connaissances à partir de données
2.4.3 Organisation des algorithmes de sélection d’instances
As divisões sexuais do trabalho foram inscritas nos sistemas econômicos, confundindo-se com os modelos de relações sociais e com a inscrição de limitações dos papéis masculinos e femininos. Em diferentes momentos históricos, narrados pelos modos de produções, homens e mulheres desenvolveram trabalhos (pagos e não-pagos) para o seu sustento.
Como visto no capítulo anterior, no princípio da humanidade a primeira divisão do trabalho era simples, dizia respeito à maneira pela qual se colhiam os alimentos. As mulheres recolhiam os produtos vegetais em campos próximos às suas habitações e os homens iam à caça de animais em lugares longe dos acampamentos. Com a agricultura extensiva e a criação de gados foi necessário que um grupo de pessoas se reunisse em torno de um espaço de terra estabelecido para o cultivo de seu solo. Isso possibilitou as formações de clãs separadas, chamadas de “famílias amplas”, passando posteriormente para as famílias individuais ou nucleares (Engels, 1973; Marx 1973; Reed, 1980/1980).
As atividades agrícolas e artesanais eram desempenhadas por todos os membros da família em suas próprias terras. Nesse sistema, cada pessoa desempenhava uma determinada função e a produção era vinculada ao sustento da família, ou seja, se produzia unicamente o que era consumido dentro daquele núcleo familiar. De tal forma, a mulher do campo participava das atividades econômicas familiares.
Tomando como base os textos de Engels (1973) e Marx (1973) vemos que homens e mulheres do campo, independente do estado civil, trabalhavam na lavoura. Nesse contexto, de domínio territorial que a atividade agrícola demandava, foi inserida uma relação de
poder e dominação, que permitiu a instalação gradativa do sistema patriarcal, onde o homem deteve os privilégios e o domínio sobre suas posses – terra, bens e família. E, como sabemos, essa cultura patriarcal foi, ao longo do tempo, produzindo uma maneira de viver caracterizada por ações que promoveram as relações do tipo: dominador-dominado, superior-inferior, masculino-feminino.
Mais adiante, a Idade Média produziu um novo modelo econômico. Muitos agricultores migraram do campo para a cidade pela necessidade de mão-de-obra nos centros urbanos. Devido ao aumento demográfico, esses centros demandaram uma maior produção artesã e, também, tecelã. Mas, de maneira geral, os membros da família continuaram a desenvolver o trabalho de maneira coletiva em todas as etapas da confecção de seus produtos.
As atividades eram desenvolvidas, de forma manual, no espaço doméstico. Aqui, as(os) artesãs(os) começaram a apropriar-se de oficinas de produção onde fabricavam seus produtos para serem comercializados. Esses produtos eram trocados e repassados pelos comerciantes – figura surgida nesse período – que fazia o intercâmbio entre as cidades, aprimorando seus itens de negociação. Além dessa participação artesanal, as mulheres com uma realidade econômica desfavorável também atuavam para o sustento familiar. Freqüentemente, elas faziam trabalhos na qualidade de vendedoras ambulantes, lavadeiras, amas-de-leite, entre outras funções desenvolvidas nas cidades (Macedo, 1999).
Nas sociedades pré-industriais todos os membros da família se integravam em tarefas produtivas, até mesmo as crianças. Fazendo, obviamente, os devidos recortes socioeconômicos, veremos que as moças solteiras também trabalhavam ou no seio familiar ou para outras famílias. E as mulheres casadas, que ainda viviam no espaço agrícola,
cuidavam de animais, da venda da produção ou ainda do cultivo da plantação. Já nas cidades, elas ajudavam seus maridos artesãos na fabricação de seus produtos.
A chegada das máquinas é vista como um grande acontecimento sócio-econômico que provocou consideráveis mudanças na humanidade. O processo de industrialização promoveu o crescimento territorial e econômico das cidades, da mesma forma que novas configurações sociais foram se formando. Surgiu, nesse momento, a necessidade de se buscar mão-de-obra barata para as fábricas. E, como não poderia deixar de ser, essa força de trabalho saiu dos lugares (físicos e sociais) mais carentes da sociedade. A partir daqui, trabalhadores(as) foram “convidados(as)” a vender suas forças (físicas) como se fossem produtos (Muraro, 1992).
Assim, mulheres e crianças foram recrutadas para operar máquinas nas fábricas. No entanto, essas mulheres e crianças não tinham seus direitos definidos nem defendidos, recebiam menores salários por serem mais frágeis fisicamente. Uma vez em que as divisões de atividades estavam relacionadas às capacidades físicas dos indivíduos, houve um privilégio biológico para os homens.
