4. RESPONSABILITE SOCIALE
4.3. Q UALITE DE VIE AU TRAVAIL
4.3.6. Dialogue social
Além da mitologia, acima referida como um importante elemento na composição das obras elegíaco-didáticas ovidianas, a interação entre o magister (também chamado de praeceptor) e o discipulus é, como vimos na introdução deste capítulo, um dos elementos que caracterizam a tradição didascálica. Nossa intenção, nesta seção, é discutir a presença do magister amoris ovidiano e da experiência e conhecimento que lhe permitem transmitir preceitos. Para tanto, observaremos os versos de Remedia nos quais a interação “professor-aluno” fica evidenciada, de forma a caracterizar o eu
poético dessa obra e identificar as menções a sua confiabilidade como perito dos assuntos amorosos.
As definições discutidas acima nos mostram o magister como o emissor da mensagem poética didática, a voz única a partir da qual os preceitos são transmitidos. O eu poético dos poemas didáticos costuma afirmar, em variadas passagens, sua função como professor e detentor do conhecimento e da experiência necessários para cumprir a empreita a que se pretende, a de ensinar. A atmosfera que permeia a didascália se assemelha a uma espécie de “aula”, na qual professor e discípulo(s) interagem através da mensagem poética, sendo a voz autoral notada, por todo o poema, nos indícios dessa presença. São tais indícios que pretendemos investigar a seguir.
Remetemo-nos, no entanto, antes de prosseguir com nossa observação de passagens selecionadas dos Remedia amoris, a alguns apontamentos sobre o magister da poesia didática. Destacamos, incialmente, a importância que P. Toohey (2010) atribui a tal elemento. Após elencar as características fundamentais da poesia didática,305 Toohey (2010) detalha o emissor da mensagem poética, ressaltando sua importância na dinâmica do gênero:
Devemos enaltecer a primeira característica, a da voz. Ela é, de certa forma, a chave para o sucesso didático. Por quê? Poesia didática, objetivando ensinar, requer a presença de uma voz única que ensina, uma voz direcionada a alguma forma de um destinatário ou destinatários implícitos. Ocorre que, quando essa relação autor- audiência é mais bem explorada, o resultado pode ser um texto poético de notável relação imediata e poder. À voz didática pode ser dada caracterização adicional. Sendo irônica ou séria, pode ser caracterizada por uma enunciação declarativa e denotativa. O tom e o desenvolvimento dessa voz são cruciais.306
305 “A posia didática, para ser realmente bem-sucedida, deve exibir: / 1 uma voz forte, singular e persuasiva / 2 um assunto notável, até mesmo sensacional / 3 uma variação marcada na narrativa, no texto, no gênero e até mesmo no tipo discursiva / 4 simplicidade conceitual / 5 tensão entre prática e instrução.” – Didactic poetry, to be really successful, ought to exhibit: / 1 a strong, singular, and
persuasive voice / 2 striking, even sensational subject matter / 3 marked variety in narrative, textual, generic, even discursive type / 4 conceptual simplicity / 5 a tension between play and instruction. (P.
Toohey, op. cit., p. 15).
306 We ought to flag the first feature, that of voice. It is, in some ways, the key to didactic success. Why?
Didactic poetry, aiming to teach, requires the presence of a single teaching voice, a voice directed at some form of an implied addressee or addressees. It follows that, when this author-audience relationship is best exploited, the result can be a poetic text of remarkable immediacy and power. The didactic voice may be given further characterization. Whether ironic or serious, it may be characterized by declarative, denotative utterance. The tone and deployment of this voice is crucial. (P. Toohey, op. cit., p. 15).
Toohey (2010) aponta o magister, ou a voz poética a partir da qual a expressão didática é emitida, como um elemento fundamental da poesia didascálica. É sua presença, segundo o autor, que atribui a função de ensinar ao poema e, quanto mais explorada a interação entre o eu poético (magister) e o leitor (discipulus), mais efetiva é a filiação da obra à tradição didascálica. Dito de outra forma, é fundamental que, para que haja a função de “ensinar”, característica do gênero didático, haja também o veículo a partir do qual o ensinamento é emitido, ou seja, a figura do “mestre”, que mobiliza e transmite o conhecimento, direcionado a uma audiência formado por um ou mais “alunos”. O magister, portanto, segundo Toohey (2010) é fundamental para estabelecer a dinâmica do gênero e transformar em efetivamente didático um poema.
