Para darmos prosseguimento às análises, vejamos a resposta do presidente Lula à pergunta da jornalista Melissa Monteiro, mostrada no trecho (4) – “eu queria saber onde foi que o pai, Lula, errou?”–, para, em seguida, examinarmos a pergunta feita pela jornalista, na sequência da entrevista:
Presidente: Olha, eu tenho o PT como filho, porque eu ajudei, sou um dos fundadores do PT. Acho que o PT está sendo vítima do seu crescimento [...] O PT, se cometeu erros, a minha tese é que o PT tem que explicar para sociedade brasileira que erros cometeu. O que o PT fez, do ponto de vista eleitoral, é o que é feito no Brasil sistematicamente. Eu acho que as pessoas não pensaram direito no que estavam fazendo porque o PT tem, na ética, uma
134 Em suas análises, Dresch (2007, p. 122) aponta que a forma com que o juiz conduz os questionamentos dirigidos ao réu se mostra determinante para que este sujeito produza um relato contraditório, prevalecendo assim os sentidos acusatórios. A autora analisou as designações de réu em jornais do Rio Grande do Sul e no próprio processo penal, em fases anteriores ao interrogatório, e percebeu que essas designações “servem como indicativo da representação do criminoso que compõem o lugar do réu e tem caráter histórico” (DRESCH, 2007, p. 160).
de suas marcas mais extraordinárias. E não é por causa de um erro de um dirigente ou de outro que você pode dizer que o PT está envolvido em corrupção. Eu acho que a nova direção do Partido saberá explicar para a sociedade o que aconteceu com o PT e o que vai acontecer daqui para a frente com o PT.
(6) Jornalista: Mas Vossa Excelência estima que tem alguma culpa nessa crise do PT e do país? (BRASIL, 2008c, p. 4-5, grifos nossos, entrevista nº. 2)
À pergunta da jornalista sobre o erro do pai (Lula), vemos este responder sobre a possibilidade de o filho (PT) ter errado. Sem abordar diretamente em sua resposta a questão de sua implicação/participação (ou não) nos erros do PT, Lula se distancia da resposta que era esperada pela jornalista. Esse distanciamento provoca efeitos de sentido que negam o pressuposto por Monteiro, em (4), de que Lula teria errado. Pelo que vemos na pergunta seguinte da jornalista, em (6), é exatamente esse embate que está em jogo135.
Na junção ao questionamento da repórter, que mais uma vez dirige-se diretamente a Lula, a forma “mas” marca tanto a presença do discurso-outro (erro de Lula crido como existente) quanto a posição assumida por Lula, em relação a esse discurso, do qual ele quer se distanciar. Como articulador que trabalha a contradição, o “mas” utilizado pela jornalista dá o tom do embate, instaura a dúvida a respeito do que foi dito por Lula, já que o presidente, interpelado a ocupar a posição de réu, em (4), “onde foi que o pai, Lula, errou?”, não confessou seus erros publicamente.
O questionamento da repórter, em (6), interpela o entrevistado a retificar sua resposta, como se esta não correspondesse aos fatos. Além disso, o interpela a confessar-se responsável por seu (suposto) erro. Algo semelhante vemos na primeira pergunta que o jornalista Paulo Markun dirige ao presidente, no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 7 de novembro de 2005:
(7) Jornalista: Presidente, eu vou começar direto ao ponto. Desde que surgiu esta crise política, o senhor deu algumas declarações em cadeia nacional, em entrevistas, em aberturas de eventos do próprio governo, mas eu creio que falta perguntar, para começar, a seguinte questão: o senhor tem, de modo geral, se declarado uma pessoa que não teve conhecimento dos fatos relatados pelo ex-deputado Roberto Jefferson e das principais denúncias que se apresentaram neste período. E, de outro lado, o senhor também tem dito em algumas ocasiões que muito disso é o que o senhor classificou recentemente, ainda em Mar del Plata, como denuncismo vazio. A pergunta é: o senhor não tem nenhuma responsabilidade? É possível a sociedade brasileira entender isso, que o Presidente da República não tem nenhuma responsabilidade sobre estes fatos que escandalizam a Nação? (BRASIL, 2008d, p. 1-2, grifos nossos, entrevista nº. 3)
Recorrendo rapidamente à conhecida teoria polifônica da enunciação, desenvolvida por Ducrot (1987), a qual considera que a negação é uma das marcas linguísticas pelas quais a polifonia se manifesta, já que se pode identificar sempre uma afirmação (real ou imaginária) dentro de uma negação136, não se demora a perceber nas duas perguntas (em negrito) proferidas pelo jornalista o discurso-outro, aquele da prática de inquérito e de exame que está em curso: o de que Lula tem (alguma) culpa e precisa confessar que é responsável pela corrupção.
