5. Conclusion
5.3 Ouvertures
Os professores alegam constantemente sentirem-se impotentes frente a diferentes situações envolvendo alunos com deficiência na sala de aula regular, e porque não dizer até nas salas especializadas. Os próprios cursos de formação nesse sentido Contribuem para essa sensação permanente de despreparo devido ao seu caráter de constante atualização. Quem não frequenta tais cursos acaba sendo criticado por não estar usando algum termo recentemente modificado, uma concepção já nova que vigora entre os especialistas da inclusão, ou as novas “soluções” que respondem as perguntas inquietantes da exclusão.
Não é uma pergunta sobre o verdadeiro rosto e sobre as rugas contínuas da exclusão. Não é a procura de uma melhor ou uma nova definição ou um conceito definitivo aquilo que ajudará a resolver nossos problemas. Trata-se, melhor dizendo, de uma pergunta sobre a pergunta, isso é, uma tentativa de revelar o porquê de uma pergunta sobre a exclusão, uma pergunta incômoda, insistente e pérfida que, em geral, não faz mais do que multiplicar a si mesma, do que se disseminar como uma peste que, mais rápida ou lentamente, acabará por contagiar a todos (SKLIAR, 2003, p. 24).
Se verdadeiramente almejamos oferecer uma Educação de qualidade aos alunos com deficiência, é necessário compreendermos, principalmente nós educadores, que as decisões e atitudes realmente significativas não se relacionam à escolha entre usar o termo portador de deficiência, deficiente, pessoa com necessidades educacionais especiais, com necessidades diferenciadas etc. É fato que muitos termos são carregados de preconceito, quando utilizados com a intenção de assim ser. Então se evita usá-los de maneira equívoca, inferiorizando ou atribuindo significados pejorativos à pessoa. Entretanto, trocar o nome do deficiente por um termo genérico não o inferioriza? Usar um termo que o defina na categoria de excluído não lhe atribui significados pejorativos? A discussão realista não se aplica à determinação precisa
de um nome, à tentativa de usar sempre as terminologias que apagam o próprio nome do indivíduo em função do politicamente correto. Fazer uso dos conceitos atualizados pelo politicamente correto passa a sensação de que estamos diminuindo a dor do outro que não queremos enfatizar, mesmo pouco sabendo sobre os graus de sua intensidade ou até mesmo se ela existe.
O mundo do politicamente correto é um mundo onde seria melhor não nomear o negro como negro, não chamar o deficiente de deficiente, onde não seria melhor chamar o índio de índio. É o mundo do eufemismo, do travestismo discursivo. Não nomeá-los, não dizê-los, não chamá-los, mas manter intactas as representações sobre eles, os olhares em torno deles. Ou nomeá-los de outro modo para continuar massacrando-os. Ou chamá-los por outro nome para evitar toda ruptura com nós mesmos. Se o mundo dói, acreditamos que é, sobretudo, porque não somos, porque não conseguimos ser totalmente politicamente corretos (SKLIAR, 2003, p. 68).
As determinações do politicamente correto efetuadas pelas políticas de Educação Inclusiva representam uma maneira de proteção contra expressões e atitudes que firam a alteridade da pessoa com deficiência. Não obstante, essas determinações não partem diretamente das reações das próprias pessoas com deficiência frente ao politicamente incorreto e, sim, do excluído e de sua alteridade inventada pela exclusão. São tantas as suposições e invenções que o próprio nome da pessoa com deficiência se tornou politicamente incorreto e o deficiente que não se sente agredido frente a um termo considerado incorreto, está com os “sentimentos desatualizados” e precisa ser conduzido a um olhar mais crítico acerca do que pensam sobre si.
Nas discussões que envolvem a formação de professores, também o mais essencial não se localiza em argumentos sobre a existência ou não do deficiente, se somos todos deficientes ou eficientes, se existe ou não um conceito verdadeiro de diferença, de diversidade ou de inclusão social. A pessoa com deficiência, na sua condição física, nada tem a ver com crenças, com crédito ou descréditos acerca de suas capacidades ou com o estar de acordo ou discordar com determinada proposta de inclusão. A pessoa simplesmente é, simplesmente representa uma condição do modo de existir. Não há explicação que defina sua alteridade, sem aprisioná-
la à condição e o estado do ser ou não ser — ou do ser em parte. Para Skliar (2003), a única
temporalidade que a definiria seria a do estar-sendo.
Nenhum saber já dado sobre o outro pode entender o estar sendo. O estar sendo é um acontecimento da alteridade que retira de nossas bocas as palavras habituais, as frases precisas, a gramaticalidade correta. Inibe-nos, como mesmidade, de dizer o que é ou o que não é o outro, o que é ou o que não é sua identidade. E fecha as portas de nossos laboratórios, observatórios e reservatórios (SKLIAR, 2003, p. 12).
O estar-sendo é imprevisível e nos obriga a simplesmente olhar para nós mesmos, reconhecermos o que somos em verdade. O que fomos, devíamos ser, queremos ser ou poderíamos ser não modifica o nosso ser real do hoje, do agora. O estar-sendo nos obriga a olhar para o outro assim como olhamos para nós mesmos, sem imaginar que poderia ser um outro com uma identidade diferente, sempre com base na nossa invenção.
Compreendemos, desse modo, que esses processos de formação e de especialização, na perspectiva inclusiva, parecem ter um sentido em si mesmos, deslocados da experiência dos sujeitos a que pretendem servir. São como reflexos das políticas inclusivistas, para as quais, como afirma Veiga Neto e Lopes (2007), o mais importante é fazer proliferar e disseminar as normas e os correlatos saberes especializados e, até mesmo, de gerar exclusão... Ao invés de “promoverem aquilo que afirmam quererem promover – uma Educação para
todos –, tais políticas podem estar contribuindo para uma inclusão excludente” (VEIGA
NETO e LOPES, 2007, p. 951).