Em nosso conjunto teórico, de acordo com os estudos de Moreira (2016), Anjos e Mendes (2015), Nogueira (2015), Abranches (2011), Machado (2009), Côrtes e Silva (2006), Neves (2005), Costa e Mazzilli (2001) e Oliveira (1997), percebemos que o leque de motivos que levam à opção pela busca de uma vaga no serviço público era de larga amplitude. Estabilidade, remuneração e benefícios foram algumas justificativas apresentadas nas abordagens citadas. Com o objetivo de confronta-las com a realidade dos concursados- concurseiros iniciamos nossa apresentação dos dados com a questão de número 15 (quinze): Conte um pouco sobre os motivos que contribuíram para você iniciar seus estudos e hoje estar servidor público concursado.
O objetivo inicial foi levantar os motivos que contribuíram para o início dos estudos dos nossos participantes (decisão de iniciarem os estudos para concurso) e hoje estarem servidores públicos concursados, bem se convergiam como nosso referencial teórico, o que se confirmou:
“motivo = estabilidade”. Também pudemos ampliar nossa percepção, sensorialmente, com a
técnica de nuvem, que pôs em evidência palavras como “estabilidade”, “financeira”, “salários”, “emprego”, “necessidade”, “oportunidade” “segurança” (Figura 39).
Figura 39 - A estabilidade como motivo maior de ser servidor público
Fonte: Autoria própria (2019).
Como revelado, o “principal motivo é a segurança, a famosa estabilidade”. Os respondentes a relacionaram com segurança e empregabilidade, porquanto “falta mercado de
trabalho na iniciativa privada” – hoje com mais de 13 (treze) milhões de desempregados. Com
essa “falta de oportunidade na iniciativa privada, concurso é uma forma mais justa de
seleção”, além de “não precisar de indicações de outras pessoas para ingressar no órgão, bons salários iniciais (apesar de progressão, em geral, ruim), estabilidade financeira e de emprego”. Cabe lembrarmos que essa necessidade de indicação na iniciativa privada já havia
aparecido na fala de @M.S., na seção 4.2 item A, que, inclusive, revelou ter que “fingir
respostas prontas para passar em entrevistas”.
Assim, para alguns respondentes, o concurso público se mostrou como uma opção de
“saída da iniciativa privada”, ou seja, do seu modus operandi, que foi relacionado ao medo do
desemprego, à precarização do trabalho, à falta de garantias, à exclusão social, aspectos vistos em Moreira (2016), na seção 2.3.2. Alguns comentários explicitaram vigorosas diferenças entre os setores público e privado, como o caso da longeva concursada-concurseira, de cinquenta e três anos de idade, nível médio, casada e estável no serviço público. Segundo ela, “devido à
idade, não conseguia trabalho sem ser via concurso público”. De fato a idade tem sido uma
barreira na contratação pela iniciativa privada, principalmente após os cinquenta anos, como reconheceu o presidente da central sindical UGT, Patah 63(Online, 2019), à BBC News Brasil. Com relação ao desemprego, a figura 40 mostra que a partir de 2015 houve um aumento expressivo do medo de ficar desempregado, sendo maior entre as mulheres – relembrando que nossa pesquisa conta com 73% (setenta e três por cento) de mulheres. Além desse sentimento,
por ser um fato presente em larga escala na nossa sociedade, o próprio desemprego também é motivo para o ingresso no serviço público: “eu estava desempregado e resolvi prestar o
concurso do metrô, como é sociedade de economia mista sou CLT”. Esse concursado-
concurseiro, mesmo já possuindo certa segurança64 em seu regime trabalhista, se comparado com um celetista de empresa privada, prefere alcançar a estabilidade prevista no Estatuto do servidores públicos. A consequência dessa busca, e posterior manutenção do vínculo estatutário, se desvela no ânimo de “ter salário fixo, poder realizar sonhos pessoais, emprego
bom”. Trata-se da manutenção do desejo de querer e poder mais, porém, por meio de novas
aprovações, para que se esteja livre das incertezas externas.
Figura 40 - Flutuação do medo do desemprego no Brasil.
Fonte: Nexo jornal (2019)
Garantindo o emprego público e superando o fantasma do desemprego, o aspecto da segurança financeira foi outro motivo bastante apresentado pelos concursados-concurseiros, tanto associado com a “estabilidade financeira” quanto com a chance de receberem “melhores
salários”. Além disso, as possibilidades de ingresso no serviço com “bons salários iniciais” e “sem necessidade de experiência” funcionam como propulsores para o início dos estudos, visto
que muitos jovens encontram dificuldades na busca do primeiro emprego. Como visto anteriormente65 em Machado (2009), vários profissionais, principalmente os que buscam o primeiro emprego, não se encontram preparados para as diversas exigências contemporâneas impostas para o ingresso no mercado de trabalho. Esse é um dos motivos que levam alguns
64 O empregado público é vinculado às regras da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT - mas seu regime
é do tipo hibrido, uma vez que só poderá ser mandado embora mediante instauração de processo e amparado pelas demais garantias constitucionais.
jovens à preferirem sair do ensino médio e já se dedicarem às provas: “queria estabilidade,
então iniciei meus estudos ainda na graduação, vindo a passar no concurso público antes de me formar”.
Ainda em relação ao aspecto financeiro, algumas questões familiares foram trazidas para a discussão, na fala de três concursadas-concurseiras. A primeira, por ser filha de servidores públicos, afirmou: “sempre vi as vantagens dos salários relativamente altos e da
estabilidade” e, com tal influência, acrescenta: “presto concurso público desde os 18 anos”.
Hoje, com 27 anos de idade, é mestra, casada, ocupante de cargo de nível médio, e estável no serviço público, porém, continua estudando para concursos das áreas de gestão, administrativa ou fiscal. A história da segunda tem início bem diferente da anterior, pois o motivo de ter começado os estudos foi o fato de ter vindo “de família pobre, sempre procurando melhores
condições de vida”. Hoje as duas possuem mais semelhanças: 29 anos de idade, é tecnóloga,
casada, ocupante de cargo de nível médio e estável no serviço público, mas ainda buscando aprovação em áreas de gestão, administrativa ou jurídica. A terceira, além de desejar estabilidade no emprego, enfatizou de forma mais direta seu desejo: “quero ajudar
financeiramente a minha família”.
Apenas três respondentes revelaram interesses relacionados com o trabalho público em si, mostrando certa vocação, e fugindo das ideias exploradas anteriormente. Essas concursadas- concurseiras, com diplomas de especialização, graduação e mestrado, e ocupantes de cargos de nível fundamental, médio e, também, médio – respectivamente –, apontaram: “quero ser
servidora na área jurídica”, “não me identifiquei com minha área de formação; já tinha feito estágio em serviço público” e “pela Estabilidade e por gostar da natureza das atividades”.
Assim, em um universo de quarenta e quatro sujeitos, três revelaram que não seria apenas “a
necessidade financeira” ou “benefícios e estabilidade”, demonstrados na nuvem (figura 39),
que podem atrair o interesse pelo serviço público.
Também foram apresentadas ainda outras evidências, mais abstratas e com significações menos genéricas, como o desejo de “realizar sonhos pessoais”; “oportunidade de ter uma vida
melhor”; “melhores condições de vida”; “qualidade de vida”. Contudo, essas questões serão
discutidas mais adiante, ao indagarmos os motivos para continuarem estudando, bem como o valor que os concursados-concurseiros dão a uma nova aprovação e o possível impacto em suas vidas.