I. Les terres des insulaires
I.1. Territoires et terres samiennes
I.1.2. Pérée samienne
A Orthographia, em particular na terceira parte, que se apresenta como um tratado autónomo de carácter orto-lexicográfico, está repleta de marcas de uso, que eram utilizadas de forma regular, como complemento da informação de cariz normativo de Feijó. Esta técnica não era original, mas era bastante recente, pois “o Vocabulario é o primeiro dicionário português a praticar a marcação de usos de uma forma regular, reproduzindo na sua técnica lexicográfica um sistema de classificadores que os lexicógrafos franceses vinham ensaiando nos dicionários universais.” (Silvestre, 2004: 161). Facto sintomático, dado que essa obra foi publicada entre 1712 e 1728 (a primeira edição da Orthographia é de 1734) e é, como em seu lugar se explica, a fonte privilegiada de Feijó.
Como entre os extremos “uso dos doutos” e “uso do vulgo” existe toda uma panóplia de possibilidades de ocorrência de formas, em natureza e em grau, o autor classifica as palavras, ou expressões, como típicas ou apropriadas para um determinado contexto, ou como pertencentes a um determinado nível ou variedade linguística. De qualquer forma, “A nomenclatura não será tão abrangente que permita receber as palavras que, à época, eram tidas por demasiado ofensivas, mas há a noção de que o grau de aceitabilidade varia de acordo com a situação comunicacional (…).” (Silvestre, 2004: 163). E mesmo que rocem um nível no limite do aceitável, os termos são ainda assim registados, como existentes e para correcção:
“Arrebeçar, ou Arrebesar, ou Arrevesar, dizem os do vulgo por Vomitar. E eu digo, que se naõ deve
usar de tal verbo, quando temos outro taõ proprio como Vomitar do Latim Vómere.” (Feijó, 1734: 203).
Depois da análise e da organização da totalidade dos artigos, percebe-se que as marcas de uso não formam um sistema de normas definidas, ou um conjunto fechado e bem delimitado. Podem apresentar um amplo leque de variações na redacção, de tal forma
que por vezes a marcação de usos é integrada na definição, simplificando a estrutura do artigo.121
As marcas de uso são catalogadas através de marcadores textualizados que remetem para diferentes domínios do léxico, sobretudo para grupos ou actividades profissionais, mas integram também contextualizadores, estrangeirismos, regionalismos, etc. por esse motivo se apresentam as diferentes projecções do uso, de acordo com a terminologia da actual teorização lexicográfica.122
O uso é importantíssimo para Feijó, quer como critério ortográfico, quer na organização do sistema de marcadores. Para se ter alguma noção do peso que este critério tem na determinação da norma, na Orthographia a palavra uso é utilizada cerca de 340 vezes e este número aumentaria extraordinariamente se lhe acrescentássemos as formas conjugadas do verbo usar.
A palavra “uso” e as formas conjugadas do verbo usar funcionam como marcadores dos contextos de emprego, do grau de frequência e, consequentemente, como avaliação da admissibilidade, fornecendo portanto sobretudo informação diafrequencial123 e diatécnica
124
:
“Mogól, e Mogôr. este anda mais em uso, hum Império da Asia. Tomase pelo seu Emperador.” (Feijó, 1734: 402).
“Limoada, ou Limonada. esta anda mais no uso; he hüa bebida, que se faz de agoa, sumo de limaõ, e açucar.” (Feijó, 1734: 379).
“Simplez. cousa que naõ he composta &c. Assim escrévem todos universalmente esta palavra, que he muito usada, e applicase a muitas cousas. (...)
Alguns dizem Sîmplices no plural, e entaõ deviaõ dizer Sîmplice no singular mas naõ tem uso, senaõ nas boticas.” (Feijó, 1734: 489).
“Perante. esta palavra anda no uso dos juizes, quando dizem Perante mim; he o mesmo que diante de mim, ou na minha presença. Mas entendo que a sua orthografia he introduzida pelos que dizem Pera, em lugar de Para; e por isso escrevem Perante, como se dissessem Pera ante mim: devendo dizer Para ante mim; e por isso os que escrevem Parante mim, dirám melhor.” (Feijó, 1734: 435).
Os marcadores de frequência surgem, por vezes, associados a outro tipo de marcadores. Ou seja, a frequência é avaliada relativamente a um contexto comunicativo,
121
Veja-se “Rósa sólis”, página 474. 122
Adopta-se a terminologia de Hartmann e James (2001: 39-40): “diatechnical markedness”, “diatopic(al) markedness”, “diastratic markedness”, “diaphasic markedness”.
