Perguntando novamente pelas experiências e condições de vida de mulheres sumérias, contamos agora com um maior número de fontes filológicas (cuja escrita é plenamente decifrada), ao lado das fontes iconográficas, analisadas por Asher-Greve na obra descrita acima. Ela avalia a situação dessas fontes como segue:
Na pesquisa acerca de mulheres do tempo dinástico primitivo chama a atenção a abundância e a diversidade do material. Em nenhum outro período existem tantas representações de mulheres na arte plástica e em relevos, mosaicos, na glíptica ou em vasilhas. Além disso, o PDI é rico em inscrições de mulheres bem como em inscrições que mencionam mulheres (inscrições votivas, econômicas e em selos). Acerca de suas fontes arqueológicas e filológicas, o PDI é muito proveitoso em relação a mulheres e permite um conhecimento muito maior do que outras épocas da posição social e econômica das mulheres, suas funções, e em parte até da sua vida privada (...). Pela primeira vez na história da Mesopotâmia são atestadas pessoas históricas femininas. Em comparação com a época de Uruk/Gemdet Nasr, as áreas temáticas têm uma
432 POLLOCK, Mesopotamia, 102-104.116.
433 Ibidem, 96-97; cf. também AMIET, Pierre. La glyptique mésopotamienne archaique: 2nd edition revue et corrigée avec un
distribuição totalmente diferente: a representação artística limita-se quase exclusivamente a cenas do âmbito cúltico e religioso, enquanto os numerosos textos e inscrições oferecem principalmente certos conhecimentos nas áreas da economia e do direito.434
Reorganizando os resultados435 apresentados por Asher-Greve, resumirei os que mais
interessam aqui, conforme a posição ou situação social das mulheres, pois o caráter das fontes tornaria artificial uma distinção segundo as áreas sócio -política, econômica, religioso-ideológica e vida privada.
Mulheres de status extremamente alto (rainhas = esposas de soberanos, princesas, sumo sacerdotisas) aparecem em estátuas e representações cênicas que podem ou não exibir seus nomes, e através de inscrições em selos (Menbara.abzu, Ninusu, Abda, Puabi, Nugig, Ninbabda, Dimtur, Baranamtara – todas elas “rainhas” ou “princesas”436). São representadas como participantes de cultos
e banquetes437, ofertantes de estátuas votivas e de oferendas, e ocasionalmente também como
adoradoras. Em textos, que neste período já fornecem informações sobre funções e cargos de mulheres individuais e grupos de mulheres na economia e no governo, aparecem esposas de soberanos em amplas tarefas cúlticas438 e administrativo-econômicas. Mulheres de status alto, da elite,
devem ter sido também as esposas de altos “funcionários” da corte mencionadas em inscrições.
Destaca-se aqui a documentação de Lagaš,439 tanto da é.ensí (a oikos do soberano) quanto da
é.é.mí (a oikos da dam.ensí, esposa do soberano [ou da nin, rainha]), posteriormente renomeado em é.dba.ba6, “oikos de Baba”. A é.é.mí, da qual provém a grande maioria dos textos preservados, estava
sempre sob o comando da dam.ensí, da esposa do atual soberano. Em seu nome foram realizadas todas as transações comerciais, inclusive do comércio com o exterior. Em termos modernos poderíamos dizer que ela era a presidenta dessa empresa que tinha setores de produção e comércio extremamente ramificados. No caso de Dimtur e de Baranamtara (nora de Dimtur, casada com seu filho Lugalanda), a posição cúltica e econômica efetiva da dam.ensí era superior à posição do ensí, e a
é.é.mí pode até ter sido a oikos por excelência do Estado (Staatshaushalt). Isso significaria que
Baranamtara teria executado, através da é.é.mí, assuntos econômico-políticos do Estado (ao menos
434 ASHER-GREVE, Frauen, 65.
435 Os dados sumários que seguem se encontram em ASHER-GREVE, Frauen, 168-170. Sua apresentação aqui é
interrompida somente pelo exemplo de Lagaš. Cf. também os dados resumidos e em grande parte dependentes de Asher- Greve em: MIEROOP, Marc van de. Women in the Economy of Sumer. In: LESKO, Women’s, 53-66.
436 Kubaba, a soberana de Kiš, é conhecida somente através da Lista dos Reis Sumérios. Um texto acádico que a vincula
com hermafroditismo e desgraça (“Quando um nascido anormal tem órgãos sexuais masculinos e femininos, é o caso do augúrio de Ku-Baú que governou o país: o país do rei se tornará deserto.”) é antes um documento de misoginia do que de memória histórica, cf. HALLO, Women, 28.
