Durante a pesquisa, observou-se que a construção civil no Espírito Santo começou a ser percebida como um setor expressivo da economia, a partir da década de 30. A fundação do Sindicon, entidade representativa da categoria patronal dos construtores também data deste período.
O Sindicon foi fundado não por empresários reunidos, que viam ali um meio de se representarem, e sim por incentivo do Ministério do Trabalho. Com o tempo, entretanto, o Sindicon passou a ser um agente representativo atuante da categoria. Considera-se que o Sindicon, por meio do poder oficial de representar esta categoria, torna-se um local onde emerge a liderança institucional a que Selznick (1972) se refere. Nele, os empresários que ali estão no “papel” de diretores, passam a representar os supostos interesses da categoria.
Posteriormente, a filiação do Sindicon à Findes, no final da década de 50, aumentou ainda mais sua legitimidade, pois serviu para vincular o sindicato à CNI, e instituir a contribuição obrigatória anual, por parte das empresas construtoras filiadas (por força da lei). Com o apoio institucional do governo, o Sindicon garante recursos necessários à sua sobrevivência.
Embora o Sindicon possa ser um organismo adaptável e receptivo ao idealismo de um grupo, no caso dos construtores associados (os voluntários), que ali têm um instrumento de projeção de algumas de suas vontades pessoais, não se considera o sindicato como uma instituição na essência que Selznick (1972) define, por dois fatores basicamente: primeiro que sua fundação e sua sobrevivência não podem ser atribuídas a um “produto natural das pressões e necessidades sociais”. Segundo que os interesses que o Sindicon representa não estão associadas à comunidade, e sim a uma parte apenas dela, no caso a dos empresários construtores, e menos ainda, porque representam principalmente os interesses de parte dos construtores, os associados.
Entretanto, nota-se que alguns entrevistados consideram o Sindicon como uma instituição, o que não é verdade, de acordo com a Teoria Institucional. Entretanto, o Sindicon se aproxima deste conceito. Existe uma preocupação com o fim da contribuição obrigatória, fonte principal de sua receita. Se o Sindicon sobrevivesse a um suposto fim do respaldo governamental, seria dado um importante passo no seu processo de institucionalização.
Nesse sentido, observa-se que o sindicato, por suas diversas ações, possui um perfil de prestador de serviço atuante. Esta atuação visa tornar o Sindicon uma entidade necessária, ao menos para os construtores. A preocupação em “reforçar a imagem” perante a sociedade também foi detectada.
Retornado ao seu caráter político, notou-se que o Sindicon possui uma intensa atuação neste meio. A construção civil exerce um poderoso lobby político, visando assegurar os interesses de seus associados. Os almoços, encontros e visitas que o
Sindicon promove, com políticos, dirigentes de empresas estatais, e outros, servem bem para mostrar esta atuação.
Nota-se que boa parte das pessoas homenageadas estão associadas a agentes sociais detentores de recursos, ou com importante influência no setor, o que é bastante lógico. Assim, considerando o governo, na sua perspectiva mais ampla, como uma instituição, admite-se que o Sindicon mantém relações institucionais num tênue cruzamento entre o poder privado e o público.
Representando o setor privado, na “frente” do Sindicon, expressa por sua diretoria, estão pessoas que também buscam defender, por meio da “instituição” (sob o ponto de vista delas), os seus interesses pessoais, é claro. Por exemplo, no caso das certificações, tanto o presidente quanto o diretor entrevistados, possuem construtoras certificadas ISO 9000 e PBQP-H, assim como o próximo diretor de Obras Públicas. Assim, o Sindicon parece ser um meio de viabilizar as necessidades de auto-realização a que Selznick (1972) se refere.
Por outro lado, o do setor público, supõe-se que os “homenageados” e outras pessoas, ligadas aos agentes sociais envolvidos no setor analisado, podem buscar nas relações “institucionais” com o Sindicon algum meio de realização psicológica (SELZNICK, 1972). Então, o desejo pela vantagem pessoal pode gerar uma improbidade administrativa. Infelizmente, não são raros os casos de corrupção envolvendo construtoras no Brasil.
A “defesa dos interesses da categoria”, na verdade, é também a defesa dos interesses pessoais. Exemplo desta prática é dado pela defesa da “preferência” dos chamados “grandes contratantes”. Ao “lutarem” por esta preferência pelos construtores associados à entidade, seus diretores estão também assegurando este
nicho para si próprio. Até porque a participação nestas entidades exige, como alguns entrevistados ressaltaram, uma parcela de sacrifício pessoal, e quase ninguém faria isto, se não estivesse esperando algum benefício futuro.
No âmbito político, destaca-se também o CBIC, órgão máximo da representatividade da categoria. Considera-se este lobby será preponderante na consolidação do PBQP-H, como será demonstrado logo adiante.
Desta forma, considera-se que o Sindicon exerce atualmente uma expressiva influência no setor da construção civil do Espírito Santo, servindo como um “elo” entre o público e o privado, por meio das suas “relações institucionais” com os governos municipal, estadual e federal (por meio da CBIC).
Esta influência se tornou mais significativa, a partir da introdução do PBQP-H, que, de certa forma, obriga as construtoras a implementarem este modelo de gestão, baseado na ISO 9000. Ainda, as construtoras são incentivadas a se associar (voluntariamente) ao Sindicon, pois isto é condição para ingresso nas “turmas” de empresas em consultoria, e, ainda a obter o desconto no valor da certificação. Assim, o PBQP-H acaba servindo também como uma forma do Sindicon aumentar o número de seus associados, praticamente estabilizado há alguns anos.
Sendo que a criação e desenvolvimento do PBQP-H envolveram a CBIC e a Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República (SEDU-PR) sustenta-se que esta articulação foi decorrente de mudanças que ocorriam no setor institucional, principalmente a ascensão da certificação ISO 9000 no Brasil.