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Ao estudar o pensamento natural na perspectiva das representações sociais Moscovici avança na valorização deste modo de conhecimento. O senso comum apresenta- se como uma forma autônoma e atual de saber e de comunicar. Um pensamento que re- escreve e socializa o conhecimento científico de forma coerente e organizada, colocando-o a serviço de uma comunicação efetiva e de práticas sociais reconhecidas e admitidas, pela coletividade nas quais são engendradas. Um conhecimento que se diferencia do científico no sentido de ser circunscrito, próprio a dado contexto social, diferente do pensamento científico na busca da generalização.

Para Moscovici (op. cit., p. 20) existe, também hoje, uma inversão no sentido da construção destes diferentes conhecimentos. No passado a ciência e a filosofia bebiam na fonte do “senso comum, com sua inocência, suas técnicas, suas ilusões, seus arquétipos e estratagemas”. Destes a ciência extraia “seus materiais mais preciosos e os destilavam no alambique de sucessivos sistemas.” Hoje a direção é oposta:

“As ciências inventam e propõem a maior parte dos objetos, conceitos, analogias e formas lógicas que recorremos para fazer face às nossas tarefas econômicas, políticas ou intelectuais. O que se impõe, a longo prazo, como dado imediato de nossos sentidos, de nosso entendimento, é na verdade, um produto secundário, reelaborado das pesquisas científicas.” (Ibid., p. 20 e 21).

As representações sociais são assim, um conhecimento, um fenômeno dos tempos recentes. Moscovici (1978, p. 21) lembra, que cada vez mais, o que se constitui para as pessoas como dado imediato dos sentidos e do entendimento “é, na verdade, um produto secundário, re-elaborado, das pesquisas científicas.” Uma direção para ele irreversível face a diminuição, cada vez maior, do domínio das pessoas sobre a produção dos conhecimentos que as afetam. A questão está na velocidade de desenvolvimento das ciências, sua dinâmica de produção e de divulgação. Desta forma os conhecimentos são, como diz Moscovici (op. cit., p. 21), uma re-interpretação dos fenômenos naturais que são observados por uns e dizem, podem ser interpretados por outros.

Na perspectiva das representações sociais a propagação da ciência constitui-se como elemento de criação e recriação da realidade. Desde que, segundo Moscovici (op. cit., p. 24), a sua re-interpretação pelos grupos sociais não seja tomada como fator de simplificação, distorção, difusão, vulgarização e sim como a construção de um outro tipo de conhecimento, adaptado a outras necessidades, que obedece a outros critérios e que está circunscrito a um dado contexto social.

Na direção de consolidar o conceito, a idéia de representação social, sua gênese e fecundidade, Moscovici (2003, p.203) vai buscando elucidar as características desta, na relação com outras formas de conhecimento, como por exemplo, ideologia e ciência. A ideologia difere das representações sociais, como um conhecimento que não é circunscrito a um determinado grupo social, ela se constitui como uma grade ou um código que se organiza historicamente e define uma visão geral de mundo. As ciências constroem representações conforme as demandas da lógica formal que se fundamentam em conceitos e referências teóricas bem definidas. Assim, em contraposição às representações sociais, enquanto um conhecimento consensual, as ciências se consolidam como um conhecimento reificado.

As representações sociais seguem então o caminho da interatividade, do compartilhar idéias, valores e atitudes. Elas vão sendo cada vez mais definidas como um conhecimento consensual, que exige negociação e aceitação mútua, organizado a partir de afiliações, a partir de relações de apropriação confiante, de implicação. Uma direção contrária à ciência, como um conhecimento que se consolida pelo distanciamento, pela autoridade e pela separação, que busca explicações objetivas, imparciais, independente das

pessoas. Diferentes modos de conhecer que se diferenciam também em suas lógicas, no método de raciocínio utilizado. De um lado, a organização das premissas a conclusão, um pensamento sistematizado que parte de fatos, de outro lado, memória coletiva e consenso negociado, ainda que sistematicamente organizado e coerente apoiado em valores que orientam a sua lógica, e os seus objetivos.

