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CHAPITRE I Etude bibliographique 27

1.4 Oxydation du PCE avec KMnO 4 46

Enquanto a CEP evidenciou um movimento de diferenciação da edição como atividade independente, o caso de José Olympio se soma ao da Globo e ao da maior parte dos selos da época, os quais reafirmam que, em meados dos anos trinta, o mundo do livro no Brasil ainda era dominado pela livraria e sua lógica de capital comercial-social.

A trajetória de José Olympio conta com alguns pontos comuns com ou- tras trajetórias de editores bem sucedidos na história do livro brasileiro. José Olympio Pereira Filho nasceu em Batatais, no interior de São Paulo, em 19 de dezembro de 1902. Passou a infância na cidade natal, onde começou a trabalhar, aos onze anos de idade, em uma farmácia.

Altino Arantes, então governador de São Paulo, era seu conterrâneo. Seguindo um costume da época – o apadrinhamento por um político de pres- tígio –, José Olympio solicitou ao governador que aceitasse ser seu padrinho de crisma. De acordo com Hallewell: “esse relacionamento estabelecido em tão boa hora, habilitou-o a buscar a ajuda do governador quando, quatro anos mais tarde, viu-se sem trabalho e decidiu tentar a sorte na capital do Estado” (HALLEWELL, 1985, p.346).

Embora o convite não tenha se sustentado em laços de amizade entre as famílias, uma vez aceito o convite estabeleceu-se uma relação formal de deveres entre padrinho e afilhado, como era de costume na época. Dessa forma, quando procurou o governador em busca de uma colocação na capi- tal, o padrinho arrumou um lugar para José Olympio na Casa Garraux, onde ingressou em julho de 1918. O trabalho consistia em pequenos serviços, como abrir caixotes de livros novos e limpar as estantes. O emprego era can- sativo e pouco remunerado. A Casa ficava aberta das sete da manhã às sete da noite. Mas a jornada não se resumia nas doze horas de funcionamento da loja, pois, depois de uma hora reservada para o jantar, os funcionários volta- vam ao trabalho, que se estendia até as dez ou onze horas da noite. Depois de um período nesse regime, José Olympio foi promovido a ajudante de bal- conista. Pessa função adquiriu um vasto conhecimento dos livros.

Em 1926, sua função na firma mudaria mais uma vez. Pesse ano, ele foi escolhido para o cargo de gerente da seção de livros da Garraux, posição importante, dada a possibilidade de contato direto com muitos clientes de prestígio. José Olympio soube aproveitar muito bem as redes de relações dis- ponibilizadas pelo posto ocupado e, também nessa época, estabeleceu ami- zades com autores promissores.

Seu conhecimento e dedicação ao mundo dos livros foram ocupando cada vez mais seus pensamentos e, quando em 1930 morreu Alfredo Pujol70,

o futuro editor soube aproveitar a oportunidade que se apresentava. Acio- nando mais uma vez a sua rede de relações71, conseguiu reunir o valor ne-

70 Alfredo Pujol, advogado e bibliófilo, membro da Academia Brasileira de Letras, deixou uma biblioteca que contava com dez mil livros, entre os quais uma brasiliana de cerca de seiscen- tos volumes “e o melhor da literatura européia clássica e moderna em edições preciosas, de tiragens pequenas. Tudo encadernado em couro, trabalhos belíssimos encomendados aos melhores profissionais do ramo, em Paris” (SOARES, 2006, p.29).

71 Os amigos que conquistara entre os clientes da Casa Garraux, principalmente os mais ve- lhos e mais ricos, impressionados com o entusiasmo do gerente da seção de livros, empres- taram o capital.

cessário para comprar a biblioteca de Pujol. A família aceitou sua oferta de oitenta contos, dos quais vinte e cinco seriam entregues no ato e o restante parcelado em diversas vezes. Logo que o negócio foi fechado, em 14 de abril de 1931, a biblioteca foi aberta à visitação e venda (HALLEWELL, 1985; VIL- LAÇA, 2001).

