CHAPITRE 3 MÉTHODOLOGIE
3.2 P ROCEDURES ET INSTRUMENTS DE CUEILLETTE DE DONNEES
O objetivo da investigação é apreender as representações sociais das ajudantes sobre o ato de cuidar, por isso estas foram convidadas a responder a um conjunto de perguntas sobre o Cuidar.
A entrevistadora interrogou as colaboradoras sobre o que significa «cuidar». As respostas apresentam ideias muitas semelhantes entre si, giram em torno do conceito de tratar e de atender as necessidades dos idosos.
Quando as entrevistadas definem o ato de cuidar como «tratar bem», referem-se ao tempo que dedicam aos idosos, ao modo como se ocupam deles, como transparece na resposta da auxiliar Olga: «É tratar bem deles, é ajudá-los no que eles não conseguem fazer. É às vezes chamar um bocadinho a atenção porque estão muito parados, não se querem mexer e a gente às vezes tenta puxar um bocadinho por eles» (Olga, ent.18).
Pode afirmar-se que as ajudantes encaram todos os seus atos como um ato de cuidar, desde os cuidados com a higiene, o vestuário e a alimentação à comunicação com os idosos. As respostas seguintes são elucidativas: «Cuidar é desde o … Todas as necessidades que eles têm, conversar, desde a higiene, a conversar… as roupas, o ver a apresentação deles, o dar-lhe um bocadinho de alegria, o saber escutá-los, tudo» (Natália, ent.4), «Olhe, é fazer a higiene, lavá-los bem…penteá-los, ajeitá-los à maneira deles, para que eles fiquem satisfeitos, dar-lhe carinho, dar-lhe o comer, dar-lhe essas coisas todas» (Carmo, ent.7), «Cuidar é termos muito cuidado. É ter aquela lida, ver se
ele está vermelho, quando se lhe faz a higiene… Como é que está, se tem alguma
escarazita, para se dizer à enfermeira» (Célia, ent.9). Para as ajudantes cuidar representa atender o idoso nas suas necessidades.
Algumas ajudantes realçam a importância do cuidado que a ajudante deve ter com a imagem do idoso, como a ajudante Sofia: «Cuidar é fazer-lhe tudo. Fazer tudo dentro do que eu posso fazer. Porque eles também não podem parar. É limpá-los, trazê- los sempre bem vestidos, pôr perfume, pintar-lhes as unhas, que isso então, tenho lá
duas que estão sempre desertas, que eu lhe pinte as unhas (…) Cuidar deles, cuidar da
imagem deles. Porque, por exemplo, há aquelas que ainda escolhem a roupinha, há as que não escolhem, mas que a gente põe e elas gostam de estar a combinar, gostam de
estar bonitas, cheirosas. E pôr um fio, pôr ali um fio a elas. Gostam. Um lencinho, às vezes, ao pescoço, a compor. Adoram» (Sofia, ent.10). Efetivamente, uma forma de manter o idoso ligado à vida será dar-lhe oportunidade de escolher o que vestir, o penteado, os adornos, os pertences que desejam manter consigo durante o dia. Trata-se de elementos que reforçam a identidade pessoal e por isso devem ser imensamente respeitados.
Com vista a aprofundar o assunto, propôs-se às ajudantes que continuassem a frase Cuidar é… Então, ficamos a saber que na sua perspetiva cuidar é dar amor, fazer o bem, melhorar a autoestima, auxiliar e limpar, para além do que já foi mencionado acima.
A resposta da ajudante Julieta expressa o valor das manifestações de afeto aos idosos: «Cuidar é tratar. Tratar e dar carinho, dar amor, dar carinho… que eles têm a falta do carinho dos filhos, não é? Da família… poem-nos aqui…e pronto (…) O falar
com eles, até o simples… Temos lá uma velhinha em baixo, uma senhora acamada,
gosta muito que a gente lhe conte uma anedota. E ela mal se lhe percebe a fala, mas se nós lhe contarmos uma anedota ela fica-se a rir, a rir, a rir. É umas simples
palavras…. Que elas distraem, não pensam tanto no mal, no … Uma simples anedota
dá para eles se descontraírem e rirem-se» (Julieta, ent.11). Os residentes esperam muito das ajudantes, porque em muitos casos são as colaboradoras do lar quem lhes proporciona momentos de proximidade e afeto.
