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De acordo com o GNL (Grupo de Nova Londres, ROJO, 2012) é encargo da escola os novos letramentos emergentes na sociedade contemporânea, bem como envolver as novas TICs (tecnologias de informação e comunicação) e diversidade cultural presentes na sala de aula. O alunado de hoje não é o mesmo da década passada, uma vez que aquele dos anos de 1990 estava em um momento de transição e presenciou gradativamente a entrada das novas tecnologias, como computadores, celulares e até mesmo o controle remoto em suas vidas, tendo que se adequar a essa nova realidade, enquanto este já nasce cercado desses artefatos cada vez mais modernos, requerendo dele uma utilização consciente e eficiente que ao mesmo tempo divide sua atenção e o inunda de informações e caminhos, portanto, exigem/necessitam de (multi)letramentos para suas mais diversas formas de usos.

Há uma diferença, de acordo com Rojo (2012), entre letramentos múltiplos e multiletramentos. Para ela, estes são a “multiplicidade cultural das populações e a multiplicidade semiótica de constituição dos textos por meio dos quais ela se informa e se comunica” (p. 13) e aqueles são a “multiplicidade e variedade das práticas letradas” (p. 13). Ambos aqui entendidos de igual importância uma vez que agem concomitantemente na construção dos letramentos dos alunos, no entanto, um está ligado a uma amplitude cultural e de composição de textos e o outro na vasta gama de meios para que se atinja com sucesso tal empreendimento do ato de letrar.

Ao tomar o caminho dos multiletramentos – apontados por Rojo (2012), do qual a partir daqui será o alicerce dos postulados seguintes sobre tal tema – a autora afirma que para que ele ocorra são, inicialmente, requeridas novas concepções de ética e estética das quais ela trata destas como emergidas com critérios próprios na qual cada indivíduo terá uma coleção de valores e conceitos próprios e singulares de acordo com sua vivência, experiência e contato com o mundo; e aquelas, seja na recepção, na produção ou design, baseiem-se nos letramentos críticos. Desta forma, novos conceitos éticos e estéticos se fazem presentes na perspectiva dos multiletramentos nos quais o respeito ao novo e diferente se faz necessário, bem como o diálogo crítico/edificador na produção e recepção de textos. Em outras

palavras, abrir-se para novas perspectivas sem (pré)conceitos arraigados ou que não sejam passíveis de discussão é a atual ordem.

Sob tais preceitos, Rojo (2012) explicita como funcionam os multiletramentos, que, segundo a autora, abarcam tanto uma diversidade cultural de produção e circulação dos textos quanto de linguagens que os constituem. Sobre as diversidades de linguagens, ela afirma que:

a) eles são interativos, mais que isso, colaborativos;

b) eles fraturam e transgridem as relações de poder estabelecidas em especial as relações de propriedade (das máquinas, das ferramentas, das ideias, dos textos – verbais ou não);

c) eles são híbridos, fronteiriços, mestiços (de linguagens, modos, mídias e culturas). (p. 23)

É, portanto, estabelecida uma nova dinâmica com relação ao elemento texto. Eles (os textos) jamais foram tão interativos e construídos a muitas mãos, tampouco híbridos e abstratos, capazes de se readequarem, tomar novas formas ou se liquefazer ao bel-prazer do sujeito enunciador/interlocutor e de seus contextos de produção e recepção. Muitos não cabem mais em caixas pré-estabelecidas com características, normas e formatos que os identificam e caracterizam, pelo contrário, eles se misturam, somam, subtraem-se, transformam-se, caem em desuso e, sobretudo, são multimodais (utilizam diversas e variadas linguagens). Acerca da multimodalidade, Dionísio (2007) expõe:

Em todas as situações comunicativas, usamos os nossos sistemas de conhecimentos para orquestrar, da forma mais harmônica possível, todos os recursos verbais (escritos ou orais) e os recursos visuais (estáticos ou dinâmicos) existentes nas interações comunicativas em que estamos inseridos. Assim, referimo-nos à multimodalidade discursiva como um traço constitutivo a todos os gêneros textuais escritos e orais. Consequentemente, recursos visuais e verbais precisam ser vistos como um todo, no processamento dos gêneros textuais. (p. 178)

É possível afirmar, por conseguinte, que todos os textos (sejam eles orais ou escritos) são multimodais, uma vez que são compostos por diversas linguagens igualmente importantes para a sua interpretação, inferências e na construção de seus efeitos de sentido. Desde escolha do suporte (papel, rede social ou qualquer outro meio real ou virtual) até a diagramação, gráficos, fotografias, cores contribuem para a leitura e compreensão do texto atribuindo a ele características que lhe são peculiares e precisam ser levadas em conta para seu entendimento e leitura eficiente.

O GNL propõe então uma “pedagogia” dos multiletramentos. Para tanto, o diagrama abaixo foi elaborado para ilustrar como seria seu funcionalismo:

Mapa dos multiletramentos USUÁRIO FUNCIONAL

 Competência técnica

 Conhecimento prático

CRIADOR DE SENTIDOS

 Entende como diferentes tipos de texto e de tecnologias operam

ANALISTA CRÍTICO

 Entende que tudo o que é dito e estudado é fruto de seleção prévia

TRANSFORMADOR

 Usa o que foi aprendido de novos modos

Diagrama 1. Adaptado de DECS & UniSa. 2006. In ROJO, 2012, p. 29

Entende-se, pelo diagrama, que é indispensável levar aos alunos um conhecimento prático e funcional dos elementos/textos para que assim eles possam reconfigurá-los em diferentes modos e usos sendo criadores de sentidos competentes – fazendo uso do entendimento das multimodalidades que se apresentem – bem como analistas críticos que conseguem ir além do posto, mas que compreendem seus pressupostos, subentendidos e intencionalidades. Logo, é fazer que os alunos manuseiem de maneira eficiente e crítica as multimodalidades das linguagens que lhes são apresentadas em determinado texto – seja no contexto de produção ou recepção.