Somou-se a essa, pouco tempo depois, a biblioteca de Estevão de Al- meida, constituída por uma grande coleção, com um número significativo de livros raros. Assim, com um estoque inicial, em novembro de 1931, José Olympio abriu sua própria firma na rua da Quitanda, n.19A. Outros livros fo- ram incorporados ao estoque e Olympio começou seu empreendimento edi- torial. Pão demorou muito para lançar livros por conta própria. Dentre os parcos lançamentos figurava Humberto de Campos, com Os párias, que ga- rantiu ao editor seu primeiro sucesso editorial. Ele foi o best-seller que, se- gundo Hallewell, “o novo editor necessita desesperadamente para sobreviver durante seus primeiros anos” (HALLEWELL, 1985, p.352).

Pessa época, José Olympio, que viria a ser reconhecido como o maior editor de literatura brasileira, já havia percebido uma mudança expressiva no comportamento dos brasileiros com relação ao País, e acreditava que esse interesse, por parte do leitor médio, poderia ser canalizado para a literatura.

Seu projeto correria lado a lado com um processo de unificação simbó- lica, ou seja, a construção social de uma unidade dos escritores como grupo literário de vanguarda, no Rio de Janeiro da segunda metade da década de trinta. Pessa perspectiva, começou a colocar em prática um plano para cons- tituir um catálogo brasileiro. O primeiro autor a trazer para o seu lado foi José Lins do Rego.

A ação empreendida para tanto foi uma jogada incomum e arriscada, mas que rendeu bons frutos. O editor telegrafou diretamente ao autor, fa- zendo uma oferta irrecusável para as edições de Menino de engenho (5.000 exemplares) e Banguê (10.000). Zé Lins aceitou prontamente a proposta, te- legrafando a Cruls, seu editor, um pedido de desculpas pela deserção.

É certo, contudo, que as duas edições levaram cinco anos para esgota- rem, mas a imagem de uma editora que imprimisse um novo romance brasi- leiro dez vezes mais do que as outras e, mais ainda, pagasse adiantado, fun- cionou como uma espécie de imã para outros escritores72. Em janeiro de

1934, José Olympio e sua esposa mudaram-se para o Rio de Janeiro. De acordo com Soares, a inserção do editor no espaço literário e político contou com a ajuda de dois homens: Humberto de Campos e Amando Fontes73.

Em 1936, José Olympio já era conhecido como “o maior editor nacio- nal” no campo das edições literárias e livros não didáticos: “de fato, ele pu- blicou todos os escritores importantes de seu tempo, exceto o gaúcho Erico Verissimo, que era, como sabemos, diretor de uma empresa concorrente” (HALLEWELL, 1985, p.357). Pesse ano também criou, inspirada na coleção Brasiliana, de Octalles, a coleção Documentos Brasileiros, que se tornou uma espécie de identidade da Casa. A obra de inauguração foi Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda, prefaciada por Gilberto Freyre, diretor da cole-

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Quando da inauguração de sua livraria no Rio de Janeiro, José Olympio declara a um re- pórter do periódico O Jornal, a respeito do tamanho de suas edições: “Sim, chamam-me de louco porque tiro edições assim. Mas estão enganados. Já se foi a época em que o brasileiro não lia nada, em que uma edição de quinhentos exemplares era uma coisa do outro mundo. Hoje tudo está mudado. O brasileiro já vê com grande curiosidade os bons livros. E nós, edi- tores, temos o dever de prestigiar o livro nacional bom, através do arrojo de grandes edi- ções. Se de um grande romance como Bangüê eu não tirasse os dez milheiros, então seria melhor fechar as portas, perder as veleidades de editor” (Uma nova casa editora no Rio. In:

O Jornal, Rio de Janeiro, 4 de julho de 1934).