O tempo, a atenção que a ajudante dedica ao idoso confere-lhe significância e favorece a satisfação com a vida. As palavras da ajudante Sofia evocam essa faceta da prestação de cuidados: «Cuidar é… melhorar a autoestima do idoso. Sim, porque nós estamos a cuidar deles, estou a aumentar-lhe a auto estima e não estou a diminuir
porque assim eles estão a pensar que “afinal ainda faço falta para alguma coisa”, “Olha, estou aqui, ela está a gostar imenso de me estar a fazer isto”» (Sofia, ent.10).
Acrescente-se que, ao serem interrogadas sobre as atitudes que utilizam para prestar cuidados durante as práticas que realizam, algumas ajudantes destacaram a importância de comunicar, mostrar boa disposição e ter sentido de humor. Leia-se a resposta da ajudante Esperança: «A maneira que a pessoa tem ao tratar deles? Estarmos brincando com eles na hora de fazer as higienes, na hora de dar -lhe de comer, mostrarmos-lhe boa… uma boa gracinha, dar-lhes palavrinhas com que eles às vezes saem deste lado e passem lá para o outro, para desanuviar, também» (Esperança,
ent.6). Considerando que os idosos experienciam uma etapa difícil das suas vidas, estas atitudes assumem um valor inigualável.
Foi solicitado às entrevistadas que associassem termos ao conceito de «cuidar», sendo que as respostas foram do teor das supracitadas.
Para compreendermos o que representa o não cuidar, questionou-se as participantes sobre a sua perspetiva sobre o que é cuidar menos bem. Nas respostas são apontadas as atitudes de indiferença e de brusquidão, os atos de gritar, humilhar, entristecer, dar encontrões, viver sob stress e de ter pressa.
A ajudante Elisabete assinala a indiferença e o gritar com os idosos: «Cuidar menos bem é tratar do idoso, pô-lo ali num sofá e “até logo se Deus quiser”. Nem
passar por ele, nem “está bom?”, nem dar-lhe uma palavrinha e não é só isso, às
vezes… o falar alto, o falar mal, porque eu tenho aí colegas que perdem as estribeiras
muitas das vezes» (Elisabete, ent.1). É preciso ter em conta que por vezes o estado de letargia em que muitos residentes se encontram se deve precisamente à indiferença a que são votados. É crucial proporcionar aos idosos momentos de comunicação, de presença com alguém, para lutar contra a solidão e a tentação da alienação.
A atitude de gritar com os idosos é explorada pela ajudante Eva: «Nós nem todas somos iguais e costumo dizer, a gente atura muito a certos velhinhos, mas eles também
nos aturam a nós (…) Certas empregadas podiam ter um bocadinho de paciência, mais
calma (…) Por coisas que eles façam, por coisas mínimas, ou porque têm a cama mijada. A gente já sabem que eles se mijam na cama, não é… Temos que fazer os
possíveis, então o que é que queria fazer? Noutro lado não podia fazer, tem que fazer
na cama. Eu faço assim. Mas há muitas empregadas que, “ah sua porca, sua…” (…) Assisti a muitas situações dessas (…) Eles sentem-se. A gente vê logo. Porque a gente depois olha para a cara deles e eles estão a chorar, estão tristes, de a gente lhe dizer…
(…) A gente olha para eles e eles estão a chorar. Porque a colega ralhou com eles»
(Eva, ent.8). Estas palavras denunciam a humilhação em momentos de intimidade, geradora de sofrimento, pelo que representam o protótipo da inexistência de cuidado.
As ajudantes Elisabete e Justina pronunciam outra denúncia, nomeadamente a violência de alguns atos físicos praticados: «Eu até choro com algumas coisas que
acontecem aí. Porque eu não posso meter mão, não é (…) Atitudes com colegas. Às
vezes haver empurrões…» (Elisabete, ent.1),«Dar lozocões (…) Encontrões» (Justina, ent.3). As entrevistas decorreram num ambiente descontraído e amigável, com isso as
ajudantes sentiram-se à vontade para falarem abertamente. E pôde-se apurar o que habitualmente é ocultado.