Além da questão da relevância da voz poética da poesia didática, apontada por Toohey (2010), discute-se, ainda, como apontamos anteriormente, a relação que esse magister tem com a vivência e o conhecimento, que são afirmados e frequentemente repetidos nos poemas didáticos: será mesmo o magister perito no assunto que ensina? E quanto à experiência que afirma ter, corresponderia à “realidade”, ao “autor de carne e osso”? M. Trevizam (2014), tomando como referência a discussão elaborada por Sharrock (1994), afirma que a correspondência entre o praeceptor e a figura, por assim dizer, “real” do autor não pode ser confirmada e, em determinados casos, pareceria mesmo absurdo que os poetas tivessem determinados conhecimentos:
Ora, em princípio, esclareceremos que seria simplista identificar por inteiro a própria figura do magister didático, aquele de quem “partem” os ensinamentos por força da dinâmica textual engendrada em todas
as obras dessa categoria compositiva, com a efetiva personalidade
histórica dos autores das obras. Aqui se trata, antes, de uma instância discursiva geral e artificialmente condicionada de todo e qualquer poema didático, sem necessários pontos de contato com o que, de fato, foram um Virgílio Marão ou um Ovídio Nasão (...).307
O magister apresenta-se, então, como uma função do gênero didático, muito mais do que como uma representação do poeta como figura histórica. Não há necessariamente, como afirma o autor no trecho citado, “pontos de contato” entre o poeta e os elementos que compõem o eu poético didático. Por isso, não poderíamos afirmar, com toda a certeza, que os poetas didáticos possuem o conhecimento necessário
para ensinar o conteúdo proposto na poesia didática, mas tal conhecimento pertence, na verdade, ao magister, uma “instância discursiva geral”, ou seja, uma construção do discurso didático, forjada pelo poeta e que só existe no próprio poema.
Se levarmos em consideração as duas questões que aqui discutimos sobre o magister – a saber, sua importância na composição didática e o fato de ele se caracterizar como uma construção na poesia desse gênero – para pensarmos sobre o magister ovidiano de Remedia amoris e, por extensão de Ars amatoria e Medicamina faciei femineae, podemos constatar que é a presença desse preceptor que norteia o poema e que seu usus advém da experiência que o poeta possui com duas esferas intimamente relacionadas, mas ambas poéticas e ficcionais: a vivência amorosa, relatada pelas elegias dos Amores, e a experiência com o próprio gênero elegíaco, se pensarmos no praeceptor ovidiano de uma perspectiva metapoética.
Em uma das primeiras passagens em que o eu poético de Remedia se estabelece como preceptor do amor, a noção da experiência do magister é manifestada:
Me duce damnosas, homines, conpescite curas, rectaque cum sociis me duce navis eat. Naso legendus erat tum cum didicistis amare; idem nunc vobis Naso legendus erit. Publicus assertor dominis supressa levabo
pectora: vindictae quisque favet suae. (Rem., 69-74) Sob meu comando, refreai, homens, as nocivas aflições; e que,
[sob meu comando, a nau siga, com seus tripulantes, na direção certa.
Nasão devia ser lido no passado, quando aprendestes a amar; agora o mesmo Nasão deverá ser lido por vós.
Defensor do meu povo, aliviarei os corações reprimidos pelo domínio, que cada um colabore com sua libertação
O excerto se inicia com uma referência à função do eu poético como um magister: a expressão me duce (v. 69/70) evidencia tanto a presença do “eu”, através do pronome me (e, também, do verbo levabo, flexionado na 1ª pessoa), quanto caracteriza o “eu” como um “comandante” da empreita proposta no poema, a saber, curar os que sofrem do amor. Podemos compreender a metáfora da “nau” (navis, v. 70) que segue (eat, v. 70) seu rumo sob comando do magister como uma representação das instruções relacionadas à cura do amor (ou ainda, em Ars, que também é aqui mencionada, à arte
da conquista). Além de representar a empreita do poeta, carros e naus são utilizados para construir uma imagem de algo que avança, progride, como um trabalho ou uma obra de arte.308 O progresso a ser buscado pela “nau-poema”, para usar uma expressão que contemple a função metafórica expressa no excerto, equivale, como afirma o magister, a libertar o discipulus da submissão amorosa (Publicus assertor dominis supressa levabo / pectora, v. 73-4).
