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2. CHARGES D’EXPLOITATION TOTALES

2.1 C HARGES D ’ EXPLOITATION

2.1.3 Opinion de la Régie

O gênero é concebido como uma construção social, histórica e cultural –organizada sobre as diferenças sexuais e as relações de poder–, o qual, conforme Almeida e Soares (2012), revela conflitos e contradições que marcam uma sociedade assinalada pela desigualdade –seja ela de classe, raça, etnia ou gênero. Conforme as autoras:

A associação da figura feminina aos atributos de maternidade não é recente, mas edificada no imaginário e na constituição de todas as civilizações, nas mais variadas épocas, culturas e classes sociais. Esse imaginário é fortemente impregnado de valores culturais e religiosos que produzem o emblema do feminino no espaço indivisível, permeado pelas relações de poder, que se estende da família à sociedade, ao qual a atual crítica teórica feminista denomina relações de gênero. Nos tempos modernos e contemporâneos, quando essas relações se estabeleceram no mundo do trabalho após a inserção feminina nesse espaço, por sua vez, produziram mecanismos sutis e explícitos de dominação inseridos nos espaços hierárquicos de poder. Esses, muitas vezes, são fragmentados quando se deslocam para profissões feminizadas e parece haver uma concordância implícita sobre quais trabalhos são ‘para mulheres’. Dentre estes, o magistério [...] (ALMEIDA; SOARES, 2012, p. 558).

Porém, nesse caso, o magistério apenas para lecionar com crianças e jovens (ALMEIDA; SOARES, 2012). A participação feminina na ciência foi algo restrito, durante muito tempo, muitas vezes ocultada ou até mesmo negada. No entanto, as mulheres

conquistaram seu espaço na ciência e na sociedade –ao longo da história– e passaram a se difundir por carreiras antes frequentadas somente por homens e a se expandir na Educação Superior, a qual é uma, dentre outras esferas, que até pouco tempo atrás era predominantemente masculina (BACKES; THOMAZ; SILVA, 2016).

Diante disso, os mesmos autores abordam a necessidade de discutir a presença da mulher na Educação Superior, mesmo ela já tendo conquistado seu espaço nesse ambiente. O fato é que a discriminação no campo educacional não se refere mais ao impedimento de acesso da mulher, mas ao processo de escolha da carreira profissional. “Se, por um lado, há oportunidade de acesso ao ensino superior para ambos os sexos, por outro, as preferências ‘naturalizadas’ de homens e mulheres por determinadas profissões e áreas do conhecimento se tornam evidentes” (BACKES; THOMAZ; SILVA, 2016, p. 167).

Conforme Backes, Thomaz e Silva (2016), em número de estudantes nas universidades nacionais a presença feminina é maior, porém, o mesmo não ocorre no quadro docente da Educação Superior –o qual é considerado território de prestígio na educação– de forma distinta do que acontece na Educação Básica, na qual o corpo docente é predominantemente preenchido por professoras, tal como apontado anteriormente.

Nesse sentido, Almeida e Soares (2012) explicam que, por natureza, o magistério de crianças e jovens se destaca como trabalho feminino e, dessa forma, é aceito social e culturalmente. No entanto, alguns paradoxos acontecem quando se trata do Ensino Superior, já que entra em conflito com esse imaginário aceito. Assim foi (e, às vezes, ainda é) desde muito tempo, os homens eram os doutores, os conhecedores, os livres; as mulheres viviam submergidas nas tarefas domésticas e maternas e, muitas vezes, mal conseguiam aprender a ler e escrever.

No entanto, a universidade tem caminhado e evoluído, embora com o quadro docente ainda inferior, a presença da mulher nesse espaço já é percebida e, ao menos, não há diferença salarial entre professores e professoras que desempenham a mesma atividade. Nesse viés, é importante salientar que há muito mais do que números por trás desta realidade, “há questões do imaginário social e da herança cultural firmados há décadas e que se espelham nas relações entre homens e mulheres. As relações de poder estão presentes em todas as construções e instâncias sociais, inclusive na universidade” (BACKES; THOMAZ; SILVA, 2016, p. 167). Nesse viés,:

Professoras mulheres, doutoras docentes que hoje assumem o papel de professoras e pesquisadoras universitárias enfrentaram/enfrentam barreiras

sociais e históricas que ultrapassaram a desvalorização e o desestímulo perante sua competência enquanto profissional docente. Após dedicarem anos de trabalho científico, muitas vezes concomitantes ao zelo pelos afazeres domésticos, elas atingiram a excelência e o reconhecimento social por seu trabalho. Sabe-se que as dificuldades e barreiras que elas tiveram que vencer pelo caminho foram imensas e exigiram um esforço muito maior do que o despendido ao estudar, trabalhar e dedicar longas horas ao trabalho científico (BACKES; THOMAZ; SILVA, 2016, p. 174).

Nesse ínterim, Almeida e Soares (2012) explicam que –nos recursos humanos da Educação, a importância da presença feminina pode ser observada por meio dos aspectos históricos, culturais, sociais e políticos. Com maior incidência a partir do século XX, as mulheres passam a assumir papel no mundo do trabalho remunerado, desde o ensino fundamental até a Pós-Graduação, participam nas pesquisas e nos projetos de extensão e acompanham os avanços tecnológicos, os quais concebem diferenciadas características na formação da docência brasileira atual.

Portanto, é necessário direcionar nosso olhar às questões históricas, sociais, culturais e de gênero –visando compreender como este processo ocorre–, os quais permeiam a luta pelo acesso ao Ensino Superior pelas mulheres e que nos indicam como a profissão docente se tornou um espaço majoritariamente feminino em determinadas áreas do conhecimento (BACKES; THOMAZ; SILVA, 2016).

