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5. INSTALLATION ET PARAMÉTRAGE DU MODULE

5.3. Paramétrage du module de paiement

5.3.2. Paiement standard

Podemos afirmar que Planetary, assim como o Floco de Neve, é um objeto de muitas facetas. Uma história de super-heróis, uma reflexão sobre o gênero, um levantamento da cultura popular do século XX e uma ferramenta de desnaturalização. Warren Ellis e John Cassaday tomaram os temas do movimento Revisionista e criaram uma história política dos super-heróis, buscando ao mesmo tempo examinar suas falhas e celebrar as ideias que deram

24 form a ,narrative in which the circulation and the integration of various images selected from popular 20th-

century cultural objects are subjected to defamiliarization and generic realignment. In Planetary, this intericonicity is structured by the metaphor of archeology, which determines how these images are transported, integrated and cited.

origem a eles. Elijah Snow, Jakita Wagner e O Baterista são heróis contemporâneos, cujos poderes lidam com informação e história, e cuja missão é a de manter não o status quo, mas o que foge das regras e produz maravilhas. "É um mundo estranho", dizem os personagens, em vários momentos da obra. "Vamos mantê-lo assim".

Longe de esgotar o objeto, os trabalhos comentados acima se atêm principalmente à relação dos quadrinhos com sua própria história como mídia. Dado o pouco tempo que a forma de arte tem sob o olhar da academia, é natural que as primeiras questões exploradas sejam dessa ordem. Para nós, é interessante pensar as práticas intertextuais de Planetary pelo viés da história secreta, como um gênero literário e forma de pensamento político. Se por um lado o quadrinho pode ser compreendido como uma investigação do próprio gênero de super - heróis, por outro ele também pode ser um catalisador para o estudo de articulações entre cultura popular e realidade social em todo o século XX. Suas representações são carregadas de peso histórico, além de profundas implicações midiáticas.

Porém, esta pesquisa não busca se focar apenas no que Planetary nos diz, mas como ele o faz. Para isso, pegamos emprestados diversos conceitos trazidos pelo pós- modernismo, como as noções de historicidade, desnaturalização e especialmente metaficção. A maneira como forma e conteúdo servem ao mesmo propósito de contestar grandes narrativas e abraçar as contradições de uma nova historiografia, uma simultaneidade heterogênea e tonal que remete ao “tempo monstruoso” de que falam Herman e Vervaeck (2005). Acima de tudo, nos interessa observar como Planetary traz à tona um corpo de produtos culturais de diferentes épocas e mídias e, a partir dessa cacofonia de referências, se põe a emendar uma teia de significações e relações históricas.

Um quadrinho sobre histórias em quadrinhos, Planetary não reestabelece narrativas anteriores, mas constrói sua própria a partir delas, reconhecendo que histórias nunca podem ser reconstruções do passado. Não existem eventos “reais” primeiro, seguidos de seu registro. “Narradores que reconstroem a si mesmos por suas memórias não acabam com seu eu ‘real’ ou ‘original’ mas com outra construção” (HERMAN; VERVAECK, 2005, p.112). É o processo dessa construção que nos interessa aqui.

Acreditamos que, no centro dela, está a metaficção. Assim como a arqueologia, ambas são uma maneira de renovar a percepção dos objetos escavados ao revelar o usual e o convencional. Para compreender melhor este aspecto, vamos explorar o conceito de metaficção e sua relação com as muitas definições de metaquadrinho.

Figura 11 – Para Laberre (2015), a imagem ganha materialidade ao se tornar um artefato arqueológico.

2 CANÇÕES DE CRIAÇÃO (ou: Metaficção)

No ensaio Metalanguage in social life (LEEUWEN, 1998, p.107), Theo van Leeuwen afirma que existem, de maneira geral, duas abordagens para a metalinguagem. Uma delas diz respeito à sua função, enxergando-a como parte do processo comunicativo, portanto parte das chamadas "linguagens objeto". Esse é o caso, por exemplo, da função metalinguística proposta por Roman Jakobson em seu modelo de funções da linguagem, até hoje ensinado em escolas de ensino básico. Quando perguntamos a um interlocutor no meio do diálogo "O que você quer dizer?", por exemplo, estamos usando a função metalinguística, ou usando linguagem para falar de linguagem.

Leeuwen aponta que essa metalinguagem é uma característica humana fundamental, talvez originada antes mesmo da invenção da língua, na possibilidade de "enquadrar" ações comunicativas de diferentes maneiras (LEEUWEN, 1998, p.108). E que esse pensamento funcional continua presente, por exemplo, nas ciências da computação, onde metadados são usados para classificar e organizar bancos de dados. Mais uma vez, uma camada de informação sobreposta sobre outra.

