FIGURA 1 - Mapa da Cidade de Fortaleza – Ceará, com destaque no bairro Edson Queiroz. (AMORIM, 2005).
Estima-se que hoje vivam mais de 20.0003 pessoas em toda a extensão da
comunidade do Dendê, situada no bairro Edson Queiroz, em Fortaleza, localizado atrás da Universidade de Fortaleza e compreendido pelas margens do rio Cocó, de um lado e de outro, pelo Condomínio Residencial Village II4. Segundo Andrade (1992), a maioria das famílias que hoje mora no local, chegou ao bairro na década de 1970, após serem removidas das favelas Verdes Mares, Dom Luiz, Cervejaria Brahma, Cidade 2000, Hospital Geral de Fortaleza e Praia do Meireles.
Nos últimos anos, a densidade populacional aumentou, a despeito da total ausência de condições básicas de instalação. Muitas das famílias que vivem no local o fazem
3 Dados do IBGE/2000, publicados no Jornal O POVO no dia 09/05/05, indicam que há no Dendê 20.291
moradores, sendo 9.590 homens e 10.701 mulheres.
4 A extensão do bairro aumenta em razão das novas ocupações. Essa delimitação é da década de 1990. (BRAGA;
em situações as mais precárias, em casas ou barracos sem água encanada e/ou esgotamento sanitário, para mencionar apenas a situação do ponto de vista da infra-estrutura.5
A ausência de condições mínimas de sobrevivência não constitui exceção do Dendê, visto que essa falta se reproduz por todo o País e é reveladora não só do descaso das autoridades constituídas, no que se refere à insuficiência de políticas públicas, mas, principalmente, como representante do modelo econômico neoliberal excludente, que aumenta as desigualdades sociais.
Dados do IBGE indicam que, no Nordeste do Brasil, quase 20% dos domicílios não possuem esgotamento sanitário6 e apenas 40% das residências são ligadas à rede geral.
Quando se observam os dados referentes à taxa de analfabetismo, o Nordeste aparece concentrando as maiores taxas, cerca de 26,6% das pessoas com 15 anos ou mais não sabem ler ou escrever. No percentual de famílias que vivem com até dois salários mínimos, o Nordeste também é o número 1 no ranking: 47,5%7. Os exemplos são ilustrativos de como a situação de desigualdade acentuou-se nas últimas décadas no Brasil e de como a noção de cidadania está distante da realidade.
O Dendê é uma área do bairro com graves problemas estruturais e onde habitam famílias de baixa renda, muitas em condições miseráveis; e é um espaço permeado de contradições, visto que está localizado nas proximidades de uma das áreas nobres residenciais que mais crescem em Fortaleza.
Pode-se dizer que no bairro Edson Queiroz convivem, lado a lado, a pobreza extrema e a riqueza, visto que, além de abrigar diversos equipamentos importantes - como o Fórum Clóvis Beviláqua, o Centro de Convenções e a Universidade de Fortaleza - a região acolhe condomínios residenciais de luxo.
Araújo e Carleial consideram que a presença de populações pobres em bairros considerados de classe média alta em Fortaleza rompe com o mito de que na cidade pobreza e riqueza estão apartadas nas regiões oeste e leste, respectivamente.
Todos estes fatores, relativos à divisão de Fortaleza em Leste-Oeste, são reais e compõem a situação urbana desta cidade; porém, a questão que se está discutindo refere-se a desconstrução dessa idéia que abstrai a natureza das desigualdades sociais como condição de existência da própria cidade. Essa segregação social não está localizada em uma área física particular desta cidade, mas permeia toda a sua dimensão. Desta forma, essa realidade social é tensa e contraditória, em toda a extensão da metrópole, onde os conflitos entre os ricos e os pobres aparecem nas formas de uso da terra urbana. Esse processo de luta urbana é permanente, e
5 IBGE, Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios, 2000. 6 Idem.
continuará a redefinir os espaços físicos na cidade. Portanto, essa visão partimentada de Fortaleza, em Leste-Oeste, nega a amplitude e a generalidade na capital, das relações desiguais de poder entre os proprietários e os sem tetos, expressas na especulação imobiliária, e na vinculação entre senhores de terrenos citadinos e o governo (ARAÙJO e CARLEIAL, 2003, p. 07).
