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B. ANEMIE

V. Résultats

2. Etude analytique

A categoria território tem um conteúdo geográfico preenchido por distintas fisiografias ambientais e físico-materiais, configurando lugares diversos. Acrescento, ainda, distintas temporalidades e experiências, indicando algumas referências que nos permitem situar Fernão Velho e seus múltiplos passados45, seja em um tempo mais antigo, seja contemporâneo ao nosso presente. Essas referências são produtoras de representações que se materializam por meio de narrativas, discursos, e imagens, constituindo também memórias.

Como exemplo, cito a descrição memorialista de Veríssimo Ferreira, um antigo operário da Fábrica Carmen:

O distrito de Fernão Velho, situado na periferia de Maceió, capital do Estado de Alagoas, logo depois de Bebedouro, banhado pela Lagoa Mundaú ou do Norte, como chamavam os antigos, tem uma história e origem muito remotas, vindas dos tempos do Primeiro Império, quando os pescadores da Levada ali penetravam pelos canais da lagoa, e conheceram pela primeira

45Na operação de escrita da história, mobilizamos e construímos sentidos ao tempo histórico e aos

acontecimentos. Nosso tempo histórico é um tempo artificial “no e do” presente, abordando fatos de um passado já desaparecido. O presente torna-se mediador entre passado e futuro, levando-nos a deslocamentos entre distintos acontecimentos e seus tempos, o que nos exige capacidade inventiva e significante sobre o tempo através da narrativa. O tempo histórico é, portanto, criação. É uma construção cultural, semântica e plural. E que na história, resulta de um processo simultaneamente social e operacional na produção historiográfica. Para Reinhart Koselleck em sua obra “Estratos del tiempo” (2001), esse tempo histórico é operacionalizado como um “estrato”, uma unidade de tempo dinâmica e fluida com múltiplos níveis. O tempo histórico se torna um recorte cujas experiências alcançam distintas velocidades, acelerações, composições, profundidades, durações, sucessões e sobreposições. Portanto, em um mesmo estrato, ou melhor, delimitação de recorte temporal histórico, é possível identificar diferentes níveis de tempo os quais são compostos por passados, presentes e perspectivas de futuros, sejam nas experiências dos sujeitos, sejam nas construções de narrativas. Uma forma de representação do tempo que escapa rompo com linearidades.

vez o sítio Fernão Velho, provavelmente nos idos de 1811 e 1815. [...] Diziam os antepassados que ali no alto da Vila Bela Vista, onde fora simplesmente mata, residia um senhor numa casinha de taipa o qual se chamava Fernão.46

Veríssimo Ferreira inicialmente qualificou Fernão Velho como parte daquilo que seria a “periferia” de Maceió, o que remete a um lugar com precárias condições de vida. Uma representação que talvez seja marcada pelo momento presente de sua escrita, quando Maceió já sofria em pleno final do século XX com problemas de saneamento básico, emprego, violência, e mobilidade urbana, este último, inclusive, que dificultava o acesso a este lugar, promovendo certo isolamento geográfico do restante da cidade. Fernão Velho assemelha-se ao que o historiador Oswaldo Maciel47 descreve como uma área de arrabalde na cidade. Ou seja, embora fizesse parte do perímetro urbano, para se chegar até lá, era necessário passar por áreas desabitadas e tomadas por vegetação típica de mata atlântica. Porém, não se deve desconsiderar sua proximidade aos já reconhecidos bairros à época, como Levada e Bebedouro, ambos na margem sudoeste de Maceió.

Figura 1: Mapa com localização do território fabril de Fernão Velho na cidade de Maceió.

Nessa margem, a cidade tem como limite a Laguna Mundaú, que em comunicação com a Laguna Manguaba a sudoeste formam um complexo lagunar e lacustre com múltiplos sistemas de canais. Esse complexo lagunar se conecta com o mar, permitindo um intermitente

46 FERREIRA, 1997, p. 1. 47 MACIEL, 2009, p. 46-47.

Fonte: Elaboração própria, 2015 Fernão Velho Oceano Atlântico Laguna Mundaú Cidade de Maceió

fluxo de navegação e circulação de pessoas e produção entre os municípios que dele fazem parte e influenciam simultaneamente uns aos outros, cultural, econômica e politicamente. Além de Maceió, os municípios de Marechal Deodoro, Pilar, Coqueiro Seco e Santa Luzia do Norte fazem parte dessa região, ampliando sua influência para outros municípios próximos.48

Esse ambiente lagunar e lacustre, por suas características ambientais, proporciona para a população nele residente um sistema geográfico altamente produtivo como fonte de alimentos, seja pelos recursos pesqueiros, seja pela condição de clima tropical que favorece o desenvolvimento da agricultura. Além do cultivo da cana-de-açúcar, eram e ainda são predominantes atividades como a pesca, coleta de moluscos e crustáceos, e pequena agricultura com plantio de frutas, verduras e outros gêneros alimentícios.