Embora a área de pesquisa da presente Tese é a Educação –portanto, uma área com um predomínio feminino no corpo docente– se trata de professoras que atuam no stricto sensu e, portanto, se pode dizer que atravessaram os desafios impostos a questão de gênero, especialmente aquelas entrevistadas com mais tempo na profissão. Almeida e Soares (2012) realizaram uma pesquisa, nesse mesmo contexto, sobre histórias de vida de mulheres docentes que atuam em um Programa de Pós-Graduação em Educação, contemplando desde seus processos formativos até seus desafios no exercício da docência.

De acordo com as autoras (2012), o processo histórico foi longo, e agora em uma época diferenciada, no país se intenta encontrar uma definição do que é ser mulher nesse atual contexto, pertencente a geração pós-feminismo, culta, intelectualizada, com título de doutoramento e atuante na Educação Superior, de acordo com sua própria forma de ver a vida e se situar enquanto mulher e educadora, bem diferente como em outros tempos.

De fato, mudou muito se comparado a outro contexto e período histórico, porém não se trata, ainda, de um processo igualitário. Em relação a isso, Barreto (2014), realizou um estudo com o intuito de contribuir para a discussão sobre as relações de gênero, com enfoque

na presença feminina na universidade brasileira. Portanto, a autora objetivou atualizar o panorama da participação da mulher na Educação Superior e observar sua representatividade na universidade –tanto na sala de aula na condição de docente ou discente, na infraestrutura da instituição ou nas atividades de investigação e pesquisa.

Foi possível perceber uma hegemonia feminina em quase todos os números relativos ao acesso à Educação Superior e à sua conclusão –o que já é considerado um avanço. No entanto, o número de docentes homens na Educação Superior brasileira, no estudo realizado por Barreto (2014), é mais elevado do que o feminino. A autora, por ocasião da publicação, utilizou como fonte de informações, três grandes bancos de dados oficiais, entre eles, o Censo da Educação Superior (INEP/MEC), apresentando os dados disponíveis até aquela data – a publicação aconteceu em 2014, mas se trata de um estudo que já estava em construção, portanto, 2012 era o ano limite de dados disponíveis. Ela constatou que a composição docente, em seis anos (2006/2012) não sofreu alterações significativas, mantendo uma média de 54,72% de homens e 45,28% de mulheres.

Fato este que não sofreu muitas alterações nos anos seguintes. Tendo em vista que o último resumo técnico conclui, como mostra a Figura 1, que o perfil docente é composto, em sua maioria, por homens, com idade entre 35 e 37 anos, doutores com contrato de trabalho em tempo integral na rede pública e mestres com tempo parcial na rede privada (DEED/INEP, 2017). Convém destacar que a referida figura foi elaborada pela Diretoria de Estudos Educacionais (DEED), baseada nos dados do Censo da Educação Superior (2014) e publicado no Resumo Técnico, elaborado com os dados de 2014 e publicado em 2017. Para a construção do perfil da função docente, os elaboradores emitiram uma nota, explicando que foi considerada a moda de cada atributo selecionado separadamente.

Figura 1 – Perfil docente – Brasil – 2014

Apesar de não ser maioria na Educação Superior como um todo, a mulher se faz presente nesse contexto e, em grande escala, na Pós-Graduação stricto sensu em Educação. Inclusive, sobre esta questão de Gênero –Carolotto, Braun, Rodriguez e Diehl (2014)–, ao realizarem um estudo sobre SB em professores – cujo tema da saúde e do adoecimento também é tratado nessa Tese– evidenciaram que participantes do sexo masculino apresentaram maior índice médio nas dimensões de Indolência, Culpa e Perfil 2. Enquanto, participantes do sexo feminino revelaram maior índice médio na dimensão de Ilusão pelo Trabalho. Inclusive, os resultados do estudo, realizado pelas autoras, apontam para a necessidade de se considerar as diferenças de construção social de gênero no processo de adoecimento da categoria docente.

Fernández Cruz (2015), ao investigar sobre os aspectos centrais de identificação dos profissionais da educação, destacou alguns elementos, que se diferenciam em duas variáveis, as quais influenciam na satisfação dos docentes: a) contextuais- ambiente, apoio, prestígio social; b) inerentes ao exercício da profissão- recursos materiais, condições laborais. O autor percebeu, no estudo por ele realizado, que a satisfação também se diferencia conforme a idade e o gênero dos docentes. Os docentes com maior tempo de experiência (com mais de quarenta e cinco anos de idade), e as mulheres se mostraram com maior satisfação na sua atividade profissional.

Além do exposto sobre a presença da mulher na carreira docente, é pertinente recordar que a oralidade, desde os seus primeiros usos (a exemplo da história oral), permitiu –como bem recordam Bolívar, Domingo e Fernández Cruz (2001)–, dar voz às vidas silenciadas, entre as quais estariam as mulheres. Nesse sentido, Mosquera (1979, p. 104) já evidenciava, em relação ao masculino e feminino, a necessidade de derrubar tabus e mitos para construir um futuro mais humano e equilibrado. Ele afirma que uma sociedade mais humana deve se estruturar “a partir da igualdade de direitos e deveres, da consideração de que a continuidade do mundo reside não na submissão ou dependência mas na co-responsabilidade”. Nesse sentido, muito já se caminhou, mas muito ainda se tem a caminhar para que a mulher seja respeitada no âmbito pessoal e profissional, seja na docência, na ciência ou onde ela tiver interesse de estar.

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