cultarem a concretização dos sonhos, dese- jos e necessidades coletivas das populações.” Ao situarem-se no campo da educação popular, apóiam uma formação política que constitui o concerto dialógico envolvendo o princípio de comunidade e a esfera institu- cional e, dessa forma, propõem que o poder analítico dos grupos e movimentos popula- res possa dialogar sobre ações compartilha- das o que inclui discussão, reflexão crítica e possibilidade de diálogo concreto.
A perspectiva popular a que nos re- ferimos diz respeito ao olhar dos atores e atrizes dos movimentos populares como protagonistas de ações de transformação às situações-limite da sua realidade, na pers- pectiva da emancipação; de um popular que se tece na busca de superação da consciên- cia ingênua rumo ao inédito viável: como inacabamento, formação permanente que se constitui em determinados princípios e se orienta por uma ética que busca a justiça, a solidariedade nas relações e nas políticas trazendo a tensão permanente entre ação política e o fortalecimento dos espaços or- ganizativos que animam a luta popular em sua mediação com a esfera institucional. Buscamos o popular que, ao produzir atos- -limite transformadores da realidade atuali- za sua potência criativa.
Neste estudo, apresentamos a arte como espaço de criação – transcendência, capaz de produzir sentidos e sentimentos, e optamos por tomá-la como dimensão dos sujeitos que potencializa a dialogicidade ca- paz de realizar a suspensão crítica e criativa
onde se promove a reflexão das ações em saúde. Assim é que buscamos as situações vividas onde se favorece a escuta em rede da experiência coletiva tentando capturar o dialogismo trazido pela arte na gestão em saúde.
Esta tese nos desafiou a delinear um percurso, de ação-reflexão-ação sobre as Cirandas da Vida – onde atuamos, re- fletimos e intervimos coletivamente, na perspectiva de pensar gestão popular no contexto do Estado, com suas linguagens e caminhos singulares em saúde popular e, recortamos as esferas dialógicas da gestão popular em saúde nas quais nos movemos trazendo a arte também como linguagem, no contexto da gestão atual em saúde.
Para traçar esses caminhos, ousamos construir uma pesquisa-ação que cunhamos de Ciranda de Aprendizagem e Pesquisa em cuja abordagem multirreferencial envolve- mos atores populares – os cirandeiros – que constituíram o grupo sujeito deste estudo, coautores e protagonistas da produção do co- nhecimento nessa vivência de práxis grupal fundamentada na Comunidade Ampliada de Pesquisa, Comunidade Ampliada de Pa- res, nos círculos de cultura e na arte.
O percurso também inclui os teste- munhos e narrativas de vida como ex- pressões de um saber coletivo carregado de historicidade, subjetividade e sentidos, incorporando a oralidade e potencializan- do a atualização temporal e espacial desses atores – sujeitos em seus discursos. Dessa forma a Ciranda de Aprendizagem e Pesquisa traz esse referencial buscando aprendizados
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Diálogo com a experiência
que se fundamentam na possibilidade de nos percebermos sujeitos que aprendem ”desde o princípio mesmo de sua experiên- cia formadora, assumindo-se como sujeito também da produção do saber” (FREIRE, 2000, p. 24).
A proposta metodológica da Ciranda
de Aprendizagem e Pesquisa está organizada
em momentos não estanques e que podem acontecer simultaneamente ou em tempos diversos partindo da constituição do grupo
sujeito. Os cirandeiros trouxeram em seus relatos, as experiências vividas que os refe-
rendaram a ocupar esse lugar, ensejando leituras sobre o território e os questiona- mentos sobre as trilhas que empreenderam nas Cirandas. Esses relatos e as questões
geradoras levantadas por parte de cada um
são relidos pelo grupo, que problematiza e produz reflexões e, por sua vez, suscitam a
escrita coletiva constituída não apenas dos
textos formais, mas também da produção de desenhos, músicas, textos teatrais, poe- mas e outros.
