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LISTE DES TABLEAUX Partie 2. Matériels et méthodes

PARTIE 1. REVUE DE LITERATURE

B. Origines de la fatigue neuromusculaire

Além do movimento de extroversão e introversão existem, ainda, os movimentos de progressão e regressão da libido. Conforme citado na introdução deste trabalho, alguns autores, principalmente Kris (S.D.) e Vigotski (2001), associam o tema da criatividade à regressão. Por progressão Jung (1928/2008a) entende um processo contínuo de adaptação psicológica às exigências do meio ambiente, enquanto a regressão é uma adaptação ao mundo interno do sujeito. Quando o sujeito se depara com uma tensão entre opostos que não pode ser resolvida, a libido faz um movimento retrógrado e se volta para o inconsciente.

Este investimento de energia libidinal nos elementos inconscientes ativa “novas possibilidades” (JUNG, 1928/2008a, §63) que contém o que é necessário para resolver aquilo de que a consciência não foi capaz. Os elementos inconscientes ativados pela regressão adquirem um valor maior e passam a influenciar a consciência, podendo ganhar força e se manifestarem autonomamente a ela. O autor afirma que quanto mais intensa for a regressão, maior será a profundidade dos elementos que serão ativados pela libido, e, assim, maior será a força que eles terão para romper a resistência da consciência e se manifestarem. Por se tratar de elementos reprimidos ou desconhecidos, o ego tentará resistir aos elementos ativados pela regressão, mas terá de se submeter aos conteúdos do inconsciente para que a libido possa voltar a progredir. O ego pode se submeter aos elementos de maneira consciente ou ser tomado por eles contra sua vontade.

Assim, a regressão parece ter participação pertinente no processo criativo. É a intensidade dos elementos ativados pela libido regredida que determinará a intensidade com que o sujeito se relacionará com os conteúdos que se apresentam à consciência.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS – CRIATIVIDADE COMO ABERTURA DE ESPAÇO

O estudo da obra de Jung é, muitas vezes, sentido como uma caminhada por ruas antigas, em que o passeio alternado entre largos e travessas permite que a identidade de sua escrita se revele naturalmente. A forma como Jung trabalha suas ideias faz com que seu texto exceda a tinta das letras impressas e adquira um panorama tão vivo que é como se seus conceitos interagissem entre si, surpreendendo o leitor a cada momento. A amplitude de seus escritos permite que suas palavras passeiem pelas vielas de seus livros e, repentinamente, se encontrem, criando novos enquadramentos teóricos. O pesquisador de Jung tem, constantemente, a sensação de que se não estivesse ali, naquele exato instante, perderia o nascimento de novas formas de compreensão.

A investigação da importância do conceito de criatividade realizada no presente estudo possibilitou que, por meio de um contato mais próximo com a produção escrita dos autores, novas perspectivas e relações fossem estabelecidas. O caminho percorrido, principalmente por Jung, mostra que é fundamental que o sujeito olhe para si mesmo para que consiga diferenciar-se e se perceber como indivíduo. Entendendo a coletividade como uma oposição à individuação, Jung defende que o criativo é aquele que consegue ser inventivo o suficiente para se separar desta coletividade. O autor entende coletividade de duas formas: uma “função coletiva em relação à sociedade” (JUNG, 1916/2011, §1101) e outra em relação ao inconsciente. Ao declarar que deve-se afastar da coletividade, Jung afirma que o sujeito criativo deve se distanciar tanto das exigências da sociedade quanto da influência autônoma do inconsciente. Portanto, para que a diferenciação entre o homem e o coletivo aconteça é necessário que se abra um espaço entre ambos, uma separação, e é justamente neste espaço aberto que o ato criativo ocorre, podendo surgir a oportunidade para o desenvolvimento da personalidade.

A respeito da noção de abertura de espaço, a definição de reflexão apresentada por Jung mostra-se importante. O termo reflexão vem de reflexio, uma junção de RE (outra vez, novamente) + FLEXUS (dobrado, flexionado), indicando que este é um ato de voltar-se para trás, direcionar o pensamento a um determinado assunto, ou como afirma Jung (1937/1984f, §241), um ato de voltar-se para si mesmo. Para Jung, a reflexão interrompe o instinto e, ao invés de causar uma reação automática, gera consciência. A reflexão cessa o automatismo da psique e rompe a influência desconhecida do inconsciente sobre o ego. É a transformação de um processo natural em um conteúdo consciente, uma interrupção que substitui a compulsividade característica do instinto por um grau maior de liberdade.Portanto, a reflexão é um ato de ruptura da determinação inconsciente, um voltar a si próprio e, nesta ação, se separar do coletivo.