É indissociável a visão dos multiletramentos sem a menção do desenvolvimento do pensamento tecnológico na sala de aula – que já se faz presente mesmo de maneira onipresente em tal contexto – que, de acordo com Machado (2008), é um pensamento abstrato, lógico e ágil – e que se pode incluir também criativo e interpretativo.

Os alunos de hoje precisam ser aprimorados para um futuro no qual eles lidarão com pessoas, máquinas, sistemas, normas, causas e consequências e precisarão ser autônomos, criativos, curiosos, solucionadores de problemas e ter uma visão do todo – nova tendência do mercado de trabalho contrária do modelo Taylorista e Fordista, no qual o funcionário era responsável por parte do processo e

o trabalho era setorizado. Deste modo, a exploração da criatividade, da curiosidade, da motivação, da iniciativa, da interpretação, do pensamento lógico, ágil, abstrato o enriquecimento intelectual e a humanização são fatores que devem ser trabalhados e desenvolvidos no âmbito escolar. Todos os elementos acima citados fazem parte do cabedal formador do pensamento tecnológico, tão necessário para os alunos que enfrentarão um mercado de trabalho que, de acordo com Machado (2008) exige:

“[...] saber identificar tendências, limites, problemas, soluções e condições existentes, associar, discernir, analisar e julgar dados e informações, usando um raciocínio ágil, abstrato e lógico, saber lidar com situações diferenciadas, aproveitando conhecimentos extraídos e transferidos de outras experiências, demonstrando predisposição para o trabalho grupal, dispondo de recursos de comunicação oral, escrita, visual de forma a se mostrar com condições de mobilidade, flexibilidade e adaptação às mudanças [...] e saiba continuar aprendendo com autonomia. (p. 183 e 184).

Pessoas multifacetadas e com ampla visão do todo capazes de se adequar e adaptar aos mais diversos ambientes. Esses são os requisitos, não só para um mercado de trabalho no mundo (líquido) moderno, mas para a (sobre)vivência em tal meio, e habilidades que são encargos da escola desenvolver em seus alunos. Os multiletramentos, domínio das multimodalidades, do senso crítico, desenvolvimento da criatividade, do pensamento ágil, lógico e abstrato (aqui chamado de tecnológico), a capacidade de interpretação e suposição são alicerces para a construção de cidadãos ativos e, sobretudo, engajados na sociedade moderna.

Essa pesquisa se alicerça nos multiletramentos na medida em que permite, por meio da produção de gêneros discursivos, o desenvolvimento do pensamento criativo/tecnológico – abordado anteriormente no que tange as interpretações das propostas de produção, a solução de situações de escrita, a maneira como o texto é formatado/configurado e a imagem por ele transmitida – o uso das multimodalidades de construção do texto que o projeto possibilita – , configurando-se em uma prática pedagógica significativa, reflexiva, crítica que valoriza a vivência, a experiência e a expressão criativa dos alunos.

Pela escrita dos gêneros pré-estabelecidos, mas com a possibilidade de múltiplas interpretações de seu escopo disparador (bem como de múltiplas possibilidades de tecitura), é possível observar (como apontava o diagrama dos multiletramentos desenvolvido pelo GNL) que o projeto exigia uma competência técnica e funcional (conhecimento teórico e prático) dos gêneros solicitados (tema,

composição e estilo), porém, a maneira como eles foram produzidos demandava uma atitude transformadora, criativa e reflexiva. Para tanto, era também necessária a consciência dos alunos como enunciadores, no sentido de solucionar os problemas de escrita, que como já mencionado, abrangem desde a escolha do léxico, passa pela construção das sequências que formam o plano de texto e culminam na projeção de um eu discursivo por meio do escrito e o discernimento de que seu texto é fruto de uma seleção prévia que projeta determinada imagem.

A hibridez dos gêneros também é algo pertinente ao projeto, uma vez que os comandos para a produção do texto exigiam uma interpretação criativa e, por conseguinte, uma desconstrução das características prototípicas dos gêneros. Textos que possuem caráter dialógico foram reconfigurados e ganharam traços intimistas, reflexivos e monólogos, por exemplo, que caberiam em outros gêneros do discurso, mas que, propositalmente, foram solicitados sob outros formatos, justamente para ativar a criatividade e desenvolver o pensamento tecnológico dos alunos.

A multimodalidade é um fator presente e de extrema importância para a interpretação dos textos produzidos. Ela perpassa desde o suporte em que o gênero foi produzido, às referências extra textuais presentes nas produções, como ilustrações, design, cores e elementos de referenciação que contribuem na inferência de sentido do texto.

Dessa forma, a ressignificação de paradigmas, a possibilidade de novos formatos, a valorização da experiência, da individualidade e de conceitos estéticos e principalmente, o uso e desenvolvimento da criatividade e do pensamento tecnológico se fizeram presentes na execução do projeto e estão estreitamente alinhados as concepções dos multiletramentos.

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