A menção à metáfora da obra como uma nau comandada pelo magister (v. 69- 70) se mistura à menção da atividade de leitura (legendus erat / legendus erit, v. 71/72), que representa o que de fato (concretamente, e não mais metaforicamente) ocorre na situação de enunciação do poema na Ars amatoria309, Nasão (Naso, v. 71/72) devia ser lido (legendus erat) como o preceptor do amor, já que o discipulus aprende com ele a amar (cum didicistis amare, v. 71); no Remedia deve ser lido (legendus erit, v. 72), com o intuito de aprender a curar o amor infeliz. Ou seja, o que o praeceptor ovidiano ensina em Ars é a amar; o mesmo praeceptor (ou, o mesmo Nasão) ensina, aqui em Remedia, a libertar “os corações reprimidos pelo domínio” de uma puella impiedosa – ou, para nos remetermos à leitura metapoética proposta em nosso capítulo anterior, libertar um jovem poeta do domínio do gênero (e do amor) elegíaco.
A presença de metáforas náuticas310 em Remedia pode ainda nos remeter a Ars amatoria, que se vale de tal representação, principalmente, em proêmios ou epílogos dos livros. A empreita do poeta é representada como um veículo a ser conduzido pelo magister, e tal menção, posicionada em um local de destaque do poema (no início), ocorre nos versos de Ars abaixo citados:
Arte citae vueloque rates remoque mouentur, arte leue currus; arte regendus Amor.
Curribus Automedon lentisque erat aptus habenis; Tiphys in haemonia puppe magister erat. Me Venus artificem tenero praefecit Amori;
Tiphys et Automedon dicar Amoris ego. (Ars, I. 3-8)
308 Cf. Henderson, op. cit., p. 45-6.
309 A referência a Ars amatoria ocorre em outras passagens dos Remedia, como por exemplo, no v. 12: “nem a nova Musa anulou a obra pretérita.” – nec nova praeteritum Musa retexit opus.
310 Tal metáfora é recorrente no poema e pode ser encontrada, por exemplo, na passagem a seguir: “para de lutar: os ventos trazem de volta tuas velas, / para onde as ondas te invocam, para lá devem os remos te guiar.” – desine luctari; referant tua carbasa venti, / quaque vocant fluctus, hac tibi remus eat. (Rem., 531-2). Ocorre, ainda em Remedia, nos v. 577-8.
Pela arte e ágeis remos as naus velozes são impelidas; pela arte, o leve carro; pela arte é preciso reger-se o Amor. Com os carros e flexíveis rédeas Automedonte era habilidoso; Tífis, na Hemônia, foi o mestre de uma popa; a mim, Vênus designou preceptor do terno Amor: um Tífis e um Automedonte do Amor possam chamar-me!
Ainda que não expresse contundentemente, como no trecho de Remedia acima citado, a metáfora da empreita poética como uma nau,311 o excerto de Ars manifesta a comparação do próprio praeceptor a um comandante, como Tífis, piloto da nau dos Argonautas, ou como Automedonte, o cocheiro de Aquiles, na Ilíada. O que o praceptor de Ars faz, tal qual os referidos personagens míticos, é comandar o Amor, função a ele atribuída pela própria deusa Vênus (Me Venus artificem tenero praefecit Amori, v. 7). A presença dos pronomes de 1ª pessoa (me, v. 7; ego, v. 8) sublinham, assim como demonstramos ocorrer em Remedia (v. 69, 70 e 73), a presença de uma voz poética única que emite os preceitos amorosos. Reconhecemos a função didascálica desse eu poético através da presença de termos pertencentes ao universo semântico da didática e da técnica, como didicistis (Rem., v. 71), magister (Ars, v. 6) e artificem (Ars, v. 7).
Assim como a metáfora do veículo a ser conduzido pelo poeta-professor, outras imagens e expressões típicas da poesia didascálica ovidiana são utilizadas em Remedia: nec labor efficere est (v. 409), oração que pode ser compreendida como uma forma de o magister encorajar seu discipulus, apontando como simples o cumprimento de uma instrução;312 dum licet (v. 79), que é descrita por Henderson (1979) como uma “fórmula admonitória”313
que chama a atenção do discipulus para a urgência do tratamento; praecepta (v. 41), substantivo por meio do qual se vislumbra a atmosfera didática que caracteriza o poema. Tais expressões, como é possível observar, sinalizam a presença do magister, pois avultam sua função de admoestar, instruir e encorajar o leitor. A presença do leitor é igualmente sinalizada no poema através do uso de pronomes referentes à 2ª pessoa (singular e plural) como tuus (v. 82), tu (v. 151; 199; 274 etc.); verbos flexionados na 2ª pessoa, como em amas (v. 297), eris (v. 135), dentre outros.
311 Para outras referências, em Ars amatoria, à metáfora náutica, ver: I. 769-70; II. 5-6 e 9-10.
312 Nesse caso, o conselho dado pelo magister é: “faz até o ato de Vênus na posição / que julgas ser a menos favorável para ela” – Venerem quoque iunge figura, / qua minime iungi quamque decere putas (Rem., v. 407-8).
