Este trabalho utilizou a capoeira como ferramenta pedagógica em uma unidade escolar situada próxima a UFSC, onde ambas mantêm um vínculo por meio do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), estágios em diferentes licenciaturas e pesquisas. De acordo com Campos (2001, p. 25) a implantação da capoeira na escola “é algo muito simples e fácil, haja vista que [...] não requer instalações nem aparelhos sofisticados. O espaço físico não é problema”.
A intervenção com a prática da capoeira foi realizada com a turma 41 do ensino fundamental I matutino. Esta englobava vinte e cinco alunos; onze meninas e quatorze meninos com idades entre nove e onze anos (sete com nove anos, dezessete com dez anos e apenas um com onze anos de idade), a metade residente no bairro da escola e a outra metade em bairros próximos.
Sobre as características da classe foi possível perceber diante do cartaz colado na sala que os alunos se reconhecem como legais, estudiosos, engraçados e amigáveis. Os diálogos com a professora regente revelaram que o coletivo apresentava alguns conflitos, os alunos adoram escutar músicas calmas. A educadora qualificou o grupo como tranquilo e produtivo.
Durante o período de observação, o professor efetivo de educação física ausentou-se por motivo de licença nupcial e os alunos permaneceram em sala durante dois encontros acompanhados de professores (as) auxiliares e alunos do PIBID. Uma aula foi reservada para
65 desenhos e jogos (tabuleiro e cartas) e na outra os educadores programaram e exibiram o filme Tainá, parte integrante do projeto Amazônia. O filme iniciou com a cena de um ritual indígena, uma criança falou várias vezes: “Macumba saravá!”, o professor interveio: “Não! Isso é coisa de índio”. Esta atividade foi uma possibilidade de aproximação com a estética e valores dos povos indígenas.
As aulas de Educação Física eram ofertadas ao grupo três vezes por semana, com duração de 45 minutos cada, na quarta-feira uma aula faixa no primeiro horário e a última aula da terça-feira.
A relação alunos-professor-alunos era respeitosa; as crianças ficavam entusiasmadas com a presença do professor, pois adoravam as aulas de Educação Física. Para o docente a Educação Física deve desenvolver a autonomia dos alunos ao invés de promover práticas em que haja domesticação, afirmou que cada um tem sua especificidade e dentro de uma aula o educador deve saber respeitar essas variantes.
As crianças deslocavam-se tranquilamente em fila aos ambientes preparados para as dinâmicas, conversando moderadamente. Em geral, os conflitos estavam centrados em alguns meninos, um deles exerceu um nível destacado de liderança sobre o grupo, promovia conflitos com seus colegas e professor, contudo era um grupo participativo e dinâmico. Os professores relataram que o contexto familiar influencia significativamente no dia a dia escolar dos discentes. Na mediação das crianças eram abrangidos valores como a amizade e o respeito, os alunos reconheciam a autoridade dos educadores.
O professor apresentava seu conteúdo e planejamento, em sala explicava os conceitos teóricos da atividade a ser realizada. Ao chegar ao ambiente reforçava as regras antes do início da prática. Nos momentos de explicação havia a dispersão de algumas crianças, o desagrado com a atividade se manifestava com a recusa em participar e no ato de sentar nas arquibancadas. O retorno dos alunos era incentivado pelo educador.
Dentre as brincadeiras mais apreciadas destacavam-se as de pegar, esconder, jogos de bola (futebol, bolita, queimada) e pular corda. Contudo, o professor considera que na Educação física é necessário estar repensando e buscando novas práticas para contribuir com a vida dos discentes, combater a “mesmice” porque a área em que atua proporciona diversos conteúdos para intervenção.
Foram aplicadas atividades relacionadas ao conteúdo atletismo (brincadeira do pega rabo, corrida de revezamento, pula cela, corrida sobre barreiras, corridas em raias adaptadas com corda, entre outras). Nessas atividades o educador procurava aproximar as crianças do
66 ambiente sugerido pela modalidade. Para esta ação como não possuía equipamentos profissionais adaptava com os materiais presentes na escola a fim de proporcionar uma atividade com a estética aproximada ao real. Por meio desta ação pedagógica o educador socializa os conceitos da prática.
Em uma das conversas as crianças mencionaram a presença de alguns cones quebrados, o professor esclareceu que a falta de materiais adequados é realidade em muitas escolas públicas, e que as atividades propostas na educação física escolar têm por objetivo proporcionar que todos vivenciem o esporte e por isso as regras são flexíveis e adaptáveis. Este momento proporcionou além de um pensar sobre a estética do material uma tomada de consciência ética e social.
