3.3 Exemples de al uls
4.1.4 F ormalisations du orps des réels
A aproximação ao carácter da paisagem pode ser concretizada através da identificação de unidades de paisagem e elementos singulares. As unidades de paisagem (UP’s) são áreas que se caracterizam por um determinado padrão específico, que é relativamente homogéneo e diferencia a unidade da sua envolvente. Para além deste padrão considera-se que deve “existir uma coerência interna e um carácter próprio em cada unidade, identificável do interior e do exterior.”6 Esta coerência pode ser devida aos processos biofísicos que nela decorrem ou então devido ao tipo de humanização presente. A Comissão Europeia define unidades de paisagem como “áreas espacialmente coerentes que são caracterizadas por um certo grau de homogeneidade no que respeita a propriedades tais como as condições naturais (geologia, morfologia, solos e clima) ou uso do solo.”7 Para a identificação e delimitação das unidades de paisagem é considerado um conjunto de critérios variável em função da área a analisar mas que pode integrar elementos do relevo, clima, coberto vegetal, uso do solo e povoamento. As citações de autores, “tanto de obras técnicas como literárias, [servem] para ilustrar a importância de percepções globais da paisagem ou fazer apelo ao seu valor poético ou sensitivo.”8
Uma unidade de paisagem pode permitir, em certa medida, a revelação do carácter de uma paisagem concreta porque “constitui um lugar diversificado mas paisagisticamente uno (…) [e que reflecte] uma forma de humanização que, quer mais subtil quer mais vincada, é inspirada na sua essência, na sua energia potencial. [Unidades de paisagem são] Espaços onde a totalidade se impõem em relação às partes.”9 A leitura de uma unidade de paisagem está numa primeira fase dependente de pontos e linhas singulares da paisagem, que formam a estrutura da unidade de paisagem. Para além desses pontos e linhas a unidade de paisagem possui um conteúdo que não é neutro, mas sim parte da sua identidade, unidade e diferenciação.10 Cada unidade de paisagem é dinâmica e os limites são uma fronteira difusa, elástica, que por vezes constitui um intervalo de transição entre unidades com uma identidade menos clara.11 Também Cancela d’Abreu et al referem que numa unidade de paisagem por vezes é identificável um núcleo onde a coerência é mais forte e o padrão mais nítido, mas que essa coerência por vezes se vai esbatendo à medida que nos afastamos do núcleo dessa unidade, surgindo zonas de transição para outras unidades “pelo que o limite das unidades não é, na maior parte dos casos, um limite absoluto, nem simplesmente uma linha identificável na paisagem”.12 Embora exista alguma semelhança no modo como as unidades de paisagem e as tipologias de paisagem são definidas, as primeiras permitem uma maior relação com um lugar específico, uma vez que quando se procede à inclusão de diversas áreas em tipologias concretiza-se simultaneamente uma abstracção e uma desmaterialização da paisagem, desvinculando-a do lugar. As metodologias de base tipológica têm, no
6 PINTO-CORREIA, T. et tal, - “Identificação de unidades de paisagem: metodologia aplicada a Portugal continental”. “Finisterra: revista
portuguesa de geografia”. Lisboa: Centro de Estudos Geográficos. Vol. XXXVI, nº 72, (2001). p. 199.
7 Cit. por CANCELA D’ABREU, A. (2004) et al, - “Contributos para a identificação e caracterização da paisagem em Portugal
continental”. Lisboa: Direcção Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano, 2004. Colecção Estudos 10. Volume I p.31.
8 CANCELA D’ABREU, A. et al. (2004) op. cit. p.53.
9ALFAIATE, M.T.A - “Expressão dos valores do sítio na paisagem”. Lisboa: Instituto Superior de Agronomia, 2000. Tese de
doutoramento. p. 217.
10 Idem, ibid.
11 ALFAIATE, M.T.A. , op. cit. p. 110.
149 entanto, a vantagem de permitir um diagnóstico e avaliação da paisagem mais expedito uma vez que sempre que uma conjunção determinada de factores ocorre se encontra presente um tipo específico de paisagem, o qual pode ser avaliado mediante critérios multifuncionais.13
Para o diagnóstico da paisagem a partir de unidades paisagem é necessário o estabelecimento de um conjunto de critérios de avaliação da paisagem para cada unidade de paisagem particular, que posteriormente é alvo do estabelecimento de propostas.14 Esses critérios podem estar relacionados com a determinação da medida em que determinada unidade de paisagem expressa o seu carácter, ou então podem ser relativos ao seu valor natural, cultural e sensorial. A partir da determinação do valor de uma paisagem é possível identificar as ameaças a que esta se encontra sujeita e as suas potencialidades, tal como é efectuado no capítulo 5.
