Conforme pesquisas arqueológicas realizadas pelo MAE/USP, a bacia hidrográfica do rio Paranapanema foi humanizada por caçadores e coletores pré-cerâmicos há cerca de oito mil anos atrás. A ciência arqueológica convencionou denominar essas populações de tradições Humaitá e Umbu (Morais; Pallestrinni, 1980).
As populações que os arqueólogos classificam como de tradição Humaitá ocuparam parte do território paulista e possuíam características das culturas do tipo bando compostas de pequenos grupos. Seus vestígios mais estudados até o presente restringem-se aos instrumentos de pedra, pois a maior parte de seus objetos eram provavelmente confeccionados com materiais perecíveis que se destruíram ao longo da formação dos sítios41. Os vestígios das populações que os arqueólogos chamam de tradição Umbu são encontrados nas regiões sul e sudeste do Estado de São Paulo e foram datados entre 12.000 e 1.000 anos passados, demonstrando a longa persistência dessa tradição na região; ocuparam preferencialmente as regiões de maior altitude nos planaltos, principalmente os interflúvios dos principais rios.
A pesquisa arqueológica identificou uma série de sítios líticos pré-cerâmicos pertencentes às tradições Umbu e Humaitá em toda bacia do rio Paranapanema, especialmente
41 Para Dean, W. (1996), as primeiras pesquisas arqueológicas no Brasil foram realizadas no litoral e daí a razão
para o ainda o pequeno número de sítios arqueológicos catalogados pelo interior do país, se comparado aos conhecidos no litoral brasileiro.
na região de Piraju. Alem dos sítios arqueológicos identificados, os pesquisadores conseguiram evidenciar que as mais antigas populações teriam adentrado na região do Alto Paranapanema há aproximadamente oito mil anos (Morais; Pallestrini, 1982). Há cerca de dois mil anos, com a chegada dos Jês e, principalmente, dos Guaranis (agricultores seminômades e produtores de cerâmica), essas populações desapareceram da região.
Sobre a presença dos Guaranis na região do Alto Paranapanema, é possível sustentar haver uma ligação com a expansão territorial desses povos. A bacia do rio Paranapanema, em sua junção com o rio Paraná, é considerada como a “porta de entrada” (Te-y-que-pe) para os Guaranis. Outras análises indicam ainda que as populações Guarani, em processo de crescimento demográfico, teriam ingressado no sul do Brasil pelo oeste e sudoeste paulistas. No que tange ao trabalho arqueológico, as datas mais antigas para os grupos de etnia Guarani na área do Alto Paranapanema estão dadas a partir do início da era cristã. Para os grupos da etnia Jê que ocuparam a mesma bacia, alguns estudos apontam a região central do Brasil como a de sua origem, e como porta de entrada os campos e cerrados do interflúvio entre os rios Paranapanema e Itararé; ou seja, nas proximidades territoriais do que atualmente é o município pirajuense.
O rio Paranapanema aparece em mapas do Brasil desde meados do século 16, mas somente a partir de meados do século seguinte é que os Bandeirantes entraram pelo sertão, utilizando-se do seu traçado. Esse movimento social criou um grande espaço desabitado, pois os índios, temendo o pior, migraram para o sul. Contudo, com o declínio da mineração, em meados do século 19, os índios, principalmente os Guaranis, vislumbraram que a luta pela reconquista de seus territórios poderia ser viabilizada utilizando-se de alianças políticas com outros indivíduos que já se apossavam de algumas áreas. Por outro lado, esses novos atores se
aproveitavam dessa mesma aliança para expandirem suas conquistas e se apossarem de outras terras indígenas nos vales dos rios Paranapanema, Itararé e Taquari.
Em 1860, trinta anos após a sua chegada aos campos de Itapetininga e quinze após a sua instalação no Aldeamento de São João Batista da Faxina, no vale do Itararé, os Guaranis já tinham instalado seus próprios aldeamentos nas imediações das atuais cidades de Ipauçu e Piraju, no rio Paranapanema. A ocupação das terras na altura de Piraju pelos Guaranis era uma realidade, tanto que a Assembléia Legislativa de São Paulo criou ali, em 1861, um aldeamento que, apesar de criado por lei, não chegou a ser transformado em Aldeamento Oficial do Império. Ele continuou, por um bom tempo, como território dos índios que ali mantinham seu modo de vida antigo, apesar dos contatos com outros atores que já ocupavam a mesma região. Utilizando-se de prerrogativas governamentais, novos atores sociais foram ocupando a região. Alguns, como o Barão de Antonina, com vastas extensões de terras na região. Outros, que não tinham tanto poder, vieram aos poucos, apossando-se de terras e fazendo roças. Com o tempo, e com a ajuda das autoridades, foram legalizando parcelas dessas terras públicas, inclusive as dos indígenas, como foi o caso das terras do aldeamento Guarani de Piraju. Neste contexto de expropriação socioambiental, dado o significado que a questão agrária assumira na segunda metade do século XIX, novos posseiros ampliaram significativamente a destruição da Mata Atlântica na região42.
42 Alguns autores, entre eles DI CREDDO (1992), observam que a aproximação da Proclamação da República
coincide com a ampliação da fronteira agrícola no vale do rio Paranapanema. Ainda nesse sentido, FERRARI (1998) aponta que após a morte do Barão de Antonina , em 1862, suas terras contidas entre os interflúvios do rio Paranapanema com os rios Taquari e Itararé foram sistematicamente apossadas por diversos grupos, havendo, já em 1872, mais de vinte posses na região de Piraju. Ver também PENÇO, C. de C. F. (1980).