Outra hipótese que esta pesquisa investigou é a de que subordinações estão fortemente correlacionadas à presença de desvio sintático, pois constituem estruturas complexas e, por isso, podem ser de difícil execução por parte dos produtores de textos em formação. Assim, durante as análises linguísticas, também se buscou investigar os desvios que ocorreram nesse tipo de estrutura. Tais desvios foram bastante variados e ocorreram em diversas categorias. Entretanto, de forma a manter a generalização, esta seção analisará os diferentes fenômenos ligados à subordinação, ainda que eles apresentem características e funcionamentos diversos.
A primeira categoria de desvios ligados às subordinadas é a de pontuação. Ainda que a colocação de pontuações possa ser uma questão estilística, como dito anteriormente, o uso da vírgula para separar orações intercaladas e subordinadas adjetivas explicativas ou adverbiais é comumente recomendado. Nas análises, foram identificadas 20 ocorrências de ausência de vírgulas em subordinadas adjetivas em que não havia dúvida de que eram explicativas (nas quais, para diferenciar daquelas de valor restritivo, a presença de vírgula é obrigatória):
(71) É bem provável que os presos acabem se tornando pessoas piores (…), mas não é tão simples mudar essa situação no <Brasil> que é um país que prende tantas pessoas (…) .
Ainda no que se refere ao uso de pontuação em subordinadas adjetivas explicativas ou restritivas, identificou-se também o fenômeno inverso: o excesso de vírgula em restritivas. Tal fenômeno foi muito menos frequente do que a ausência de vírgulas nas explicativas:
(72) Todavia esse grupo de pessoas <,> que compõem o movimento , já foram tratadas com violência pelo governo , que se recusa a aprovar e apoiar a razão do movimento .
Ainda sobre pontuação, identificou-se a ocorrência frequente de separação de sujeito e verbo com vírgula quando, dentro do sujeito, havia uma estrutura relativa:
(73) Outro fator que colabora com o problema <,> é a falta de comprometimento de pena , onde os presos não cumprem o tempo imposto pela justiça , tendo como consequência a desordem (…) .
Bechara (2009) aceita que, quando a oração adjetiva restritiva tiver “certa extensão”, tal pontuação pode ser empregada, especialmente quando os verbos de duas orações diferentes se juntam. Porém, como a noção de extensão não é retomada e é de difícil definição, decidiu-se
anotar como desvios os casos de colocação de vírgulas como o apresentado no exemplo (73). Tal situação ocorreu 23 vezes na amostra analisada, mas nem sempre na oração principal:
(74) Sabe-se que uma sociedade que clama por mudança <,> tem que primeiramente se ouvir para assim o " poder " os ouvir .
No exemplo (74), tem-se uma estrutura de subordinação ligada ao verbo principal saber, e uma relativa restritiva ligada ao núcleo do sujeito sociedade, que é dependente do verbo ter. Trata-se de uma relativa de apenas quatro tokens, o que coloca em dúvida novamente o que se caracteriza como “de certa extensão”. Todavia, nota-se que a construção sintática da sentença como um todo é complexa, com variadas formas verbais (finitas ou não) e mais de uma relação de subordinação. Uma estrutura complexa também pode ser vista no exemplo a seguir:
(75) Para poder reduzir essa taxa de aumento séria necessário investimentos na área da educação , para aqueles que tem menos condições <,> não levarem o crime como uma opção , já que muitas crianças e adolescentes das periferias abandonam os estudos para entrarem no crime .
A sentença do exemplo (75) possui três estruturas de subordinadas reduzidas de infinitivo com valor de finalidade (sublinhadas), estando uma delas anteposta à oração principal. Além disso, há ainda uma subordinada introduzida pela locução conjuntiva já que. Dentro de uma das reduzidas há ainda uma relativa restritiva, marcada em negrito, que separa o núcleo aqueles do infinitivo flexionado (levarem) ao qual ele está ligado, e é justamente nessa estrutura que ocorre o desvio de pontuação. Há ainda outros desvios na sentença, como ausência de pontuação, excesso de acentuação e falta de concordância verbal, mas considerando a complexidade das relações estabelecidas e as distâncias entre os elementos dependentes, tal construção sintática é compreensível e relativamente bem-executada.
Também ocorreram problemas de concordância verbal nas construções em que o verbo está dentro de uma subordinada restritiva ou explicativa, e o seu sujeito é o elemento sendo explicado ou restrito:
(76) E isso só nos mostra cada vez mais o quão importante é o voto consciente pois estamos elegendo políticos que nos <represente> e faça o melhor pelo povo .
Um caso que merece destaque é o do exemplo abaixo:
(77) (...) , o erro , diversas vezes vem de corrupções , desvios de dinheiro que <deveriam ser> implantados em algo maior , em intolerâncias , entre outros .
No exemplo (77), a concordância foi feita com o núcleo nominal desvios, mas a subordinada restritiva na verdade está restringindo o complemento dinheiro. Nesse caso, cogita- se que o estabelecimento das dependências entre os elementos, especialmente em estruturas
oracionais complexas (como aquelas que contêm subordinação), pode ser um desafio para os produtores de textos. As análises linguísticas destacaram ainda outros desvios relacionados ao estabelecimento equivocado das dependências entre elementos, como problemas de concordância entre sujeito e verbo diante da presença de relativas dentro do sujeito:
(78) O embate que alguma dessas organizações traçam com governos e outros tipos de poderes legislativos <colocam> em duvida os direitos dos seres humanos e a liberdade de se expressarem através de protestos .