A referência ao Alto Bela Vista relatada por Veríssimo Ferreira é uma referência geológica para Fernão Velho. Este faz parte de um relevo formado por tabuleiro,49 formação geográfica expressiva na cidade de Maceió, que, além de praias, tem áreas de mangue, laguna e mata atlântica. Fernão Velho fica encrustado entre um dos tabuleiros da cidade e a Laguna Mundaú.

Porém, compreendo, também, que o território é uma categoria que emite, antes de tudo, uma noção jurídica e política, cujo controle dos espaços nele configurado é exercido por “certo tipo de poder”.50 Esse deslocamento torna-se útil na medida em que percebo o território

fabril de Fernão Velho como um enunciado geográfico permeado por saberes, discursos e práticas de poder. Aliás, essa é uma das características que atribuem inteligibilidade aos territórios fabris no Brasil como conceito historiográfico,51 sendo este pautado na existência de um complexo produtivo formado pelo conjunto de fábrica com vila operária e todo seu conjunto arquitetônico quadriculado em diferentes espaços com funções distintas, passíveis de vigia panóptica, com foco na eficiência produtiva e passível de múltiplos efeitos de poder. É

48 No passado colonial do Brasil, essa região lagunar compreendia o terceiro foco de povoamento no território de

Alagoas, sul da Capitania de Pernambuco. Foi também área de administração colonial do território alagoano, tendo sido posteriormente, no século XIX, o município de Marechal Deodoro outrora conhecido como Maria Magdalena Alagoas do Sul, a primeira capital de Alagoas. DIÉGUES JÚNIOR, Manoel. O banguê nas

Alagoas: traços da influência do sistema econômico do engenho de açúcar na vida e na cultura regional.

Maceió: Edufal, 2002. (Coleção Nordestina).

49 Na formação morfológica da geografia costeira, entende-se por tabuleiro um pequeno platô de altitude

modesta, podendo variar entre 20 e 50 metros de altura.

50 FOUCAULT, Michel. Sobre a geografia. In: ______. Microfísica do poder. Tradução de Roberto Machado. 5.

ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985a. p. 157.

51 Sobre esse caráter dos territórios fabris, há vastos trabalhos de cunho historiográfico. Cito entre estes, as

seguintes referências: LOPES, José Sérgio Leite. A tecelagem do conflito de classes na cidade das chaminés. São Paulo: Marco Zero; Brasília: Editora da UnB, 1988. RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar: Brasil 1890-1930. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. CORREIA, Telma de Barros. Pedra: plano e cotidiano operário no sertão. Campinas, SP: Papirus, 1998. TENÓRIO, Douglas Apratto; LESSA, Golbery Luiz. O ciclo do algodão e as vilas operárias. Maceió: Sebrae, Edufal, 2013. FARIAS, 2014, entre outras.

nessa noção que me apoio para compreender de que maneira o território fabril de Fernão Velho foi sendo constituído historicamente, seja como experiência econômica, produtiva, social, cultural, seja geográfica.

No fim do século XIX, essa região passou a concentrar diversas fábricas têxteis instaladas nas cidades próximas à capital.

Figura 2 – Mapa de distribuição de fábricas têxteis em Alagoas, período 1857-1900

Fonte: Os dados para composição desse mapa foram extraídos de diversas obras historiográficas e relatórios das companhias de fábricas têxteis publicados nas edições do Diário Oficial de Alagoas. Optou-se por usar os anos de criação das companhias como referências, embora estas, em sua maior parte, tenham iniciado a produção dois ou três anos depois da sua constituição jurídica.

No município de Pilar, instalou-se a Companhia Pilarense de Fiação e Tecidos em 1892.52 Em Santa Luzia do Norte, contemporâneo de Fernão Velho e Pilar, fundou-se a Fábrica Cachoeira em 1888. Com o desmembramento territorial desse município, essa fábrica passou a se localizar na cidade de Rio Largo a noroeste de Maceió. Somando-se à Fábrica Companhia Progresso Alagoano (1892), as duas formaram a Companhia Alagoana de Fiação e Tecidos.53 Na região do Rio São Francisco, no município de Penedo, a presença da Companhia Industrial Penedense (1895). Formava-se em Alagoas uma rede industrial têxtil com cinco fábricas em distintos municípios e regiões do estado criadas até o final do século

52 MARROQUIM, 1922/2000.

XIX, e que nas primeiras décadas do século XX foi ampliada com a instalação de novas fábricas e vilas operárias.

Fernão Velho também foi cenário para registros imagéticos da cidade de Maceió no início do século XX. Trata-se da fotografia produzida pelo jornalista e fotógrafo Luiz Lavenère Wanderley (1868-1966). Foi um dos mais relevantes fotógrafos da cidade de Maceió no início do século XX,54 documentando o espaço urbano, inclusive publicando suas fotografias em um periódico ilustrado denominado A Conquista.