Também a brusquidão é sinalizada, pela auxiliar Beatriz: «Não sermos bruscos nas coisas que fazemos nem que dizemos, que alguns ficam magoados. Ou porque vimos com problemas lá de fora de casa que não correram muito bem, ou porque chegamos aqui e não correu bem com uma colega, depois estamos chateados e depois às vezes dizemos-lhes coisas que se calhar eles não têm que ouvir. Ou mesmo
discussões entre colegas, eles não têm que ouvir (…) Não pode ser uma pessoa bruta,
não posso nunca chegar ao pé de um utente, de manhã, para o levantar, e dizer -lhe
assim: “vá, vamos a levantar”. Não, há maneiras de se dizer, temos que brincar com eles e “agora vamos a lavar, assim, assado”. Não podemos ser brutas» (Beatriz,
ent.16). Estas palavras são demonstrativas do conhecimento que as cuidadoras possuem acerca da representação socialmente aceite sobre o ato de cuidar. Por outro lado, comprovam as práticas distintas dessa mesma representação.
Importa destacar a associação que as ajudantes fazem entre o cuidar menos bem e a pressa com que os cuidados são prestados, pela necessidade de cumpri-los em horários delimitados: «Fazermos menos bem é fazer tudo muito à pressa, não tomamos atenção a certas coisas» (Esperança, ent.6), «O cuidar menos bem é quando eles vêm ter connosco e se calhar precisam daqueles tais 5 minutos e nós não temos tempo» (Beatriz, ent.16). Um bom cuidado aos idosos será indissociável da minúcia e atenção requeridas. É essencial um tesouro valioso que se chama tempo, para cuidar o ser humano na sua integralidade, sem negligenciar nenhum pormenor.
A resposta extensa da ajudante Florbela aborda este matéria, exprimindo o ato de cuidar vivido no dia-a-dia:
«O cuidar menos bem, às vezes temos assim … aqueles repentes que entra
aquele stress … Porque é muita coisa junta, eu explico-lhe até a situação. Está aquele além, como eu costumo dizer, rebuja de um lado, outro rebuga de outro, aquele tem
uma dor, o outro porque quer água, o outro porque não quer… nós às vezes acabamos
por estar ali sozinha porque a colega está noutro lado, e é aquele stress que mete-se na cabeça e a gente diz-lhe assim: “Calma!” Eu grito, porque eu falo muito alto, até disse
isso à Mafalda, que eu ia explicar isso. “Calma, já vai, porque eu sou só uma. A colega
agora está noutro lado. Calma. Não entrem em stress, que eu já estou stressada”. Isso às vezes, essa palavra também os magoa. E a gente até, eu, no meu caso às vezes até fico arrependida de dar assim essa palavra. Mas pronto, às vezes sai. Às vezes sai,
porque tem mesmo que sair, que eles às vezes têm o juízo perfeito mas só querem a atenção para eles. Está a ver o sistema? Ali no meio de quatro ou cinco surge isso. E outras vezes é só um porque o problema está ali com outro, quer a atenção para ele e a gente dá-lhe a mesma resposta. “Calma, não seja chato, tenha calma, ouça aquilo que
eu lhe digo”» (Florbela, ent.5).
A ajudante consegue transmitir a composição de emoções vivida no ato de cuidar e deixa antever o ritmo em que este ocorre. Esta é a realidade dos cuidados prestados aos idosos nos lares.
Perguntei às entrevistadas se haveria um ou vários conceitos de cuidar. Poucas declaram que existe uma noção uniforme, a grande maioria defende a existência de diferentes conceitos de cuidar. A auxiliar Marina expõe os conflitos que este facto origina: «Eu acho que há diferentes conceitos. Porque é assim: o que eu acho que estou a fazer bem, outra pessoa pode achar que eu estou a fazer mal. Por exemplo, em termos de mimos, ou de acarinhar certas pessoas aqui, há pessoas que concordam e outras pessoas que não concordam. Porque acham que nós estamos a mimá-los demais e eles
depois vão querer tudo, tudo, pronto, querer que nós façamos sempre tudo (…) Porque depois temos aqui algumas senhoras… Temos uma das senhoras que está sempre a
chamar uma senhora que é “a minha amiga”, “a minha amiga”. Pronto, é nesse aspeto: “Dá-lhe mimo e depois…”, porque ela está sempre a chamar “a minha
amiga”… O que para mim é… pode ser bom, para as outras pessoas pode não ser
(Marina, ent.17). A cuidadora revela-nos que as colegas a reprovam por mimar, expressar carinho às residentes. Também a auxiliar Olga aborda a existência de conflitos que têm origem em diferentes representações sobre o ato de cuidar: «Há aquele conflito entre o trabalhar de uma maneira e depois vêm mais novas, querem inovar ou fazer de outra maneira e depois não aceitam» (Olga, ent.18). Esta situação ocorre frequentemente nos lares, o que demonstra a impreteribilidade de tornar o cuidado humanizado o modelo a praticar unanimemente.
