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(i) Empréstimos – base na palavra escrita e uso de letras soletradas

Nesta categoria, o foco são os sinais-termos decorrentes de empréstimo por letras do alfabeto manual, apresentamos abaixo alguns exemplos encontrados com o uso de soletração mais morfema base ou sem morfema-base (Figura 1).

Figura 1 – Exemplos de uso de soletração.

BASE TEXTO FOTO

Significado da base: SOLETRAÇÃO/ LITERATURA= TRANSLITERAÇÃO DA LETRA INICIAL + MORFEMA BASE POESIA= Fonte: os autores.

A seguir apresentamos alguns sinais identificados como baseados em uma ideologia de empréstimo das línguas faladas vocalmente por meio do uso da dati- lologia (Tabela 3), além disso, possuem também uma letra inicial utilizando mor- fema-base.

Tabela 3 – Empréstimo de soletração

Tipo de transliteração Conceito Quantidade País

(total = 2)

Transliteração, por exemplo, Literatura Infantil 1 EUA P.O.E.M.A (Soletração) Poesia 1 Roménia Transliteração da letra inicial, Conceito Quantidade País com movimento adicional – por (total = 10)

exemplo, P. com movimento ziguezague Conto 1 China

Poema 4 Bielorrússia, Estônia,

Letônia, Lituânia

Poesia 1 Lituânia

Poeta 1 Lituânia

Transliteração da letra inicial com Conceito Quantidade País morfema base - por exemplo, (total = 4)

P. + morfema base {texto escrito} Literatura 4 Itália, Turquia,

Espanha, Letônia

Fonte: os autores.

Em cada exemplo, vemos o uso de um sinal com elementos de origem não nativa na língua sinalizada para descrever uma forma de arte linguística e visual em língua de sinais. Observamos que essa ideologia de usar uma forma de trans- literação para a constituição do sinal carrega o sentido de conceitos próprios da língua falada vocalmente para os conceitos em língua sinalizada. Entendemos que um sinal nativo para o conceito, sem relação direta com a língua falada vocalmen- te, pode valorizar melhor não somente a língua de sinais, mas, principalmente, essa forma de arte sinalizada.

(ii) materialidade – sinais icônicos usando morfemas-base {papel} e {livro}

Nesta categoria, focamos especialmente nos elementos livro e papel, sendo a ideologia das línguas faladas vocalmente que a literatura se encontra nos livros (diferentemente do que ocorre nas línguas de sinais). Observamos os exemplos de morfema: {livro} ou {papel} e, também, o uso da configuração da mão em “L” para identificar a palavra literatura que inicia com a letra L, ou mesmo P para identificar o poema, o poeta ou a poesia que iniciam com essa letra. Assim temos o significado do morfema-base com motivações icônicas para os sinais vinculado ao

elemento papel, do livro e da ideia de leitura, sendo a ideia da ideologia das línguas escritas em que a literatura é um artefato basicamente escrito

Figura 2 – Exemplos de Morfema-base: {Papel}

BASE TEXTO FOTO

SIGNIFICADO DA BASE: LITERATURA= PAPEL/MORFEMA

POETA=

TRANSLITERAÇÃO DA LETRA

INICIAL + PAPEL + MORFEMA POEMA= BASE

POESIA=

CONTO=

Fonte: os autores.

Figura 3 – Exemplos de Morfema-base: {Livro}

BASE TEXTO FOTO

Significado da base: LITERATURA= LIVRO/MORFEMA

TRANSLITERAÇÃO DA LETRA INICIAL + PAPEL + MORFEMA BASE

Fonte: os autores.

A seguir mostramos alguns os sinais motivados pela ideologia de que a literatura é um fenômeno escrito baseado num texto – um morfema dos sinais refere à ação de escrever ou de ler um texto com o morfema-base {papel} ou {livro} (Tabela 4).

Tabela 4 – Sinais relacionados à ideologia da literatura escrita (62 sinais)

Conceito Quantidade (Total = 63) Países

Conto 5 Inglaterra, Itália, Japão, Roménia, Suécia

Literatura 17 Alemanha, Áustria, Bielorrusso, China, Croácia, Estônia, França, Inglaterra, Islândia, Japão, Polônia, Portugal, República Checa, Roménia, Rússia, Suécia, Ucrânia Poesia 15 Bielorrússia, China, Croácia, Espanha, Estoniano, Inglaterra

Paquistão, Islândia, Letónia, República Checa, Rússia, Sinais Internacionais, Suécia, Turquia, Ucrânia Poema 9 Áustria, Espanha, França, Índia, Islândia, Polônia,

Rússia, Suécia, Ucrânia

Poeta 17 Áustria, Bielorrússia, China, Espanha, Estônia, EUA, França, Inglaterra, Paquistão, Islândia, Letônia, Polônia, Portugal, Rússia, Suécia, Turquia, Ucrânia

Piada 0

Fonte: os autores.

Observamos que a maioria dos países usam para a constituição dos sinais essa ideologia fundamentada na literatura como texto escrito que, por sua vez, demanda leitura. O corpus mostra que isso acontece, especialmente, para os con- ceitos relacionados à poesia e à literatura. Essa perspectiva para ignorar o fato de a literatura e a poesia serem também um fenômeno sinalizado que é produzido em língua de sinais, visualmente.

