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A propósito do baile oferecido em honra a D. Pedro II no Paço da Associação Comercial da Bahia, no seu Os mistérios da Bahia, o poeta João Nepomuceno descreve a cidade do Salvador quando da visita do monarca à pacata provín- cia, em 1859:

A Bahia não tinha avenidas, nem a Rua da Montanha, nem as obras do Porto, nem bondes, elevador e plano inclinado. Os moradores da cidade alta desciam calcante pede para a baixa, pelas ladeiras da Misericórdia, Preguiça e outras. Os ricos iam de cadeirinha de arruar [...]. (QUERINO, 1955, p.280)

Nessa época, o antigo Largo da Quitanda já Largo do Teatro, situado no extremo sul da Freguesia da Sé, se apresentava como uma espécie de “nó viá- rio”, centro nervoso da cidade, ponto de articulação do núcleo inicial da urbi ao norte e a sua expansão ao sul; era também onde desembocava na parte

alta da cidade a íngreme Ladeira da Conceição, então principal via de articu- lação entre a cidade alta/cidade baixa. Ao leste, na parte mais baixa da praça, a Ladeira da Barroquinha, dava acesso a uma área alagadiça que abraçava a inteira cidade ao nascente e que mais tarde veio a se constituir na animada Rua da Vala, atual Baixa dos Sapateiros, primeira avenida de vale da Cidade do Salvador. (Figura 1).

Figura 1 - A Freguesia da Sé em 1851. Vêm-se, à direita, o “leque” de vias que

convergem para o Largo do Teatro (C), final dos limites da freguesia, a articulação

deste com a expansão sul da cidade à direita (E) e a Ladeira da Conceição que

fazia a conexão da cidade alta e baixa

Fonte: Weyll (1851).

O Largo do Teatro marca o extremo sul da Freguesia da Sé. Está implan- tado ao fim da antiga Rua Direita, atual Rua Chile antes da depressão que dá início à Ladeira de São Bento, à maneira de um belvedere. Assim o descreveu, em 1860, o príncipe Maximiliano de Habsburgo (1982, p. 88):

Embaixo e ao redor, espalha-se a cidade, graciosamente. Em frente, encontra-se uma enseada transformada em ancoradouro, com os inúme- ros navios mercantes agrupando-se em direção à margem e rodeado de embarcações de todo o tipo. [...] Embaixo concentra-se a vida do porto, entre o interessante forte construído em meio às ondas, da enseada e o Arsenal, com a Casa da Alfândega, situada ao lado. [...].

Do lado norte, à sobranceiro da praça, a mole amarelo-laranja do Teatro João com seus sessenta camarotes, 340 cadeiras dominava toda a paisagem. Segundo o vice- cônsul inglês que aqui viveu no período compreendido en- tre 1842 e 1857,

A ópera é um belo edifício; com suas filas de camarotes perfeitamente distribuídas e tendo cada um uma pequena grade na frente. A totalidade

dos espectadores pode, assim ser vista de qualquer parte o que muito contribui para, aumentar a beleza e a aparência do teatro. As salas de espera como as de intervalo são muito boas, bem iluminadas e ricamente

mobiliadas. O maior luxo prevalece ali e não se permite fumar em nenhuma parte do edifício. As famílias encontram-se e visitam-se nos camarotes.

(WERHERELL, [1972] p. 79, grifo nosso)

Inaugurado no dia 13 de maio de 1812 e cujo nome homenageia D. João VI, o teatro logo se tornaria o “[...] centro convergente e de encontro da aris- tocracia e da riqueza baiana” (RUY, 1955, p.35), ainda que essa convergência se limitasse às noites nas épocas das temporadas líricas, quando então suas cocheiras ficavam repletas (Figura 2).