Nos estudos sobre paisagem concretizados para os Açores pela equipa de Alexandre Cancela d’Abreu a metodologia seguida passou por uma fase inicial de revisão bibliográfica, tanto sobre questões metodológicas como sobre a paisagem dos Açores; foram identificadas as variáveis consideradas mais importantes para a identificação das unidades de paisagem; recolheu-se informação sobre essas variáveis (tanto bibliográfica como cartográfica) e procedeu-se a uma primeira proposta de delimitação de unidades de paisagem denominadas de “unidades elementares de paisagem”; verificaram-se no campo essas primeiras unidades de paisagem que também foram apresentadas, nessa fase, à Secretaria Regional do Ambiente e do Mar e a interlocutores privilegiados de forma a recolher sugestões quanto à sua coerência e designação; estabeleceram-se as unidades de paisagem finais e procedeu-se à sua caracterização indicando-se também algumas apreciações e orientações para a sua gestão.15 Para o estabelecimento das unidades de paisagem finais foram considerados factores como as formas do relevo, a altitude, a presença humana, a vegetação e a relação com o mar.16
Para a apreciação descritiva da paisagem do arquipélago, ainda na fase de análise e diagnóstico da paisagem, foram tidos em conta os seguintes aspectos: a identidade da paisagem, que está relacionada com o “peso, ou conteúdo, da paisagem em termos histórico-culturais e que lhe confere uma importante capacidade narrativa (…) as unidades com mais forte identidade são também aquelas onde o carácter é mais claro e facilmente identificável, tanto do exterior como do seu interior”;17 a coerência de usos, ou seja, a adequação dos usos do solo às características biofísicas do território e também a interrelação dos diferentes usos na paisagem (que revela o seu equilíbrio ecológico e funcional e também a sua apetência multifuncional e está relacionada com a sustentabilidade da paisagem);18 a “riqueza biológica” em que se observa a biodiversidade presente e aponta a existência de espécies raras ou de elevado interesse para a conservação; a raridade da paisagem, geralmente associada à biodiversidade ou então à especificidade de adaptação por parte da população dos usos do solo às condicionantes biofísicas presentes; e as sensações que a paisagem evoca em termos visuais, sonoros, etc. e que está relacionada com o interesse cénico e com a qualidade visual da paisagem.19 A subjectividade do estudo é assumida pelos seus autores, e não é considerada uma fragilidade metodológica mas antes uma potencialidade já que esta apreciação mais subjectiva é articulada com uma forte fundamentação objectiva, tanto em termos bibliográficos como cartográficos.20
13 MCHARG, I. - “Design with nature”. New York: Natural History Press, 1971. p. 144.
14 EUROPA, C. (2000) op. cit. art. 6d); CANCELA D’ABREU, A.; BOTELHO, M.J.; OLIVEIRA, M.R.; AFONSO, M. - “A paisagem na
revisão dos PDM”. Lisboa: Direcção Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano (DGOTDU), 2011. p. 34.
15 CANCELA D’ABREU, A. et al (2001), op. cit.p. 47 - 49.
16 Idem, p. 48.
17 CANCELA D’ABREU, A. et al (2001) op. cit. p. 52.
18 Uma paisagem com pouca coerência de usos pode ser considerada uma paisagem vulnerável ou frágil. Idem, ibid. 19 CANCELA D’ABREU, A. et al (2001) op. cit. p. 52-53.
150
O facto de as ilhas terem dimensões muito distintas entre si foi uma das dificuldades encontradas por parte da equipa que procedeu ao estudo, e que dificultou, segundo os seus autores, uma homogeneidade de tratamento de todo o território à mesma escala. Este tipo de dificuldade não foi encontrado no âmbito da investigação presente uma vez que não se procede a um desenho formal de unidades de paisagem, antes se analisam as existentes. É, no entanto, importante referir que o processo de delimitação de unidades de paisagem e elementos singulares inclui uma forte componente de desenho e de atenção à forma da paisagem que distingue esta abordagem das restantes.