123
A informação diafrequencial fornece dados sobre a frequência com que são empregadas palavras ou expressões, a partir do número de ocorrências numa obra. Neste caso Feijó usa-a sobretudo na comparação entre diferentes grafias, funcionando a frequência de uso como validação da forma.
124
A informação diatécnica permite associar uma determinada palavra ou expressão a uma área técnica, profissional ou a uma disciplina.
sociocultural ou tecnolectal. É o que sucede em “simplez”, que contém também informantes diatécnicos e “Vezeira” inclui informação diastrática.
Os domínios abrangidos pela informação diatécnica, assim como os subdomínios definidos, são menos variados e específicos que no Vocabulario, o que é perfeitamente justificável pela diferença de envergadura das duas obras. Na Orthographia, o domínio mais abrangente está relacionado com a medicina, nas suas diferentes áreas, seguido da área forense. O destaque dado aos lemas gramaticais é quase insignificante, o que à primeira análise parece incongruente, contudo a explicação é lógica, dado que esses conceitos foram amplamente explanados nas duas primeiras partes da obra.
A palavra “uso” é também empregada por Feijó como marcador de significado abrangente, mas de difícil descodificação, devido à plurissignificação. Essa dificuldade decorre da distância temporal relativamente ao contexto da época em que a obra foi escrita e de não ser fornecida informação explícita sobre o assunto, que permita diferenciar aquilo que resulta da análise formal de um corpus delimitado e o que é conhecimento intuitivo do autor.
“Rabéca. por uso commum, instrumento mûsico de quatro córdas. Conforme as origens, que desta palavra traz Bluteau, devese escrever, e pronunciar Rebéca; do mesmo modo Rebecaõ.” (Feijó, 1734: 458).
“Abaxar. o uso commum diz Abaixar, e a este seguiremos, porque naõ tem analogîa para o contrario.” (Feijó, 1734: 163).
Por exemplo, nestes artigos é difícil distinguir se a informação fornecida é diafrequencial ou diastrática125.
Apesar de haver contextos em que “uso commum” parece transmitir informações relativas ao estatuto social de quem usa o termo, a comparação com contextos de emprego da palavra “commum”, significando “universal” ou “generalizado”, reconduz a interpretação para o âmbito dos marcadores de frequência.
“Aldrava. he o ferro, com que se bate, ou dá na porta; e deste dar, querem alguns que se chame Aldáva; mas como dava naõ quer dizer dá, mas que dava do tempo preterito imperfeito, naõ he taõ propria a etymologia, que lance fora o uso commum de Aldráva, e Aldravaõ. e naõ Aldrabaõ.” (Feijó, 1734: 177).
“Pluma, e Plumagem. do chapéo, por uso commum; porque outros dizem Pruma, e Prumagem pela versaõ do l em r.” (Feijó, 1734: 442).
125
A informação diastrática associa um termo, ou expressão, a um determinado grupo social. Neste campo, Feijó aponta sobretudo o modelo e o aceitável, que o uso legitimou. Contudo, a fronteira que delimita especificamente o segundo nunca é definidamente esclarecida.
Se no primeiro exemplo “uso comum” parece sinónimo de “uso universal”, não deixa de fornecer informação de frequência e no segundo exemplo é claramente a marcação da forma mais frequente.
Na Orthographia Feijó recupera um sistema de marcadores a partir da lexicografia precedente, mais especificamente, usa um conjunto de marcadores que tinham sido utilizados, pela primeira vez, por Bluteau no Vocabulario. Esse é um aspecto importantíssimo, pois foi uma inovação de Feijó. As obras semelhantes à Orthographia não usavam este sistema, relativamente organizado, de marcadores. Por exemplo, na
Prosodia não existia.
Em geral, nas sínteses das definições elaboradas a partir do Vocabulario, Feijó inclui os marcadores, quer sob a forma de segmentos autónomos na estrutura do artigo, quer como parte da definição, como se pode verificar no corpus de termos do domínio da medicina.126
Os exemplos de marcadores característicos da técnica de redacção do Vocabulario, que são sistematicamente reproduzidos por Feijó, abrangem marcações de variado tipo: diatécnica, diatópica127, diafrequencial, diacrónica128, diafásica129, diastrática e diaintegrativa130.
