1.3 La fusion par confinement inertiel
1.3.5 Situation de l’allumage par choc
1.3.5.5 Organisation du manuscrit
Em seu primeiro número, o periódico Persona problematiza o isolamento que sofrem as donas de casa, questão também presente no segundo número do jornal Nós Mulheres:
Las mujeres, cada una “reina del hogar” dispersas en sus casas y en sus familias, viven en un aislamiento que les impide reconocer en ellas mismas y en sus hermanas la explotación a que son sometidas. Perdidas en las células incomunicadas de las familias tienen como único medio de contacto con el mundo al varón-marido, padre o hijo. Por eso la mujer no aparece en la historia escrita, pero sin ella los varones no habrían podido hacer la historia.10
Esse isolamento também fica claro nas páginas do Nós Mulhe-
res brasileiro, aqui na fala de uma dona de casa: “quando a gente
fica fechada, pensa que o problema é só da gente. Mas no momento em que passa a conversar mais com outras donas de casa, a gente vê que o problema é geral. É geral na classe média, é geral na classe baixa, é geral... (Inês, 50 anos, 3 filhos)”.11
10 “As mulheres, cada uma ‘rainha do lar’, dispersas em suas casas e suas famílias, vivem em um isolamento que as impede de reconhecer nelas mesmas e em suas irmãs a explo- ração a que são submetidas. Perdidas nas células incomunicáveis das famílias, têm como único meio de contato com o mundo o homem-esposo, pai ou filho. Por isso a mulher não aparece na história escrita, mas sem ela os homens não poderiam ter feito a histó- ria”. Tradução livre. Persona. Ano 1, n. 1. Buenos Aires, outubro de 1974, p. 27.
75 Em contato com essas fontes escolhidas, é possível observar que o trabalho doméstico da dona de casa e o trabalho doméstico da em- pregada doméstica são tratados como coisas distintas; e se pararmos para refletir a respeito, de fato são. Ainda que os serviços executados sejam praticamente os mesmos, as relações que envolvem esses servi- ços e essas mulheres são muito diferentes. Vale ressaltar que são ques- tões intimamente interligadas, que ambas são ocupações majoritaria- mente femininas e socialmente desvalorizadas, permeadas inclusive pelas relações entre as donas de casa e as empregadas, e apesar de em muitos momentos aparecerem como uma coisa só nas fontes, são as próprias fontes que de alguma forma encaminham essa divisão. Para diferenciar o trabalho gratuito da dona de casa do trabalho re- munerado da empregada doméstica, usamos aqui os termos “traba- lho doméstico” e “emprego doméstico”, respectivamente. Empresto a terminologia de Zaíra Ary Farias,12 lembrando que a argentina Mirta
Henaut13 ainda a utiliza na primeira década do século XXI.
Este capítulo, através das fontes selecionadas, vem observar e analisar o trabalho doméstico, o trabalho gratuito da dona de casa. Essa opção foi feita por uma questão de espaço e pela escolha em priorizar o melhor tratamento de um dos aspectos levantados.14 Mesmo lidando
apenas com o trabalho doméstico, as fontes ainda levantam mais dis- cussões do que as apresentadas aqui. Esse recorte temático foi realizado buscando discutir um pouco melhor algumas das questões elencadas pelas fontes, ainda que para isso outras tenham sido excluídas.
É interessante observar como um ou outro periódico abor- dava a questão do trabalho doméstico e como isso se relacionava com sua linha editorial. O jornal Brasil Mulher, por exemplo, onde havia forte presença do Partido Comunista do Brasil,15 se mostrava 12 FARIAS, Zaíra Ary. Domesticidade: cativeiro feminino? Rio de Janeiro: Achiamé/CMB,
1983, p. 24.
13 HENAUT, Mirta. Op. cit., p. 9.
14 Para uma discussão mais satisfatória abordando o trabalho e o emprego (assalariado) domésticos, cf. MELLO, Soraia Carolina de. Feminismos de Segunda Onda no Cone Sul: pro- blematizando o trabalho doméstico (1970-1989). Dissertação de Mestrado em História. Florianópolis: UFSC, 2010. Cf. também PITE, Rebekah E. ¿Solo se trata de cocinar? Re- pensando las tareas domésticas de las mujeres argentinas con Doña Petrona, 1970-1983. In: ANDÚJAR, Andrea et al. De minifaldas, militancias y revoluciones – exploraciones sobre los
70 en la Argentina. Buenos Aires: Ediciones Luxemburg, 2009, p. 187-205.
15 Referências sobre a história do Brasil Mulher e do Nós Mulheres podem ser encontradas em MORAES, Maria Lygia Quartim de. A experiência feminista dos anos 70. Araraquara: UNESP, 1990.
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mais preocupado com a questão do emprego doméstico, das con- dições de trabalho, etc., ainda que discutisse também o trabalho doméstico. Já o Persona, que trazia em seu próprio nome a forte preocupação com os direitos individuais (em especial das mulhe- res, já que era um periódico feminista),16 tinha como foco o tra-
balho doméstico e questões relacionadas a ele. No Nós Mulheres o trabalho doméstico apareceu muito mais, em especial nos dois pri- meiros números, mas o emprego doméstico também era discutido. Essa observação pode ser relacionada com o fato de o periódico ter sido “[...] o primeiro do feminismo de Segunda Onda brasileiro a declarar-se feminista”17 (havia, portanto, uma grande preocupação
com os direitos específicos das mulheres), mas ao mesmo tempo ter estado vinculado a grupos de esquerda e ter afirmado sua preocu- pação com a luta geral e com a luta específica.18
Ainda que ao tratar do emprego doméstico o Nós Mulheres estivesse discutindo a esfera privada, ele discutia também a inser- ção ou a “subinserção” das mulheres na esfera pública, no mercado de trabalho, a desvalorização de seu emprego, seus baixos salários, etc., questões que possuíam algum espaço em grupos de esquerda e eram conhecidas das mulheres desses grupos. Já no caso do Bru-
jas, ao menos nos exemplares consultados, tanto o trabalho como o
emprego doméstico eram discutidos de forma esparsa, relaciona- dos a outras questões, não aparecendo como manchetes das maté- rias ou como questão de destaque. Diferente dos demais periódicos aqui apresentados, o Brujas começou a ser publicado na década de 1980, e talvez aí possa ser encontrada a razão para a falta de foco no trabalho e no emprego domésticos, se observarmos as discussões em voga nos feminismos daquela década.19
16 Persona. ¿Por qué Persona? Ano 1, n. 1. Buenos Aires, outubro de 1974, p. 27.
17 Ao menos segundo MORAES, M. L. Q. Op. cit., p. 20-28. Vale lembrar que a autora fez parte do grupo que produziu o periódico e que a disputa a respeito de qual publicação seria pioneira pode estar presente em sua fala.
18 Nós Mulheres. Editorial. Ano 1, n. 1. São Paulo, junho de 1976, p. 1.
19 Na década de 1980 questões mais relacionadas com a sexualidade e com o corpo ganha- ram força entre os feminismos sul-americanos, sendo que as discussões sobre trabalho doméstico não estavam mais tão presentes.
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