III. OBSERVATIONS AND FINDINGS RAISED DURING THE INSPECTION
III.2 Organization of the staff involved or likely to be involved in MV
Só se ama uma vez o resto é putaria
Hunt acena para uma espécie de dupla face do amor. De um lado, a face idealizada, colorida por sentimentos edificantes e sem aparentes ligações com motivos pedestres; de outro, a face real, conivente com os interesses mundanos dos apaixonados. Esse misto de ‘ilusão e realidade’ é parte integrante da experiência amorosa, experiência que pode trazer muitas vantagens emocionais a quem ama (COSTA, 1994: 151).
A paródia via amor romântico expõe, de maneira bastante reveladora, as simbologias pelas quais as travestis comumente significam suas histórias de relacionamentos afetivo-sexuais. O curioso foi que, em nenhum momento anterior ao campo, tive a intenção de focalizar tal temática. E por isso não será aqui promovida uma ampla discussão sobre a problemática do amor, que vem sendo mostrado já há muito tempo como fruto de inúmeras interpretações para as reflexões filosóficas, literárias como também científicas. Contudo, se revelou de maneira tão vivaz e dignificada nos discursos, que não pude aqui vendar meus olhos para esta operação, que se mostrou mais uma vez através de um teor paródico.
Na experiência da travestilidade é sempre procurado ressaltar a vivência do amor através de sua atmosfera romantizada e novelesca; um amor único, de quem é penetrado e nunca penetra, que revela os relacionamentos de teor ideal na travestilidade. O que elas significam como um homem todo ou um homem de verdade, permeado pelo ciúme e característica provedora de seus ‘homens ideais’, significados como únicos capazes de amar à maneira das operações amorosas exaltadas na travestilidade. Nessas interações afetivas, elas, mais uma vez, performatizam parodicamente as maneiras significadas pelo imaginário social, como próprias do arsenal simbólico feminino. Sendo o amor
romântico um estilo de sentimento e afetividade historicamente destinado à identidade feminina142.
Talvez esta característica desmedida de amar, revelada pelas histórias amorosas na experiência da travestilidade, pautadas preponderantemente nos ideais do amor romântico, desnude como são vivenciadas outras formas de interação interpessoais (as familiares, por exemplo), parecendo ser a possibilidade única de experimentarem esse aspecto desmesurado, característico desta modalidade de amor.
Isto, pois, se romantismo pode se tornar uma prática de repulsão da sociedade daqueles que não se encontram engendrados nos aspectos da comunidade familiar (COSTA, 2004) e sendo o amor romântico um valor e um signo altamente estimado pelas travestis devido às experiências de rejeições familiares143 - referida de maneira bastante dolorosa nas suas trajetórias de vida -, observamos, na impossibilidade de viverem tal amor dentro desses esquemas, uma das motivações, juntamente com a capitulação dos referenciais afetivos da mulher, que as levam a vivenciar suas experiências afetivo-sexuais através destes significantes românticos144.
Assim, o ato de amar, e amar romanticamente, além de ligar as travestis a um
ethos tradicionalmente delegado ao feminino, parece ser a forma que encontram de criar
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Como nos conta Giddens (1993), refletindo sobre as mudanças sociais que ocasionaram a emergência de um amor romântico, centrado fundamentalmente na tomada burguesa, cuja formação do casal monogâmico e heterossexual, contornado pela divisão das tarefas, foi essencial para os ideais de controle social desta classe emergente. Sobre este objetivo, “o amor romântico era essencialmente um amor feminilizado.[...] com a divisão das esferas de ação a promoção do amor tornou-se preponderantemente tarefa das mulheres.As idéias sobre o amor romântico estavam claramente associadas à subordinação da mulher ao lar e ao seu relativo isolamento do mundo exterior.”( Op. cit : 54)
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Isto, pois na concepção moderna de família, pautada nos ideais individualistas, esta que já foi uma instituição fundamentalmente hierárquica, antes da tomada burguesa parece ter adquirido simbologias de um lugar permeado por amor e cuidado. E sendo o amor romântico, fruto do processo de modernização, este cuidado sem por quês, também estão presentes nas emoções que permeiam os modelos familiares, é algo esperado da própria concepção moderna de família.
144 “Porque quando eu viajei daqui, eu viajei em 81, foi quando eu peguei a estrada, por que fui expulsa de casa. Mas aí foi quando eu me apaixonei por esse cara. Aí foi aquela coisa. Uma vez eu barroei com ele sozinho. E nessa barroação, conversa vai, conversa vem, conversando da vida, aí apareceu... Bateu aquele clima, umas conversas doces e delicadas. Foi o primeiro relacionamento. Foi quando bateu...Foi tanto que eu me apaixonei. Eu acho que o problema da carência familiar que eu tinha, vivendo sozinha... Aí aparece uma pessoa, lhe dá carinho, lhe dá amor, lhe dá todo cuidado, pronto, né?”( Flávia).
vínculos permeados pela atmosfera amorosa, diante da quebra proporcionada por seus esquemas de identificações dos vínculos primários, como no caso da família.
Portanto, quando nos falam, em tom confessional e a brilhar os olhos, de suas histórias de amor, procuram fugir da atmosfera de perversão, pornografia e erotismo que são empurradas cotidianamente por instituições, família e sociedade envolvente, já que são insistentemente alocadas nas zonas de abjeção. E, à maneira do Marquês de Sade (2007), em seu romance Os crimes de Amor145, pretendem revelar à sociedade que ‘os perversos também amam’, promovendo um contra-discurso sobre sua própria identificação.
A performance em viver seus relacionamentos afetivo-sexuais através da paródia do amor romântico, tanto as aproxima da mulher que ama, quanto dos significantes de humanidade, pois o ato de amar encontra-se dentro do arsenal simbólico social como ‘fraqueza’, característica, própria de humanização:
O homem está sujeito a duas fraquezas inerentes a sua existência, que a caracterizam. Por toda parte cumpre que ele reze, e por toda parte cumpre que ele ame, eis a base de todos os romances: fê-lo para pintar os seres a quem implorava, fê-lo para celebrar aqueles que amava.[...] E como em todas as partes do globo onde habitou, houve romances, isto é, obras que ora pintaram os objetos fabulosos de seu culto, ora os mais reais de seu amor ( SADE, Marquês,2007:26).
Através da paródia das considerações de feminilidade, como também de humanidade, as travestis buscam subverter a atmosfera de encontros episódicos dos relacionamentos homossexuais (GIDDENS, 1993) e tratam de carregar, nas tintas de apenas um relacionamento, tonalidades ímpares, que serão simbolizadas através do verbo ‘amar’.
A atmosfera de ‘pessoa especial’ e de unicidade do ato de amar, que são características próprias do amor romântico (GIDDENS, 1993), surgem de maneira
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