Debrucemo ‑nos agora sobre a definição de «cultura arqueológica»468, expressão ampla‑ mente questionada e sujeita a um longo cortejo de críticas, ao qual não terá sido alheio o facto de, tradicionalmente, os «agrupamentos» ou combinações de materiais resultarem da mera constatação da presença ou ausência de determinados tipos, em regra correlacionados com um sítio específico, epónimo, que lhes conferia uma designação própria469.
S. Shennan regista ser facilmente demonstrável que os costumes e procedimentos são suscetíveis de variação no tempo e no espaço. No entanto, reconhece que esta premissa serviu de suporte para a construção de todo um «edifício explicativo», se bem que pouco esclarecedor, que culminou, na esteira dos estudos desenvolvidos por Gordon Childe, na utilização dos padrões de variabilidade espacial como elementos definidores das entidades às quais se atribuiu a designação de «cultura arqueológica»470.
Contudo, e de acordo com S. Jones, é fundamental que o conceito de «cultura», longa‑ mente tido como uma categoria natural, seja olhado à luz das contingências históricas em que foi trazido a lume. Ora, tendo sido duramente depreciado, no quadro do entendimento que lhe foi conferido pelas correntes histórico ‑culturalistas, sentiu ‑se a necessidade de pro‑ ceder à sua reconceptualização471.
Com efeito, a História demonstra o quão frequentemente as «culturas arqueológi‑ cas» foram assumidas como indicadores de etnicidade e, consequentemente, usadas como instrumentos para a legitimação de objetivos políticos ou para justificar outras exigências, sejam elas referentes à ampliação de esferas de influência472 ou à apropriação de territó‑ rios473. Talvez por isso tenha sido com ambivalência que, na sequência da Segunda Guerra Mundial, os arqueólogos alemães se confrontaram com o conceito de «cultura», atendendo ao papel chave que o mesmo desempenhou nas tentativas para demonstrar não só a anti‑ guidade, mas igualmente a superioridade da «raça germânica». É certo que continuaram a conceber as «culturas» como verdadeiras entidades; todavia, foram notórios os esforços empreendidos no sentido de restringir a significação do termo a um âmbito puramente arqueológico474. De qualquer modo, e ainda que, com a queda do regime, o cunho político marcadamente explícito de muitas das interpretações formuladas tenha sido suprimido, é incontornável que o facto de as instituições que orientaram a produção «científica» resisti‑ rem praticamente incólumes ao fim do conflito, mantendo a orgânica interna e o corpo de pessoal que integraram no seu curso, não se revelou inócuo. Não é, pois, de estranhar, que
468 SHENNAN, 2003: 12.
469 JONES, 1997: 108.
470 SHENNAN, 2003: 5.
471 JONES, 1997: 39; 109 ‑110.
472 SHENNAN, 2003: 6.
473 «[…] States searching for ways to justify land grabs are especially likely to make use of archaeological evidence to further
their aims. […]» (ARNOLD, 2004: 205).
as bases instituídas no quadro da afirmação da ideologia fascista e nacional ‑socialista alemã tenham persistido475 e, de algum modo, fornecido as fundações para o posterior desenvolvi‑ mento da Arqueologia no pós ‑guerra476.
De qualquer modo e ainda que cientes das implicações, mormente negativas, da apli‑ cação da expressão «cultura arqueológica», muitos autores concluem que dificilmente a mesma poderá ser posta de parte477. Entre eles se inclui Colin Renfrew, que entende que a sua utilização continua a ser justificada, sobretudo para proceder à descrição e classificação dos factos, prévias à explicação dos processos478. Todavia, há que sublinhar que a aplicação do conceito não tem que, forçosamente, remeter para materialidades concretas produzidas por um grupo em particular. Na opinião de U. Veit, o recurso à mencionada designação poderia constituir um mecanismo de reflexão, um esforço heurístico para aceder às res‑ postas para as questões que se impõe colocar. Assim sendo, o conceito de «cultura arqueo‑ lógica» afirmar ‑se ‑ia como uma denominação aplicável a uma entidade distinguível, quer do ponto de vista espacial, quer cronológico, no quadro do desenvolvimento cultural geral. O mesmo investigador considera que, dependendo do grau de uniformidade subjacente à distribuição de dadas tipologias ou elementos particulares, e se afastada a hipótese de outros fatores, nomeadamente, ecológicos ou económicos, terem influído decisivamente na estruturação de determinados traços ou características, não haverá por que excluir a possibilidade de a as unidades étnicas terem efetivamente cumprido um papel nessa cons‑ trução479. Ora, reconhecendo aos artefactos arqueológicos a possibilidade de representar materialmente essas unidades, S. Jones realça o facto de, em momentos de conflito ou de competição entre grupos pelo acesso a recursos, certas categorias de diferenciação tenderem a quedar ‑se inalteráveis, e outras, por seu turno, a transformar ‑se e a revelar ‑se mais flui‑ das480. Já a variação no tempo e no espaço é incontornável, daí que a expressão da etnicidade
475 DÍAZ ‑ANDREU, 2003: 43 ‑44.
476 A respeito do destino que, no pós ‑guerra, coube a duas figuras com responsabilidades institucionais na Arqueologia alemã
durante o regime nacional ‑socialista, atente ‑se nas observações de B. Arnold: «[…] The very different post ‑war fates of Hans Reinerth and Herbert Jankuhn, both high ranking party officials as well as high ‑profile archaeologists in Nazi Germany, is a case in point. Both were equally culpable with respect to their war ‑time activities, but Reinerth had made far more enemies in the course of the Rosenberg Office’s unsuccessful bid to control German archaeology, a battle that was eventually won by Himmler’s SS Ahnenerbe – to which Jankuhn belonged. The result was that Reinerth’s career was effectively over in 1945 […] whereas Jankuhn went on to a successful post ‑war career teaching and training the next generation of German archaeologists […]. His ground ‑breaking (Uterally) work on settlement archaeology can still be ordered on Amazon.de […], and his excavations at the Viking trading emporium of Haithabu (Hedeby) remain an important contribution to the scholarship of the period. […]» (ARNOLD, 2004: 201).
477 VEIT, 2003: 46.
478 JONES, 1997: 27.
479 VEIT, 2003: 46 ‑47.
480 «[…] Where migrants were mixing with an indigenous population, it will only be a few, possibly very few, elements of their
material culture […] that will necessarily be transferred. In other areas of life, migrants are likely enough to adopt convenient elements of indigenous cultural origin (as many modern migrants do), or become an unidentifiable component in new cultural amalgams created by the collision of migrant and host population. […]» (HEATHER, 2009: 120).
esteja sujeita a mudanças constantes, decorrentes, precisamente, do lugar e da cronologia em que se manifesta481.