Aí puderam ser assistidos espetáculos de cantos líricos e óperas contra- tadas de companhias estrangeiras, cujas temporadas eram subvencionadas pelos cofres da província; aí, em 7 de setembro de 1867, Castro Alves foi ova- cionado quando da apresentação do seu Gonzaga; aí, em 1879, a elite baiana pode assistir, pela primeira vez na Bahia, a ópera O Guarany de Carlos Gomes, encenada pela Companhia Lírica Italiana. No ano seguinte, em 5 de abril de 1880, o próprio maestro, no mesmo teatro, é aclamado por uma multidão de

5.000 pessoas. (AMARAL; BARROS, 1922, p. 166)1

1 É importante assinalar que nos meados do século XIX existiam em funcionamento na capital da província, teatros “populares” como o Teatro São Pedro de Alcântara, instalado na Rua de Baixo de São Bento (hoje, Carlos Gomes) e o Teatro do Ferrão na Rua do Maciel de Baixo (hoje, Gregório de Matos) onde se apresentavam companhias nacionais.

Figura 2 - Largo do Teatro fotografado por Vedani em 1865. À direita o “enorme prédio com cafés, hospedarias e lojas” relatado por Maximiliano de Habsburgo em 1860, ocupado no térreo pelo jornal Mercúrio. O chafariz ao centro e,

em volta dele, vem-se aguadeiros e lavadeiras de roupas em plena labuta diária. Ao fundo o magnífico cenário da Baía de Todos os Santos.

Fonte: Ferrez (1989, p. 98).

No centro da praça, em frente ao teatro, entre algumas árvores que lhe proporcionava ensombramento, estava o elegante chafariz de mármore de

Carrara encimado pela estátua de Cristóvão Colombo,construídoem fun-

ção da Lei n° 451 de 17 de julho de 1852 que criou o serviço de água potável

na cidade.2(Figura 2).(BOCCANERA JUNIOR, 1921)

Ao lado do Teatro de frente para a praça, esquina com a antiga Rua Direita, hoje Rua Chile, encontrava-se “um enorme prédio com cafés, hos- pedarias e lojas”. Nesse edifício funcionou o Hotel Universo, onde o príncipe Maximiliano de Habsburgo pode desfrutar em 1860 de um serviço de restau- rante nos “moldes europeus”. De propriedade do francês Pierre Frérier, o hotel e seu restaurante eram frequentados por uma “animada sociedade francesa que se reúne, alegremente em seus salões” (Figura 2). (HABSBURGO, 1982) 2 Parte do antigo chafariz incluindo a estátua de Colombo encontra-se hoje na Praça Colombo no

No hotel, era um vaivém constante das mais variadas figuras, na maioria de europeus. A galeria varanda era o verdadeiro lugar de diversão, tam- bém, senhoras européias que, como raros exemplares, estavam sempre rodeadas de um bando dos assim chamados leões. (HABSBURGO, 1982, p. 140-141)

Ocupando uma grande área do lado do nascente, “instalada em magní- fico prédio”, ficava a Sociedade Recreativa, “agremiação formada dos mais luzentes elementos do escol baiano. Seus aristocráticos bailes, freqüenta- dos pela gema da nossa sociedade, tinham o brilho e a grandeza de nobres salões ducais”. Destruída totalmente por um incêndio em 9 de janeiro de 1872, teve a sua área adquirida pelo governo da província em 1878, quando então a municipalidade mandou fazer dois grandes parques protegidos por grades, separados por uma nova rua que conduzia ao popular mercado do Curiachito (RUY, 1996, p. 35)3, nas imediações da Barroquinha) (Figura 3)..

(BOCCANERA JUNIOR, 1921, p. 154)

Figura 3 – Trecho da encosta de Salvador fotografada por Mullock em 1860. À direita vê-

se o Largo do Teatro com a imensa mole da ópera. Entre essa e mais à direita o Mosteiro de São Bento, está o edifício da Sociedade Recreativa desaparecido em 1872. No início da ladeira da Conceição está o Palacete do Visconde do Passé. Notar a inexistência na

época, do Elevador da Conceição, o “Parafuso” e da Ladeira da Montanha.