Ao analisar os discursos presidenciais da República Militar Brasileira, durante o período de 1964 a 1984, Indursky (1997, p. 213) examina o funcionamento discursivo da negação nesses discursos autoritários. Trabalhando sobre o terreno de uma Análise de Discurso
136 Para propor uma teoria polifônica da enunciação, Ducrot (1987) se inspira no conceito de polifonia, proposto inicialmente por Bakhtin, em suas análises da obra de Dostoievski. A respeito da negação como uma marca linguística pela qual a polifonia se manifesta, destaca-se que um grande número de trabalhos acadêmicos retoma exaustivamente este tema, recorrendo a Bakhtin e a Ducrot. Por isso, eximimo-nos, aqui, tanto dos pormenores do conceito de polifonia quanto de críticas à obra de Ducrot, por esta ter excluído a noção de historicidade dos textos, diferentemente do que se encontra na obra bakhtiniana.
derivada dos trabalhos de Michel Pêcheux, a autora aborda a negação como uma das formas que sinalizam preconstruídos137, traços do
interdiscurso138 nos discursos analisados, o que evidencia, ao contrário
do que se possa imaginar para discursos autoritários, a heterogeneidade constitutiva desses discursos.
Considerando a influência do projeto arquegenealógico de Foucault nos trabalhos finais de Pêcheux, poderíamos dizer que as práticas de inquérito e de exame, juntamente com a pressuposição da culpabilidade do réu, mobilizam preconstruídos sinalizados pela negação do jornalista Paulo Markun, em (7), nesse discurso heterogêneo. Os elementos linguísticos de negação (não e nenhuma), presentes nas duas perguntas proferidas pelo jornalista, expressam o descordo entre os interlocutores, por estabelecerem uma relação de oposição a um ato assertivo prévio (preconstruído): a culpabilidade do réu Lula.
Ainda sobre a entrevista ao Programa Roda Viva, é notável a interpelação de Lula à confissão, na pergunta que o jornalista Heródoto Barbeiro, da TV Cultura, dirige ao presidente:
(8) Jornalista: Em relação, ainda, a essa questão econômica. Presidente, eu imagino, dentro dessa economia, como um todo, os partidos políticos tiveram dificuldade para captar dinheiro para fazer campanha eleitoral. Eu gostaria de saber se o senhor reconhece que o senhor foi eleito com uma campanha eleitoral que foi financiada pelo caixa dois do PT. Isso nós estamos dizendo, já há fatos comprovados e ditos, inclusive, pelo PL, que é um partido da base aliada do governo, dizendo que gastou X e outro gastou Y na campanha eleitoral do senhor. Como é que o senhor argumenta essa questão de ter sido eleito com o dinheiro proveniente do caixa dois? (BRASIL, 2008d, p. 22, grifos nossos, entrevista nº. 3).
137 Por preconstruído, entende-se “o “sempre já lá” da interpelação ideológica que fornece/impõe a realidade de seu sentido sob a forma da universidalidade” (INDURSKY, 1997, p. 35).
138 O interdiscurso é “o lugar de formação do preconstruído e funciona como um elemento regulador do deslocamento das fronteiras de uma formação discursiva, controlando a sua reconfiguração e permitindo a incorporação de preconstruídos que lhe são exteriores, provocando redefinições, apagamentos, esquecimentos ou denegações entre os elementos de saber da referida formação discursiva”. (INDURSKY, 1997, 35-36).
Em um estudo sobre a história do ato de confessar-se publicamente, Souza (1997) lembra que a prática da confissão, inventada pelos primeiros cristãos, “não vem propriamente de uma demanda de manter algo em segredo, e sim da necessidade de partilhar e colocar em julgamento toda a experiência que permanece longe do alcance da esfera pública” (SOUZA, 1997, p. 37, grifos nossos). Antes de a confissão se converter em um ritual enunciativo do domínio do privado, adverte o autor139, tratava-se de uma prática pública de referência a si, entre os primeiros cristãos, para julgamento do outro: “trata-se [...] da instauração de uma discursividade em que o sujeito que se constitui na prática discursiva correlata da confissão declara-se temporariamente, em virtude de sua situação de pecador, como parte separada do grupo ao qual pertence” (ibidem, p. 38). Em nossas entrevistas, este é o apelo dirigido a Lula: confessar-se publicamente “pecador”.
Sabemos que não se trata do discurso religioso, e sim da fala política pública, mas vemos na interpelação de Lula a evocação a uma mesma prática de referência a si, para julgamento do outro, semelhante àquela encontrada entre os primeiros cristãos: reiterar-se para confessar publicamente o erro; assumir alguma culpa ou responsabilidade pela crise política e colocar-se junto aos corruptos ou aos maus políticos.
Mas por que delineamos até aqui essa evocação à confissão? Se optamos por mostrar como a problematização da figura do presidente, no discurso midiático (e certamente fora dele), evidencia o apelo à confissão, o fizemos porque vemos na natureza deste apelo a necessidade de excelência ética do governante e de sua capacidade de discernir o verdadeiro em meio à corrupção. Nesse sentido, o apelo agrega, necessariamente, aceitar correr os riscos que uma confissão possa trazer para aquele que ocupa uma posição de mando no governo.
As análises de Foucault (2008) da obra Íon, de Eurípides, na qual vemos um trabalho de aproximação entre o texto trágico e os textos e documentos historiográficos que assinalam a crise da parrêsia na Grécia Antiga podem contribuir para elucidarmos a natureza do apelo dirigido ao presidente Lula, como veremos a seguir.
139 Um dos objetivos de Souza (1997) ao abordar a história da confissão sob o ponto de vista de sua estrutura enunciativa é tratar da questão de como a confissão se converteu majoritariamente em um ritual enunciativo do domínio do privado.