313 Admonitory formula, Henderson, op. cit., p. 51. O autor aponta, ainda, outras passagens de poemas ovidianos que também fazem uso dessa fórmula: Am., I. 9.34; Her., V. 119, XII. 134; Ars, I. 41; III. 61;
Alguns epítetos e substantivos também são utilizados para destacar essa presença do leitor-discípulo, frequentemente retratado como um “doente” ou “infeliz”, como ocorre em decepti iuvenes (v. 41), homines (v. 69), aegro (v. 109).
As representações do eu poético em Remedia amoris, no entanto, não correspondem apenas ao momento da enunciação, ou seja, ao momento em que a função desse “eu didático” é predominantemente professoral, um momento, por assim dizer, concomitante àquele em que o poeta ensina. Há, também, no poema, a referência a uma função “exercida” pelo eu poético em um momento anterior ao da enunciação de Remedia, e, de fato, tal momento anterior é referido no poema por verbos no passado, como veremos a seguir, e muitas dessas menções, como vimos no capítulo 1 deste estudo, referem-se ao passado elegíaco do eu poético e retratam uma vivência amorosa (elegíaca, mais precisamente) do poeta retratada nos Amores. Tal experiência (amorosa e elegíaca) representa o usus que permite ao magister transmitir preceitos amorosos, como é possível notar no trecho a seguir:
Haeserat in quadam nuper mea cura puella; conveniens animo non erat illa meo. Curabar propriis aeger Podalirius herbis (et, fateor, medicus turpiter aeger eram): profuit adsidue vitiis insistere amicae,
idque mihi factum saepe salubre fuit. (Rem., v. 313-6) Outrora fixei meu pensamento em uma certa moça; ela não se acomodava em meu peito.
Eu, doente, me curava com as ervas de Podalírio, (e, confesso, doente eu era um médico vergonhoso): muitas vezes me foi proveitoso insistir nos defeitos da amante, e isso frequentemente me tornou saudável.
O tempo elegíaco e pretérito do poeta é marcado, nesse excerto, pelo advérbio “outrora” (haeserat, v. 313) e por verbos flexionados no tempo passado (por exemplo, eram, v. 314; profuit, v. 315 e fuit, v, 316). A flexão dos verbos no pretérito é ainda contrastada com verbos flexionados no presente (fateor, v. 314) em que, nos parece, o eu elegíaco é, de certa maneira, assimilado ao didático. A experiência, além de localizada em um tempo passado da vida ficcional do eu poético, é também permeada pela doença provocada pelo sentimento amoroso e pela puella (v. 313). A presença do tratamento do amor como uma doença é notada através de termos como curabar (v.
315) e aeger, além da menção a Podalírio, o médico citado na Ilíada.314 Vemos, então, um discurso de alguém que, estando doente de amor, tentou, em vão, se curar com ervas (inúteis nesses casos, como apontam os versos mencionados anteriormente). A cura (salubre fuit, v. 316) só foi possível ao aplicar um dos conselhos dados pelo próprio eu poético: “insistir nos defeitos da amante” (vitiis insistere amicae, v. 315). Notável é, ainda, o fato de que, além da experiência obtida através da vivência amorosa, o excerto também revela uma primeira tentativa (ainda que vergonhosa – turpiter, v. 314) do eu poético de atuar como um médico (medicus, v. 314), o que também poderia legitimar sua atuação em Remedia.
O leitor ciente da produção elegíaca ovidiana, representada, principalmente, pela obra Amores, talvez reconheça esse passado elegíaco também em passagens como:
Saepe ego, ne biberem, volui dormire videri:
dum videor, somno lumina victa dedi. (Rem., v. 499-500) Eu, muitas vezes, para não beber, quis fingir estar dormindo: enquanto eu fingia, ao sono entreguei meus olhos vencidos.
Os versos acima se relacionam ao conselho dado anteriormente, no poema: o amante deve fingir estar bem,315 deve fingir que já esqueceu a puella, e, estando com outra(s) mulher(es), deve enaganar os outros e a si mesmo para que, com o tempo, o que era fingimento passe a corresponder a sentimentos verdadeiros.316 Tal instrução é apresentada no v. 441,317 e retomada e parafraseada nos versos 462, no qual o preceito adquire um aspecto de “prova gnômica”318
, 484 e 497.319 O exemplum utilizado para
314
Comentamos a presença da temática do amor como doença nessa passagem a seguir, no capítulo 3, quando retomamos os versos aqui citados.