As situações-limite apontadas pela população, bem como os atos-limite (as superações propostas e vividas para trans- formar o que se detecta como situação- -limite) foram base para os enfrentamen- tos do princípio de comunidade e a esfera institucional. Com estes movimentos, cria-se uma perspectiva de engendrar o
inédito-viável.
As narrativas dos cirandeiros e ciran- deiras desencadearam movimentos que, por sua vez, configuraram sinfonias por onde as Cirandas da Vida marcaram sua
passagem nas diversas regiões da cidade, junto aos seus atores protagonistas ge- rando atos-limite, potentes em seu poder de transformação, que se entrelaçam e se intercambiam em um movimento circu- lar como as cirandas e, ao mesmo tempo, complexo como a própria vida.
As sinfonias trazem, harmonias e con- trapontos, como espaço polifônico do dizer das culturas humanas e também revelam desafios. Um deles é o de se constituir na gestão em saúde um caminho de interseto- rialidade, capaz de comportar a perspectiva popular onde a arte se apresenta como po- tência e devir social.
Este artigo se constitui a partir de uma dessas sinfonias que teve os jovens em situ- ação de conflito com a lei como protagonis- tas, buscando desvelar caminhos de inclu- são na vivência com a juventude vida loka. O rap como narrativa da realidade de jovens em conflito com a lei
As Cirandas, em suas trilhas musicais, constituem novos percursos e outros arran- jos sinfônicos expressos na batida marcan- te do rap, trazendo para o centro da roda a problemática da juventude envolvida com o crime, com a exploração sexual, introduzi- da na Ciranda de Aprendizagem e Pesquisa com a fala do cirandeiro Thyago, o mais jo- vem dos cirandeiros pesquisadores. Advin- do do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua do Ceará (MNMMRCE) e da região do Grande Lagamar, ele inicia seu relato:
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Ministério da Saúde II Caderno de Educação Popular em Saúde
Olha a Fortaleza Bela Nesse imenso arquipélago De bairros e favelas Área de contradições É a regional II
Onde porções de riquezas
São cercadas por bolsões de pobreza Vocês tirem a prova,
Mas eu tenho certeza.
A fala musical do cirandeiro contextu- aliza o cenário onde se delineia a sinfonia que nos propomos agora analisar. O Gran- de Lagamar é um território, que, perante um contexto de dificuldades sociais, ousa se reconhecer como “uma comunidade de luta” elaborando suas estratégias de luta e resistência, no sentido do fortalecimento da organização popular, protagonizada inicial- mente pelas mulheres.
Nesse território, a questão da violên- cia, para os jovens, surge de forma bastante contundente. Nos aprofundamentos que se seguiram às primeiras rodas das Cirandas, apontou-se a necessidade coletiva de cons- tituir atos-limite para um grupo de jovens em grave situação de vulnerabilidade social, como é o caso dos jovens em situação de conflito com a lei e dos adolescentes e jo- vens em situação de exploração sexual.
Para o cirandeiro Thyago,
As Cirandas da Vida na SER II se re- alizam em um cenário marcado pelos lutas sociais, pela moradia e resistência e no pas- sado pela luta da sobrevivência. Por parte da juventude, nesses tempos atuais, par- ticularmente para mim, palco melhor não existiria em tal regional. Tal palco é chama- do de Grande Lagamar, comunidade esta que se aglomera nos bairros do Pio XII, Aerolândia, Alto da Balança, São João do Tauape e Lagamar, que surge já oriundo da luta de resistência e sobrevivência das famílias vítimas da seca, que foram morar às margens do riacho Tauape.
Os grupos de juventude apontam, mais fortemente, a violência do acesso aos direitos básicos de cidadania, que se expressam no tráfico de drogas e de- saguam na discriminação e no cerco de negações conhecido como “mundo dos jovens em conflito com a lei”.