Objectifs généraux de formation
Annexe 2 outils mathématiques
Segundo Godfrey e Clarke (2000), o turismo é uma mistura complexa de empresas e actividades sociais e os seus impactes não acontecem com a mesma natureza e intensidade em todos os destinos turísticos nem em todos os períodos – não existe uma elação simples de causa e efeito, uma vez que os destinos turísticos são diferentes e respondem de forma também diferente ao desenvolvimento do turismo. Esta realidade é fruto de um conjunto de factores que influenciam a dimensão e a natureza dos benefícios económicos.
Com base no proposto por Baaijens et al. (1998) e por outros autores que abordaram esta temática, nomeadamente Godfrey e Clarke (2000), Archer (1982) e Detomasi (1987), optou-se por categorizar os factores que influenciam a dimensão dos multiplicadores turísticos conforme o exposto na Tabela 6.4.
Tabela 6.4 - Factores que influenciam a dimensão dos multiplicadores do turismo a nível regional A) Tipo de modelo
económico utilizado B) Características do destino turístico C) Comportamento dos visitantes A.1) Estrutura A.2) Variáveis utilizadas B.1) Tipo de economia B.2) Natureza B.3) Grau de integração B.4) Tipo de propriedade das
actividades económicas
B.5) Empresas de trabalho intensivo B.6) Comportamento das famílias
C.1) Tipos de visitantes C.2) Distribuição das despesas
turísticas por produtos turísticos.
A - Modelo económico utilizado para calcular os multiplicadores turísticos
Em relação ao modelo económico, importa considerar a sua estrutura e as variáveis económicas que incorpora, porquanto diferentes modelos darão origem a diferentes multiplicadores turísticos. Baaijens et al. (1998)7 colocam a hipótese de que os multiplicadores calculados a partir de modelos input-output serão
superiores aos obtidos através de um modelo ad hoc de Archer (estes modelos serão objecto de uma análise detalhada na secção seguinte). Além disso, mesmo utilizando o modelo input-output para calcular os
7 Com objectivo de identificarem as razões pelas quais o valor dos multiplicadores turísticos do rendimento a nível
regional difere de estudo para estudo, Baaijens et al. (1998) aplicaram técnicas estatísticas (um modelo de regressão linear). Para realizarem este estudo os autores utilizaram onze valores de multiplicadores obtidos em nove artigos e verificaram que existem relações entre determinados factores e o valor do multiplicador do rendimento obtido, nomeadamente:
¾ existe uma relação entre a dimensão da população e o valor do multiplicador turístico do rendimento a nível regional;
¾ existe uma relação entre o tipo de modelo utilizado e o valor do multiplicador, por exemplo, os multiplicadores estimados através do modelo de Archer parecem ser mais pequenos do que os estimados através de um modelo
input-output, embora não tenha sido encontrada uma diferença significativa;
¾ existe uma relação entre a importância relativa do principal mercado turístico e o valor do multiplicador – relação que, segundo os autores, poderá ser explicada pelo facto de um destino turístico, ao receber muitos turistas de um único mercado, irá ajustar a sua economia às necessidades deste tipo de visitantes, o que determinará menos importações de bens e serviços do estrangeiro.
multiplicadores turísticos é possível obter resultados diferentes, desde que se incorporem nesses modelos algumas alterações. Um dos exemplos encontrados na literatura que permite clarificar esta diferença em termos de valores dos multiplicadores de acordo com o modelo utilizado para o seu cálculo é o estudo desenvolvido por West e Gamage (1997). Neste estudo, os autores provaram que os multiplicadores turísticos do output, valor acrescentado, rendimento e emprego para Victoria (Austrália) eram diferentes, caso se utilize o modelo input-output convencional para o seu cálculo ou o modelo input-output com coeficientes marginais.
O facto dos multiplicadores turísticos variarem de modo significativo de acordo como o tipo de modelo utilizado para o seu cálculo, além de dificultar a realização de estudos de revisão bibliográfica, obriga o investigador a estudar aprofundadamente os diferentes métodos que podem ser utilizados para o cálculo destes multiplicadores, para que possam seleccionar o método que permita obter os melhores resultados. Esta análise será realizada na secção 6.3.
Embora o modelo utilizado seja um factor crucial no cálculo dos multiplicadores turísticos, por si só ele não explica toda a variabilidade dos resultados obtidos. Existem outros factores que também influenciam essa variabilidade, entre os quais se salientam as características do destino turístico que está a ser objecto de análise, uma vez que são essas características que interferem na forma como as despesas turísticas que são injectadas nessa economia fazem o seu percurso em termos de circulação.
