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Por muito mais tempo do que o útero materno, a família é o lugar de inserção do indivíduo e o espaço de seu desenvolvimento mais amplo. No seio familiar a criança, na relação com a mãe, com o pai e, em muitos casos, com os irmãos antes

ou depois dela nascidos, dá os primeiros sinais de individuação à medida que se integra às atividades de troca e se iniciam as primeiras produções de sentido. É o que podemos concluir desta colocação de Rappaport (1981, p. 35-36) quando apresenta de forma clara, e quase poética, a fase oral, na teoria do desenvolvimento postulada pela psicanálise:

ao nascimento, a estrutura sensorial mais desenvolvida é a boca. É pela boca que se mobilizará na luta pela preservação do equilíbrio homeostático. É pela boca que começará a provar e a conhecer o mundo. É pela boca que fará sua primeira e mais importante descoberta afetiva: o seio. O seio é o primeiro objeto de ligação infantil. É o depositário de seus primeiros amores e ódios. O seio existe quando o desenvolvimento maturacional não permite ainda a criança reconhecer o seu primeiro objeto total: a mãe. Esta se constituirá gradativamente a partir do amor que o seio oferece. Erikson define que, neste momento, a criança ama com a boca e a mãe ama com o seio.

Deste modo, nas relações de troca da criança para com os pais, ou seja, o gesto de dar e receber, permite também à criança o estabelecimento de uma relação com o fora-de-si, portanto, e gradativamente, inicia-se um processo de formação da noção de que existe um "Outro" ao passo que existe um "Eu"; a noção de que existe um mundo, a princípio uma extensão de si mesmo, mas que depois, na seqüência das etapas de desenvolvimento físico, psíquico e social se separa (individuação), deixando pontes e caminhos para o exercício do ir e vir próprios da condição do Existir e do Ser Humano.

Nas teorias de Freud, Klein, Erikson, Mussen, Rappaport, entre outros não menos importantes, este processo de desenvolvimento, dividido em fases, etapas, ou estágios desenvolvimentais, é bem delineado e, embora cada autor tenha uma visão fundamentada em aspectos que ora pareçam contraditórios ora configuram-se como complementares, todos comungam da mesma certeza em relação à família e seu papel no processo de constituição do indivíduo, colocando-a como peça chave de um desenvolvimento saudável, se bem constituída, ou patológico, se castradora, autoritária, pouco afetiva e não acolhedora.

O conceito de família, dado por Soifer (1982, p. 23), nos ajuda a compreender sua importância no processo de desenvolvimento e constituição do indivíduo. Uma vez que se configura como

estrutura social básica, com entrejogo diferenciado de papéis, integrada por pessoas que convivem por um tempo prolongado, em uma interação

recíproca com a cultura e a sociedade, dentro da qual se vai desenvolvendo a criatura humana, premida pela necessidade de limitar a situação narcísica e transformar-se em um adulto capaz, podemos postular que a DEFESA DA VIDA é seu objetivo primordial.

Neste sentido, ou seja, como instituição de defesa da vida, a família atua como o escultor que modela sua escultura, que zela por ela e que se compraz à medida que verifica seu delineamento. Contudo, tal analogia não deve limitar a concepção de desenvolvimento do indivíduo à idéia de modelagem de um produto apenas, mas indicar para o fato de que cedo ou tarde este indivíduo, suficientemente maduro, fará suas próprias escolhas, assim como a escultura também tem um destino que extravasa os limites do ateliê.

Citando Bleger, Soifer (1982, p. 22) distingue uma das mais fundamentais tarefas da família: "servir de reservatório, controle e segurança para satisfação da parte mais imatura ou primitiva, narcisística da personalidade". Obviamente, a família assim procede através de um processo educativo (o entrejogo) que implica o ensino de noções relacionadas ao cuidado de si - aspecto físico, ao desenvolvimento das habilidades para a integração com os demais membros da família e, num contexto mais amplo, com a sociedade, e instrumentaliza o indivíduo para a atividade produtiva, além de conferir-lhe, como herança, as normas culturais - valores - de seu contexto sócio-histórico.

Todo processo educativo supõe a participação de personagens que assumirão os recíprocos papéis de quem ensina e de quem aprende, embora na interação isso se torne uma via de mão dupla, ou seja, quem ensina também aprende e vice-versa. Assim sendo o papel dos progenitores define-se pela responsabilidade de "ensinar as habilidades psicofísicas que se vão formando na criança, ao longo de seu desenvolvimento evolutivo, até atingir a maturidade adulta" (SOIFER, 1982, p. 26). Tal papel é possível de ser desempenhado porque o conhecimento e, conseqüentemente, a maturidade adquiridos ao longo da vida confere aos pais poder e autoridade, habilitando-os para o exercício da colocação dos limites necessários à formação, na criança, das noções de realidade e a diferenciação desta em relação à fantasia.

Vale, neste momento em que pontos importantes sobre a família já foram colocados, resgatar o tema central de nossa reflexão, ou seja, a questão da adoção.

