tímido
29-Sinto-me inquieto
30-Pensamentos sem importância passam pela minha cabeça e aborrecem-me 31-A Escola preocupa-me
32-Tenho dificuldade em decidir o que fazer 33-Sinto o meu coração bater depressa 34-Sinto medos que só eu conheço 35-Preocupo-me com os meus pais 36-Tenho as mãos suadas
37-Preocupo-me com coisas que possam vir a acontecer 38-Custa-me adormecer à noite
39-Sinto um aperto no estômago Ansiedade Traço