B - Características do destino turístico
Segundo Godfrey e Clarke (2000), a dimensão do multiplicador turístico está relacionada com o tipo de economia em análise, a sua natureza, o nível de integração das actividades económicas, o tipo de propriedade dessas actividades, a importância do factor trabalho nas empresas e o comportamento das famílias.
B.1 – Tipo de economia em análise
Em termos gerais, existe uma relação directa entre o destino turístico em análise e a dimensão do multiplicador turístico. Assim, tudo indica que o valor deste indicador é maior para uma economia nacional do que para uma regional, e este é, por sua vez, superior ao de uma economia local.
Outro estudo em que se procurou avaliar o efeito da escala na dimensão dos multiplicadores foi realizado por Olfert e Stabler (1994). Os autores procuraram avaliar se o valor dos multiplicadores variava de acordo com o nível hierárquico na comunidade onde a actividade recreativa está localizada. Os resultados obtidos
Considera-se que o estudo apresentado por Baaijens et al., (1998), apresenta uma metodologia muito interessante; no entanto, os seus resultados deverão ser interpretados como sugestões que poderão funcionar como hipóteses em outros estudos, pois o número de observações é muito pequeno.
demonstram que o valor dos multiplicadores varia com o nível funcional; assim, as comunidades mais pequenas terão multiplicadores também menores.
Wanhill (1994) apresenta uma revisão de vários estudos de multiplicador turístico do rendimento (Tabela 6.5) na qual se observa a existência de uma relação entre o tipo de economia em análise e a dimensão do multiplicador – os valores mais elevados para o multiplicador do rendimento verificaram-se em economias nacionais (valor médio de 1.67) e os valores mais baixos em cidades e vilas do Reino Unido (valor médio de 0.28). Este tipo de conclusões também está patente na secção 6.2.4, na qual foram apresentados os resultados que têm sido publicados na literatura em termos dos multiplicadores turísticos do output, do rendimento e do emprego.
Tabela 6.5 – Dimensão do multiplicador turístico do rendimento de acordo com o tipo de economia em análise8
Tipo de economia Valor médio do multiplicador
Variação (limites) Nº de Estudos
Nacional 1.67 1.23-1.98 4
Ilha 0.85 0.39-1.59 18
Estados dos EUA 0.68 0.44-1.30 7
Regiões do Reino Unido 0.35 0.29-0.47 7
Cidades e Vilas do Reino
Unido 0.28 0.19-0.40 7
Fonte: Wanhill (1994: 281)
Se é certo que o tipo de economia em análise pode interferir na magnitude do multiplicador turístico calculado, para o mesmo tipo de economia poderão ocorrer diferenças em termos de multiplicadores consequência das características dessa economia, nomeadamente em termos de diversificação das actividades económicas (Archer, 1982).
B.2 - Natureza da economia em análise
Em geral, quanto maior for a diversificação económica de um destino turístico, menores serão as ligações em termos de importações e maior será a utilização de produtos locais (Archer, 1982; Detomasi, 1987; Godtrey e Clarke, 2000, Baaijens et al., 1998). Esta característica permitirá que, na economia regional, exista uma grande variedade de bens e serviços passível de ser consumida pelos visitantes, pelas actividades económicas e pelas famílias residentes, podendo ocorrer, assim, uma menor necessidade de importar bens e serviços do exterior para fazer face às necessidades de consumo regionais.
Para que o efeito multiplicador das despesas turísticas seja elevado é importante que, para além da diversidade da estrutura produtiva regional, também existam actividades características e conexas do turismo em quantidade e qualidade satisfatória e de preferência com mão-de-obra qualificada. Quando existem
oportunidades limitadas para os visitantes gastarem o seu dinheiro, os benefícios económicos do turismo tendem a ser menores (Godrey e Clarke, 2000).
Existe uma opinião consensual na literatura de que se as oportunidades para os visitantes gastarem dinheiro forem mínimas, então os benefícios económicos do turismo também serão limitados. Godrey e Clarke (2000:37) referem que “não é de surpreender que as áreas naturais e rurais tendam a ter menos retornos do turismo do que as áreas mais urbanizadas, uma vez que nas primeiras o nível de diversidade dos gastos também tende a ser menor”.
Relacionado com a diversidade da estrutura produtiva regional, encontra-se o grau de integração económica, pois poderá acontecer que embora exista uma grande variedade de bens e serviços disponíveis para satisfazer as necessidades internas, as actividades económicas da região recorrem principalmente a inputs primários e intermédios do exterior. Nesta situação, o grau de integração é baixo e daqui resulta que o valor do multiplicador também tenda a ser mais baixo.
