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par Alain Policar

Dans le document Après tout (Page 23-26)

Eu devia ser lançada ao mar num caixão de cristal, como rezam as histórias... e fui. O mar baloiçava-me.

Quem jamais teve esta sensação?

Baloiçava-me. Eu ia estendida ao comprido e de olhos muito abertos, perfeitamente imóvel. O meu caixão era cómodo. E foi correndo, seguindo. Lá muito longe, no mar alto, começou a ser sacudido e perdeu de todo a calma. Entrou-me o medo no coração e olhei para os lados. Terríveis animais do mar se batiam à minha roda. Eu via eminentes espadas, medonhas, de água viva, e sentia uma chocalhada azoadora.

Quem jamais teve esta sensação?

O mar até perdera a cor, aquele azul e aquele verde que nos encantam. Era baço e sombrio, coberto de espuma suja e escamudo como um peixe. Mas não sei como tive um impulso salvador e escapei-me. Tornei a correr e a seguir livre de perigo. Pelo mar fora, sempre de olhos abertos, um murmurinho muito doce me embalava.

Quem jamais teve esta sensação?

O meu caixão era de puro cristal, transparente. A todo o momento me parecia que o mar e o céu se juntavam para me engolirem. Era uma ilusão, uma curiosa ilusão.

Cobras de água, muito longas e esguias, enlaçavam-se no meu caixão. Eu não as temia, suportava-lhes bem o olhar e sorria quando as via desfalecer. De outras vezes perseguiam-me cisnes monstros, de asas em canoa. Eram espíritos castigados, eu sabia-o. Tanta coisa sabia, de ter ouvido em terra, aos serões! E os saltos e cabriolas dos peixes, uns que voavam outros que mergulhavam, outros que deslizavam... uns em forma de leque, outros de palma, outros de fuso... nem sei! Nada me cansava; tudo maravilhas.

Ai, quem jamais teve destas sensações?

Não sei como, uma corrente talvez, me trouxe para a costa. Choveram estrelas e eu entrei a bordejar no meio delas. Mas a chuva de estrelas era do sol... raiara a manhã. Vi grandes rochas entrando pelo mar dentro. O meu caixão evitava-as. Passei ao rés de um castelo. Três donzelas de luto estavam ao mirante. Choravam. Quis mandar-lhes beijos. E elas viram-me. Coitadas, debruçaram-se a acenar-me, todas aflitas.

Mas eu ia sempre fugindo. Corria à flor do mar, com os olhos postos nas pobres. Talvez vivessem constrangidas. Teriam madrasta ou pai tirano. Sequestradas dos seus namorados, quem sabe?

Por fim os seus lenços encharcados de lágrimas caíram ao mar e vieram atrás de mim, como uns peixes, como uns pássaros...

Eu continuei, mas sempre à vista da costa, ora mais longe, ora mais perto. Que doce é a areia! Lençóis e lençóis de brancura.

Quem jamais teve esta sensação?

Acentuou-se a calmaria e o meu caixão de manso baloiçava. Quase ia cerrando os meus olhos quando vejo, mas eu que vejo?

Um mancebo muito belo, bem vestido e bem armado, que me fitava com enlevo. Levava a mão ao coração e parecia querer arrancá-lo. Sorria-me, balbuciava... e eu que o não podia ouvir! Que pensar daquilo tudo? Se ao menos me pudesse erguer! Senti tamanha dor que dos olhos me começou a correr o pranto. Dois fios de lágrimas contínuos, que me foram encharcando.

Ai, tornar à terra! era só o meu desejo.

Mas... e o mar que começou recuando, recuando? Traiçoeiro!

Vi luzir uma espada tão bela, tão bela temperada, tão formosa, que brilhava inteirinha ao sol. Era dele do meu amado, que acometia o mar.

E que me parecia afinal o mar? Um monstro cobarde a negar-se. Escarvava a areia e recuava, recuava...

Eu já estava inteiramente ensopada em lágrimas. Empalideceram-me as mãos e cerrei os olhos. Amor! ainda me dizia, já devagar, o coração.

Quando tornei a mim era noite alta e fazia um lindo luar. Nereidas, como julgo que se chamam, uns seres muito caprichosos, levantavam-me nos braços.

Quem jamais teve esta sensação? Eu era oferecida em holocausto à lua.

Tão fria e tão rígida me pus que o peso do meu caixão venceu as nereidas, as adoradas do pálido astro.