315 “(...) ainda que tu estejas torrando no meio do vulcão Etna, / faz com que pareças mais frio para tua dona. / E finje estar bem, se acaso sentires alguma dor, / e faz com que ela note, e sorri, quando for para chorar.” – quamvis infelix media torreberis Aetna, / frigidior dominae fac videare tuae. / Et sanum simula
nec, si quid forte dolebis, / sentiat, et ride, cum tibi flendus eris. (Rem., v. 4491-4).
316 “quem puder fingir que está são, estará são.” – qui poterit sanum fingere, sanus erit. (Rem., v. 504). 317 “E eu vos exorto a ter, ao mesmo tempo, duas amantes de cada vez; / torna-se mais inabalável aquele que puder ter mais” – Hortor et ut pariter binas habeatis amicas; / fortior est, plures si quis habere
potest, (Rem., v. 441-2). Cf. Am., 10. 4, poema no qual o eu elegíaco afirma amar duas mulheres ao
mesmo tempo.
318 Gnomic proof, expressão usada por D. Jones (op. cit., p. 45) para designar versos com caráter proverbial que são utilizados como provas da eficácia dos preceitos, conselhos e admoestações que constam do poema didático. O tom proverbial também é encontrado, em Remedia amoris, no dístico 119- 20: Quando, feroz, a paixão arrebata, deixa que se espalhe ferozmente: / todo ímpeto tem uma chegada dolorosa. – Dum furor in cursu est, currenti cede furori: / difficiles aditus impetus omnis habet.
319
“Todo amor é vencido por um novo, que vem a seguir.” – Successore novo vincitur omnis amor. (Rem., v. 462); “e, tendo afastado sua paixão, uma paixão nova colocou-se no lugar.” – et posita est cura
atestar a legitimidade de tal conselho nos remete a uma experiência “vivida” pelo eu poético, quando de sua atividade elegíaca, relatada nos Amores. Na elegia 5, do livro II, o eu poético se lamuria por ter sido traído pela puella,320 o cenário parece ser o de um banquete,321 no qual o amante e sua puella estão presentes. Ele finge dormir e presencia, assim, a traição de sua amada:
ipse miser uidi, cum me dormire putares,
sobrius apposito crimina uestra mero (Am., II. 5.13-4) Servido o vinho, eu mesmo, infeliz e sóbrio,
vi os vossos crimes, enquanto me julgavas adormecido
Os versos dos Amores acima mencionados revelam uma situação semelhante àquela apresentada nos Remedia (v. 499-500): o vinho é servido (apposito... mero, Am., II. 5.14), mas o amante não o bebe (ne biberem, Rem., v. 499), ao contrário, finge dormir (cum me dormire putares, Am., II. 5.13; volui dormire videri, Rem., v. 499). Nos Amores, o objetivo do fingimento é estar atento aos maus passos da amada; em Remedia, o objetivo é demonstrar como é possível tornar verídica uma mentira. O magister de Remedia, no entanto, altera um pouco a narrativa da referida elegia dos Amores, afirmando que, ao fingir dormir, acabou dormindo. Na elegia II. 5 dos Amores, o eu poético finge dormir, mas presencia o momento da traição da puella.322 Em Remedia, quando narrada pelo magister, o desfecho do episódio nos mostra o amante caindo, efetivamente, no sono; tal acomodação dos “fatos” atende melhor à legitimação do conselho dado, isto é, fingir não sentir mais o amor pode resultar no fim efetivo do sentimento, que é, inclusive, o objetivo, não apenas desse, mas também dos outros conselhos e admoestações prescritos como remédios para o amor.
cura repulsa nova. (Rem., 484); “Dissimula o que não existe e finge que teus ardores evaporaram” – Quod non es, simula positosque imitare furores (Rem., v. 497). O poeta usa um mecanismo didático
semelhante nos versos 315-6, quando anuncia uma lição, apontando, adiante, os exempla que a ilustram (v. 317-22) e retomando, versos após, a lição dada (v. 323-6).
320 “Desejo morrer, ai de mim, quando me recordo de tua traição, / menina nascida para meu mal perpétuo.” – uota mori mea sunt, cum te peccasse recordor, / o mihi perpetuum nata puella malum. (Am., II. 5.3-4).
321 “Mesmo os convivas usuais já haviam deixado a mesa posta” – iamque frequens ierat mensa conuiua
relicta (Am., II. 5.21).
322
“Foi então que vi a troca de ímprobos beijos, / (tive certeza que vossas línguas se entrelaçavam)” –
O usus do magister de Remedia, além de legitimado através da vivência narrada nos Amores, também se verifica nas menções a atividades relacionadas à prática da medicina:
Vidi ego, quod fuerat primo sanabile, vulnus