Indagadas sobre o significado de cuidado humanizado, praticamente todas as ajudantes declaram que não ouviram a expressão e aquelas que a ouviram não se recordam do que representa, como a ajudante Florbela: «Eu já e a gente até já deu aí qualquer coisa mas eu esqueço-me» (Florbela, ent.12.). Após uma breve informação, a maioria das cuidadoras afirma que recebeu formação sobre o assunto, damos o exemplo da mesma ajudante: «É a pessoa ser humana. E ter consciência daquilo que está a fazer, do trabalho que tem à frente. Para o realizar. A gente já deu aí qualquer coisa
mas eu sou muito despistada». Esta situação evidencia que a formação recebida pelas ajudantes nas salas de aula está longe de atingir os objetivos preconizados. É nítida a necessidade de se rever o modelo de formação das ajudantes.
Perguntou-se-lhes como aprenderam a cuidar da pessoa mais velha e as respostas são bastante esclarecedoras: através das colegas mais velhas, vendo e fazendo como as colegas experientes: «Aprendi aqui. As minhas professoras estão aqui» (Sofia, ent.10). Se bem que poderão aprender muito com os pares, é crucial modificar este sistema de aprendizagem, caso contrário irão perpetuar-se modelos de cuidados claramente ultrapassados.
A resposta da auxiliar Beatriz, que se tornou cuidadora apenas há três anos, mostra como nos tempos atuais ainda se começa a prestar cuidados aos idosos sem ter qualquer noção sobre o assunto: «Na altura era a (confidencial), foi-me pondo nos setores, e lembro-me do primeiro dia. Cheguei e a minha colega diz-me assim: “Está aqui um alguidar com água, tens aqui o trapinho, o sabão, está ali a senhora para lavar. Faz assim, assado, cozido e frito”. E eu fiz, depois ao fim perguntei, “anda cá
ver se está bem”. Pronto, foi assim» (Beatriz, ent.16). Para existir evolução na
prestação de cuidados ao idoso, é essencial repensar toda uma forma de encarar a complexidade e importância desses mesmos cuidados. Na mesma linha, é preciso refletir sobre o apreço outorgado aos mais velhos.
Considerou-se pertinente inquirir as cuidadoras relativamente às dificuldades que sentem na prestação de cuidados. Em muitas respostas são nomeados os esforços físicos e o tempo limitado, aspetos já antes referidos, mas as ajudantes assinalam igualmente a dificuldade que representa lidar com demências e com a morte. A este propósito citam-se duas respostas: «As demências. Acho que é a maior dificuldade (…) Eles porque esquecem ou porque não nos entendem. Nossa porque estamos constantemente a lidar com essa situação. E até mesmo os outros idosos, colegas, para eles também é muito saturante» (Clara, ent.15), «Para mim é mesmo os mortos» (Olga, ent.18). Refira-se que estas palavras pertencem a duas auxiliares com uma experiência profissional curta. É impensável continuar a entregar o cuidado de pessoas dementes e de moribundos a pessoas que não tiveram uma preparação prévia para isso e acreditar que os recetores de cuidados são tratados com eficiência.
Foi perguntado às participantes se na sua opinião estão preparadas para exercer a sua atividade profissional de uma forma boa, tendo em conta o que a prestação de cuidados engloba. Todas respondem que sim. A ajudante Célia, por exemplo, partilha:
«Sim. Porque tenho amor à profissão que tenho e gosto. Foi-se criando ao longo dos anos. E a gente cria amor aos velhinhos e pronto (…) Acho que trabalhar com idoso é
bonito, é uma coisa bonita (…) Acho que é o exemplo daquilo que nós de hoje amanhã
seremos também» (Célia, ent.9). É uma evidência a ligação forte que as colaboradoras criaram com a sua atividade profissional, devido à gratificação que representa o ato de cuidar idosos. A ajudante Célia afirma que «trabalhar com o idoso é bonito», enquanto a sociedade em geral perspetiva esta profissão de modo oposto.