A segunda abordagem estabelecida por Leeuwen lida com questões de representação: metalinguagem é uma forma de linguagem que se refere não a objetos ou situações do mundo, mas a outra linguagem. Ou seja, ela se refere a representações do mundo. L. Hjelmslev propôs essa definição em 1943, ao observar que a linguística, até então, tomava a linguagem "natural" como principal objeto de sua teoria. No entanto, segundo ele, "também existem semióticas cujo plano de expressão é uma semiótica e semióticas cujo plano de conteúdo é uma semiótica. Devemos chamar as primeiras de semiótica conotativa e as segundas de metassemiótica25" (HJELMSLEV, 1961, p.114), sendo a metassemiótica "uma semiótica científica cujo(s) plano(s) é (são) uma semiótica [denotativa]26" (idem, p.120).

Para Leeuwen:

O movimento da "linguagem objeto" para a "metalinguagem", ou, nos termos de Hjelmsvel, da "semiótica denotativa" para a "metassemiótica", é também um movimento da ênfase no significado para a ênfase no significante, de pensar a linguagem como significado ou como comunicação, para pensar a linguagem como forma. Esse movimento não foi restrito ao campo da linguagem. Foi um grande modo de pensamento no século XX27. (LEEUWEN, 1998, p.107)

25 (...) there are also semiotics whose expression plane is a semiotic and semiotics whose content plane is a

semiotic. The former we shall call connotative semiotics, the latter metasemiotics.

26 (...) a scientific semiotic one or more of whose planes is (are) (a) semiotics(s).

27 Moving from "object language" to "metalanguage", or, in Hjelmslev's terms, from "denotative semiotic" to

O contraste entre forma e função não é uma dicotomia: ambos os aspectos estão em constante tensão no centro da metalinguagem. E, como podemos perceber a partir dessa breve explanação, a metalinguagem em sua forma mais básica (um sistema de significado que se dedica a outro sistema de significado) está presente na maneira como pensamos, como nos comunicamos e como compreendemos linguagem. Para Dan Sperber, essa é uma parte fundamental da consciência, "podendo ser até vista como definidora da mesma" (SPERBER, 2000, p.5).

Para David Rosenthal (1986, 1997 apud SPERBER 2000), em particular, um estado mental é consciente se representado em um pensamento de alta-ordem. Quando um pensamento é consciente, o pensamento de alta-ordem que o representa é uma metarrepresentação. Esses pensamentos de alta ordem podem eles mesmos ser objetos de pensamentos de uma ordem ainda mais alta: o caráter reflexivo da consciência (i.e, o fato de que o indivíduo pode ter consciência de ser consciente) é explicado então em termos de uma hierarquia de metarrepresentações28. (SPERBER,

2000, p.5)

Para o autor, a capacidade do ser humano para criar metarrepresentações é "não menos fundamental que sua capacidade para a linguagem", e que entender "o caráter e o papel dessa capacidade pode mudar nossa visão do que é ser humano" (SPERBER, 2000, p.6). Embora a obra organizada por Sperber, Metarepresentations: A Multidisciplinary Perspective, use uma definição de metarrepresentação que apresenta pouca semelhança com a metaficção de que vamos tratar adiante, nos parece interessante reforçar a aparente tendência do ser humano de examinar a si mesmo: pensar sobre seus pensamentos, falar sobre sua linguagem, contar histórias sobre suas histórias.

O alemão Wolf (2009) identifica essa tendência como uma "metaização" (Metaisierung), o movimento de um primeiro nível de comunicação para um nível "mais alto onde os pensamentos e enunciados do primeiro nível, sobretudo os meios usados para esses enunciados, se tornam objetos de reflexão e comunicação por si próprios, de forma autorreflexiva" (WOLF, 2009, p.3). E esse processo seria uma característica comum não só ao pensamento e à linguagem como meio primário, mas à literatura e talvez todas as outras mídias como meios secundários.

Apesar disso tudo, como veremos durante este capítulo, a pesquisa acadêmica apresenta poucas tentativas de criação de uma teoria dos metafenômenos que ultrapasse as

thinking of language as meaning, or as communication, to thinking of language as form. This move was not restricted to the field of language. It was a major mode of twentieth century thought.

28 For David Rosenthal (1986, 1997), in particular, a mental state is conscious if it is represented in a higher-

order thought. When a thought itself is conscious, then the higher-order thought that represents it is a straightforward metarepresentation. These higher-order thoughts may themselves be the object of thoughts of a yet higher order: the reflexive character of consciousness (i.e., the fact that one can be conscious of being conscious) is then explained in terms of a hierarchy of metarepresentations.

gaiolas epistemológicas de cada disciplina, para usar a metáfora de Ubiratan D'Ambrósio (2016). Cada teoria tende a se concentrar num único meio, sendo a maior parte dos estudos sobre o assunto concentrada na disciplina de teorias literárias, com foco especial no romance. E a contribuição mais importante para o campo é o conceito de metaficção, as histórias sobre histórias, proposto em 1970 por William H. Gass, que iremos examinar a seguir.

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