As marcações de uso mais comum são: - “Na/no” + domínio;131
- “Termo/palavra de” + domínio / nome de profissão;132 - “Palavra de que usaõ” + domínio / nome de profissão;133 - “Dizem/chamaõ/entre” + domínio / nome de profissão;134
126
Ver ponto 4.4. 127
“A informação diatópica associa uma palavra ou expressão a uma variedade regional de uma determinada língua, pressupondo a consciência de um conjunto de características opositivas, que distinguem e delimitam um dialecto.” (Silvestre, 2004: 175).
128
Este tipo de informação relaciona um determinado termo, ou expressão com uma determinada época da história da língua.
129
A informação diafásica relaciona um determinado termo, ou expressão, com o contexto situacional em que é produzida, integrando-a num registo definido.
130
“Esta categoria traduz uma avaliação acerca do grau de integração de uma palavra, em relação ao vocabulário nativo de uma língua.” (Silvestre, 2004: 170).
131
“Tablîlha. no jogo do trûque de táco, he dar com hüa bóla na outra por reflexaõ, dando primeiro em algüas das maças entre as cantînas. E quando dizemos, que se conseguio hum negocio por Tablilha, he o mesmo que por algum rodeyo, ou interposiçaõ de outro. (Feijó, 1734: 504).
“Transcollar. na Medicina, he sahir o humor pelos póros do corpo.” (Feijó, 1734: 520). 132
“Artîculo. penultima brev. termo de Grammatica, he Hic, ou Hæc, ou hoc juntos a algum substantivo, e daõ a conhecer o seu genero.” (Feijó, 1734: 206).
“Estertôr. palavra de Médico, o mesmo que sibilo, ou roncadouro.” (Feijó, 1734: 309). 133
“Gnómon. palavra, de que usaõ os Mathematicos para significarem o ponteiro, ou estilo, que nos relógios do Sol aponta as horas com a sombra.” (Feijó, 1734: 342).
- “Fallando de” + termo coocorrente;135 - “Fallando de” + domínio;136
- “Palavra do vulgo”;137 - “Palavra baixa”;138 - “Palavra vulgar”;139 - “Palavra antiga”;140 - “Palavra nóva”;141 - “Palavra rustica”.142
Em geral, os marcadores diatécnicos são muito explícitos, contudo Feijó parece sentir alguma dificuldade em delimitar o domínio da Filosofia, que aparece flutuantemente associado à Astronomia e à Teologia:
Elîcito, e Illîcito. Elîcito. termo Philosóphico e Theologico, applicase aos actos da vontade, e entendimento, que procédem immediatamente das suas potencias: v. g. o amor he acto elîcito da vontade; o juizo acto elícito do entendimento.
Illîcito, he o mesmo que naõ lîcito, cousa que naõ convêm, naõ he lîcita. (Feijó, 1734: 287). Refrácto. o mesmo que quebrado. Saõ termos Philosophicos, e Astronómicos. (Feijó, 1734: 463).
A informação diaintegrativa não é frequente, mas ainda assim é relevante, pelo que se assinalam os seguintes exemplos:
“Póstres he palavra com má derivaçaõ introduzida para significar as ultimas cousas, que se põem na mesa, que se devem chamar sobremesa.” (Feijó, 1734: 445).
“Ingratitude he palavra escusadamente introduzida, porque naõ significa mais, nem menos que Ingratidaõ, e aquella mais propriamente he Castelhana.” (Feijó, 1734: 360).
134
Ver no anexo 4 “Ácre”, “Átra-bîlis” e “Decretório”. 135
“Acapellar. fallando das ondas.” (Feijó, 1734: 165). 136
“Disciplina , e Diciplîna. Disciplina. esta palavra assim escripta significa a doutrina, que o mestre ensina, ou a que o discipulo aprende do mestre. Tambem se applica á boa criaçaõ, e ao ensino de qualquer arte, como disciplina militar. E tem a sua origem de Disco, aprender.
Com a mesma Orthografia a escrevem muitos para significar aquelle instrumento, com que se açouta o corpo, com Disciplinas de ferro, Disciplinas de linha &c. Mas como no Latim esta Disciplina he Flagellum &c. bem mostra que naõ tem origem de palavra Latina, que seja propria. E como Disciplina escripta com Dis so significa rigorosamente a doutrina, ou ensino, que o discipulo aprende; e ainda que os açoutes saõ hum grande ensino para o corpo, com tudo, pareceme, que escreveremos melhor, se fallando do ensino, dissermos Disciplina; e fallando do flagello, ou instrumento de açoutar, dissermos Diciplina.” (Feijó, 1734: 278). 137
“Fatacaz. palavra do vulgo, pedaço de paõ, ou de queijo.” (Feijó, 1734: 320). 138
“Safar, ou Çafar. gastar, e ir embóra: palavra baixa.” (Feijó, 1734: 478). 139
“Gaifônas. palavra vulgar, o mesmo que carinhas, ou carêtas.” (Feijó, 1734: 337). 140
“Guisa. palavra antiga, graça, maneira &c.” (Feijó, 1734: 346). 141
“Palatîna. sendo palavra nóva em Portugal, já anda viciada; porque hüas lhe chamaõ Pelatina, e outras, Platîna. He hum ornato, de pélle de marta, ou de plûmas, que as mulheres trazem pendente do pescoço no inverno para repáro do frio. Foi inventado na Corte do Principe Palatîno, e por isso se chama Palatîna.” (Feijó, 1734: 424).