Senti-me descair, descair; eram os seus braços que desfaleciam, até que cheguei ao fundo do mar e lá fiquei.

2 “MARIA”

Convidaram-me para o casamento do Zé Mocho. Fui. Era no campo. A noiva não chorou; no sítio não existia essa praxe.

O jantar teve muitos pratos e estava tanta, tanta gente que duas grandes mesas não chegavam.

No fim da boda, quando todos nos levantámos, depois dos vivas e dos apertos de mão aos noivos é que as raparigas da lida da cozinha puderam ir comer. Eram todas amigas da noiva, entre elas havia uma tão bonita, tão bonita...

Já andava o povo todo pelo pátio e pela rua e as raparigas, sozinhas, comiam e riam na cozinha. Alguns dos convidados já tinham ido para o baile. Eu fui para o pé delas. Maria, a tal rapariga, mal dizia palavra. Era loira e nem parecia tão queimada como as outras. Não andaria nos trabalhos do campo? Parece que sim. No entanto...

As outras pegavam com ela e faziam-na rir. Trazia um vestido de florinhas que era uma graça.

Maria daqui, Maria dali... Não sei lá o que tinha a Maria que nunca a largavam. Talvez também estivesse para casar.

O cabelo fazia-lhe uma espécie de coroa na cabeça. Era muito basto e ela sabia-o pentear bem.

Quando as raparigas acabaram de comer foram-se enfeitar para o quarto. E eu dirigi- me para a casa do baile. Os músicos, um mais novo e outro mais velho, estavam sentados numa arca das altas a afinar os instrumentos: uma rabeca e uma viola. Já bailava muita poeira no ar. A noiva, cabisbaixa, parecia um poste ao lado do noivo. Os gaiatos da terra andavam pelo meio da casa aos pulos. Quando começaria a dança? Já tardava, sentia-se a impaciência.

Os músicos puseram-se lá na sua faina, mas os pares não se decidiram. Entram finalmente as amigas da noiva. Maria não vinha... E começou o baile. Que desengraçado! À roda, à roda, À roda; só parecia que andavam a varrer a casa.

Encostei-me para trás e distraí-me com o lampião que pendia do tecto.

Olhem para a Maria, oiço então dizer ao meu lado, nem parece ela. Tanto oiro! De quem será? Blusa de seda... e os sapatos?

A Maria, muito clara, chegou-se então às outras raparigas, que se puseram também a olhar para ela. Só me pareciam as suas servas. Nisto vieram os rapazes tirá-las todas para a dança.

Entretanto, ou eu me distraí ou não sei o que se passou, que o baile me pareceu acabado. Toda a gente se arredara para as paredes e um par único andava no meio a dançar, a Maria e o namorado. Por fim este mesmo a deixou e a Maria sempre a dançar, a dançar, não parava. Só o rabequista tocava. Reparei nele. Parecia-me uma criança; tinha uns pés tão pequeninos! Mal chegava com eles ao chão. A sua cabeça, de banda, virada para a rabeca, fazia a vista de uma medalha. E tocava com gosto! Tocava! A Maria sempre a dançar, sempre a dançar... ninguém a largava de vista.

Ó Maria não pares! Isto disse-lhe eu. Ou disse ou julguei dizer, e ou disse ou ouvi. As saias dela levantavam um pó brilhante. E ora batia palmas ora dava os braços. Que graça, que lindeza! Como ela sabia dançar! Uma rapariga que não dava palavra...

Nisto o músico salta da arca e vem tocar para o pé dela. E a Maria a bailar, a bailar, só lembrava um fuso. Já até nos fazia doer a vista. Andavam coisas à roda, à toa, cabelos, fitas...

Maria! Mas a Maria já não podia ouvir ninguém. E o pobre rabequista, levado por ela a tocar casa vez mais depressa, cada vez mais depressa...

Ai!

Credo, que grande ai! Quem é que o deu?

Pudera! Estalou a rabeca e a Maria caiu no chão. Não quis ver mais nada. Saí para a rua a correr. E aos ais; era eu quem dava os ais. Veio o povo atrás de mim para saber o que é que eu tinha.

Não tinha nada, queria voltar sozinha para casa.

Deixaram-me e eu então olhei para Lua. Que serenidade, que paz! Aquela paz triste e doce das noites do campo, quando faz luar! Sosseguei.

Na casa do baile continuava a dançar. A música tocava e as sapatolas rijas dos barrões raspavam o chão.

E a Maria?

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