Considerando que a criança dada em adoção (entregue ou abandonada) se encontra, por um período de tempo que pode ser breve ou longo, alijada de uma convivência familiar e, portanto, sem um qualitativo contato com as figuras de mãe e de pai, uma vez que fica à disposição da justiça em abrigos ou orfanatos, é preciso questionar: como, em tal criança, se dará a aprendizagem da qual estamos falando aqui? que relações de troca fundamentarão nessa criança as noções de "Eu" e de "Outro"? como lhes serão apresentados os limites e que tipo de autoridade lhe permitirá fazer a distinção entre realidade e fantasia?

Soifer (1982, p. 28) é quem mais uma vez nos aponta para um possível entendimento:

[...] a função de ensinar uma criança deve ser compartilhada por dois ou mais adultos, uma vez que a intensidade da fantasia auto-agressora exige um determinado acúmulo de autoridade até que a noção ministrada seja internalizada. Isto nos leva a compreender a maior segurança e facilidade, no seu posicionamento diante da vida, que mostram pessoas que tiveram a sorte de ser criadas pelo pai e pela mãe, conjuntamente, comparando-as com outras que não gozaram desse privilégio por carecer de um ou de ambos progenitores, ou de outros familiares. As crianças crescidas em orfanatos constituem um exemplo claro a esse respeito.

Ao negar à criança o direito de estar inserida num contexto familiar, estamos, seguramente, promovendo uma interferência determinante em seu processo de constituição e, conseqüentemente, em seu modo de ser e estar no mundo, consigo mesmo e com o outro. O narcisismo dos dois primeiros anos de vida, por exemplo, é de extrema importância para que ocorra a relação objetal, fruto do amor e da identificação com e pelos pais, e posteriormente a elaboração do complexo de Édipo12, postulado por Freud. A resolução deste complexo que culmina com a

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Em sua forma simplificada, o caso de uma criança do sexo masculino pode ser descrito do seguinte modo. Em idade muito precoce o menininho desenvolve uma catexia objetal pela mãe, originalmente relacionada ao seio materno, e que é o protótipo de uma escolha de objeto segundo o modelo anaclítico; o menino trata o pai identificando-se com este. Durante certo tempo, esses dois relacionamentos avançam lado a lado, até que os desejos sexuais do menino em relação à mãe se tornam mais intensos e o pai é percebido como um obstáculo a eles; disso se origina o Complexo de Édipo. Sua identificação com o pai assume então uma coloração hostil e transforma-se num desejo de livrar-se dele, a fim de ocupar o seu lugar junto à mãe. Daí por diante, a sua relação com o pai é ambivalente; parece como se a ambivalência, inerente à identificação desde o início, se houvesse tornado manifesta. Uma atitude ambivalente para com o pai e uma relação objetal de tipo unicamente afetuoso com a mãe constituem o conteúdo do complexo de Édipo positivo simples num menino. Juntamente com a demolição do complexo de Édipo, a catexia objetal da mãe, por parte do menino, deve ser abandonada. O seu lugar pode ser preenchido por uma de duas coisas: uma identificação com a mãe ou uma intensificação de sua identificação com o pai. Estamos acostumados a encarar o último resultado como o mais normal; ele permite que a relação afetuosa com a mãe seja, em certa medida, mantida. Dessa maneira, a dissolução do Complexo de Édipo consolidaria a masculinidade no caráter de um menino. De maneira precisamente análoga, o desfecho da atitude edipiana numa

constituição do superego, possibilita ao indivíduo a noção de moralidade, ou seja, o seu ingresso ou passaporte para a convivência social. Contudo, pensar neste processo de gradativas aquisições (relação objetal + complexo de Édipo = superego) e todas as suas implicações na e para a personalidade do indivíduo sem uma relação parental adequada, significa esperar problemas futuros.

As relações de troca entre a criança e seus pais vão se intensificado à medida que esta, no percurso de seu desenvolvendo, experimenta outras inserções, como contextos socializantes mais amplos do que a família: a escola, os amigos, a comunidade, a sociedade como um todo. Novos tipos de negociações e com outros indivíduos, bem diferentes de seus pais, começam a se estabelecer, e neste momento, o modo como a criança aprendeu a trocar e se relacionar, pode definir seu espaço e conferir-lhe um status nestes novos contextos. Os pais, primeiros educadores,

transmitem a seus filhos seus conhecimentos, de acordo com as possibilidades psicológicas reais que possuem, determinadas pelos respectivos traços de caráter, e estes por sua vez configuram a cultura e a ideologia da família. Os filhos incorporam esses ensinamentos também segundo as variantes impressas em sua personalidade pelos acontecimentos que lhes cabe vivenciar e de conformidade com os mecanismos de defesa que vão elaborando a partir das séries complementares, em que tem um peso considerável o modelo recebido de seus progenitores neste sentido (SOIFER, 1982, p. 37).