Fonte: Ferrez (1989, p.32-33).

3 Os açougues da cidade, que antes funcionavam no térreo do prédio da Câmara, quando das obras de “aformoseamento do Paço”, em 1885, foram transferidos para o mercado do Curiachito. (RUY, 1996, p. 35).

Praticamente um ano após o incêndio da Sociedade Recreativa, em 1° de dezembro de 1872, o Largo do Teatro perde definitivamente o último resquício de ocupação residencial aristocrática herdada do período colonial: o palacete construído por Antônio da Rocha Pita Argolo, o Visconde do Passé, próximo à descida da Conceição é adquirido pelo importante jornal Diário da Bahia – fundado em 1856 – onde passa então a funcionar (Figura 3). (BOCCANERA JUNIOR, 1928, p .470)4

Daquele lado, ao sudeste, nas proximidades do antigo palacete existiam na época vários pequenos hotéis além de cafés e casas de repasto. O próprio Maximiliano, em seu périplo pela cidade em 1860, antes de “encontrar” o hotel do francês Frézier e seguindo informações recebidas ainda a bordo, estive- ra em “algo semelhante a um restaurante”, estabelecimento de propriedade de José Pereira da Silva situado sob o número 93 do Largo do Teatro onde ainda segundo o príncipe o “[...] atendimento e a comida eram desastrosos”.

(ALMANAQUE ADMINISTRATIVO,1862, p. 380)5

No entanto, nos anos 1880, o Largo do Teatro já abrigava o mais presti- gioso hotel da cidade: na esquina da Ladeira da Barroquinha com a Ladeira de São Bento, tendo uma das suas fachadas voltadas para o largo, ficava o Hotel Paris.6 Aí tomou aposento em 1882, Joaquim de Almeida Moraes Leite, depois

de alcançar a cidade alta pelo “parafuso” (Figuras 4).7 (MORAES; CANDIDO

1995, p. 333)

4 O Diário da Bahia, uma das mais importantes gazetas da época, com tiragem superior a quatro mil exemplares, ocupava em 1893 em suas oficinas 63 operários, além do pessoal da administração, revisão e redação. (VIANNA, 1893, p. 399)

5 O citado restaurante aparece no ALMANAQUE ADMINISTRATIVO, Bahia, 1862, p. 380

6 Não nos foi possível determinar até o momento a época da inauguração do Hotel Paris. Trata-se, no entanto, e mais uma vez aqui da adaptação de um edifício residencial para uma nova função, no caso um hotel.

7 Joaquim de Almeida Moraes Leite, paulista, nasceu em Tietê em 1853; advogado participou ativamente da vida literária e política de S. Paulo. Foi deputado três vezes pelo Partido Liberal. (1860-1; 1868-9; 1878-9). Em fevereiro de 1881 foi nomeado presidente da província de Goiás.

Por sua posição estratégica o Largo do Teatro veio a abrigar também, no

mesmo período, um dos “cantos”8 mais movimentados da cidade, onde se reu-

niam escravos e negros libertos que se encarregavam de transportar através da encosta não só grandes volumes de mercadorias de toda a espécie oriundas do porto para a cidade alta e vice-versa, como também pessoas acomodadas nas chamadas cadeiras de arruar, à época, o meio de transporte usual dos ricos.

Figura 4 – Fotografia de Gaensly mostra o Largo do Teatro entre 1870 e 1880.

Pode-se ver à esquerda, no início da Ladeira da Montanha o antigo Palacete Passé onde veio a se instalar em 1872 o Diário da Bahia e a presença de carroças

estacionadas e “ganhadores” sentados à espera de contratante. Notar o bonde à tração animal à direita. A foto provavelmente foi feita de uma das janelas

do Hotel Paris, cujo gradil se vê em primeiríssimo plano

Fonte: Fundação Biblioteca Nacional.

