• Aucun résultat trouvé

A.2. Ouest a méricain et Seconde Guerre mondia le

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 29-38)

L E MODÈLE AMÉRICAIN

I. A.2. Ouest a méricain et Seconde Guerre mondia le

Diversos autores vêm estudando a alternância/variação do a e do para com complementos que possuem o caso dativo e que desempenham o papel semântico alvo/meta no PB, os quais vêm demonstrando que a preposição para se encontra em ampla expansão em vias de mudança em detrimento da preposição a, como (02a-b) (SCHER, 1996; ARMELIN, 2011; FREIRE, 2005; BARROS, 2008; BARROS; RIBEIRO, 2011; GOMES, 2003; BERLINCK, 1997; 2000; 2001; 2009; TORRES MORAIS; BERLINCK, 2006; TORRES MORAIS; SALLES, 2007, entre outros). Em contraponto, embora essas preposições sejam concorrentes no PB, no PE, como o exemplo em (02b), somente é possível a ocorrência de a nesses contextos.

A preposição para ocorre em contexto bem específico, conforme descrevo a seguir com base em Xavier (1989) e Torres Morais (2007).

(02) a. Gabriel ofereceu/deu/entregou/passou um pedaço de bolo para o Pedro (PE*/PB)

b. Gabriel ofereceu/deu/entregou/passou um pedaço de bolo ao Pedro (PE/PB) (DUARTE, 2003, p. 289)

De maneira geral, esse tipo semântico de dativo exibe propriedades sintáticas, tais como: a) pode ocorrer em uma forma clítica; b) possui traço [+humano] ou é interpretado dessa forma; c) exibe configuração de c-comando assimétrico, conforme discuto na seção 2.2; d) é argumento previsto pelo núcleo do predicador, não é adjunto; e) pode ocorrer na posição adjacente ao verbo ou posposto ao argumento acusativo (BAKER, 1988; LARSON, 1988; ORDÕNEZ, 1999; BERLINCK, 1999; PYLKKANEN, 2002; 2012; TORRES MORAIS, 2007; RAMOS; SALLES, 2017).

Quanto ao aspecto semântico, o dativo em (02a) desempenha o papel de alvo/meta, é introduzido por para apenas no PB, de maneira praticamente categórica (BARROS, 2008; BARROS; RIBEIRO, 2011; GOMES, 2003; BERLINCK, 1997; 2000; 2001; 2009; TORRES MORAIS; BERLINCK, 2006; TORRES MORAIS; SALLES, 2007). Apesar disso, na norma culta brasileira e em contextos bastante específicos das normas populares, é possível verificar ainda a ocorrência da preposição a. No PE, Torres Morais (2007) e Brito (2003) defendem que a preposição a, como em (02b), funciona como um marcador morfológico de caso dativo, quando ocorre em redobro do clítico dativo, consistindo em uma COD, conforme desenvolvo melhor na seção 2.2. Brito (2003) afirma que, nesses contextos semânticos, os papéis temáticos dos DPs na sentença são sempre os mesmos independentemente da realização ou não do dativo preposicionado. Nesse caso, o complemento dativo como pronome de terceira pessoa lhe evidencia a função da preposição a nos contextos ditransitivos e com dativos alvo/meta em (03). Esse tipo de pronome dispensa a função da preposição de intervir na marcação de caso.

(03) Gabriel ofereceu/deu/entregou/passou-lhe um pedaço de bolo (PE/PB culto)

Quanto ao aspecto casual, esse tipo de dativo ocorre em contexto em que o verbo (geralmente os de transferência) seleciona obrigatoriamente dois argumentos internos, tema e

morfológica de caso dativo, sem o redobro com o pronome lexical marcado pela preposição dativa a, diferentemente do PE. Vale mencionar que no PE, para Xavier (1989), nos contextos em que há possibilidade de substituição pelo clítico meta/alvo, o dativo preposicionado por a, quando omitido, pode ser facilmente inferido pelo discurso.

Sobre a presença do lhe em construções com redobro no PE, como em (04), Torres Morais (2007) diz que a sua ocorrência somente é possível com a e nunca para. Em um estudo sobre as construções do DP dativo alvo/meta, Torres Morais (2007) afirma que, quando a ocorre junto ao redobro do clítico lhe/lhes, é um marcador morfológico causal de dativo, não uma preposição.

