Este recorte apresenta uma aula na qual o gesto vai além da representação de um existente enquanto um Sinsigno, passando a figurar entre os signos representativos de leis e convenções, um Legissigno.
A princípio, pensava na questão apenas como uma estratégia para memorizar a configuração dos vetores, mas os elementos da teoria semiótica peirceana ampliaram essa perspectiva, e essa estratégia passou a significar uma mediação entre o estudante e os conceitos envolvidos, e consequentemente, um signo que passa ao âmbito dos Legissignos.
Ao levar aos estudantes as primeiras noções formais de eletromagnetismo, apresentei a eles as ideias de Hans Christian Oersted, que acreditava haver alguma relação entre os fenômenos elétricos e fenômenos magnéticos, reproduzindo seu experimento conhecido com a agulha imantada e corrente passando por um fio.
Fiz a montagem, a mais simplificada que consegui, inclusive para poder explorar o experimento e a curiosidade dos estudantes. Enrolei um fio retirado de um carregador em cada um dos terminais de uma bateria de 9V, o extremo de um dos fios, conectei a um fio de instalação elétrica residencial. E assim a aula foi prosseguindo:
– Pessoal, agora começa a ficar tecnologicamente avançado esse nosso experimento... vou conectar a esta outra ponta, um interruptor acionado por voz. Na verdade, o interruptor é um dos colegas, o estudante A, a quem eu peço para segurar o fio que vem da bateria e o fio de instalação residencial, mas não revelo a eles e continuo fazendo a “montagem” enquanto crio essa expectativa. E chamo outros dois assistentes.
– Sua missão é segurar esse fio, estendido com as duas mãos – Passo o fio ao estudante B – Enquanto você segura a bússola (estudante C).
Após ativar o interruptor acionado por voz, ou seja, após pedir ao estudante A que conecte os dois fios, peço que o estudante C, aproxime a bússola do fio residencial e nos diga o que acontece, e vamos discutindo o aparecimento
desse campo magnético, e chegamos na direção do campo criado pelo fio, no que apresento a eles a regra da mão direita para auxiliar neste processo.
Uma pergunta que vale destacar, dentre tantas expressas pelos estudantes, é a seguinte:
– Professor, então quer dizer que isso que a gente fez é parecido com um circuito elétrico?
– Experimento e estudantes (DIM)
Quebrar as barreiras entre o professor, os estudantes e os fenômenos físicos pode se realizar de diversas formas. Apesar de ser uma reprodução do experimento de Oersted, chamar os estudantes para a montagem e realização da experiência causa um impacto significativo em sua desenvoltura nos momentos que seguem à realização do experimento.
Por estarem integrados à experiência, os estudantes se sentem à vontade para fazer perguntas de todo o tipo, pois não se trata mais de um fenômeno distante, já que eles mesmos fazem parte do processo de construção e realização da atividade.
No concernente ao nosso objeto de estudo, temos o DIM do professor constituído de um experimento feito de fios, bússolas, pilha e – sem espanto a essa altura de nossa discussão – de estudantes.
Em conjunto, todos estes elementos se conformam enquanto signos do Discurso Imagético Material que o professor engendra com as suas habilidades,
orquestrando o cenário agitado dos estudantes curiosos, obtendo melodias interessantes em certos momentos, ruídos desconcertantes outras vezes, mas seguindo na trilha que os leva, em direção à uma curiosidade cada vez menos ingênua, a uma
curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta, [e que] faz parte do fenômeno vital (FREIRE, 2015, p.33) Os estudantes, imersos na experiência da ciência, se sentem compelidos a desvendar seus mistérios, e o professor, se vê encantado com o poder transformador de sua ação. Ver os seus estudantes elaborando questões cada vez mais complexas sobre a experiência da qual participam é um momento gratificante na prática do docente que visa uma (trans)formação crítica de seus aprendizes.
Os signos com os quais se configura o “experimento” são Sinsignos Dicentes da experiência de um circuito, no qual alguns componentes são índices da corrente elétrica, no caso a pilha à qual se associa “um fluxo” de cargas elétricas, o interruptor que funciona como uma barreira ao prosseguimento deste fluxo; já as bússolas usadas são índices da existência do campo magnético; a montagem como um todo, funciona a princípio como uma referência, como um ícone de um circuito elétrico, pois apesar de ser um circuito, na percepção de
alguns estudantes, o conceito de circuito ainda é restrito, motivo pelo qual destaquei a pergunta feita por um deles após a realização da experiência.
– Regras e leis (DIG)
A regra da mão direita é um gesto, que transporta para as mãos a configuração dos vetores associados à passagem da corrente elétrica por um fio. De forma simplificada, posso dizer que, com a passagem da corrente elétrica através de um fio condutor, surge nos arredores deste fio um campo magnético.
Figura 15 – Mão envolvendo fio, aplicando a regra da mão direita. Atrás, no quadro, uma representação esquemática da situação.
E assim sendo, a regra da mão direita, que é citada nos capítulos de eletricidade de muitos dos livros de física do ensino médio (se não, todos!), presente ainda em livros voltados ao público universitário (FEYNMANN, 1964,13- 3; HALLIDAY, RESNICK e WALKER, 2009, p.235), assume o papel de Legissigno, mediando a relação entre o estudante e a configuração dos vetores que indicam a direção e o sentido do fluxo de cargas elétricas no fio, e a configuração do campo ao redor do fio, e como representa o seu objeto através da convenção do sentido da corrente elétrica, é um Legissigno Simbólico Remático.
Figura 16 - Linhas de limalha alinhadas pelo campo magnético induzido por imãs ocultos embaixo do papel.
Dada a limitação representacional das mãos, em relação à região sob influência do campo magnético criado por uma corrente circulando um fio, pude ver em diversas aulas, os estudantes sendo impelidos à construção de um conceito de campo magnético que se restringia a determinados pontos em torno do fio. De modo semelhante, percebi ao longo dos anos que os estudantes criavam uma explicação para a representação das linhas de campo magnético, mesmo quando oriundas de experimentos simples para "ver" as linhas de campo magnético de um imã em forma de barra (FIGURA 15), confundindo a representação com o próprio campo, assumindo que, nas regiões onde não se viam linhas, inexistia campo.