A revolução industrial e o surgimento da necessidade de uma classe operária assalariada para trabalhar nas indústrias, talvez tenham sido os grandes vilões da separação dos sexos e da valorização social do homem trabalhador em detrimento da mulher trabalhadora. O trabalho das mulheres nas fábricas era considerado uma extensão de seus trabalhos domésticos, um complemento da renda familiar. Em outro sentido, o trabalho realizado pelos homens, com salários freqüentemente superiores, era tido como o responsável pelo sustento familiar, reconhecendo-os como provedores e “chefes-de- famílias”.
Chegamos ao capitalismo, datado do século XVI, baseado na exploração da mão-de- obra assalariada. Nesse regime, a força de trabalho passou a ser mercadoria, o trabalhador não vende mais a sua mercadoria e sim sua força de trabalho por um salário combinado. A concentração de riquezas nas mãos de poucos e a exploração de muitos, aliada ao crescente desenvolvimento tecnológico, desembocou na Revolução Industrial do século XVIII. Ao longo desse processo foi então consolidado o modelo capitalista.
No capitalismo, os quadros de desfavorecimento e discriminação das operárias ficaram ainda mais visíveis. Além das obrigações no sei da família, as mulheres atuavam no espaço público, o que refletiu tanto na história da família como na do trabalho. Com a industrialização as mulheres passaram a ser assalariadas como operárias de fábricas ou como domésticas. Geralmente, o trabalho era temporário ou abandonado quando tinham filhos, passando, se necessário, a um trabalho informal na vizinhança ou em sua própria casa (Saffioti, 1976).
As máquinas desenvolvidas nessa época permitiam que seus manuseios fossem operados sem demandar tanto esforço físico. Isso possibilitou que as mulheres tivessem mais acesso a elas. Assim, logo passaram a ser vistas como úteis para atividades que eram do domínio masculino. Os homens por sua vez, se viram ameaçados em sua condição de trabalhadores, com o aumento da utilização de máquinas que substituíram grande número da demanda de mão-de-obra, o que desencadeou desemprego. Por outro lado, como o trabalho infantil e feminino era menos valorizado e trazia menos despesas às fábricas, mulheres e crianças eram contratadas com mais facilidade, provocando nos homens um sentimento de competição (Muraro, 1992). Vendo-as como as responsáveis por seus desempregos os homens começaram a questionar o papel da mulher trabalhadora e a cobrar
seus papéis maternos e conjugais, o que gerou um conflito social em torno do lugar feminino e de suas funções.
Além disso, o trabalho remunerado da mulher casada – de baixa-renda, porque na burguesia se desconheciam as mulheres que trabalham fora – era visto como uma atividade de complementação, subordinado aos papéis de esposa e mãe. Esse processo consolidou a normalização e a “naturalização” biologizante da divisão sexual do trabalho. O papel de mãe era um forte argumento para cercear a entrada da mulher no mercado de trabalho, para reafirmar seu lugar no mundo privado (Bardwick, 1979/1981).
Ao longo do século XX, a vida das mulheres sofreu muitas modificações e, conseqüentemente, toda a sociedade. Ocasionada, principalmente, por conquistas que vão desde um maior acesso à educação até aos direitos civis, as mulheres conseguiram uma maior visibilidade no mercado de trabalho e ocuparam posições que antes só eram ocupadas por homens (Lipovetsky, 2000). A revolução sexual dos anos 1960, encabeçada por movimentos feministas, promoveu um profundo questionamento a propósito dos papéis e os direitos das mulheres na família e na sociedade. Surgiu também nesse momento, a idéia de que a condição de gênero não seria determinada por corpos biológicos, mas por uma construção social, uma vez que é no meio social que se determinam os papéis que serão exercidos por homens e mulheres.
Bruschini (1996) afirma que o trabalho feminino remunerado ganhou nova força a partir de 1970, com a expansão feminina da escolaridade e com o acesso à universidade e a informação, principalmente com as camadas médias. Foi uma revolução ideológica trazida na bagagem dos movimentos feministas da década anterior, que permitiu que as mulheres ocupassem o lugar público. Paralelamente, surgiram métodos eficazes de controle de
natalidade e, conseqüentemente, a diminuição do número de filhos que “libertou” a mulher para o trabalho, principalmente nas grandes cidades.
As mudanças institucionais e ideológicas que emergiram nesse contexto produziram grandes mudanças nos papéis das mulheres dentro da sociedade. As expectativas e os conflitos também se modificaram. Contudo, ainda não há a igualdade esperada, pois a sobrecarga de atividades das mulheres contemporâneas e a desigualdade salarial e cultural, ainda podem ser percebidas nos dias atuais.