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Na seção anterior foi direcionada à abordagem coerentista a objeção de que a coerência não parece ser suficiente para a aceitação de crenças morais que são justificadas, visto que ela pode ser obtida de modos epistemicamente defectivos que claramente tornam injustificadas crenças morais que são, não obstante, coerentes com um sistema coerente de crenças. O caráter holista dessa posição revela agora um problema diferente para a descrição metodológica do equilíbrio reflexivo que é apresentada por Daniels e aceita por Brink. Daniels afirma que nós devemos questionar a plausibilidade de uma crença moral particular apenas após o equilíbrio reflexivo, isto é, após a consideração de como essa crença contribui para a coerência de um sistema de crenças (DANIELS, 1996, p. 31) e que quando "fixamos" um conjunto de juízos ponderados, “o fazemos com uma firmeza que é relativa ao resto do equilíbrio, e é em qualquer caso revisável se algo desestabilizar o equilíbrio (DANIELS, 1996, p. 71)”. Segue desse holismo que todo o valor epistêmico de uma crença moral particular é condicional à sua contribuição para a coerência de um sistema coerente de crenças44, o que implica que nenhuma crença moral tem valor epistêmico em si mesma. Nesse sentido é natural que tudo o que S deveria fazer em equilíbrio reflexivo é revisar as suas crenças de um modo a obter coerência, porque a coerência é tudo o que importa epistemicamente.

Para uma abordagem coerentista, qualquer crença moral está sujeita a ser descartada ou revisada através do equilíbrio reflexivo se for essa a medida necessária para a obtenção e maximização do summum bonum epistêmico: um sistema coerente de crenças. Contudo, como observado por McMahan, um modelo como esse não parece plausível à luz da nossa experiência moral:

De acordo com o coerentista, as crenças morais de uma pessoa são como peças em um jogo: são jogadas para um lado e para o outro, algumas são sacrificadas, outras são formadas, tudo para alcançar certas relações entre elas. Nenhuma peça tem qualquer significância em si mesma; ela tem significância apenas em relação a outras peças e em particular na sua contribuição à coerência do todo do qual ela é parte. Se a reflexão moral fosse um jogo como esse, no qual nossas crenças morais não são capazes de nos compelir a afirmá- las e são sempre descartáveis ao serviço da coerência, a coerência seria facilmente alcançável. É porque algumas de nossas crenças morais nos compelem a aceitá-las independentemente das suas relações inferenciais com outras crenças que a coerência plena parece sempre um objetivo distante (MCMAHAN, 2013, p. 113).

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McMahan entende que a coerência é um ideal difícil de ser alcançado precisamente porque algumas proposições morais nos compelem a aceitá-las independentemente do que mais nós acreditamos. McMahan não dá exemplos, mas considere a literatura em torno do assim chamado “trolley problem”. Como será discutido no capítulo quarto deste estudo, esse é o problema de explicar por que seria permissível puxar a alavanca para desviar o bonde do trilho no qual cinco pessoas estão para o trilho no qual apenas uma pessoa está, mas não seria permissível empurrar um gordo de cima de uma ponte para parar o trem e salvar as cinco pessoas que estão no trilho prestes a ser atropeladas. Uma maneira de resolver esse problema é adotando uma teoria utilitarista de atos, que implicaria que nós devemos rejeitar a crença de que não seria permissível empurrar o gordo já que fazendo isso nós matamos uma pessoa e salvamos cinco, maximizando a utilidade. Se nós aceitamos essa teoria, nós temos uma posição moral coerente para resolver o problema, mas muitos filósofos refletindo sobre esse problema não a veem como uma teoria atrativa. Por que isso ocorre? Para muitos, uma solução ao problema deve permitir manter a intuição de que não é permissível empurrar o gordo, e a coerência propiciada pelo endosso da solução utilitarista vem ao custo muito elevado de implicar que essa proposição é falsa. Eu penso que isso ilustra a observação de McMahan de que o que é difícil não é obter uma posição moral coerente, o que é difícil é obter uma posição coerente com o que nos parece intuitivamente verdadeiro acreditar.

Uma abordagem coerentista, contudo, não oferece uma caracterização metodológica que integre intuições morais em um processo de reflexão. Em virtude disso, ela oferece um retrato da reflexão moral que é estranho ao modo como nós de fato refletimos sobre assuntos morais. Como eu argumentarei em grande detalhe nos dois capítulos seguintes, se trata inclusive de um retrato que é estranho ao modo como competentes filósofos morais, como o próprio Rawls, conduzem as suas investigações morais, pois esses filósofos não procedem metodologicamente como se todas as suas crenças morais tivessem igual peso, e estivessem igualmente ao serviço da coerência.

