Só há verdadeira educação na medida em que o educando se apropria – em
plano consciente e articulado – de seu mundo que, antes, aparecia fragmentado e
desconexo. A realidade humana, já o lembrava Heráclito, ―desce‖ e, por assim dizer,
se esconde na inaparência das incidências mais cotidianas da vida: é refletindo
sobre elas que podemos aprofundar em aspectos significativos da própria existência.
Tínhamos começado lembrando a sugestiva acumulação semântica da
palavra ―enseñar‖ na língua espanhola: ensinar e mostrar; ensinar é, embora
medida, mostrar. E procuramos mostrar, ao longo deste trabalho, o significado e o
alcance antropológico em diversos níveis, de aspectos da cozinha (& Cia.), ligados
ao cotidiano, guiados pelo olhar de NH, selecionando algumas de suas sugestivas e
criteriosas indicações. Na esperança de oferecer subsídios de interface a
professores de diversas disciplinas, tanto no nível das considerações teóricas, como
também sugerindo, aqui e ali, atividades concretas que podem facilmente ser
realizadas na escola.
Naturalmente, caberiam aqui diversos outros temas e capítulos, mas nosso
objetivo não é (isto seria impossível) o de esgotar o assunto nem o de examinar
exaustivamente o pensamento de NH. Mais modestamente, pretendemos
simplesmente chamar a atenção para o alcance antropológico da cozinha e da
culinária, visando oferecer a professores – de diversas disciplinas – essa perspectiva
nova a ser incluída em suas aulas: temas, atividades e textos que o possam auxiliar
nessa tarefa.
Chegados a esse ponto do trabalho, é hora de retomar sinteticamente alguns
resultados desta pesquisa que, de algum modo, corroborem essas nossas
hipóteses.
Após evidenciar a importância do corpo e da realidade cotidiana (e seus
condicionamentos metodológicos) para a Antropologia Filosófica e para a Educação,
fomos percorrendo – valendo-nos do método da verstehen e, por vezes, da collatio –
diversas instâncias que pudessem orientar concretamente o professor.
Assim, nosso aluno, situado em condições tão especiais de tempo e de
espaço, e imerso em um mundo no qual tudo lhe é oferecido ―pronto e embalado‖ e
frequentemente não entra em contato com as realidades envolvidas com os
alimentos. Não imagina, por exemplo, o enormemente dramático problema que foi
(e ainda é, mas hoje em condições menos dramáticas) a conservação de alimentos.
Só há cerca de 100 anos podemos dispor de refrigeradores e, fora do contexto da
conservação, não se compreende a imensa importância histórica do sal. Quanto da
história da humanidade não se compreende melhor com simples atividades
escolares como as de compreender o prazo de validade de produtos do
supermercado ou observar a deterioração deste ou daquele alimento.
Para além dessa dimensão físico-química e biológica, discutimos, também no
Cap. 1, a inspiradora Nina Horta (NH) como a grande entrada ―le hors- d´oeuvres‖ e
sua iniciação no mundo das panelas e das novas tecnologias.
O Cap. 2, foi abordado aspectos da conservação de alimentos ao longo das
décadas como uso de especiarias e o gelo.
―Comida de alma‖ (cap. 3), conceito cunhado por NH, nos transporta para as
relações entre cozinha e a afetividade; o equilíbrio emocional (/ a depressão) etc. e,
por collatio, o contraste entre comida de alma e comida de quartel; a merenda da
escola etc. Neste caso, já com nomear já se possibilita uma melhor compreensão do
mundo por parte dos educandos.
Não poderia faltar a discussão, hoje tão urgente e necessária, das relações
entre comida e saúde da criança e do adolescente (Cap. 4): comida perversa, seus
prós e contras. Aqui também atividades tão simples, como o sugerido exame de uma
tabela nutricional na embalagem de salgadinho podem ser de extrema importância
na educação.
Nos capítulos 5 e 8 (cozinhas e utensílios) discutimos outro tema
antropológico relevante e que – também ele – corre o risco de ser esquecido, ―dado
por supuesto‖: o das instalações, equipamentos e utensílios, que têm sua história e
significados em suas identidades, mesmo que seja um simples garfo. Pretende-se
que o aluno possa compreender o significado dos instrumentos, como extensão
natural do corpo, e da cozinha como um ―lugar‖ de extraordinária importância
antropológica.
Em religiões e vegetarianismo, capítulos 6 e 7, que podem propiciar tantas e
tão interessantes atividades na escola, somos conduzidos ao rico âmbito das
religiões, que
também elas ―descem‖ heraclitianamente aos alimentos, sabores,
prescrições e proibições: a cozinha, de modo mais significativo que o mero ensino
teórico permite a nossos alunos o verstehen de tantos aspectos dessa realidade
humana: a religião.
A culinária, além dos ganhos dos profissionais da área, também pode reverter
em benefícios como nos presídios que após três dias trabalhados revertem a um dia
menos na pena do preso e ainda, proporciona uma profissão para quando o mesmo
receber a liberdade.
Esperamos que tendo chamado a atenção dos educadores para o potencial
pedagógico do tema cozinha, mais não seja do que amostralmente, este trabalho
possa estimular professores a acolherem esse tema em seu ensino e selecionarem
eles mesmo seus temas culinário-antropológico e suas próprias atividades didáticas
que possam enriquecer seus alunos e abrir a consideração a este tema tão próximo
quanto esquecido: a cozinha como base da realidade humana.
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