Nas práticas o professor acompanhava as ações, quando necessário solicitava que sentassem para uma conversa alertando para o cumprimento das regras, a turma conseguia resolver os conflitos e seguir brincando. No papo final o educador relembrava as regras, as crianças geralmente abordavam assuntos relacionados à ética. O tema mais citado nas aulas foi o desrespeito. O professor reforçava que no esporte quem não segue as regras é desclassificado.
Para a realização das aulas de educação física há um revezamento entre os professores em relação ao uso da quadra e ginásio, em dias de chuva ambos podem dividir o local coberto.
O contato preliminar com a realidade escolar fortaleceu a formação, possibilitou compreender aspectos pertinentes a rotina escolar analisando as condições de trabalho, os sujeitos e seus projetos de ensino-aprendizagem, a experiência docente, a relação professor- aluno e os conteúdos, o conceito que os alunos construíram em relação às aulas de educação física e auxiliou definir a perspectiva pedagógica, o planejamento e as estratégias para o ensino da capoeira na unidade durante o período do estágio.
O planejamento para intervenção foi estruturado em módulos de ensino considerando os encontros como episódios de aprendizagem.
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Módulos Atividades
Apresentação Exposição do Memorial, introdução da capoeira, biografia de Cândido Portinari e suas obras que se relacionam com o tema étnico racial.
Cana de Açúcar Reflexão e construção de aprendizagens a partir das obras de Portinari (Cana de açúcar), Debret (Pequena Moenda de Cana-de- Açúcar) e as músicas de capoeira "Tem cana pra cortar", "Ê canaviá, ê canavieiro“.
Café Reflexão e construção de aprendizagens a partir da obra de Portinari “Café” e a música de capoeira "Pega o balaio de café”
Malandragem Reflexão e construção de aprendizagens a partir da obra de Portinari “Morro” e a música de capoeira “Malandragem”
Brincadeiras Reflexão e construção de aprendizagens a partir das obras de Portinari “Cambalhota”, “Meninos Brincando”, “Meninos pulando Carniça” e “Pulando Carniça” e os movimentos da capoeira.
A proposta teve como objetivo refletir e construir conceitos a partir da estética das obras de arte, músicas, movimentos e brincadeiras. Buscou por meio da educação dos sentidos ampliar as visões de mundo, potencializar a reflexão sobre a realidade e as questões étnico raciais.
Utilizamos como base teórica para o planejamento a abordagem Crítico-superadora que trata da cultura corporal (Soares et al., 1992). Reforça a importância da reflexão e apropriação ativa do conhecimento para a emancipação humana e compreensão da realidade social, complexa e contraditória em que vive. Nessa perspectiva o ensino da capoeira na escola tem como objetivo instigar a criatividade humana, contribuir para a afirmação dos interesses de classes das camadas populares, o fortalecimento da solidariedade, cooperação e emancipação e contribuir para a fortificação da identidade de classe dos alunos.
Além da abordagem acima, também nos apoiamos na Proposta Curricular da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis (2016), essa que reconhece as crianças como sujeitos de cultura e da história, que se desenvolvem através da linguagem e se apropriam de conceitos no ato de brincar. E considera que a “escolha de meios e instrumentos deve beneficiar a aprendizagem e a apreensão das especificidades técnica, conceitual, estética e ética dos conteúdos” (Florianópolis, 2016, p. 140)
O planejamento foi estruturado levando em conta o tema da infância no Plural (SAYÃO, 2005). Buscou no brincar e nos brinquedos a inspiração para promover atividades
68 de tematização dos conteúdos. A capoeira é considerada uma manifestação cultural e social, sua história é parte integrante da história dos trabalhadores no Brasil, sua prática na escola proporcionou aprendizados além dos aspectos técnicos.
Essas construções conceituais enfatizaram o potencial dos temas que vincularam a capoeira às obras do pintor Cândido Portinari. Os conhecimentos da arte e da cultura popular tematizados, buscaram a superação do senso-comum no sentido da relação pedagógica que valoriza as experiências num processo de reflexão-ação coletiva e participativa que incentiva a curiosidade.
Os oito episódios foram mediados para oferecer aos participantes atividades lúdicas, comprometidas em promover a apropriação das ferramentas científicas de leitura e compreensão da natureza e sociedade que as cercam, demarcada em seu contexto pela divisão de classes em permanente contradição e luta social.
A realização das atividades buscava promover exercícios, tarefas, brincadeiras, desafios e situações relacionais entre a teoria e a prática. A tematização como estratégia pedagógica é proposta pelo Coletivo de Autores (1992) como forma de organizar o tempo e espaço pedagógico garantindo o ritmo da turma na relação com os saberes.