Não muito distante desta forma de pensar a família, Eiguer (1985) propõe uma teoria grupalista da família, pois julga que desta forma é possível apreender de modo mais fidedigno as inter-relações familiares em sua especificidade. Sua tese consiste na afirmação de que a família é um grupo com modalidades de funcionamento psíquico inconscientes diferentes de seu funcionamento individual, ou seja, o indivíduo age no grupo diferente do que agiria individualmente. Desta apreensão é que surgem os instrumentos teóricos de compreensão da família. Sua proposta, então, passa pela investigação de três pontos primordiais que denomina organizadores, a saber:

menininha pode ser uma intensificação de sua identificação com a mãe (ou a instalação de tal identificação pela primeira vez) — resultado que fixará o caráter feminino da criança. Fonte: FREUD, S. O Ego e o Superego (Ideal de Ego). In: O Ego e o Id e Outros Trabalhos. Volume XIX. (1923- 1925). Edição Eletrônica Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

• Primeiro organizador: a escolha do parceiro; • Segundo Organizador: o eu familiar;

• Terceiro organizador: a interfantasmatização.

Para iluminar nossa reflexão sobre a questão da adoção e a constituição do indivíduo a partir de sua inserção ou não na família, interessa-nos considerar o que Eiguer (1985) postula acerca do segundo e terceiro organizadores.

O segundo organizador, o "eu familiar", consiste numa zona neutra do psiquismo grupal onde se reúnem os investimentos de cada membro da família, formando uma identidade para o reconhecimento (do indivíduo e do grupo), conferindo a todos o sentimento de pertença ao grupo. Este "eu familiar" é formado pelo sentimento de pertença de cada um dos membros em relação à família, pela relação destes com o habitat interior, ou seja, o ambiente físico de convivência familiar que reflete a representação simbólica de cada um dos membros e pelo ideal de ego coletivo (ou familiar), que sintetiza todas as aspirações dos membros em relação à família, logo, o melhor destino e status para a família que habitam o imaginário dos membros.

A interfantasmatização, ou terceiro organizador, pode ser definida "como o ponto de encontro dos fantasmas individuais de cada membro, fantasmas próximos por seu conteúdo" (EIGUER, 1985, p. 43). E por fantasma devemos entender o fio que conecta as representações inconscientes, pré-conscientes e conscientes do indivíduo; é a presença dos conteúdos recalcados sob uma nova forma, menos agressiva e, por isso mesmo, aceita pelo ego.

Podemos nos servir destes conceitos para discutir dois pontos muito polêmicos na temática da adoção. O primeiro deles refere-se ao processo de adaptação da criança à família (adotante) e, reciprocamente, da família em relação à criança (adotada). O segundo é o desenvolvimento dos vínculos afetivos da criança para com os membros da família e o conseqüente sentimento de pertença ao grupo que, presume-se, ser gerado com o tempo de convívio, a qualidade das relações e o sucesso da atuação dos organizadores: eu familiar e interfantasmatização. Vale dizer que na situação diferente à da adoção, ou seja, quando o filho é gerado

biologicamente, a criança também precisa ser adotada pela família a qual pertence – o contrário disso, que é a não adoção mutua, remete-nos à reflexões sobre a gênese das práticas abortivas, de abandono ou de maus tratos em relação à infância. Ao que tudo indica, nas colocações de Soifer (1982) e Eiguer (1985), sendo o ambiente de convivência da criança favorável e acolhedor, os vínculos afetivos formar-se-ão de modo natural, uma vez que as necessidades (das básicas às mais complexas) da criança sejam supridas. Como vimos, a família reúne-se em torno da defesa da vida; os pais, na função de educadores, transmitem aos filhos os conhecimentos e habilidades necessárias para seu saudável desenvolvimento físico, psíquico e social; o compartilhamento de intenções positivas para o destino do grupo familiar são compartilhadas de modo a formar um ideal de ego coletivo que confere a todos o sentimento de pertença, e a interfantasmatização consolida as representações da família nuclear, conferindo-lhe o caráter de originalidade em relação às gerações anteriores. Nesse sentido, uma criança adotada, a não ser pelo acontecimento biológico da gestação e parto, nada difere em possibilidades de vinculação e adaptação à família adotante.

A simples compreensão da afirmação que conclui o parágrafo acima e, portanto, nossa tese, poderia, segundo nosso julgamento e postulado teórico, representar uma positiva mudança na concepção e cultura da adoção, no sentido que romperia com muitos mitos vigentes que de forma nítida representam barreiras extremamente limitantes à prática da adoção no Brasil e no mundo. Noutras palavras queremos dizer que tanto quanto o filho biológico, o filho adotivo, pode se adaptar à família e a família a ele, tornando possível uma vivência, individual e coletiva, saudável e feliz.

Está claro que para isso, serão necessários o romper de outros paradigmas e mitos que o tempo e, principalmente a cultura, com a ajuda do desenvolvimento científico-psicológico, poderão proporcionar. Referimo-nos à contribuição que a Psicologia, enquanto ciência produtora de conhecimento, pode dar à temática da adoção, socializando o resultado de suas pesquisas acerca da constituição familiar, da construção dos vínculos afetivos e de temas como maternidade, paternidade e filiação, etc., favorecendo a geração de uma cultura da adoção livre de mitos e medos limitantes.