Eram também os “cantos” locais de produção e venda de pequenos uten- sílios e como tal atrelados a um mercado ativo. Negros escravos e/ou libertos aí estacionados não se limitavam, portanto, à espera pacífica do aparecimento

8 Chamavam–se “cantos” os ajuntamentos de negros, escravos ou libertos, em geral da mesma etnia, organizados por ofícios – aguadeiros, carregadores etc. – para mercarem seus serviços.

de um eventual contratante, o que fazia com que esses locais se mostrassem plenos de movimentação e alarido.

Preparavam rosários de coquilhos com borla de retroz de cores; pulseiras de couro, enfeitadas de búzios e outras de marroquim oleado; fabricavam correntes de arame para prender papagaios, esteiras e chapéus de palha de ouricori e bem assim vassouras de piaçava. (QUERINO, 1938, p. 94) Os viajantes que aqui estiveram, sobretudo na segunda metade do século XIX, pasmos, não se cansaram de se referir ao imenso contingente de negros e mulatos que constituíam a população da cidade.

Tudo parece negro: negros na praia, negros na cidade, negros na parte baixa, negros nos bairros altos. Tudo o que corre, grita, trabalha, tudo o que transporta e carrega, é negro. [...] a mim pelo menos pareceu que o inevi- tável meio de condução da Bahia, as cadeirinhas, eram como cabriolés nos quais os negros faziam às vezes de cavalos. (AVÉ- LALLEMANT, 1961, p. 20) Em uma cidade cuja população na sua maioria esmagadora era consti- tuída de negros e mestiços, o Largo do Teatro refletia essa condição como provavelmente nenhuma outra parte da cidade, ainda que a construção do Elevador da Conceição, o “Parafuso” como ficou conhecida a extraordinária obra de engenharia, inaugurada em 8 de dezembro de 1873, capaz de utili- zando força mecânica fazer a articulação entre a Praça de Palácio na cidade

alta e a Rua da Alfândega na cidade baixa em “um minuto”,9 e a conclusão

da não menos admirável Ladeira da Montanha, menos íngreme que a antiga Ladeira da Conceição ocorrida em 1880, viessem a arrefecer, mas não elimi- nar, a aglutinação de negros e mestiços naquele “canto” da praça.

Se o “Parafuso” veio então se tornar o meio de transporte preferencial dos passageiros ricos que galgavam a encosta em detrimento das cadeiras de arruar, agora a Ladeira da Montanha, construída em uma época de escravidão

9 Inicialmente pensado para transportar passageiros e cargas, o “Parafuso” veio a conduzir efetivamente somente passageiros. No dia da sua inauguração, que coincidiu com a popular Festa da Conceição, o elevador transportou cerca de 8.500 pessoas em suas duas cabines.

declinante, se oferecia enquanto acesso mais rápido para os meios à tração animal, fazendo com que o transporte de cargas deixasse gradativamente de ser feito através da força humana (Figura 5).

Figura 5 – A antiga Ladeira da Conceição (abaixo) e a nova Ladeira da Montanha quando

de sua inauguração em 1880 fotografada por Lindemann. A notável obra de engenharia aí se apresenta inteiramente pavimentada, com sua iluminação a gás. Ao fundo, o não

menos admirável “Parafuso”. Domina todo o cenário, a Baía de Todos os Santos.

Fonte: Ferrez (1988, p. 123).