(04) a. Gabriel ofereceu/deu/entregou/passou-lhe a ele um pedaço de bolo. (PB*/PE) b. Gabriel ofereceu/deu/entregou/passou a ele um pedaço de bolo. (PB/PE*)

A sentença em (04a), conforme a autora, possui um sentido contrastivo e, além disso, essa configuração é a representação de uma construção de duplo objeto no PE10, evidenciada pelo redobro do clítico dativo. Torres Morais (2007) assume, nos moldes do espanhol (CUERVO, 2003), que esse tipo de construção com verbos ditransitivos compõe o fenômeno da alternância dativa, em que o redobro do clítico é uma Construção de Objeto Duplo (COD) e a sua contraparte ocorre sem o clítico, apenas com um dativo preposicionado por a, é a Construção Ditransitiva Preposicionada (CDP). A sentença em (04b) exemplifica a inexistência do redobro do clítico como em (04a) e, diferente do PE, a possibilidade de realização da preposição a sem a configuração do redobro do clítico. Isso reforça a hipótese de Torres Morais e Salles (2010) de que a variante padrão a em contextos de DP pronominal (a ele / a mim / a você) faz parte do conjunto de inovações do PB, haja vista que no PE construções desse tipo somente são possíveis com o redobro do clítico dativo. Realidade linguística que é confirmada pelos dados do PB-afro, conforme demonstro no capítulo 5 desta pesquisa.

Outro aspecto a ser considerado é que, segundo Torres Morais (2007), embora com interpretações distintas, as preposições a e para podem ocorrer em diversos contextos semelhantes em que o complemento dativo se manifesta, tais como nos verbos enviar, roubar,

comprar, fazer, entregar, levar e mandar, fornecer, oferecer, conforme (05).

10 Torres Morais (2007) propõe em sua tese que as construções com redobro do clítico do PE possuem núcleos

(05) a. O José enviou uma carta à Maria /enviou-lhe uma carta

a’. O José enviou uma carta para a Maria/ para Lisboa/ ao Banco de Portugal

b. O José forneceu/ofereceu/ ajuda aos flagelados da seca/ofereceu-lhes ajuda b’. O José forneceu/ofereceu ajuda para os flagelados da seca

(TORRES MORAIS, 2007, p. 101)

Segundo a autora, se em (05a-b) a preposição a somente é possível nos mesmos contextos em que ocorre o clítico dativo. A autora defende também que a é uma marca morfológica de dativo, ou uma preposição dummy, posicionado in situ para marcar caso inerente (TORRES MORAIS, 2007; TORRES MORAIS; SALLES, 2007). No entanto, a sua contraparte introduzida para em (05a’-b’) constitui-se em uma preposição verdadeira, isto é, constitui-se núcleo de uma projeção funcional prepositiva na estrutura argumental e, além disso, ocorre em construções em que o dativo alvo/meta vem posposto ao complemento tema. Nessa configuração, de acordo com Torres Morais (2007), o DP introduzido por a ou para, em geral, introduzem complementos alvo/meta, mas algumas vezes também introduzem beneficiário, ou por de ou a os complementos fonte, conforme discuto nas próximas seções.

A autora explica que o exemplo em (05a') é uma expressão locativa e não há relação de posse, como ocorre nas construções de redobro do clítico dativo, de maneira que o uso de clíticos e da preposição a nesse contexto é agramatical no PE. Além disso, complementa que tal restrição não tem relação apenas com o traço [-animado] dos complementos preposicionados em (05a'), mas tem relação com o fato de que não é possível haver uma interpretação de posse com um locativo puro. Em outras palavras, o contexto que envolve uma relação com um locativo somente é possível com para no PE.

Outro ponto que chama a atenção são os exemplos com um DP alvo/meta com traço [+humano] (“a Maria”; “os flagelados da seca”) introduzido por para, em (05a'-b’). Conforme Torres Morais (2007, p. 97), essa construção somente é possível, porque o DP alvo/meta com traço [+humano] nos exemplos não está em uma relação de posse direta com o movimento de transferência, não podendo haver redobro do clítico. Segundo a explicação da autora, embora ambas as interpretações sejam próximas, são diferentes: no caso de “enviar/oferecer/ofertar a”, há interpretação de transferência direta ao alvo/meta, porém, no caso de “enviar/oferecer/ofertar

para”, há uma interpretação de que a transferência pode não ter alcançado o alvo/meta, já que é

Em outras palavras: o uso da preposição para, segundo a autora, somente é possível com verbos de movimento se houver uma relação de transferência não direta, pois somente há relação direta se for a. Outrossim, Xavier (1989) acrescenta que existe um traço semântico [+ ou – durativo] responsável pela escolha de a ou de para nesses casos, sendo a [-durativo] e para [+durativo]. Em outras palavras: o uso da preposição a é direto, mais pontual, enquanto o uso da preposição para é mais indireta. O dado empírico do PE apreciado por ambas as autoras corrobora a hipótese localista de Jackendoff (1972), quando o autor demonstra que, no inglês, o argumento alvo/meta que geralmente é introduzido por for possui a relação mais indireta no processo de transferência, de modo que o autor intitula de alvo/meta secundário o papel semântico do PP introduzido por for. Nas variedades do português, esse tipo de argumento é geralmente preposicionado por para, conforme se verifica na seção 2.1.3.

