Para além do “land mark” já identificado e que dá nome ao projecto (Fóia), há um outro elemento estruturante desta paisagem, e consequentemente desta realidade:
• A água - Centro de Interpretação
A água é um elemento fulcral e vital em Monchique daí a criação de um centro interpretativo exclusivamente subordinado à água. Apesar desta se relacionar com diversos aspectos que serão abordados noutros centros do ecomuseu, dada a sua transversalidade e da própria realidade e natureza humana.
O nosso objectivo é explicitar qual a importância e o papel da água neste território. Para o efeito é necessário descrever e caracterizar os recursos hídricos existentes e os seus usos. A sua composição química, as suas propriedades curativas que levou à sua exploração termal desde o período romano.
A actual empresa de captação e comércio da água de Monchique.
As relações simbólicas possíveis de estabelecer a partir do universo água (milagres, cura, pureza associada à água, nascimento, origem de, utilização em rituais e religião…).
Os usos associados à produção (agrícola, do linho…) e as construções: os moinhos e azenhas; pontes…
154 Idem, “art. cit.”, p. 88.
80 Destacar a acção da água enquanto factor/ elemento de alteração da paisagem, através das construções de moinhos e azenhas ao longo do curso das ribeiras, como na construção de sistemas de rega, construção de diques, albufeiras ou barragens.
A água como habitat – espécies animais e vegetais que lhe estão associadas. • Sistemas naturais e paisagem
O Centro de interpretação dos sistemas naturais e paisagem tem como missão valorizar e garantir a qualificação dos sistemas naturais e da paisagem.
Pretende-se educar a visão, ensinar a olhar e a interpretar as marcas existentes na paisagem e que singularizam Monchique.
Serão explorados conceitos relacionados com as seguintes áreas: geologia; geografia, biologia e paleoflora.
A questão da sustentabilidade e da educação ambiental, são temáticas que lhes estão inerentes.
Perceber de que modo os recursos naturais condicionam e determinam a forma de vida do ser humano nesse território, ao longo do tempo e, consequentemente, redesenha a paisagem (através de introdução de novas espécies animais e/ou vegetais; levando à destruição de habitats e contribuindo para a extinção de algumas espécies; incêndios, arroteias, produção continuada de carvão; poluição….).
Perspectivar um futuro com base no respeito pelos ecossistemas, com a introdução e recurso a fontes de energias alternativas, promovendo boas práticas de sustentabilidade, garantindo qualidade de vida às gerações vindouras.
• Ocupação do território e património
A partir deste centro propõem-se uma viagem no tempo, recuando à primeira ocupação humana deste território até à actualidade.
Pretende-se fomentar a prospecção e investigação arqueológica, nomeadamente através da identificação de novos sítios, estudo de materiais, divulgação de resultados e publicações do início do século XX sobre a Arqueologia de Monchique; musealização de sítios in locu; classificação de bens móveis e imóveis.
Considerando que o Património é um conceito cada vez mais integral, tudo é património, aqui, em concreto, iremos tratar do património arqueológico, como já foi dito; arquitectónico, etnográfico, religioso, mas numa perspectiva da materialidade, as questões ligadas ao intangível serão trabalhadas numa unidade específica, à semelhança do que se fez com a água.
Este centro pode tanto funcionar como um ponto de partida para uma descoberta mais atenta do território, não apenas na sua dimensão de espacialidade, mas também de temporalidade (o binómio espaço-tempo); bem como permitir o relacionamento com as características históricas do resto da região algarvia; ou como ponto de chegada, após uma visita/ actividade/ passeio/ percurso… pelo território, permitindo um aprofundar de conhecimentos, ou o confirmar de algumas questões e interrogações que surgiram no decorrer da “descoberta” territorial levada a cabo.
81 As crónicas e relatos sobre Monchique ao longo da História, desde as difíceis acessibilidades, o relevo e a necessidade de defesa, sobretudo no período de reconquista; as formas de povoamento, as características arquitectónicas distintas; as actividades económicas, o turismo termal no início do século XX; a demografia e a fuga da população para o litoral. A organização administrativa – o actual concelho de Monchique, e antes de o ser; as visitas régias. São tudo matérias que constituem o conteúdo deste centro de interpretação.
A investigação e o conhecimento da história desta zona, intimamente ligada e condicionada pela sua localização e pelas suas características geológicas e naturais, visa inspirar o sentimento de pertença e de auto-estima da sua comunidade local.
Deseja-se criar uma dinâmica que perspective sempre uma visão de futuro e porque se entende a museologia como uma ferramenta ao serviço da comunidade e do seu desenvolvimento, como que num processo contínuo de aprendizagem, neste caso, aprender com as lições da história.
• Núcleo da memória
Será um núcleo ligado ao Património Cultural Imaterial (PCI), através de testemunhos, recolhas orais, recolhas fotográficas, numa relação directa com a comunidade.
A comunidade é o património vivo, com o qual queremos documentar, compreender e sobretudo evoluir reinventando novas soluções para os mesmos problemas, pois só assim o PCI vive e não se cristaliza.
Chamou-se núcleo e não centro de interpretação porque queremos que este espaço constitua um novo núcleo na sociabilidade monchiquense, um ponto de encontro e de partilha.
Pretende-se que o seu funcionamento seja assegurado pela população e que a sua programação seja desenvolvida por esta. A acção da coordenação do projecto será apenas de mediação.
Esta estrutura de funcionamento inspira-se no exemplo criado no também serrano concelho de S. Brás de Alportel, o Centro Museológico de Alportel, que foi inaugurado em 2006 e situa-se na localidade de Vale do Alportel. Este espaço foi uma iniciativa do Município de São Brás de Alportel, dinamizado, em parceria, com a Sociedade Recreativa Alportelense e a colaboração do Museu do Trajo de S. Brás de Alportel, com o objectivo de criar um pólo de interesse turístico, no âmbito de uma estratégia de desenvolvimento de um turismo de qualidade, que tem por base a valorização do Património e da Natureza155. Porém o aspecto mais interessante deste centro prende-se com o seu funcionamento, a cargo da comunidade local, responsabilizando a comunidade na gestão do património, numa dinâmica de cidadania activa e participativa, não exigindo apenas envolvimento e dinamismo por parte do estado.
O Núcleo da Memória afigura-se como um excelente ponto de partida para o trabalho a desenvolver em Monchique, com vista à criação do Ecomuseu da Fóia, pois este privilegia
155
In: http://www.cm-sbras.pt/portal_autarquico/sao_bras_alportel/v_pt- PT/menu_turista/concelho/cultura/museus/museu_alportel.htm
82 as pessoas e as suas memórias, associadas ao território, elementos fundamentais, mas também muito frágeis, neste sentido, crê-se fazer todo o sentido iniciar o projecto a partir da recolha e inventariação do PCI de Monchique.