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Objectif 4 : validation de la PCR en multiplexe en temps réel

5.2 Optimisation du bouillon d’enrichissement

A crônica é, de acordo com Bulhões, um gênero tanto jornalístico quanto literário (2007, p. 47). Um híbrido, portanto. Seria o gênero no qual então encontraríamos um meio termo entre o tratamento da linguagem verbal como fim, que caracteriza o fazer literário, e o tratamento dela como meio, característica do jornalismo. É o espaço onde, por um lado, o jornalismo se despe de suas formalidades, mas, por outro o escritor perde algo de sua aura:

Sob a guarida financeira de um estabelecimento jornalístico, uma casa comercial como qualquer outra, o escritor-cronista faz parte da dinâmica do sistema produtivo. Com isso, pode perder um pouco a aura que o emoldura como um ser “especial”, com algo de louco, santo ou visionário, em contato com as estrelas. Ele integra a agitação e a urgência comerciais das grandes cidades. De fato, na modernidade o cronista é familiar ao ambiente da redação jornalística, e pode ter preferência por lá estar: situar-se no espaço tumultuado da produção de um jornal, sentir o clima em que se agitam repórteres, diagramadores, diretores, focas, articulistas, revisores. O jornal é uma máquina a ser colocada em movimento a cada dia e o cronista ali comparece para escrever um texto com prazo de entrega e espaço delimitado (BULHÕES, 2007, p. 49).

Se a crônica é um gênero também jornalístico, há espaço para ela no jornalismo econômico? A resposta é sim, mas com algumas importantes ressalvas, abaixo expostas, que devem ser levadas em consideração.

Embora seja mais fácil delimitar, por exemplo, como crônica esportiva aquela cujo assunto é o futebol, ou que pelo menos o tome como mote para daí deixar-se levar descompromissadamente por associações entre este esporte e outras temáticas abordadas pelo cronista; ou como crônica política aquela que se ocupa dos políticos ou de acontecimentos ligados à política, mesmo que daí faça digressões para outras direções; uma crônica econômica nem sempre seria tão facilmente delimitável como tal.

O mais provável é que não fosse percebida como “crônica econômica”, mas simplesmente como crônica do cotidiano, não diretamente associada a questões

econômicas. Mas, para esclarecer esse ponto, vamos nos aprofundar um pouco mais do próprio conceito de crônica.

Em seu livro Crônica: a arte do útil e do fútil, Wellington Pereira adota o critério interessante, mas ao mesmo tempo um tanto polêmico, de conceituar a crônica ao longo do tempo, no Brasil, a partir não só de análises teóricas a respeito das obras que compõem essa categoria textual, mas de proposições sobre o que ela vem a ser na visão de dois grandes escritores: Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade. Seja como for, já no fim do livro, Pereira apresenta sua própria definição da crônica:

Definimos a crônica no espaço jornalístico como uma narrativa que tem independência estética e pode inscrever várias linguagens em seu espaço gráfico, não se limitando apenas aos preceitos da literatura ou do jornalismo (PEREIRA, 2004, p. 170).

Curiosamente, Bulhões também busca referência em um escritor, no seu caso Mário de Andrade, para caracterizar a crônica:

Informalidade, despojamento, despretensão, humor, irreverência, eis algumas marcas cronísticas que buscam levar prazer. O modernista Mário de Andrade chega a falar em leviandade, identificando tal comportamento como algo representativo da crônica. Ou, pelo menos, das crônicas que ele escreveu (BULHÕES, 2007, p. 60).

Mas seja como um fazer textual que extrapola as fronteiras tanto dos preceitos da literatura quanto os do jornalismo, na proposição de Pereira, seja como um espaço de alívio momentâneo do peso do “hard news”, em que se prima pelo despojamento e descompromisso, na visão de Bulhões, a verdade é que tais características da crônica não se observam no corpus de análise deste trabalho ou no blog de Miriam Leitão na totalidade de suas postagens anteriores e posteriores ao período estudado.

Indo mais além, podemos mesmo afirmar que, na verdade, simplesmente não há, pelo menos até o momento, uma tradição que ligue o jornalismo de economia à prática da crônica descompromissada e descontraída, que trate, com humor e ironia, das temáticas típicas desse fazer jornalístico.

Muito pelo contrário, não se observam essas características nem em textos sobre temas econômicos de jornalistas conhecidos que poderiam ser associados à crônica, como Joelmir Beting ou Luis Nassif. O primeiro é famoso por utilizar metáforas da vida

cotidiana para explicar fatos econômicos, não raro com traços de humor e ironia (que afinal são características comuns em um cronista). O segundo é fértil produtor não apenas de textos sobre economia, mas também de crônicas nos termos expostos por Pereira e Bulhões.

Em seu site joelmirbeting.com.br, o jornalista Joelmir Beting tem um espaço denominado “botocúndia s.a.: tragicomédia da economia”. A julgar pelo nome dessa seção e pela foto que a ilustra, o jornalista fazendo pose com uma máscara de teatro em uma das mãos, poder-se-ia imaginar que se trata de um espaço mais lúdico, sem lugar para a formalidade, com textos mais ao estilo de crônica na concepção apresentada por Bulhões. Mas não é o que acontece.

Em postagem de 21 de janeiro de 2009, por exemplo, ao tratar da forma como a crise econômica internacional iniciada no ano anterior atingiu a Islândia, um dos países mais afetados da Europa, a abordagem de Joelmir Beting não foge à típica formalidade do jornalismo econômico:

O governo do primeiro-ministro islandês, Geir Haarde, anunciou sua renúncia em bloco, em consequência da crise econômica, que teve na Islândia uma de suas primeiras vítimas. A principal estrela do país, a cantora Björk, criou um fundo, Audir Capital, para recuperar a economia, onde a dívida bancária equivale a nove PIBs.