Em contra partida, a contiguidade ao leste com a zona da Barroquinha viria a garantir no mesmo período ao Largo do Teatro, movimentação diá- ria e constante, movimentação essa, constituída certamente pela população que habitava e/ou frequentava intensamente aquela área desvalorizada da cidade. Com suas casas modestas, habitada por uma população pobre, em geral constituída de negros e mestiços, o mercado do Curiachito10 e seu “vai

10 Em 1903, morava no Curiachito, a filha de escravos Eugênia Anna dos Santos, a Obá Biyi, que viria a fundar (1909) no S. Gonçalo o Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro de candomblé dos mais importantes da Bahia, hoje tombado pelo IPHAN.

e vem” constante, a possibilidade de algum ganho com o transporte de cargas através da Ladeira da Montanha ali próxima, fazia da Barroquinha, segundo Silveira (2006, p. 279), um verdadeiro “[...] reduto cultural africano na cida- de da Bahia” o que incluía na época, ainda segundo esse autor, uma pequena mesquita e um clube malê 11.

O acesso à Barroquinha era feito, como ainda hoje o é, através de um pequeno declive – Ladeira da Barroquinha – cuja parte frontal é ocupada pela pequena Igreja de Nossa Senhora da Barroquinha, construída no século XVIII. Na sua parte mais baixa, possivelmente atrás da igreja, existiu nesse

período o terreiro de candomblé denominado Iyá Omi Airá Ontile12 e que

possivelmente em fins do século XIX é transferido para a Estrada Velha do Rio Vermelho. Trata-se do atual Ilê Axé Iyá Nassô Oká, ou Terreiro da Casa Branca, “terreiro mãe” dos candomblés nagô do Brasil. “A tradição fala de três mulheres, escravas libertas de muito valor e conhecimento, vinculadas à Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, da qual fazia parte a elite dos negros baianos. Essas três mulheres reunidas teriam fundado este terreiro”. (ROCHA, 1994, p. 29)

No dia 15 agosto de cada ano, durante os festejos dedicados a Nossa Senhora da Boa Morte, eram realizadas procissões em várias igrejas de Salvador. “Mas a mais concorrida, de mais extenso percurso e a mais aparatosa das procissões, que já se fizeram na Bahia, veio a ser a da capela da Barroquinha”13 (CAMPOS,

11 Grande era o contingente de escravos, denominados “malês” em Salvador nesta época. Alfabetizados, praticavam o islamismo. (SERRA, 2008)

12 Segundo Silveira (2006) apud.Ordep Serra (2008) é praticamente impossível precisar a data de fun- dação desse terreiro de candomblé, “[...] mas os cálculos baseados na etnohistória e nos documentos disponíveis fazem-na remontar, no mínimo, à década de1830 (COSTA LIMA, 1977; VERGER, 1992. BASTIDE, 1986 apud SERRA, 2008), ou mesmo a inícios do século XIX, senão um pouco antes”. 13 É relevante salientar que para além da Procissão de Nossa Senhora da Boa Morte aqui referida,

havia no período outra procissão, igualmente impressionante e não menos importante para o nosso trabalho, promovida pela “Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Martírios dos crioulos naturais da cidade da Bahia” - esse era de fato o nome oficial dessa irmandade – que na quinta feira da Ascen- são do Senhor, partindo da Igreja da Barroquinha, reunia todas as Irmandades de homens de cor, transportando seus andores para a procissão do Senhor dos Martírios. Essa procissão foi extinta em 1935. (CAMPOS, 2001, p. 145-150)

2001, p. 359). O Largo do Teatro se tornava na ocasião o grande cenário da magnífica manifestação religiosa.

Saindo a procissão, as crioulas da Devoção carregavam o esquife da Senhora até o alto da ladeira [da Barroquinha]. Eram aquelas criaturas, negras do partido-alto, endinheiradas, pimponas, as mais moças cheias de dengues e momices. Estonteava a indumentária custosa que exibiam a ourama profusa que traziam.