As famílias que passaram a constituir o bairro ao longo desses anos tiveram suas vidas deslocadas de várias outras favelas, como já citado. Essas famílias foram “desterritorializadas” não apenas do seu espaço físico de morada. “Esse sentido de lugar básico e integrativo veio a ser fragmentado em partes complexas, contraditórias e desorientadoras” (SACK apud GIDDENS, 1991, p.119).
Nesse sentido, é preciso compreender o lugar não apenas como um espaço de morada, mas também como um ambiente onde se travam relações, são estabelecidos laços e vínculos e, em conseqüência, se produzem subjetividades.
Hoje conhecido como Edson Queiroz, em uma homenagem ao empresário que construiu nas proximidades a Universidade de Fortaleza, na década de 1970, o local tinha o nome de Água Fria e abrigava ali enorme salina, aliás, como toda a região às margens do rio Cocó. Era bonito de se ver, ao descer na avenida Antônio Sales, no cruzamento com a Washington Soares, as inúmeras salinas da família Diogo Siqueira e que hoje dão lugar a várias edificações, entre elas, o Shopping Iguatemi.
Com o deslocamento de várias famílias, no entanto, o que antes era uma região de sítios e chácaras, cujas terras predominantemente pertenciam ao empresário Patriolino Ribeiro (BRAGA; BARREIRA, 1991), rapidamente ganhou outra conformação urbana e passou a ser identificada como Favela do Dendê. Hoje muitos dos habitantes preferem o nome Edson Queiroz e como se trata de um extenso local, há várias localidades, uma, inclusive, denominada de Dendê, que fica nas proximidades da Igreja de São José, o templo mais antigo do bairro.
Um dos fundadores da Rádio Comunitária Edson Queiroz considera que não há diferença entre as partes do bairro, mas acha que as pessoas que moram próximo à Igreja de São José se acham privilegiadas.
Lá é só um círculo pequeno de casas e as pessoas de lá, se sentem, eu acho, que de forma privilegiada, eu não sei. Eu acho que eles de lá, acham que o Dendê é diferente daqui. É tanto que lá eles chamam aqui de favela do Edson Queiroz e lá eles chamam de Dendê, eu também não entendo, tem que fazer um estudo para saber o porquê dessa coisa (Entrevistado n.1)8.
Já para o ex-presidente da Associação de Moradores do Bairro Água Fria9, o nome Dendê refere-se ao fruto do dendezeiro, árvore que produz o azeite e que é bastante conhecido em virtude de sua ampla utilização na culinária baiana, sendo cultivado por índios que teriam habitado a região, mais especificamente o local, que é o final da linha do ônibus e que até hoje é identificado como Dendê.
Ainda segundo ele, a divisão entre Dendê e Edson Queiroz aconteceu no primeiro Governo Tasso Jereissati (1987-1990) para facilitar a organização dos bairros.
[...] Porque o Edson Queiroz é muito amplo, ele vem lá do Iguatemi até aqui o Ari de Sá, próximo ali a Washington Soares, então assim, como aqui é uma comunidade e eu até costumo dizer que nós estamos aqui cercados, somos uma ilha e esse nome Dendê é até para tentar identificar melhor a comunidade do Edson Queiroz, mais muitas pessoas não gostam de que chamem aqui de Dendê, Dendê é lá no final da linha (Entrevistado n.2, ex-presidente da Associação de Moradores do Bairro Água Fria)10.
No que diz respeito à pesquisa, optamos por usar o termo Dendê para designar a região onde foi desenvolvida a investigação e onde está inserida a Rádio Comunitária Edson Queiroz, por compreendermos que o local integra um bairro maior, que é o Edson Queiroz, e
8 Entrevista realizada no dia 15/06/2005. 9 Entrevista realizada no dia 0707/2005. 10 Idem
a comunidade apresenta limites geográficos bem específicos, como já citado, e também por ser a forma como se nomeiam quando estão na comunidade.