No exemplo (78), há ainda a questão de que as dependências se caracterizam como sendo de longa distância, ou seja, há vários elementos e dependências internas que se estabelecem entre o sujeito embate e o verbo colocam. Vê-se que há vários substantivos no plural que estão mais próximos na sentença, o que pode ter levado à ocorrência do desvio. Nesse sentido, seria interessante investigar como são estabelecidas as dependências sintáticas pelos produtores de textos em formação, a fim de verificar se há dificuldades no ensino ou na aprendizagem desse tipo de relação, ou se tais desvios estão ligados a uma distância maior entre os dependentes, comparando-se com aqueles que são adjacentes entre si.
Outra questão ligada às estruturas de subordinação são os desvios em termos de uso dos pronomes relativos. Há dois fenômenos comuns que dizem respeito a esse grupo de palavras. O primeiro deles é a alternância entre os diversos pronomes relativos, como no/na qual em vez de cujo/cuja. O segundo, ainda considerado desvio pelos mais conservadores, mas que já se impõe há algum tempo na modalidade escrita, nos mais diversos gêneros textuais, é o uso de onde sem referência a lugar, com papel de pronome relativo universal.
Entre o primeiro conjunto de desvios, as trocas entre os pronomes relativos foram as mais diversas, mas destaca-se o uso de pronomes variados no papel de cujo/cuja:
(79) O conceito social se volta á ação coletiva de um determinado grupo , <que> os objetivos são alcançar mudanças sociais .
Também foi frequente o uso de no/na qual no lugar de que:
(80) (…) movimentos sociais são reuniões de pessoas <na qual> se põe em movimento (…).
Já o uso de onde sem referência a lugar ocorreu 137 vezes no conjunto analisado, impondo-se como o mais frequente entre as ocorrências de um mesmo fenômeno. Em função da sua recorrência e do seu uso também em outros gêneros textuais, sugere-se que uma próxima tarefa de anotação não considere esse fenômeno como desvio, também de forma a não inserir nas anotações uma grande quantidade de ocorrências que provavelmente derivam de evoluções
da língua e que talvez nem possam mais ser consideradas desvio. Segue um exemplo para fins de ilustração do fenômeno, que é bastante sistemático na sua manifestação:
(81) Isso ocorreu no ano de 2013 , <onde> as manifestações cresceram através das mídias sociais (…).
Ainda no que se refere a pronomes relativos, identificou-se a ausência sistemática de preposição diante do relativo que, especialmente em construções com função adverbial:
(82) Os movimentos sociais no Brasil são historicamente reconhecidos e causam reverberação desde a época <que> houve a Independência do Brasil .
A inversão das sentenças por meio da construção de uma oração relativa pode justificar a ausência da preposição do exemplo (82). Porém, vê-se que o uso de preposições diante de relativos causa incertezas nos estudantes quando se identifica que o contrário também ocorreu:
(83) O mais conhecido no Brasil , seria o ( MST ) (…) , forma um coletivo e selecionam ideias <nas> quais são colocadas em formas de protestos , manifestações e greves .
Na sentença do exemplo (83), inseriu-se equivocadamente a preposição em diante do relativo em uma subordinada relativa na qual a forma verbal está na voz passiva. Nesse sentido, não apenas a inversão pode justificar o excesso de preposição, mas também a presença de passiva. Identificou-se, na amostra analisada, que é frequente a inserção equivocada da preposição em diante do pronome relativo o qual/a qual.
A ausência de preposição também ocorre na presença de que com papel de conjunção:
(84) Muitos deles acabam perdendo a sua essência pelo fato <que> as pessoas que participam dos mesmos vão até as ruas com um conceito totalmente adverso ao qual eles querem passar .
Caso a sentença do exemplo (84) fosse construída sem a conjunção, o substantivo fato estabeleceria relação de ligação com a oração seguinte por meio da preposição: “(…) pelo fato de as pessoas participarem dos mesmos (…)”. Porém, não se poderia considerar este como um problema de regência nominal, uma vez que tal substantivo não exige esse complemento.
Outro aspecto ligado a pronomes diz respeito à sua colocação. Um dos critérios de colocação de pronomes pessoais átonos e do demonstrativo o se refere à orientação gramatical de que “não se pospõe, em geral, pronome átono a verbo flexionado em oração subordinada” (BECHARA, 2009, p. 588). Tal posição equivocada ocorreu 12 vezes, das quais nove estão relacionadas ao uso de pronome relativo, e apenas três ocorrem em casos de conjunção:
(85) A arte é um caminho para a conscientização , onde <pode-se> quebrar paradigmas (…).
(86) Todos esses movimentos são legais de acordo com o artigo 5º da Constituição Federal de 1998 , dito que <pode-se> reunir todos pacificamente , no entanto , sem armas e em locais abertos (…).
No exemplo (85), a colocação equivocada ocorre com o uso do onde sem referência a lugar, conforme o fenômeno descrito anteriormente nesta seção. Assim, vê-se que os desvios envolvendo subordinações são de diversos tipos e ocorrem com frequência, permitindo reforçar a hipótese de que se trata de um fenômeno complexo do ponto de vista da produção textual.