Parafraseando Smolka (2002) temos que o teórico Vygotsky observou crianças, desenvolveu procedimento de caráter clínico e experimental, levantou hipóteses, escreveu relatórios, textos, argumentações, elaborou teorias, falou de inteligência, jogos, pensamento, linguagem, afetos, enfim, os modos de aproximação da criança como objeto de estudo ocorreu de diferentes maneiras, porém, foi sobre desenvolvimento cultural da criança que o mesmo dedicou-se. (SMOLKA, 2002, pág.115)
Nesse caso, Vygotsky afirma que ao falar de desenvolvimento cultural da criança refere-se ao correspondente desenvolvimento psíquico que se brota envolvido ao desenvolvimento histórico da humanidade, assim, a criança desenvolve-se através de interações.
Concomitantemente, a criança aprende e se desenvolve nas interações e brincadeiras mediadas pelo outro e pela linguagem. Assim, os processos de aprendizagem e desenvolvimento da criança partem da centralidade da brincadeira como ato constitutiva da cultura infantil, discutindo o papel das interações e mediação pedagógica na aprendizagem da criança, destacando o lugar do adulto/educador em sua educação através da afetividade.
Para demonstrar esse argumento, temos a afirmação na fala de Vygotsky (2000) apud RN/SEEC (2018):
As teorizações de Vigotski (2007), fundamentadas na concepção de desenvolvimento humano que se produz na história e na cultura, a partir de processos de significação e sentidos, enfatizam a natureza social e simbolicamente mediada de desenvolvimento psicológico, de modo a definir a lei geral do desenvolvimento cultural, que afirma: “[...] qualquer função no desenvolvimento cultural da criança aparece em cena duas vezes, em dois planos – primeiro no social, depois no psicológico, primeiro entre as pessoas como categoria interpsicológica, depois – dentro da criança.” (RN.SEEC, 2018, p. 37)
Isso implica em afirmar que o desenvolvimento humano ocorre em processos de transformações ao longo da vida, desde sua condição de ser biológico mediado pelo outro através da cultura/social, resultante de internalizações das funções psíquicas, emocionais, físicas e motoras. É através dessas (trans)formações, nos modos de ser e viver, nas relações sociais e as significações culturais e de valores, que se proporciona o modo particular de cada ser relacionado diretamente com o mundo o qual está inserido.
Temos ainda que diante da criança é indispensável que o adulto contribua para que essa aprenda e consiga progressivamente superar desafios, mesmo sabendo dos riscos que a rodeiam a cada ação que esteja a experimentar e/ou vivenciar, ajudando- a na superação dos desafios/problemas. Por isso a necessidade da interação com o outro.
Nessa concepção, o planejamento curricular, na organização das situações mediadoras de aprendizagens significativas, deve tomar a criança como centro de suas decisões e considerar seus afetos, suas linguagens, seus modos de conhecer e seus desejos, e garantir seus direitos. Ao elaborar seu projeto pedagógico, as instituições de Educação Infantil devem abolir “os procedimentos que não reconhecem a atividade criadora e o protagonismo da criança pequena, que promovam atividades mecânicas e não significativas para as crianças”. (BRASIL apud Parecer CNE/CEB, 2018, p. 5)
É essencial apresentar um projeto político-cultural-social, percebendo a criança como co-construtora, cidadã, membro do grupo escolar, com um perfil co-participativo de sua própria história. Ou seja, com uma nova proposta pedagógica, diante uma comunidade atuante e reconhecida em busca de um projeto pedagógico com a visão de cidadania, de educação e de cultura.
Em se tratando do desenvolvimento cognitivo da criança, uma das práticas mais defendidas para a educação infantil está relacionado ao jogo, o brinquedo e a brincadeira, ações que representam formas singulares onde especialmente as
crianças compreendem o mundo através do brincar. Kishimoto (2009, p. 6) acrescenta que "a modalidade jogo tradicional infantil possui características de anonimato, transmissão oral, conservação, mudança e universalidade".
Segundo FREUD (apud MEIRA, 2004, p. 84):
[...] a ocupação favorita e mais intensa da criança é o jogo. Acaso seja lícito afirmar que toda criança que joga se conduz como um poeta, criando se um mundo próprio ou, mais exatamente, situando as coisas de seu mundo em uma nova ordem, grata para ele. Seria injusto, neste caso, pensar que não toma a sério este mundo: pelo contrário, toma muito a sério seu brincar e dedica a ele grandes afetos.
Desse modo, é importante pensar a educação infantil como espaço gerador de construção social, cognitiva e emocional. Ou seja, referindo-se a um espaço gerador de saúde mental e física, de conforto e desenvolvimento pleno do ser humano e que isso se dê desde a infância. Encontramos reforço da já mencionada teoria na fala de Vygotsky (2010, pag. 96): “é preciso compreender que a criança é um sujeito histórico, social e cultural, uma vez que esta influencia e é influenciada pelos determinantes que constituem a sua formação social de onde se encontra inserida”.
Isso porque, para uma educação infantil de qualidade é necessário perceber a criança individualmente, como ser especial, com um padrão também individual de coerência com seu desenvolvimento, respondendo tanto as diferenças sociais quanto aos interesses e habilidades, permitindo-as que se desenvolvam em seu próprio ritmo com aquisição de importantes destrezas, possibilitando o trabalho coletivo, participativo e cooperativo entre as crianças, crianças e adultos, crianças de diferentes níveis. Porque para Vygotsky a criança se desenvolve a partir de interações. Assim, subentende-se que a ideia que se assume de criança deve estar entrelaçada com a relação social que se trava entre criança e sociedade ao mesmo tempo.
Portanto, os três teóricos – Pestalozzi, Piaget e Vygotsky, cada um a seu modo, vivendo a herança e amplitude cultural da passagem dos séculos, contribuem de maneira especialmente benéfica para produção de conhecimento acerca da visão de criança, infância e afetividade, contribuindo significativamente para o desenvolvimento infantil.