O bairro Edson Queiroz, anteriormente identificado como Dendê, completou em 2005, no mês de setembro, trinta e cinco anos. Ao longo dessa história, muitas lutas foram empreendidas para que os acessos à água e energia elétrica fossem assegurados aos moradores, assim como escolas, pavimentação, posto policial e muitos programas assistenciais governamentais.
A organização dos moradores aconteceu mediante o trabalho de entidades como a Igreja Católica e a FASE (Fundação de Assistência Social e Educacional), ONG que atuou por várias décadas em Fortaleza e que contribuiu para a fundação da Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza, em 1982.
No Dendê, a primeira entidade foi fundada em 1981 - a Associação dos Moradores da Água Fria - ainda em funcionamento. Atualmente estão em atividade cerca de sete entidades: Associação dos Moradores da Água Fria, União das Entidades, Entidade Comunitária de Cultura, Esporte e Desenvolvimento do Bairro Edson Queiroz (ECCED), Associação Comunitária do Dendê, Associação Nosso Lar e Associação dos Pais. O trabalho realizado pela Igreja Católica hoje está muito mais relacionado às práticas religiosas, tais como a catequese, do que a organização popular realizada no final dos anos de 1970. Há ainda atuação da Igreja Batista, que desenvolve projetos de assistência à criança e ao jovem, e o Instituto Florestan Fernandes, atuante na área da economia solidária.
Merece destaque a forte presença de times de futebol no Dendê. Hoje existem cerca de 28 times ‘calçados’ e 15 times ‘descalços’, sem contar os times de futebol de salão, que chegam a 15. Segundo o ex-Presidente da Associação de Moradores, há um time de futebol que já conta com 50 anos de existência, o Dendê Esporte Clube.11
Para comemorar o aniversário do bairro, a Entidade Comunitária de Cultura, Esporte e Desenvolvimento do Bairro Edson Queiroz (ECCED) lançou a “Cartilha Comemorativa dos 35 anos do Bairro Edson Queiroz”, com o cordel de autoria de Antônio José Alves Ferreira.
O texto apresenta em rima a história do bairro, a organização e as modificações pelas quais passou ao longo dos anos. Destacamos aqui alguns trechos:
A história do nosso bairro diz respeito a todos nós
11 São times de futebol que jogam de chuteira e uniformizados. O número de times de futebol é uma estimativa
Pesquisei, falei com gente que contou de viva voz Como foi que apareceu, valorizou-se e cresceu O bairro Edson Queiroz
[...] Vou caprichar em meus versos pra não confundir você Para melhor informar tudo que queres saber
Para ser bem coerente, vou falar especificamente Da Favela do Dendê
Você vai ficar sabendo como tudo começou Lembrar a grande salina que infelizmente acabou Grandes montanhas de sal, paisagem fenomenal Que só lembranças deixou
[...] Em meados de 70 já existia morador,
Mas foi em setenta e dois que muita agente chegou Então da noite pro dia o grande sítio Água Fria Numa favela virou
Veio gente da Verdes Mares, Cervejaria Brahma e Dom Luiz Cidade 2000, Praia do Meireles é isso que a história diz Hospital Geral de Fortaleza, toda gama de pobreza Veio aqui fincar raiz
Essas famílias carentes sem ter aonde morar Dos bairros eram despejadas e jogadas à Deus dará Como última opção, sem a mínima organização, Vinham correndo pra cá
Enquanto a favela crescia, aumentava a população Toda fonte de problema, era feia a situação A coisa ficava séria, desemprego, fome e miséria E muita desnutrição.
Não tinha água nem luz, uma situação precária Resolveram então fazer a cacimba comunitária Com essa organização, nasce o espírito de união
E consciência solidária
Na construção da cacimba houve uma grande união, Muita gente trabalhou em forma de mutirão E quando a água enfim brotou
O povo disciplinou a sua utilização
Nosso bairro nesse tempo chamava-se Água Fria, Apesar de faltar tudo, todo mundo resistia Todos tinham esperança que uma nova mudança Em breve aconteceria. (FERREIRA, 2005, p. 3-5)
FIGURA 3 - Vista Aérea do Dendê. (Fonte: Google Earth, 2006).