Da entrada do Teatro em diante substituíam-nas os Irmãos do Senhor dos Martírios. Encabeçavam o cortejo estes, e outras Irmandades de homens de cor, seguindo-se em fila dupla, as citadas crioulas, e mais antigamen- te, africanas também, umas cinqüenta ou sessenta, de tochas acessas. (CAMPOS, 2001, p. 361)

Recolhido o préstito, a festa continuava noite à dentro, agora no interior da igreja, onde em meio a “algazarras eram servidas fartamente bebidas e co- midas”. No adro, “Vendedeiras mercadejavam doces e comidas. [...] Sambava-se e batucava-se. Ao som do berimbau, capoeiras ciscavam, dançavam de velho e davam aús e rasteiras”. (CAMPOS, 2001, p. 362)14

Eram pessoas humildes, negros e mulatos que durante todo o ano mal suportando as fadigas diárias, amealhavam os vinténs arduamente economi- zados, para as festas de sua Irmandade, Confraria ou Devoção.

Provavelmente, muitos desses “festeiros” carregavam nas suas próprias costas ou nas costas de mulas, para distribuição domiciliar, barricas de água colhida do elegante chafariz do meio da praça. Outros tantos eram aqueles mesmos “negros ganhadores” que garantiam o transporte de mercadorias entre a cidade alta e baixa através da Ladeira da Montanha.

Era também no Largo do Teatro aonde os “cucumbis ensaiavam as suas diversões, sob as frondosas cajazeiras que ali existiam.”

14 Não seria descabido perceber nas festas que aconteciam no interior da igreja manifestações de ascendência tipicamente africanas ligadas ao candomblé, aliás, alvo de insistentes reclamações por parte do vigário da paróquia de São Pedro à qual era filiada a igreja, como relata Campos. (CAMPOS, 2001) Por outro lado, impossível não notar na descrição das festas no adro, o gérmen das tradicionais festas de largo baianas.

O cucumbi não passava de uma recordação das festas africanas. [...]. Compunha-se de numeroso agrupamento: uns armados de arco e flecha, capacete, braços, pernas e cintura enfeitados de penas, saiote e camisa encar- nados, corais, miçangas e dentes de animais no pescoço, à feição indígena. Outros, porém, trajavam corpete de fazenda de cor, saieta de cetim ou cambraia, com enfeites de velbutina azul e listas brancas, num estilo bizarro, acomodado ao divertimento.

Os instrumentos consistiam em pandeiros, ganzás, checherés ou choca- lhos, tamborins, marimbas e piano de cuia (cabaça enfeitada de contas). (QUERINO, 1938, 266-267)

Os cucumbis percorriam as ruas da cidade em dias de festa, sobretudo por ocasião do entrudo associando-se aos jogos carnavalescos praticados pela população em geral.

Nesse período, o entrudo, originado das antigas Festas dos Loucos me- dievais, e caracterizado por manifestações anárquicas, pouco “civilizadas”, apesar da forte repressão policial, sobretudo após a Independência, ainda resistia, embora já se fizesse sentir cada vez com mais vigor, a promoção de bailes de máscaras ou bailes carnavalescos, à maneira daqueles realizados em Veneza e Nice, realizados no Teatro São João e organizados pela aris- tocracia dominante. Assim, o tradicional, popular, e anárquico entrudo, antiga reminiscência do período colonial, convivia e rivalizava com o “ci- vilizado” carnaval, fazendo do Largo do Teatro o lugar por excelência das manifestações conflitantes.15

No dia 10 de julho de 1881, por ocasião do decênio da morte do “poeta dos escravos”, o Largo do Teatro tomou o nome que lhe convém e até hoje mantém: Praça Castro Alves. (BOCCANERA JUNIOR, 1921, p. 145)

15 Fato ocorrido em 1878 vem demonstrar de forma cabal o conflito de classe: nesse ano, o Barão Homem de Mello, então governador da província, “resolvendo extinguir o entrudo, estabelecendo o carnaval, determinou ao Conselheiro Antonio Carneiro da Rocha, seu chefe de polícia, emprestar a quem quisesse o que existisse no teatro de adereços e fantasias para os festejos de momo”. (RUY, 1955, p. 38) Foi-se assim, o rico guarda roupas do teatro em nome da promoção do carnaval.

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