B.3 - Grau de integração existente na economia em análise
Quanto maior for o nível de integração da economia, maior será o valor do multiplicador turístico, isto é, quanto maior for a possibilidade dos inputs das empresas poderem ser adquiridos localmente, menores serão as ligações com o exterior, logo maior será o valor do efeito multiplicador. Por esta razão, os multiplicadores das cidades normalmente são de maior dimensão do que os multiplicadores das áreas rurais (Detomasi, 1987)
Considera-se que um dos factores que poderá interferir no nível de integração da economia do destino turístico é o tipo de propriedade das actividades económicas aí existentes.
B.4 - Propriedade das actividades económicas
De acordo com Godrey e Clarke (2000), quando as organizações que fornecem bens e serviços aos visitantes são propriedade de não-residentes os benefícios económicos do turismo tendem a ser menores. A título ilustrativo refira-se que se o alojamento - pequenos hotéis, casas de hóspedes ou serviços de bed-and- breakfast - for propriedade de um local tende a ter benefícios económicos superiores a grandes hotéis propriedade de não-locais. Esta verificação deve-se ao facto da origem geográfica da propriedade influenciar o fluxo de benefícios e também a origem dos fornecimentos, e como resultado da utilização de recursos externos é a diminuição do impacte do turismo no destino.
Existe, também, uma certa tendência para as organizações propriedade de não-locais recorrerem a trabalhadores não-locais, aumentando assim a probabilidade dos rendimentos obtidos pelos trabalhadores saírem da região. Além disso, a probabilidade dos dividendos irem para pessoas que residem na região também é menor, o que irá diminuir o efeito multiplicador.
Baaijens et al. (1998) também defendem que o tipo de propriedade das actividades económicas locais, mais concretamente a sua localização geográfica, irá influenciar o padrão de despesas dessas actividades, o que irá interferir na dimensão do multiplicador turístico regional.
B.5 – Empresas de trabalho intensivo
Outro dos factores, relacionado com os destinos turísticos, que interfere na dimensão dos multiplicadores turísticos é a importância relativa do factor de produção trabalho face ao factor de produção capital. Baaijens et al. (1998) argumentam que as empresas que possuem uma proporção maior do recurso trabalho face ao capital apresentam efeitos em termos de emprego e de rendimento mais elevados.
B.6 - Comportamento das famílias
O comportamento das famílias residentes no destino turístico é muito importante, uma vez que elas recebem rendimentos que são criados de forma directa, indirecta e induzida em consequência das despesas turísticas. Considera-se que as principais variáveis a ter em consideração no que toca ao comportamento das famílias com interferência na dimensão do multiplicador turístico são:
taxa marginal de consumo e de investimento – quanto maior for a taxa marginal de consumo e de investimento maior será o efeito induzido;
padrão de despesas das famílias e do investimento – quanto maior for o valor do consumo em bens e serviços fornecidos por actividades económicas locais e o investimento local maior será o multiplicador turístico.
O terceiro grupo de variáveis que interfere na dimensão dos multiplicadores turísticos está relacionado com o comportamento dos visitantes enquanto consumidores. Embora esta temática já tenha sido parcialmente analisada no capítulo anterior apresentam-se algumas considerações que permitem verificar que os multiplicadores turísticos variam de modo considerável com o tipo de visitante e também com base no tipo de bens e serviços que por ele são consumidos.
C - Factores relacionados com a procura turística – Comportamento dos visitantes
No tocante à questão quem são os consumidores em turismo, Archer e Flectcher (1996) verificaram que existiam diferenças consideráveis em termos de multiplicadores turísticos de acordo com o país de residência do visitante. Em termos de multiplicador turístico do rendimento, os autores não encontram grande variabilidade, registando que a diferença entre o valor do multiplicador turístico do rendimento mais elevado face ao mais baixo era apenas da ordem de 1%. No entanto verificaram que existiam diferenças consideráveis em termos de número de turistas necessários para gerar um posto de trabalho. Nas
Seychelhes, observam, por exemplo, que enquanto eram necessários cerca de 13 turistas provenientes de África para gerar um posto de trabalho, se os turistas fossem provenientes da Suíça tal valor reduzia-se a 9. Liu et al. (1984) relacionam a dimensão dos multiplicadores turísticos com o tipo de visitante. Estes autores classificaram os visitantes da Turquia em quatro grupos - turistas estrangeiros, turistas domésticos, excursionistas estrangeiros e excursionistas domésticos - e verificaram que a dimensão do multiplicador do rendimento variava consoante o tipo de visitante. Esta variação está directamente relacionada com o padrão das despesas, uma vez que para a dimensão do multiplicador turístico, esta é a variável mais importante. Perante o exposto, conclui-se que a distribuição dos gastos de visitantes pelas actividades económicas do destino interfere no valor dos multiplicadores turísticos, existindo consenso quanto ao facto de que gastos em estabelecimentos de alojamento e restauração estão associados a altos multiplicadores, porquanto o pagamento vai directamente para operadores locais que adquirem a maioria dos seus inputs localmente. Por sua vez, gastos em álcool e tabaco normalmente estão associados a baixos multiplicadores, uma vez que parte do seu preço diz respeito a impostos que são remetidos ao Estado (Detomasi, 1987). Espera-se, assim, que quanto mais o visitante gasta numa actividade económica com um elevado multiplicador sectorial, maior será o valor do multiplicador turístico (Baaijens et al. 1998).