Esta fotografia compõe uma coleção localizada no Arquivo Público alagoano. Data provavelmente de 1911 quando Luiz Lavenère produziu uma série de registros fotográficos da cidade, podendo ser também de um momento anterior, pois sua catalogação não traz com precisão esse dado.

Nessa fotografia, temos uma vista parcial e panorâmica dessa área de Maceió, tomando Fernão Velho, um tabuleiro e a Laguna Mundaú como referências.

Fotografia 1 – Fernão Velho, Alagoas

Fonte: Acervo de fotografias do Arquivo Público de Alagoas. Autor: Luiz Lavenère Wanderley, [1911].

Observando-se a margem esquerda da fotografia e alongando-se rumo ao horizonte, como uma faixa no centro da imagem, identifico o tabuleiro. Neste, podemos ainda perceber a predominância da vegetação remanescente de mata atlântica nas encostas que emolduram as

54 LAVENÈRE, Luiz; SANT’ANA, Moacir Medeiros de. A fotografia em Maceió, 1858-1918. Revista do Arquivo Público de Alagoas, n. 1, p. 119-160, 1962. 124-125.

margens esquerda e inferior. À direita, indico a Laguna Mundaú. Em seu mesmo nível, porém abaixo do tabuleiro, indica-se a localização de Fernão Velho já como um território fabril. Trata-se de um registro posterior ao tempo que Veríssimo Ferreira designa como de “seu Fernão, o velho”, e mesmo passados mais de cem anos, a localização no canto inferior direito produz uma vista que enseja nomear “Alto Bela Vista”. Ou que, para além da localização, a tentativa de produzir outra visualidade para a cidade, sendo esta pautada em referências reconhecidas como modernas na época desse registro.55

Em outra imagem produzida por satélite e disponível em 2014,56 é possível visualizar a localização de Fernão Velho.

Fotografia 2 – Imagem de satélite com quadrante para abrangência de Fernão Velho

Fonte: Aplicativo Google Earth, 2014.

Percebe-se que nela está inclusa uma área construída posteriormente ao registro de Lavenère. Trata-se da Vila ABC, representada por um conjunto de edificações localizadas no canto superior esquerdo da imagem. Essa vila foi resultado da expansão de casas operárias sequenciadas por letras do alfabeto, construídas pela fábrica.

55 É relevante destacar que, na época dessa fotografia, também foram registradas imagens de diversas fábricas

em Alagoas, além da construção da rede ferroviária, de instituições bancárias e comerciais, bondes, relógios públicos, construção de praças e intervenções urbanísticas ampliando ruas, entre outros. Todas disponíveis nos acervos do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Arquivo Público de Alagoas e Museu da Imagem e do Som de Alagoas.

56 Essa imagem de satélite foi capturada através do aplicativo Google Earth disponível na internet. Sendo uma

imagem de satélite, a atualização dela depende de novos registros que o satélite realiza no momento em que passa por esse quadrante no planeta. Desse modo, se hoje acessarmos o aplicativo, a imagem disponível não corresponderá necessariamente ao que se apresentava geograficamente em 2014.

Vila ABC Sítios na área “Goiabeiras” Laguna Mundaú Região de Tabuleiros e outros bairros Açude Vila Operária Fábrica

Podemos ainda visualizar nessa imagem, a continuidade da vegetação remanescente de mata atlântica nesse território fabril, servindo como um limite demarcador no espaço urbano de Maceió, separando Fernão Velho dos demais bairros que integram essa margem da cidade. Parecia instituir uma forma de isolamento da vila. Apenas parecia...

A navegação na Laguna Mundaú permitia o deslocamento de pessoas, seja para o bairro da Levada, seja para outras localidades. A linha férrea existente desde o século XIX em Alagoas e com uma estação construída em Fernão Velho em 1884, interligava o local da fábrica ao centro de Maceió, facilitando o recebimento de maquinário importado e o abastecimento de matéria-prima, nesse caso o algodão. A ferrovia tinha como uma de suas funções ampliar a capacidade de escoamento da produção em direção aos portos do comércio marítimo mundial, interligando as regiões de produção algodoeira e fabril-têxtil no estado com o Porto do Jaraguá, fortalecendo a condição de Maceió como centro exportador.57 Além disso, esse meio de transporte era utilizado por uma expressiva população a ser arregimentada pela oferta de trabalho na fábrica. Ainda hoje mantêm fluxo intermitente de pessoas.

A circulação de ideias e valores culturais, a exemplo do cinema e de jornais impressos, transpôs as fronteiras físicas e os limites de deslocamentos daqueles que viviam na vila operária. Fernão Velho estava integrado ao território de Maceió, porém com especificidades geográficas, econômicas e sociais, o que interferia diretamente no ritmo do cotidiano das pessoas que ali trabalhavam e viviam.

1.2 Nos tempos da Companhia União Mercantil: entre gestões e negócios, a constituição