Os conhecimentos do senso comum estariam para Moscovici (2003, p. 200) na base de todos os processos cognitivos tanto na ciência e na tecnologia, como nas representações sociais. Todo o conhecimento construído pelos seres humanos, para sua vida e sua ação é em algum sentido um empréstimo do conhecimento popular, do senso comum. Neste sentido pode se pensar que os conhecimentos científicos sobre natureza vão sendo desenvolvidos enquanto conceitos e teorias na física (instabilidade dinâmica), na biologia (biodiversidade), na geografia (paisagem), na economia (sustentabilidade) a partir dos conhecimentos e experiências que os especialistas de cada área tiveram em suas vidas. Para Moscovici (op. cit., p. 200) “...até mesmo a maneira de nomear e comunicar esses elementos da ciência pressupõe e conserva um elo com os conhecimentos do senso comum.”

Na outra direção, o senso comum, enquanto representações sociais criam e recriam a realidade, para Moscovici (op. cit., p. 201) “combinam nossa capacidade de perceber, inferir, compreender, o que vêm a nossa mente para dar um sentido às coisas, ou para explicar a situação de alguém.” As representações sociais se constituem sem nenhum esforço, como um conhecimento tão naturalmente construído, quase impossível de serem suprimidas. Elas estão no nosso dia-a-dia, nas relações e comunicações com as pessoas, nas atitudes frente à natureza, no não jogar o lixo no chão, no plantar uma árvore, no se negar a consumir um produto com embalagem que não seja biodegradável, no se engajar em um grupo para defesa da natureza.

O conhecimento científico e as representações sociais se articulam em suas diferenças, mas são irredutíveis entre si, justamente por se constituírem em diferentes modos de compreensão e de se relacionar com o mundo. O que significa para Moscovici (op. cit., p. 199) renunciar ao mito da racionalização total, da assimilação de todas as representações sociais por representações científicas, do universo consensual pelo universo reificado. Ou ainda, abandonar a idéia de ascensão da percepção à razão, do concreto ao

abstrato, do primitivo ao civilizado, da criança ao adulto. A proposição de Moscovici (2003, p. 200) é de seguir uma direção oposta, que reconhece o movimento de contextualização dos conhecimentos e da linguagem na sociedade. “As mudanças e transformações têm lugar constantemente em ambas as direções, as representações se comunicam entre si, elas se combinam e se separam, introduzem uma quantidade de novos termos e novas práticas no uso cotidiano e ‘espontâneo’.”

A relação entre as representações sociais e as ciências vai revelando as nuances entre estas diferentes formas de conhecimentos que se imbricam e se influenciam em suas construções e transformações, em ambas as direções, das ciências às representações sociais e do senso comum às ciências. Para Moscovici, a partir da referência de que todas as formas de conhecimento (crenças, ideologias, representações sociais, e até mesmo a ciência) são, de um modo ou de outro, representações sociais (op. cit., p. 200), “...as representações sociais diariamente e ‘espontaneamente’ se tornam senso comum enquanto representações do senso comum se transformam em representações científicas e autônomas.”

Na busca de elucidar estas influências, mas também as diferenças entre estas duas formas de construção de conhecimento, entre estas duas lógicas de conhecer, é que se busca, no próximo subtítulo, a partir de Moscovici (1978), identificar as peculiaridades das situações sociais em que ocorrem as representações sociais, bem como as características deste modo de pensamento e de estilo cognitivo que lhes são próprios.

3.1.2 Situação social e características do pensamento natural

Em seu esforço para melhor caracterizar o senso comum ou o pensamento natural que é próprio das representações sociais Moscovici – já na segunda edição de seu trabalho sobre as representações sociais da psicanálise – procura analisar esta forma de pensamento, destacando as situações sociais nas quais se originam e o funcionamento do sistema cognitivo que lhes é peculiar. Estas situações sociais apresentam três características que são peculiares à construção das representações sociais: dispersão da informação, a focalização do objeto e a pressão para a inferência.

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