Détermination des facteurs 4.2
4.2.4 outils et structure de soutien Mécanismes de coordination Mécanismes de coordination
Os conceitos de poder e violência estão longe de ser os únicos conceitos a permanecer obnubilados na época moderna. Para Arendt, a falta de rigor conceitual é tamanha – principalmente por parte das Ciências Sociais – que, mesmo ao tratar do conceito de autoridade, a confusão com os conceitos de poder e violência permanece renitente.
Hannah Arendt dedica um texto inteiro para tratar dos problemas referentes à autoridade em Entre o Passado e o Futuro. Alguns anos depois, ela retoma essa discussão e tenta apontar saídas para o declínio da autoridade em Da Revolução74, justamente tratando das revoluções modernas. A intenção aqui, porém, visa somente à análise do primeiro texto, a saber, aquele que trata da dificuldade de conceituação da autoridade na modernidade, bem como do revisão
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Apesar de Arendt fazer uma apologia contra a violência, como afirma Lafer (2009), certamente ela não nutre a visão romântica de que é possível manter um Estado sem guerra.
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histórica que Arendt realiza para tentar explicar as raízes desse declínio. Ela não dispensa críticas com relação à falta de critérios para definição de conceitos tanto por parte das ciências política quanto da filosofia. Não é preciso, certamente, citar os vários problemas e desentendimentos que isso é capaz de causar entre aqueles que se propõem a discutir o mesmo assunto sob diferentes definições ou sob definições distintas. A falta de uma conceituação adequada para
autoridade é nada mais do que o resultado de uma era na qual a
autoridade foi suspensa ou está sendo, cada vez mais solapada. A fluidez que os conceitos adquirem na época moderna é sinal de que os especialistas no assunto estão longe de falar a mesma língua. É em função desse problema que a autoridade é comumente confundida com o poder e com a violência, e apesar de os três serem conceitos inerentemente políticos (apesar de algumas características pré-políticas), são diferentes. Arendt crê que o motivo que gera confusões está assentado sob o fato de que a autoridade exige obediência e a propensão é as pessoas associarem a obediência com algum meio de violência ou coerção. O que caracteriza a autoridade e a faz diferente do poder e, sobretudo da violência, é o fato de que ela é justamente o oposto. Nas palavras de Arendt: ―(...) a autoridade exclui a utilização de meios externos de coerção; onde a força é usada, a autoridade em si mesma fracassou‖ (2005a, p.129). Quanto à diferença específica do poder, Arendt acrescenta que: ―a característica mais proeminente dos que detêm autoridade é não possuir poder‖ (2005a, p.164).
Apesar de, para Arendt, estar clara esta diferenciação entre poder, violência e autoridade, ela percebe que na época moderna é impossível deixar que a autoridade se revele em si e por si mesma, haja vista que, não é o estatuto ontológico da autoridade que está em declínio, mas sua manifestação na política. Para tanto, Arendt não hesita em fazer um retrospecto histórico a fim de apontar as origens greco- romanas do conceito de autoridade (mais romanas do que gregas), bem como de identificar os indícios da sua derrocada. Como não poderia ser diferente, Arendt encontrou traços da autoridade primeiramente em Platão e em seu projeto de manter obediência das pessoas comuns para com o filósofo. Essa história, porém, todos já sabemos onde irá desembocar, assim como sabemos os motivos que levaram Platão a agir dessa forma, ou seja: basta lembrar das peripécias socráticas ocorridas no tribunal de Atenas. Para explicar porque Platão foi o primeiro pensador a tratar da idéia de autoridade (mesmo que seja indiretamente pois a palavra autorictas é latina e não grega), Arendt recorre à
acerca tão estreitamente do conceito de autoridade como em A
República, de Platão, onde ele confrontou a realidade da polis com um
utópico governo da razão na pessoa do rei-filósofo.‖ (2005a, p. 145) Depois de Platão, ainda na Grécia, Arendt percebeu nos escritos aristotélicos, elementos que apontam para o tema da autoridade. Ela enfatiza que não é nos mesmos moldes de Platão, ou seja, Aristóteles certamente discordaria da idéia platônica de que um rei-filósofo deveria governar a polis, mas estabeleceu uma diferença ―natural‖, como diria Arendt, entre os mais idosos e os mais jovens, de forma que os primeiros teriam mais aptidão para governar (justamente porque é uma aptidão ―natural‖) e os mais novos para obedecer. 75
Neste momento, porém, a intenção não é deixar-se levar pelas especulações que Arendt faz a respeito do conceito de autoridade na Grécia, visto que os pensadores gregos, sobretudo Platão e Sócrates, receberam especial atenção no primeiro capítulo e voltarão a recebê-lo no último. Mas o importante agora é voltar os olhares para onde realmente o conceito de autoridade, como auctoritas, apareceu pela primeira vez, sem ter em lugar algum, outro precedente. Trata-se de Roma e de seu corpo político. Arendt vincula a idéia da auctoritas romana a um elemento essencialmente romano: a fundação. Mais uma vez, como um recurso bastante utilizado pela autora, ela recorre à etimologia das palavras para tecer seus raciocínios. Na língua latina, a palavra auctoritas é derivada da palavra augere, ou seja, ―aumentar‖, que por sua vez está intimamente relacionada ao ato de fundar e ao ator que funda algo. Talvez as marcas de ligação entre a