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Amando Fontes, advogado e alto funcionário da Receita Federal, foi autor de Os Corum-

ção. Os outros diretores foram Otávio Tarquínio de Souza, a partir do núme- ro dezenove, e Afonso Arinos, a partir do volume 111.

É de comum acordo na bibliografia sobre o editor o peso que o capital social teve na política da editora. Ele cultivou amizades com políticos, escri- tores, críticos literários, outros editores, leitores, etc. Ele circulava com de- senvoltura entre todas as instâncias do mundo dos livros, em uma posição de intermediário entre os espaços político e literário. Essa atitude resultou na constituição de um local de encontro entre escritores, artistas, médicos, polí- ticos, jornalistas, etc., cujo endereço era a livraria na rua do Ouvidor. Pessa perspectiva, podemos perceber uma reprodução, no tange aos espaços de circulação dos agentes do campo e à sua importância como catalizadores in- telectuais, na configuração da nuance destacada em determinados períodos.

Entre os conhecidos mais ilustres, citado em todas as fontes, figura o nome de Getúlio Vargas. José Olympio conheceu Vargas, de quem editou as obras durante o Estado Povo, por intermédio de seu amigo Lourival Fontes, uma das pessoas mais próximas do estão Presidente da República. Fontes, durante nove anos, foi encarregado das principais instâncias oficiais de difu- são, propaganda e controle cultural.

Gostaríamos de sublinhar o fato de José Olympio editar a obra de Var- gas. Mencionamos no capítulo 2 a aproximação do político com a roda da Globo e sua participação na idéia da criação da Revista do Globo. Também apontamos o fato de ter recrutado intelectuais rio-grandenses na composição dos cargos de seu governo. Contudo, as referências a uma possível relação com a Globo, ou mais ainda, com a intelectualidade gaúcha, param por aí. O que encontramos a partir de então são menções a sua relação com José Olympio.

Os motivos que levaram Vargas a entregar seus originais a José Olym- pio podem ser de diversas naturezas, mas é possível que, além do fato de ser uma grande editora estabelecida no centro do País, tenha pesado sua identidade no mundo do livro brasileiro, a saber, a de uma editora genuina- mente nacional. Evidentemente, a Globo não poderia disputar essa posição, visto que, numa perspectiva interna do campo, sua identidade estava relaci- onada à literatura estrangeira, ou seja, a literatura de ficção traduzida.

Po que tange às traduções, diferente da Globo, que se estabeleceu no mercado nacional através desse filão, na José Olympio elas representavam uma parte muito pequena da produção da Casa. É significativa a menção que Hallewell faz a esse respeito. Segundo ele, as traduções, apesar de constituí- rem um pequeno número, eram “sistematicamente de maior valor” (HAL- LEWELL, p.1985, p.372). Esse contraponto é estabelecido com relação à Glo- bo, o que reforça a idéia depreciativa da escolha dos títulos pela editora gaú- cha.

Pa José Olympio, o trabalho de tradução era encomendado a escritores profissionais. Essa estratégia tinha como objetivo garantir a qualidade dos trabalhos, pois estava em jogo a própria reputação do escritor. Isso, contu- do, nem sempre acontecia, como fica explicito no capítulo 4. É fato, também, que, da mesma forma que ocorria na Globo, muitos dos trabalhos sofriam as conseqüências da tradução indireta, dada a falta de profissionais versados em outras línguas além do francês e do inglês.

Contudo, essas traduções, como apontou Hallewell, correspondiam apenas a uma pequena parcela do projeto editorial. Pão era intenção da José Olympio tomar a frente nesse segmento do mercado, que, desde o princípio, era dominado pela Globo. Essa divisão consensual desenhou os perfis das editoras, dando a elas uma identidade bem definida no mercado do livro bra-

sileiro: tão sólida, que nem as possíveis mudanças nos catálogos foram ca- pazes de embaçar tais papéis.

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