Ainda no tocante aos exemplos em (05), Torres Morais (2007) acrescenta que, no PE, não importa apenas observar se a relação de transferência é ou não direta, mas também o traço de animacidade se torna um fator determinante quanto ao uso da preposição para com verbos como enviar, entregar, levar e mandar, tendo em vista que dativos preposicionados em verbos ditransitivos com o traço [-animado] ocorrem apenas com essa preposição, nunca com a.

A autora demonstra através de exemplos com os verbos atribuir, devolver, distribuir,

emprestar que somente é possível a leitura de transferência direta com a preposição a, contudo

não é possível a mesma leitura com para, conforme (06). Os exemplos da autora servem para testar se a relação direta ou indireta entre o objeto tema e o objeto alvo/meta no PE, de fato, interfere na escolha da preposição, se a ou para, no transcorrer da transferência.

(06) a. O José atribuiu uma tarefa aos alunos/atribuiu-lhes uma tarefa (PE/PB culto) a’.O José atribuiu uma tarefa para os alunos (*PE/PB)

b.O José devolveu o dinheiro aos clientes/devolveu-lhes o dinheiro (PE/PB

culto)

b’.O José devolveu o dinheiro para os clientes (*PE/PB)

c. O José distribui esmolas aos pobres/distribui-lhes esmolas (PE/PB culto) c’. O José distribui esmolas para os pobres (*PE/PB)

d. O José emprestou o carro ao Pedro/emprestou-lhe o carro (PE/PB culto) d’.O José emprestou o carro para o Pedro (*PE/PB)

(TORRES MORAIS, 2007, p. 101)

Nos exemplos em (06), todos os casos em que ocorre a preposição para é agramatical no PE, mas é gramatical no PB. Os casos em que há a realização da preposição a ou do clítico dativo de terceira pessoa são possíveis no PB, porém na norma culta dessa variedade.

Quanto à interpretação dos traços de animacidade do argumento preposicionado

alvo/meta, Duarte (2003) especifica que o complemento introduzido por a deve possuir traço

semântico [+ animado] como uma das propriedades peculiares e inerentes ao dativo. No entanto, para ela, existem algumas exceções em que a preposição a ocorre com dativos que apresentam traço [- animado]: i) em alguns verbos de dois lugares, tais como “obedecer a” ou “sobreviver a”; ou ii) quando são complementos de nomes deverbais, conforme (07).

(07) A Maria deu [uma pintura] OD [às estantes] DAT

(DUARTE, 2003, p. 289, grifo do autor)

Há a possibilidade de substituição do sintagma verbal “dar uma pintura” em (07) pelo verbo “pintar”, fazendo com que o DP “às estantes” passe a desempenhar função de OD e possuir papel temático de tema, como em (08).

(08) a. A Maria pintou [as estantes] OD

b. A Maria deu [uma pintura] OD [nas estantes] OBL

(DUARTE, 2003, p. 289, grifo do autor)

Apesar de afirmar que o complemento preposicionado por a no exemplo em (07) possui propriedades sintáticas de um dativo alvo/meta, uma vez que “dar uma pintura” é uma expressão que se constitui de um verbo leve “dar” e o sintagma determinante “uma pintura”. Esse fato é corroborado quando há substituição da preposição a pela preposição em na sentença em (08b) tanto no PE, conforme Duarte (2003), como no PB, de modo que o próprio exemplo da autora é motivo para se contestar a ocorrência de dativos com traço [-animado]. Ademais, como se observa mais adiante, o dativo propriamente dito, no PB e no PE, é introduzido apenas por a ou para, nunca em.

Em suma, destacam-se duas generalizações acerca da descrição desenvolvida nesta seção, em relação às preposições a e para como introdutoras de dativo alvo/meta no PB e no PE:

a) a preposição para é a estratégia de introdução de dativos alvo/meta predominante no PB, podendo ocorrer o uso do a na norma culta;

b) contrariamente ao PB, a preposição a é predominante no PE, mas pode ocorrer a variação a~para em contexto específico em que não há uma relação de posse direta entre os dois objetos internos do verbo, como se observa na seção 2.1.2 a seguir, contexto no qual não é possível também a ocorrência do redobro do clítico.

As características do PB apresentadas nesta seção são corroboradas pelos dados do

corpus do afro-brasileiro em análise na presente pesquisa, quanto ao uso das preposições

introdutoras de dativo alvo/meta. Assumindo essas diferenças entre as variedades europeia e brasileira, é possível ter a referência de como funciona o padrão do PE no papel de língua-alvo durante a situação de contato intenso por meio de falantes das línguas africanas, que desembarcavam incessantemente ao longo do período de tráfico legal e ilegal de escravos.

Nas seções a seguir, descrevo outras configurações de DP em que é possível se verificar a ocorrência de a e/ou para, a fim de compreender os contextos linguísticos que condicionaram a inserção da preposição para com dativos alvo/meta, os quais serviram como Dados Linguísticos Primários (doravante DLP) no processo de aquisição do português enquanto segunda língua dos primeiros falantes das comunidades rurais afro-brasileiras.

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 29-38)