auctoritas e o ato de fundar não fiquem tão evidentes, mas o fato é que a autoridade não se mantém só neste elã que atravessa a idéia de fundação. Arendt insiste em que há uma tríade, um tripé que constitui o nó que une esses laços. Trata-se, além da autoridade, da religião e da tradição. A idéia de fundação, em Roma, não poderá jamais ser entendida sem a idéia de que a religião estava presente por ser um elemento essencialmente político. O ato de fundar, conforme afirma Arendt, é um ato religioso: ―a religião significava, literalmente, re-ligare: ser ligado ao passado, obrigado para com o enorme, quase sobre-humano e por conseguinte sempre lendário, esforço de lançar-se sobre as fundações, de erigir a pedra angular, de fundar para a eternidade‖ (2005a, p. 163). É sempre por meio deste ato de fundar que se faz a ponte, o elo de ligação entre o presente e o
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Arendt flagra uma incoerência neste argumento aristotélico quando contraposto àquele em A
Política que afirma que ―a polis é uma comunidade de iguais visando a uma vida que é
passado, entre os jovens e os idosos, entre a nova geração e seus ancestrais. Neste sentido, aparece também o outro elemento, a tradição. A fundação que tem como bases a religião e a tradição, se manteve viva durante toda a história de Roma. A autoridade, por sua vez, é o elemento que completa essa tríade, pois é através dela que o fato de fundar torna- se efetivo. Para tanto, Arendt esclarece:
A autoridade dos vivos era sempre derivativa, (...) da autoridade dos fundadores que não mais se contavam no número dos vivos. A autoridade em contraposição ao poder (potestas) tinha suas raízes no passado, mas esse passado não era menos presente na vida real da cidade do que o poder e a força dos vivos (2005a, p.164).
A idéia da autoridade está vinculada à obediência que em Roma era mantida pelos mais jovens com relação aos mais idosos, membros do Senado e os demais elementos, ou seja, a religião e a tradição eram fundamentais para manter a autoridade preservada. A crítica de Arendt está assentada justamente na falta da autoridade na época moderna e, mantendo a coerência interna de seu próprio pensamento, Arendt dá para o declínio da tradição e da religião os créditos da derrocada da autoridade. Ela inicia seu texto propondo uma discussão sobre o que é a autoridade mas sobretudo sobre o que foi a autoridade, dado o fato de ela ter ―desaparecido do mundo moderno‖. Apesar de Arendt considerá- la em elemento político, ela percebe que em áreas ―pré-políticas‖, a autoridade também parece estar fadada ao fracasso, como no caso das relações entre pais e filhos ou entre professores e alunos. Mas este fato está longe de ser o fundamento ou a causa da crise pela qual a autoridade atravessa no mundo moderno, mas são, antes, seus sinais, suas conseqüentes manifestações.
A partir do momento em que a autora critica a falta de autoridade latente na época moderna e dá esses créditos ao declínio da religião e da tradição, ela surpreende seu leitor, pois da mesma forma que, politicamente falando, ela se mantém acima de tendências de direita ou de esquerda – se é que ainda é possível tratar disso em termos tão dicotômicos – ela também se põe acima de liberais e conservadores e trata da religião e da tradição como elementos politicamente necessários (e não moralmente necessários) para a manutenção da autoridade. A partir do momento em que religião e tradição estiverem ameaçadas, igualmente ameaçada estará a autoridade. Se, no cristianismo, por meio
da instituição da Igreja, Arendt enxerga uma nova fundação em função do nascimento de Cristo que, se manteve viva durante parte significante da história do mundo ocidental, o processo de início de decadência iniciou justamente com a laicização. É evidente que, apesar de Arendt apontar defeitos e mostrar preocupação com relação ao atual estado da falta de autoridade, em nada significa que se mantivesse contrária ao processo de um Estado laico; o contrário, sim, certamente seria verdadeiro. A questão que mais importa agora é entender que a crise encontrada por Arendt no conceito de autoridade não é uma crise de qualquer categoria de autoridade, mas é, essencialmente, autoridade política. A gênese da crise é política e é por isso que se diz que os sinais dessa crise estão em áreas não políticas – como na educação, para ficarmos no exemplo dado pela própria Arendt – são somente sinais de um problema latente. A tentativa de resolução desse problema não pode vir de outra instância, senão da política. E é neste sentido que Arendt volta suas atenções para as revoluções modernas, elogiando, sobretudo a revolução americana76.
No entanto, as conclusões do texto de Arendt sobre a crise da autoridade estão longe de se desenharem de forma óbvia. Isso significa dizer que após a leitura do texto e após tentar situá-lo no entorno do legado arendtiano, não é muito fácil concluir se a queda da autoridade é vista de forma positiva ou negativa para nossa autora. Quem trata disso de forma positiva ou negativa, são os liberais e conservadores. Para Arendt, as conclusões não são tão claras. É certo que a autoridade confere à política uma certa estabilidade e ela é, de alguma forma, necessária. Por outro lado, conforme já explicitado, há elementos presentes neste processo da derrocada da autoridade que são vistos de forma positiva por Arendt – como é o caso da autenticidade que algumas revoluções conferem à política, por exemplo.
2.4 O INTINERÁRIO MODERNO: DA VITÓRIA DO HOMO FABER À