Existem alguns estudos que procuram calcular o multiplicador turístico de diferentes actividades produtivas que fornecem bens e serviços aos visitantes. Um destes estudos foi realizado por Archer e Fletcher (1996) para as Seychelhes. Estes autores calcularam os multiplicadores turísticos do rendimento, do emprego e das receitas do Estado para as seguintes actividades económicas: grandes hotéis, pequenos hotéis, restaurantes, rent-a-cars, táxis e autocarros, comércio a retalho, outros serviços, transporte aéreo e transporte marítimo. Os resultados indicam a existência de grandes diferenças em termos de multiplicadores turísticos, permitindo identificar os sectores que devem ser encorajados de forma a maximizar os benefícios económicos do turismo. Assim, caso se pretenda no destino mencionado maximizar o rendimento gerado pelo turismo, deve-se procurar captar os visitantes que gastam mais em transportes marítimos, em outros serviços e em pequenos hotéis, uma vez que das actividades económicas que fornecem bens e serviços aos visitantes são as que apresentam um multiplicador turístico do rendimento mais elevado. Se o objectivo fosse estimular o emprego local então deve-se apostar em termos de serviços prestados por táxis e autocarros, outros serviços e pequenos hotéis. Por conseguinte se o objectivo fosse aumentar as receitas do Estado, então os outros serviços, os restaurantes e os pequenos hotéis são os ramos de actividade económica mais importantes.
Lee e Kwon (1997), ao avaliarem o impacte económico dos casinos na Coreia do Sul, verificaram que o valor dos multiplicadores turísticos (multiplicador do output, do rendimento pessoal, do emprego, do Valor Acrescentado, dos impostos indirectos e das importações) variava de sector para sector. Assim, enquanto
que os restaurantes e os serviços culturais e recreativos apresentavam multiplicadores do rendimento pessoal de 0,66 e 0,59, respectivamente, o multiplicador dos hotéis era apenas de 0,50.
Além dos estudos enunciados, também os estudos realizados por Frechtling e Horváth (1999), Lichty e Steines (1982) avaliam a dimensão dos multiplicadores turísticos de acordo com o tipo de bens e serviços consumidos no destino. Frechtling e Horváth (1999), ao avaliarem os multiplicadores do output, do rendimento e do emprego das despesas turísticas numa economia local (Washington, D.C), verificaram que as maiores diferenças em termos de dimensão dos multiplicadores, por tipo de actividade económica que fornece bens e serviços aos visitantes, ocorriam em termos de multiplicador do rendimento e multiplicador do emprego. Observou-se que os sectores que apresentavam multiplicadores mais elevados eram os transportes locais, o comércio a retalho, a restauração e os serviços recreativos e culturais. Por sua vez, Lichty e Steines (1982), ao avaliarem o impacte do turismo para Ely (Minnesota), verificaram que o alojamento, os serviços de apoio aos transportes (exemplo: estações de serviços), os restaurantes e os serviços de entretenimento foram os que apresentaram os multiplicadores do output mais elevados, por ordem decrescente de importância.
Por fim, relembra-se que a complexidade dos multiplicadores turísticos obriga a que se tenham sempre presentes os potenciais factores que influenciam a sua natureza e dimensão. No entanto, a avaliação do impacte destes factores deverá ser realizada tendo presente a sua inter-ligação, uma vez que a avaliação isolada de cada um deles não é satisfatória, na medida em que em determinadas situações alguns efeitos podem anular-se.
A análise do multiplicador turístico ficaria incompleta, caso não se procurassem identificar as potenciais limitações deste instrumento de avaliação do impacte económico do turismo.