(iii) fala vocal – sinais icônicos usando morfemas-base relacionados à “boca”:

Nesta categoria, o foco está, especialmente, na boca como produção de literatura falada vocalmente, ou seja, na ideologia de que nas línguas orais a literatura é um artefato vocal ou mesmo um processo falado vocalmente. É in- teressante notar que alguns sinais também parecem se valer da letra inicial da palavra9.

Vemos alguns sinais que utilizam a BOCA como base para a construção dos sinais referentes aos conceitos investigados. Isso corrobora o fato de que nas línguas faladas vocalmente a literatura é vista como um produto vocal, falado (Fi- gura 4).

9 Vale lembrar que não é de conhecimento dos autores as línguas estrangeiras citadas impossibili-

Figura 4 – Exemplos de uso da BOCA como base

BASE TEXTO/SINAL CM-O-M-L FOTO

Significado da base: LITERATURA= BOCA

CONTO=

POEMA=

POETA=

Fonte: os autores.

Tabela 5 – Sinais relacionados à ideologia da fala vocal – BOCA (15 sinais)

Conceito Quantidade (total = 15) Países

Conto 7 Alemanha, Bulgária, Croácia, Espanha, Estônia, Paquistão, Polônia

Literatura 2 Paquistão, Lituânia

Poema 4 Alemanha, Grécia, Paquistão, Roménia Poeta 2 Grécia, Roménia

Poesia 0 –

Piada 0 –

Fonte: os autores.

Lembramos que a localização do sinal na região próxima a boca pode se referir às outras funções da boca e não apenas a fala vocal. Muitos sinais referindo ao conceito “Piada” são articulados na boca por causa dos risos que despertam, e não necessariamente da ideia de uma piada ser contada vocalmente. De qualquer maneira, vimos alguns sinais motivados pela imagem de que a produção da litera- tura teria como base a língua falada. Esses sinais corroboram a ideia de que esses conceitos literários são falados vocalmente, e não sinalizados.

(iv) visual – sinais vindos de aspectos estéticos, emocionais e corporais

Nesta categoria, focamos nos sinais que parecem não ser influenciados pe- las ideologias vinculadas à concepção de que a literatura seria escrita ou falada vocalmente. Esses sinais mostram emoções, incorporação ou outras imagens icô- nicas (sendo eles metafóricas ou metonímicas)

Figura 5 – Exemplos de sinais visuais (aspectos estéticos, emocionais e corporais)

Base Texto/Sinal CM-O-M-L Foto

Significado da base: BRAÇO POEMA= TRONCO BOCA POESIA= PIADA Fonte: os autores.

Observamos acima alguns exemplos de incorporação de personagem, mos- trando por ação construída conceitos relacionados a sentimento, emoção e ações nos braços, dedos e tronco, (Figura 5). Os sinais [poema] e [poesia] que usam o braço mostram a locação metonímica das emoções. E o sinal [piada] no tronco mostra a incorporação de uma pessoa rindo.

Tabela 6 – Exemplos de sinais com ideologia estética, emoções e ações corporificadas

Conceito Quant. (Total = 50) Países

Conto 10 Áustria, Bielorrússia, EUA, França, Islândia, Letônia, Lituânia, República Tcheca, Rússia, Ucrânia

Piada 25 Alemanha, Áustria, Bielorrússia, Croácia, Espanha, Estônia, EUA, França, Grécia, Índia, Inglaterra, Paquistão, Islândia, Itália, Japão, Letônia, Lituânia, Polônia, Portugal, República Tcheca, Roménia, Rússia, Suécia, Turquia, Ucrânia Poema 6 Croácia, EUA, Inglaterra, Itália, Portugal, República Tcheca Poesia 6 Alemanha, Áustria, França, Itália, Polônia, Portugal Poeta 3 Alemanha, Croácia, Itália

Literatura 0 –

Fonte: os autores.

Vimos que em nossos estudos e análise da terminologia de sinais do cam- po da literatura usados em diferentes partes do mundo, também encontramos constituídos com base em uma ideologia que considera a visualidade e demais aspectos específicos da língua de sinais permitindo assim a criação de sinais nativos.

Apesar de verificar que as motivações dos sinais variam, é possível perceber que os seis conceitos abordados diferem entre si em relação às suas motivações ideológicas. Vejamos.

Tabela 7– Conceitos e sinais organizados nas categorias

Conceito Motivação: Motivação: Motivação: Motivação: Motivação soletração materialidade fala vocal visual não definida (N=16) (N=62) (N=15) (N=50) (N=3) Conto (N=24) 1 5 7 10 1 Literatura (N=24) 5 17 2 0 0 Piada (N=26) 0 0 0 25 1 Poema (N=24) 5 9 4 6 0 Poesia (N=24) 4 14 0 6 0 Poeta (N=24) 1 17 2 3 1 Fonte: os autores.

Nesta tabela, vemos que a maioria dos sinais motivados visualmente, isto é, por estética, emoções e ações corporificadas encontram-se principalmente no conceito piada, uma forma de criatividade linguística menos valorizada pelos estudos literários, mas bem mais tradicional, inclusive na comunidade surda. Vemos também que a motivação relacionada à leitura/escrita se encontra em muitos sinais de literatura, poesia e poeta, que são mais valorizados nos estudos acadêmicos.