Críticos também manifestaram insatisfações quanto à significância prática da metodologia do equilíbrio reflexivo. O retrato de uma abordagem coerentista afirma que em sua investigação moral S deve refletir de um modo a procurar por um princípio, ou um conjunto de princípios, que explique (todos) os seus juízos morais ponderados. Como interpretado por Arras, isso implica que para avaliar a plausibilidade de uma proposição moral particular S teria de “sujeitá-la às pressões de toda a sua rede de crenças" (ARRAS, 2007, p. 55). Não apenas isso, se nós ainda levarmos em conta a exigência de que o equilíbrio reflexivo deve ser amplo, é também exigido de S que ele avalie como as suas crenças morais se saem sendo sujeitas a

uma avaliação crítica informada por outras teorias morais, os seus respectivos argumentos filosóficos e outras teorias e informações não morais que se provem relevantes. Arras critica que isso “poderia muito bem constituir o trabalho para toda a vida de um professor de filosofia moral", e que esse método seria visto, mesmo por filósofos profissionais, como “desesperançosamente trabalhoso" para decidir no que acreditar sobre, por exemplo, questões pontuais de bioética (ARRAS, 2007, p. 56-57).

Eu acredito que a linha de raciocínio seguida por Arras representa uma objeção séria ao equilíbrio reflexivo tal como nós podemos entendê-lo a partir de uma abordagem coerentista. Rawls sempre foi claro ao afirmar que o estado de equilíbrio reflexivo é um “ideal filosófico”. Em A Theory of Justice ele pondera se é possível alcançá-lo, sem se comprometer com uma resposta (RAWLS, 1999, p. 44), e em um escrito mais recente afirma se tratar de um ideal que nós não podemos alcançar mas do qual podemos nos aproximar (RAWLS, 1995, p. 142). Um defensor da abordagem coerentista poderia argumentar que nós devemos fazer o que está em nossas capacidades cognitivas para nos aproximar desse ideal. Mas, e esse parece ser o cerne da objeção de Arras, a metodologia oferecida não é apropriada mesmo para isso. Note que como preliminar à reflexão moral a descrição padrão requer de S que ele disponha de um inventário de todos os seus juízos morais e filtre apenas aqueles que são ponderados. Como alguém poderia cumprir essa etapa?

Em conjunto, as objeções de McMahan e Arras levam à mesma conclusão: se nós adotamos o equilíbrio reflexivo como o nosso modelo de reflexão adequada, nós teremos que concluir que ninguém poderia refletir adequadamente, e que filósofos morais de reconhecida competência não são, de fato, bons investigadores sobre assuntos morais. Parece-me claro que a solução para esse problema é reformular a descrição do método na seguinte direção: S deve tentar procurar um princípio, ou um conjunto de princípios, que pareça plausível à luz das suas intuições morais relevantes sobre esse assunto, e que esteja em relação de suporte mútuo com as proposições morais que são afirmadas nessas intuições. Eu argumentarei em favor dessa sugestão, que constitui o cerne de uma abordagem intuicionista do equilíbrio reflexivo, no próximo capítulo.

3 A ABORDAGEM INTUICIONISTA

Considerando que seria a associação com uma epistemologia coerentista que tornaria a versão do equilíbrio reflexivo de Brink e Daniels insatisfatória, no presente capítulo busco desenvolver uma abordagem do equilíbrio reflexivo a partir de uma epistemologia intuicionista. Para tanto, a primeira metade do capítulo articula, em substituição ao modelo coerentista, os contornos mais gerais de um modelo epistemológico intuicionista para a crença moral epistemicamente justificada. O modelo apresentado é o que nós podemos encontrar no recente trabalho de intuicionistas contemporâneos, como Huemer e Audi, e que também é implicitamente aceito por Scanlon em sua interpretação do equilíbrio reflexivo. Com esse modelo posto, a segunda metade do capítulo procurará desenvolver o método do equilíbrio reflexivo em si, procurando integrá-lo no contexto conceitual de um modelo intuicionista, o que implica explicar o papel que nossas intuições morais desempenham no método. O objetivo do capítulo é expor como a aplicação do método do equilíbrio reflexivo conduziria o agente não apenas a aceitar crenças morais que são coerentes com algum conjunto coerente de crenças morais e não morais, como é enfatizado pela abordagem coerentista, mas também crenças morais que são apoiadas por suas intuições morais, ou crenças morais que são apoiadas por aquilo que lhe parece intuitivamente correto aceitar sobre a moralidade.

3.1 O esboço de uma epistemologia intuicionista