No “Livro das paisagens dos Açores” a cartografia das unidades de paisagem é apresentada para todas as ilhas à escala 1:75 000, o que implicou um esforço de síntese e adequação à escala por parte dos autores no sentido desta delimitação apresentar coerência ao nível do arquipélago. Este aspecto é essencial em abordagens deste tipo, porque as unidades de paisagem e elementos singulares podem ser bastante diferenciados consoante a escala de trabalho utilizada. É salientado o facto de o estudo corresponder a um intervalo temporal bem definido, aos anos de 2000-2001,21 o que se reflecte na análise da paisagem no sentido da sua contextualização. Porém, as características sócio-económicas condicionam a paisagem nos diversos períodos históricos mas as alterações na paisagem entendidas a uma escala mais lata, raramente ocorrem de uma forma abrupta ou uniforme, pelo que a paisagem mantém sempre uma forte associação às suas características geomorfológicas.22 Assim, tanto a paisagem como os usos do solo não se alteraram grandemente na última década, apesar de se terem acentuado padrões de homogeneidade.23
Os elementos singulares (ES’s) são elementos que se destacam no conjunto da unidade de paisagem pela sua identidade diferenciada e qualidade intrínseca e/ou pelo impacto que têm sobre a unidade, apesar de poderem possuir uma reduzida dimensão face à unidade.24 Apesar de se constituírem como pontos marcantes da paisagem a identificação de um elemento singular não está, contudo, exclusivamente relacionada com a sua forma ou tamanho. Embora elementos formalmente diferenciados ou de grande escala possuam um potencial “para criarem o seu próprio mundo”25, estas não são características básicas decisivas para a constituição de um elemento singular, que pode ter uma presença física pouco significativa mas constituir-se como um pólo de atracção pelos significados a ele atribuídos e que provêm da história ou da cultura.
As unidades de paisagem podem ser definidas como espaços associados à experiência do movimento enquanto os elementos singulares podem ser definidos como lugares que evocam pausas e que permitem a construção de memórias, especialmente se tivermos em conta que uma das possíveis definições de lugar, como local onde os objectos estáveis captam a nossa atenção.26 Os elementos singulares podem permitir a distinção de unidades de paisagem, no entanto ainda que um conjunto de elementos singulares possa de algum modo descrever uma paisagem estes não contêm de modo individual o seu carácter, já que este se encontra nos elementos singulares mas também no conjunto, no todo que é a paisagem.27 Assim, é a totalidade que interessa na definição, quer das unidades de paisagem como dos elementos singulares e estes não se encontram apenas no lugar, eles também “são” o lugar.28
Para além das unidades de paisagem e dos elementos singulares são apresentados no “Livro das Paisagens dos Açores” os pontos de vista mais importantes para cada ilha. A análise visual da paisagem
21 CANCELA D’ABREU, A. et al [2005] op. cit. p.17.
22 RAPOSO, C. - “Unidades ecológicas de paisagem” in MAGALHAES, Manuela Raposo (coord. geral) - “Estrutura ecológica da
paisagem: conceitos e delimitação - escalas regional e municipal”. Lisboa: ISApress, 2007. p. 213.
23 Segundo os dados do SREA e do COSRAA os usos agrícolas e agropecuários não se alteraram grandemente mas as pastagens
permanentes ganharam terreno, como já foi referido anteriormente.
24 CANCELA D’ABREU, A. et tal [2005] op. cit. p.16
25 TUAN, Y. - “Space and place: The perspective of experience”. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1977. p.163. 26 Idem, p. 161.
27 SCHULZ, C. - “Genius loci : Paysage, ambiance, architecture”. Bruxelles : Pierre Mardaga éditeur, 1981. p. 98. 28 Heidegger cit.por SCHULZ, C. op. cit. p. 176.
151 assenta no estudo do conjunto de relações visuais que é possível estabelecer entre as diversas componentes físicas e respectivo padrão de distribuição espacial na paisagem. A partir da escolha de pontos de vista dominantes revelam-se áreas visíveis e procede-se a uma pré-valoração da paisagem tendo em vista o estabelecimento de critérios de qualidade visual. Estes critérios estão intimamente relacionados com a paisagem em questão, uma vez que os elementos que conferem diversidade e contraste a dois tipos de paisagem podem ser totalmente diferentes.
Após o estabelecimento de critérios procede-se à selecção de diversos outros pontos de vista, e à identificação e análise propriamente dita das bacias visuais correspondentes e à avaliação da qualidade visual. Com a análise visual pretende-se avaliar o valor cénico de uma paisagem e das suas unidades de paisagem e estabelecer zonas de visibilidade ou intervisibilidade das unidades de paisagem ou ilhas.29 Alguns critérios estéticos e formais para o estabelecimento de uma vista com qualidade podem ter em conta a extensão de céu visível, as diversas formas, texturas e cores da paisagem e o modo como estas de articulam e harmonizam. O contraste visual, a dominância visual de alguns elementos componentes da paisagem e a importância relativa das características visuais de cada um desses elementos são aspectos a ter em conta quando se procede a uma análise deste tipo.30 O resultado pode ser a selecção de pontos de vista de interesse, tal como é concretizado na publicação referida. Seguidamente procede-se a uma análise das unidades de paisagem, elementos singulares e pontos de vista do arquipélago.