142
“Alveário palavra Latina aportuguezada, o mesmo que Colmêa de abelhas.” (Feijó, 1734: 184). “Palatîna.”143
Os marcadores diatópicos são pouco frequentes, geralmente diluídos no conteúdo da glosa e referentes sobretudo à província de que Feijó é oriundo:
“Carambîna. esta palavra anda introduzida na Provincia de Traz dos Montes, e talvez deduzida da Castelhana Carâmbano, que significa o caramélo da giada; e os Transmontanos chamaõ Carambina á mesma giada congelada, e que fica pendente dos penhascos, dos telhados, e outros lugares eminentes com galantes, e diversas figuras, e taõ transparentes, que parecem crystaes.” (Feijó, 1734: 235).
“Derramar. Esta palavra propriamente significa verter, entornar, ou espalhar cousa liquida, como Derramar lagrimas, Derramar sangue &c. Na Provincia de Traz dos Montes erradamente abusaõ deste verbo, porque o applicaõ a cousas, que se corrornpem, ou pervertem. De hum prezunto, que se corrompe, dizem, que se Derramou &c. outros dizem Derrancar.” (Feijó, 1734: 270).
“Óxeo, e Óxe. a primeira diz Bluteau, que he palavra Castelhana, que significa bater o mato: quer dizer, que he palavra de que usaõ os Castelhanos batendo o mato, para fazer sahir a caça; porque neste mesmo sentido usaõ os Transmontanos da palavra Óxe, para espantar a caça, e fazer fugir os passaros, e as gallinhas do que está semeado.” (Feijó, 1734: 421).
Não foram encontradas, na terceira parte, referências específicas ao falar de outra região do país. Nas duas primeiras partes, para além dos diferenciadores transmontanos apenas se registou referência aos interamnenses: “Quanto ao uso desta letra no principio, ou no meyo das palavras, naõ teria dúvida alguma, se o vicio patrio de algumas provincias naõ trocára o B por V consoante, e o V por B: principalmente os Interamnenses, ou de entre Douro, e Minho;” (Feijó, 1734: 41-42).
Apesar de não haver referências específicas às origens das marcas distintivas deste falar,144 Feijó não deixa de fazer a sua correcção:
“Barrîga. Varriga.”; (Feijó, 1734: 224).
“Bassoura. melhor Vassoura.” (Feijó, 1734: 224).
“Varonîa. descendencia de Varaõ; e naõ Baronîa. (Feijó, 1734: 531).
Relativamente à informação diastrática, para além da clivagem bipolar entre “uso dos doutos” e “uso do vulgo”, actualmente torna-se muito difícil descodificar o valor nas
143
Ver nota 136. 144
Sobre a permuta de [b] e [v], veja-se uma gramática histórica como Nunes, 1975: as obras Cintra, 1983 ou Vasconcelos, 1970.
identificações. Por exemplo, a classificação “palavra baixa” não traduz valor disfémico e é similar a vulgar.
A informação diafásica é praticamente inconsequente em Feijó, pois este autor associa a escolha do léxico e os níveis de correcção ao estatuto social do falante, fornecendo sobretudo informação diastrática.
Além disso, Feijó seleccionou criteriosamente as unidades que compõem a nomenclatura, evitando tudo o que considerava menos próprio, problemático ou tabu. O que era expectável, atendendo aos destinatários e ao âmbito de uso da obra.
De toda a análise realizada resulta a convicção de que as marcas de uso não foram introduzidas aleatoriamente, mas resultam de um esforço de clarificação e sistematização. Recolhidas no Vocabulario, as estratégias de marcação foram repensadas e seleccionadas por Feijó em função da sua adequação a um dicionário com glosas necessariamente sintéticas, como é o caso de “Erros communs da pronunciaçam do vulgo, com as suas emendas em cada letra”.
4.4. A interferência dos modelos dos dicionários de língua: as linguagens de