O filósofo italiano Giorgio Agamben propõe que o sujeito contemporâneo é aquele que se volta para trás para avaliar sua origem. Todavia, o ato de voltar-se para trás causa uma fratura no movimento e esta fratura nada mais é do que a abertura de um espaço entre o indivíduo e o coletivo, por meio do qual o novo pode emergir (AGAMBEN, 2009). Apenas a constatação deste novo elemento sutura o que estava fraturado e permite que o indivíduo continue seu movimento. Assim, voltar-se para sua própria procedência é a característica que faz o homem ser considerado contemporâneo à sua própria época. Segundo Agamben, o sujeito sintonizado ao seu próprio tempo é aquele que causa a interrupção, ao mesmo tempo em que é responsável por suturar a quebra.

Tanto a fratura apontada por Agamben quanto a reflexão compreendida por Jung podem ser vistas como um processo de interrupção, de separação e, consequentemente, de tomada de consciência. Esta interrupção nada mais é do que um movimento de distanciamento entre o indivíduo e o coletivo, por meio do qual o indivíduo pode se re-conhecer. A reflexão é a antessala da criatividade.

Após percorrer as análises e proposições estudadas, foram notadas, dentro da perspectiva junguiana sobre criatividade, três questões fundamentais:

(1) Criatividade não pode ser definida como idêntica à expressão do

inconsciente. Conforme visto, as imagens são uma expressão natural do inconsciente,

e, portanto, sua presença não é necessariamente uma função da criatividade. Sonhos, sintomas e delírios são processos espontâneos da psique e não podem ser considerados criativos, uma vez que o ego não está necessariamente envolvido com sua produção. A criatividade consistiria em se apropriar destas manifestações e realizar um produto.

(2) Criatividade não pode ser definida como idêntica ao símbolo ou à

estética. Uma expressão pode ser criativa sem que necessariamente o sujeito perceba

algum valor simbólico nela. E pode ser criativa sem que a expressão seja esteticamente agradável ao sujeito.

(3) Criatividade não pode ser tomada como sinônimo de individuação. Ressaltando a análise anterior sobre individuação, pode-se inferir que a expressão criativa não é uma garantia de que o sujeito integre os elementos do inconsciente que surgem a ele. O desenvolvimento da personalidade não é um fenômeno que acontece obrigatoriamente no processo criativo.

Dadas as premissas anteriores, sugere-se que a criatividade seja definida dinamicamente como um ato de abrir espaço na consciência para que o inconsciente

possa se apresentar. Esta asserção implica um ego que seja capaz de ceder espaço ao

inconsciente por vontade própria e que seja forte o suficiente para suportar a tensão causada por esta abertura. Enquanto a reflexão apresentada por Jung (1937/1984f), ou

a fratura proposta por Agamben (2009) indicam a tomada de consciência, o ato criativo é a abertura, o locus que agora permite uma relação com aquilo que surge ao indivíduo. Por ser sempre acompanhada de uma imprevisibilidade de conteúdo, a criatividade implica um ato real de entrega do sujeito. Abrir espaço para o inconsciente sem que se tenha controle total sobre o que será expresso é uma ação que demonstra verdadeiro reconhecimento pela autenticidade da psique, é a legítima aceitação dos fenômenos psíquicos como dotados de uma natureza própria: a criatividade é um ato de confiança no inconsciente. Esta compreensão de criatividade encontra paralelos na afirmação de Jung (1916/2011) de que o sujeito criativo precisa se afastar da coletividade para se reconhecer. A criatividade é importante para a afirmação da autenticidade dos fenômenos psíquicos porque ela é a expressão máxima de sua natureza.

A noção de espaço aparece relacionada à criatividade em alguns autores. Colman (1977) afirma que o sujeito criativo deve tolerar a falta existente entre o que é imaginado e o que é percebido para que consiga criar, afirmando a criatividade como tolerância de espaço, uma tolerância da ausência. Plaut (1979) é preciso ao defender que a imaginação opera quando é confrontada com o desconhecido. Em Staples (2009) encontra-se a afirmação de que a criação precisa de um espaço vazio para acontecer. Tal espaço equipara-se ao útero à espera de uma semente para fecundar. Para o autor, é um ato de entrega e exposição ao desconhecido. Portanto, sugere-se que a criatividade, para a psicologia analítica, é um processo de abrir espaço para que as fantasias e imagens do inconsciente possam se apresentar.

Para finalizar, em uma carta de 1960, apenas um ano antes de seu falecimento, Jung escreve que falhou em mostrar ao mundo a realidade da psique, dizendo:

Eu tive que entender que não consegui levar as pessoas a enxergar o que tentei fazer. [...] Fracassei quanto a minha maior tarefa, que era abrir os olhos das pessoas para o fato de que o homem tem alma [...]. (SHAMDASANI, 2005a, p. 376).

Por meio do estudo da obra de Jung e dos autores pós-junguianos pode- se dar continuidade à indagação do autor sobre o alcance de sua teoria e, talvez, demonstrar a importância da criatividade para a cosmovisão de nossa época, contribuindo para o objetivo da teoria junguiana: afirmar a autenticidade dos fenômenos da psique.

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