437 Para cenas de banquete, cf. abaixo, Item 2.1.4.2.
438 Esposas de soberanos de Lagaš portavam também títulos de sacerdotisas.
439 Esse exemplo é documentado detalhadamente em ASHER-GREVE, Frauen, 148-151. Cf. também BAHRANI, Women,
em parte, e ao lado de certas atividades diplomáticas, como mostram suas relações com Ninizkimti, a
dam.ensí de Adab), enquanto seu marido Lugalanda teria concentrado suas atividades na execução de
tarefas político-militares e de construção (áreas nunca documentadas na esfera da é.é.mí).
No contexto da antiga pergunta em que medida membros da família real tinham funções como representantes terrestres da divindad e (principal) da cidade e administravam também seu templo, Asher-Greve afirma que não se encontram indícios disso, exceto eventualmente para Baranamtara que portava os títulos ama.uru (mãe da cidade) e PAP.PAP (não decifrado, PAP é possivelmente “supervisor”440). De resto, uma dam.ensí geralmente não porta o título en.mí ou qualquer outro título
sacerdotal. Nas representações iconografias, ela está entre as pessoas que participam do culto,
trazendo oferendas, mas ela não as recebe. De modo geral, suas funções são muito mais executivas e
“administrativas” do que “cúlticas”. Tudo isso não condiz com uma representação da divindade da cidade que deveria se refletir num título sacerdotal, pelo menos em caráter de honra. No caso particular de Baranamtara, ama.uru é um epíteto da deusa Baba, e PAP.PAP ocorre também no contexto de seu culto. Isso poderia indicar que Baranamtara simplesmente se autopromoveu com essa apresentação, ou que este era um título efetivo que tinha algum vínculo com sua posição na é.é.mí. Desse modo, ela é a única esposa de um rei para a qual poderia se considerar uma eventual “representação” ou um “vicariato” de uma divindade, no caso a deusa Baba.
Voltando para o âmbito dos resultados, deve-se mencionar primeiro que Asher-Greve fez questão de frisar que uma distinção nítida entre mulheres de camada média e de camada baixa, na base de sua profissão, nem sempre foi possível. Ela recomendou supor que mulheres da chamada “camada social inferior”, (escravas, trabalhadoras na agricultura e em oficinas privadas, e trabalhadoras e operárias nas oikoi com seus latifúndios, ergasterias etc.), devem ser diferenciadas em mulheres livres, semi-livres e dependentes (= escravas), na esperança de uma maior análise de textos confirmar essa diferenciação, o que de fato aconteceu.
Textos mencionam várias classes de sacerdotisas, profissões femininas como parteira, ama de leite, babá, cabeleireira, fiadora, tecelã, moleira, e muitas mulheres que trabalhavam no palácio, no templo e nos estábulos. No entanto, estas mulheres eram destacadas, em parte, também para serviços cúlticos. Servas, musicistas e dançarinas, que pertenciam provavelmente às funcionárias do culto, são parcialmente mencionadas entre as escravas, mas pelo menos algumas musicistas parecem ter sido portadoras de selos. Os documentos jurídicos mostram que também mulheres que não pertenciam a
famílias da elite eram juridicamente capazes, tendo posses pessoais e podendo, por exemplo, comprar e vender imóveis, receber e dar heranças, e atuar como testemunhas.441
Tanto o material filológico como o iconográfico deixa claro que existia um grupo social médio composto por certo número de mulheres que pessoalmente exerciam funções e profissões estimadas, e por um maior número de esposas de homens com profissões estimadas, isto é, de sacerdotes, funcionários, capatazes e administradores. Portanto, nesse grupo, o status da maioria das mulheres parece ter dependido não de suas próprias qualidades e desempenhos, mas dos de seu marido, o que se evidencia também no fato de que, ao lado de ge.mé, escrava, a designação dam, esposa (de um homem livre?), é a que mais freqüentemente ocorre em relação com mulheres.
O grupo mais baixo de mulheres era o mencionado acima, de trabalhadoras, “baixas” funcionárias do culto e escravas, e pertenciam a ele também, em certa medida, seus filhos e suas filhas, um fenômeno que não é observado no caso das outras camadas.
Asher-Greve tira a seguinte conclusão acerca da situação de mulheres no PDI:
Ao resumir esses resultados percebemos uma estrutura social piramidal em cujo topo se encontram as mulheres da família governante e as sacerdotisas de posições altas, isto é, uma camada social de elite que se nos manifesta principalmente em função representativa e cúltica. Abaixo segue o grupo de mulheres que eram casadas com sacerdotes e “funcionários”, algumas outras classes de sacerdotisas e provavelmente também de membros de algumas poucas profissões femininas. A camada mais baixa é composta pelos grupos numericamente mais fortes das funcionárias cúlticas e das trabalhadoras com seus filhos e filhas, isto é, estamos aqui diante de um agrupamento social não homogêneo e de muitas camadas.442