A própria Björk aplicou os US$ 790 mil iniciais do fundo, que deve somar US$ 1,2 milhão até março. A Islândia, ilha do norte da Europa com 320 mil habitantes, tinha na pesca sua maior fonte de riqueza, mas tornara-se, nos últimos anos, um paraíso fiscal e de alavancagem financeira e não resistiu aos primeiros impactos da crise financeira internacional39.

Ou seja, não se nota no fragmento sequer traços da ironia que caracteriza o jornalista em seus comentários para a televisão.

Comedimento similar, ou até maior, pode ser observado nos textos de Luis Nassif. Para começar, em seu site advivo.com.br, ele toma o cuidado de separar as postagens (que não são só suas) em categorias, de forma que as referentes a economia estão separadas das que ele denomina “cultura”. E nesta categoria, uma das subcategorias é justamente chamada “crônica”. De fato, não há lá textos relativos à

      

economia; e os que são do próprio Luis Nassif têm tom memorialista e literário, como uma crônica postada em 14 de agosto de 2011 sobre seu pai40.

Já na categoria “economia”, uma das subcategorias (há doze, incluindo “matemática financeira” e “bioenergia”) chama-se “crise”, mas o que Nassif nela apresenta é um apanhado de textos de vários autores e websites diferentes sobre a crise econômica iniciada em 2008.

Finalmente vejamos abaixo um trecho de crônica, com as características típicas de despojamento e descompromisso, que fala especificamente da crise econômica e de como ela afeta o Brasil, refletindo os acontecimentos da época que apareciam nos noticiários da mídia impressa e on-line.

O Brasil não tá em crise! Olha o outdoor em Fortaleza: "Comece o ano com o pé direito... na bunda da crise". É que o Lula mandou gastar. Por isso que o site Comentando lançou um novo filme: "MANDAGASTAR 2". Com Lulalelé, Dilmão e Guido Manteiga. Aliás, o Brasil tá em crise: o rei Momo agora só pesa 90 quilos. Tiraram dez quilos do rei Momo. É o corte de verba do Kaxab! Esse país é muito louco: o rei Momo é saradão e o maior atacante de futebol é gordão. O rei Momo é saradão e o Fenômeno é gordão41.

Analisando o conteúdo do trecho apresentado, de José Simão para a Folha de São Paulo, não há dúvida de que ele faz referência à crise econômica mundial que, agravada no final do ano anterior, pairava como ameaça ao desempenho econômico do ano que se iniciava (2009). Faz referência inclusive à estratégia indicada na época pelo governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para diminuir os impactos da crise: a população deveria consumir, ou não parar de consumir, para que a economia brasileira não perdesse força , mantendo o equilíbrio graças ao mercado interno.

Com seu jeito próprio de escrever, o cronista José Simão ironiza tal estratégia, citando inclusive, e igualmente de forma irônica, a então ministra chefe da Casa Civil Dilma Roussef e o próprio ministro da economia Guido Mantega. Apesar de tudo isso, estaríamos diante de uma crônica tipicamente econômica?

      

40 Disponível em: <http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-olhar-de-meu-pai-0>

41 “Socuerro! O Brasil tá muito louco!”, publicado na Folha de S. Paulo de 11 de janeiro de 2009. Em: <http://acervo.folha.com.br>

Ainda no mesmo parágrafo citado, José Simão indica que não ao mudar o foco da economia para o carnaval e o futebol. Em relação a estes, ele também fala de questões que eram de atenção na mídia naquele momento: a escolha de um rei Momo que não era gordo para o carnaval paulista em contraste com a forma rotunda do então atacante corintiano Ronaldo. Fica claro, portanto, que Simão faz na verdade uma crônica de cotidiano. Temos então o exemplo de um cronista que se reporta de forma descompromissada ao noticiário do momento, misturando política, economia e entretenimento em um mesmo parágrafo.

Não se trata, fica claro, de uma crônica especificamente econômica. Tanto é assim que ao trecho acima citado podem ser aplicadas mesmas observações feitas por Bulhões a outra crônica de Simão cujo conteúdo é totalmente diferente e não faz qualquer referência à economia:

José Simão é cronista porque acolhe o noticioso para transfigurá-lo radicalmente. Ele realiza um movimento de transgressão de sentido manejando um material noticioso. Tira proveito humorístico dos acontecimentos sisudos, parodiando-os, deformando-os grotescamente, quase em atitude surrealista, explorando efeitos por emio de recursos fônicos, numa espécie de jogo infantil e insólito, às vezes com o uso de trocadilhos, chegando à beira da crise de significado. Com ele, atinge-se o despojamento em máxima altitude, no caminho da irreverência (BULHÕES, 2007, p. 59).

Portanto, pode-se concluir que, se por um lado nada impede a produção de crônicas a partir do noticiário econômico, tampouco se pode dizer que esta é uma prática corriqueira, pois:

a) os jornalistas econômicos, talvez ciosos da própria reputação de seriedade e credibilidade junto ao público, afastam-se do despojamento típico da crônica ao falar de economia; e

b) de tal forma o noticiário econômico se mistura ao político, ao cotidiano e outros discursos noticiosos no dia-a-dia da imprensa que, mesmo quando abordados como crônica, os temas econômicos não chegam a ser o único ou principal foco do cronista.

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